"Nas
nossa ruas ao amanhecer
Há tal sonoridade, há tal melancolia "
(Sentimento
de um Ocidental / Cesário Verde)
O filme Alma Corsária de Carlos Reichenbach é uma
declaração de amor à cidade de São
Paulo, não por causa do seu fausto, sua glória inscrita
nos mausoléus de vidro e concreto, mas por sua pulsante
vida subterrânea onde convivem marginalizados à deriva
do sistema econômico.
Os personagens
principais são os poetas Torres (Bertrand Duarte) e Xavier
(Jandir Ferrari) inspirados respectivamente em Augusto dos Anjos
e Cesário Verde. Cesário Verde dividia-se entre
a atividade no comércio e a poesia, dilema que o acompanhará
pelo resto de sua vida. Sua poesia é marcada por uma intensidade
romântica que combina Eros e Tânatos, amor e morte.
Augusto dos Anjos nasceu numa família humilde, sua poesia
é de uma virulência quase sem precedentes, rebuscada
e cheia de termos científicos, ela busca segundo Alfredo
Bosi "A dimensão cósmica e a angústia
moral do homem".
Torres e Xavier
lançam um livro de poesia numa pastelaria do centro da
cidade. Nada mais sintomático, a Boca do Lixo exerce um
fascínio irresistível sobre o diretor, ele esnoba
os espaços nobres e assépticos e busca aproximar-se
dos espaços marginalizados, lá residiria a alma
da cidade, apesar da degradação aparente. A festa
de lançamento do livro conta a presença de cafetões,
prostitutas, desocupados, além do editor e de parentes
dos autores. Representações de pessoas de meios
diversos convivendo naquele ambiente singular. O diretor mistura
atores de prestígio como Walter Foster e Jorge Fernando
com a ex-jurada do Sílvio Santos "Flor", desta
forma provoca aqueles que estabelecem uma barreira intransponível
entre a alta cultura e o gênero popular. Segundo declaração
dada pelo próprio diretor, Flor e Jorge Fernando estão
homenageando a "Chanchada", gênero marginalizado
com a chegada do Cinema Novo.
Em uma cena
aparece um negro forte, aparentemente vai carregar um piano, porém
ele senta e começa a tocar Claire de Lune de Debussy, dando
início a devaneios dos freqüentadores. O China sonha
com sua terra, Flor pensa no Havaí. As imagens de viagem
forma feitas pelo pai do diretor Carlos Reichenbach: esta seqüência
deveria estar em qualquer antologia do cinema brasileiro pela
sua forte carga poética. Ao mostrar a dança de uma
anã e o homem tocando piano, ele nos alerta para que tenhamos
cuidado com os falsos julgamentos, o sublime pode estar onde menos
se espera. Os ideólogos da dominação: O filme
questiona se ainda há espaço para a arte num mundo
dominado pelo consumismo e pela competitividade vil.
Palavras como:
flexibilização, enxugamento, reestruturação
escondem uma ideologia perversa, o discurso competente que segundo
a filósofa Marilena Chauí elimina o poder de reação
já que quem o dissemina apresenta credenciais poderosas,
títulos que mascaram as intenções perversas.
O neoconservadorismo está presente depois de diversas tentativas
libertárias terem fracassado. Ao sistema dominante não
interessa a contestação, é preciso que todos
aceitem seu destino passivamente, como se não houvesse
outras alternativas. A realidade presente é vista como
a única possível, a capacidade de pensar diferente
é suprimida. A inadequação de Bertrand ao
procurar um trabalho exemplifica este aspecto. Ele é obrigado
a aceitar atividades extremamente desestimulantes, o diretor chega
a colocar um esqueleto para representar o funcionário padrão
da empresa, o Osório.
Zurlini: Influência primeva e fundamental
O cineasta italiano Valério Zurlini, surgido na mesma época
de Antonioni é uma das maiores inspirações
do diretor, chamado de o poeta imagético da melanacolia,
buscava a epifania nos sentimentos prosaicos. Seus estudos cromáticos
que realizou junto com o seu fotógrafo Giussepe Rottuno
buscavam uma textura além do negativo, ele dialogava com
as artes plásticas e com a Literatura. O amor ao próximo
demonstrado por Torres ao salvar um homem que tentava se suicidar
e acolher uma prostituta maltratada demonstram uma similaridade
com os personagens de Zurlini.
Os Cortes
Temporais: Espírito de época
O diretor
cria diversos cortes temporais durante o filme, retrata a infância
dos personagens no início dos anos 1960, mostra os conflitos
ideológicos durante o regime militar, critica tanto a violência
dos donos do poder quanto a fé cega em discursos tirados
das cartilhas de Karl Marx, Stalin, Mao entre outros . Duas cenas
são impagáveis, numa delas Torres ao ouvir a palavra
"massa" ser citada com exaustão fala que está
ficando com fome, em outra cena Torres assiste à apresentação
de slides contendo personagens históricos e manda voltar
ao perceber uma imagem erótica perdida no meio das outras
. A anarquia é exaltada numa cena em que Torres troca de
camisa diversas vezes, elas contém mensagens ideológicas.
Reichebach homenageou Andréa Tonacci com uma cena em que
Carolina Ferraz representando uma musa misteriosa dança
em cima de um prédio. No filme Bang-Bang de Tonnaci também
ocorre a dança, só que em outro contexto. A dançarina
de Bang-Bang é vigorosa nos gestos e na aparência
enquanto a de Alma Corsária é leve, diáfana.
Torres tem
visões, a musa misteriosa aparece para cuidar dele em diversas
partes do filme, o amor total só é possível
nas esferas da criação artística, volatilidade
das imagens efêmeras. As relações reais dele
são transitórias, é um errante condenado
a pequenos momentos de felicidade.
A mistura
de repertórios: Uma lição modernista
Uma das características
principais da obra de Carlos Reichenbach é a mistura de
repertórios. Em Alma Corsária ouvimos Debussy num
bar da Boca do Lixo, poemas de Cesário Verde são
lidos por um personagem errante, um lúpem (Abraão
Farc). Onde parece haver um deslocamento contextual encontra-se
uma das maiores qualidades do diretor, absorvendo a lição
Modernista, digere influências, tira a arte da assepsia
refrigerada dos espaços do poder e a restitui como informação
nova na fala dos excluídos que vivem o anonimato das ruas.
Dados do Filme:
Alma Corsária,
115 minutos - 1994 SP
Direção e Música de Carlos Reichenbach
Atores: Bertrand Duarte, Jandir Ferrari, Andréa Richa,
Mariana de Moraes, Jorge Fernando, Emílio de Biasi, Abrahão
Fare, Carolina Ferraz, Flor, Jairo Ferreira entre outros
Produção: Sara Silveira
Referências
Bibliográficas
Andrade, Oswald - Pau -Brasil - Poesia Completa
Bosi, Alfredo - História Concisa da Literatura Brasileira
- Editora Cultrix
De Decca, Edgard Salvadori - O Nascimento das Fábricas
- Editora Brasiliense
Pignatari, Décio - Contracomunicação - Editora
Perspectiva, 1971 São Paulo
Reichenbach, Carlos - Artigo realizado para a Mostra Internacional
de Cinema sobre Valério Zurlini.
Verde, Cesário - Obras Completas (organizada, prefaciada
e anotada por José Serrão) 1963, Portugália,
Portugal.
publicado em 02/02/2004