Noite na cidade,
a luz dos outdoors invade um pequeno apartamento no centro da
cidade. Homem de meia-idade relembra seu passado através
de fotos presas nas paredes, dezenas de discos e livros completam
o ambiente claustrofóbico. Imerso em devaneios, reconstrói
cacos de seu tempo, verdadeiro quebra-cabeça de emoções
vividas. Não entende o tempo em que vive, época
de relações dispersivas e jogos de interesse individuais.
Suas crenças
pulverizaram-se, não há lugar para a utopia; tudo
é negócio, exigindo retorno rápido. Observa
a jovem vizinha da janela, não sabe seu nome, afinal quase
nunca sai de casa. Lembra dos namoros na juventude, alguns breves
momentos de felicidade. Caminha no pequeno apartamento, observa
o antigo relógio quebrado, dias sempre iguais. Olha para
a parede descascada, não acha saída.
Caminhando
num fio tênue entre a lucidez e a loucura, vive pequenos
momentos epifânicos quando coloca algum velho disco para
tocar . Através das músicas, transporta-se para
outras histórias, narrativas de vidas. Detalhes do apartamento
surgem como pequenos espaços de respiração.
Rascunhos de praias refletidas nos azulejos azuis, esboço
de sóis, antigas namoradas. De repente, um grito, seus
olhos semicerrados, uma dor aguda.
Ninguém
escuta, a mulher do apartamento ao lado está preparando
os relatórios que seu chefe havia pedido. Nas ruas, passos
descompassados, compromissos inadiáveis, o mesmo sol no
horário de sempre.
A vida se
esvaindo, caído no chão é apenas mais um
personagem anônimo, nenhum vestígio da fama efêmera
que tivera um dia. A cidade não pode parar.
publicado em 02/02/2004