Noite na cidade
Argumento

por Diniz Antonio Gonçalves Junior


Noite na cidade, a luz dos outdoors invade um pequeno apartamento no centro da cidade. Homem de meia-idade relembra seu passado através de fotos presas nas paredes, dezenas de discos e livros completam o ambiente claustrofóbico. Imerso em devaneios, reconstrói cacos de seu tempo, verdadeiro quebra-cabeça de emoções vividas. Não entende o tempo em que vive, época de relações dispersivas e jogos de interesse individuais.

Suas crenças pulverizaram-se, não há lugar para a utopia; tudo é negócio, exigindo retorno rápido. Observa a jovem vizinha da janela, não sabe seu nome, afinal quase nunca sai de casa. Lembra dos namoros na juventude, alguns breves momentos de felicidade. Caminha no pequeno apartamento, observa o antigo relógio quebrado, dias sempre iguais. Olha para a parede descascada, não acha saída.

Caminhando num fio tênue entre a lucidez e a loucura, vive pequenos momentos epifânicos quando coloca algum velho disco para tocar . Através das músicas, transporta-se para outras histórias, narrativas de vidas. Detalhes do apartamento surgem como pequenos espaços de respiração. Rascunhos de praias refletidas nos azulejos azuis, esboço de sóis, antigas namoradas. De repente, um grito, seus olhos semicerrados, uma dor aguda.

Ninguém escuta, a mulher do apartamento ao lado está preparando os relatórios que seu chefe havia pedido. Nas ruas, passos descompassados, compromissos inadiáveis, o mesmo sol no horário de sempre.

A vida se esvaindo, caído no chão é apenas mais um personagem anônimo, nenhum vestígio da fama efêmera que tivera um dia. A cidade não pode parar.




publicado em 02/02/2004