As asas da cidade


por Sirlene Cheriato*

Em artigo lançado na Folha de São Paulo no dia 11 de junho, dia da estréia de "Cidade dos Anjos", de "O Fim da Violência" e da reexibição de "Asas do Desejo" em São Paulo, Bernardo Carvalho indaga: "Por quê? Por que refazer dez anos depois um filme que continua disponível e atual? Por que refazer em inglês um filme falado em alemão? Por que retomar uma idéia original para banalizá-la? Por que transformar o delicado e inspirado "Asas do Desejo"(87), de Wim Wenders – que reestréia hoje em São Paulo - , em uma espécie de "Plantão Médico" new age e esotérico?"

A resposta do autor é: "Os Estados Unidos só conseguem ver o próprio umbigo,só conseguem olhar para si mesmos. Daí Berlim virar LA, e, onde se falava alemão, agora se fala inglês. No lugar de uma fábula exclusivamente poética e alegórica sobre o desejo, agora existe uma espécie de lição protestante: a vida é difícil, mas é preciso ir em frente, trabalhar duro, porque é recompensador o reino dos céus, onde se pode descansar."

E Bernardo conclui com outra pergunta: "Mas se você não é americano, nem protestante e raciocinar pela lógica hollywoodiana do "remake" (refazer o mundo a sua imagem, apagando as diferenças), qual a graça de ficar olhando para o umbigo dos outros? "
E a ela (a sua última pergunta) podemos responder, com algumas certezas e algumas hipóteses. No entanto se faz necessário termos pelo menos uma idéia geral do que é uma cidade como Los Angeles – palco de "Cidade dos Anjos" – nome aliás dado "carinhosamente" à LA em muitos sites que podemos encontrar facilmente na Internet.

"Coincidência? Acreditamos que não.
Outra "coincidência": LA é palco também do último filme de Wim Wenders, "O Fim da Violência". LA é uma das cidades mais estudadas nos últimos anos por profissionais das mais diversas áreas, principalmente aqueles que trabalham diretamente com cidades, como arquitetos, urbanistas, cineastas, sociólogos, etc. E isso não é à toa. LA tem superado todas as expectativas quanto ao seu desenvolvimento urbano e midiático. Fez-se uma das maiores megalópoles do planeta em praticamente um século e apresenta um estrutura política, econômica, social e urbana extremamente diferenciada, cuja característica básica é a fragmentação e a propaganda.

Nasce e cresce através do espetáculo e da especulação, principalmente o cinematográfico e o imobiliário. Desde sempre foi um produto a ser vendido para o mundo todo, daí ser a cidade que mais faz propaganda de si mesma, criando sempre uma imagem espetacular daquilo que quer representar, e para tanto utiliza praticamente todas os meios de comunicação, principalmente aquele que mais lhe é pertinente: o cinema. Assim como o produtor de sabonete, diz que não é apenas um sabonete, mas o responsável pela pele perfeita de um mito sexual, "Los Angeles, isto deve ser entendido, não é uma mera cidade. Ao contrário, ela é, e sempre foi, desde 1888, uma mercadoria, algo para ser consumido e vendido para o povo dos Estados Unidos, como automóveis, cigarros e desinfetante bucal."
Esta máxima de Morrow Mayo, citado por Mike Davis em sua obra prima sobre LA, Cidade de Quartzo, deixa claro o quanto, desde suas origens tem procurado se parecer com algo que realmente possa dar lucros, possa ser vendido e apreciado.
E esta "imagem" de LA, como uma cidade de anjos, moderna, próspera para se viver e trabalhar e ter antes de tudo, liberdade – conquistar o "sonho americano" - é visto quase todos os dias em boa parte do mundo através do cinema hollywoodiano. Hollywood de fato produz e gasta muito com seus filmes.

Temos dados que confirmam o valor de 54 milhões de dólares como custo médio de um filme produzido pelos studios. Os grandes studios, por sua vez, procuram conservar não só a responsabilidade pelo poderio econômico exercido por Hollywood nos EUA, mas principalmente pelo domínio cultural que estabelece onde quer que se exiba um produto seu, disseminando sobretudo através de seu imenso aparato técnico-produtivo, as imagens e mensagens que convêm serem transmitidas. Imagens e mensagens que possam contribuir para a afirmação desta cultura – a cultura americana, que é constituída na verdade pela fusão e justaposição de fragmentos de outras culturas. É próprio da cultura americana se apropriar devida ou indevidamente de outras H(h)istórias. Num mundo em que a arte imita a vida e vice-versa (em que arte e vida, fantasia e realidade, a máscara e a cara prá bater – às vezes se confundem, às vezes se fundem), poderíamos responder: "NADA MAIS NATURAL!


Nada mais comum e corriqueiro para a cultura americana e principalmente de Los Angeles, do que se apropriar (em sua própria cultura) das produções culturais de outros lugares, de outras culturas – afirmando sua internacionalidade. Só assim reitera sua posição em colocar uma "(...) história artificial que, através de uma abrangente incorporação à paisagem e ao consumo, tornou-se um estrato real da cultura de Los Angeles."

Mas talvez possamos ir adiante. Se formos concordar com Edward Soja que afirma veementemente que "Pode-se encontrar em Los Angeles não somente os complexos industriais de alta tecnologia do Silicon Valley e a economia errática do cinturão do sol de Houston, mas também o declínio industrial avançado e os bairros urbanos falidos do cinturão da sucata de Detroit e de Cleveland. Há uma Boston em Los Angeles, uma Lower Manhattan e uma South Bronx, uma São Paulo e uma Singapura. Pode não existir nenhuma outra região urbana comparável que apresente tão vividamente uma reunião e articulação compostas de processos de restruturação urbana. Los Angeles parece estar conjugando a história recente da urbanização capitalista em virtualmente todas as suas formas flexionais." . Podemos também afirmar que se LA é feita de uma cultura fragmentada e sem identidade, isso não acontece com sua estrutura urbana, isto é, a forma encontrada por ela de aglomerar seus fragmentos urbanamente, ou... sua forma de civilizar-se – na sua totalidade tem mostrado inigualavelmente ímpar. Parece mesmo que LA tem convencido muita gente de que é especial. Talvez seja. Quando lidamos com a representação da representação, com metáforas consecutivas, fica difícil saber o que é verdade. Assim sendo poderia dar outra resposta a Bernardo Carvalho: "CIDADE DOS ANJOS" NÃO É MAIS QUE MAIS UMA PROPAGANDA DE LA.!


Mas talvez possamos ousar um pouco mais : Qual seria a História de uma cidade tão ímpar como LA, uma cidade que segundo Kurt Foster "é mais paisagem que cidade", onde "construções por toda parte parecem artificiais e estranhas deste caráter vasto, mas não urbano."? Para Davis, "O significado histórico essencial de Los Angeles para o mundo – e sua singularidade é que ela surgiu para desempenhar o duplo papel de utopia e de distopia para o capitalismo avançado. Como observou Brecht, o mesmo lugar simboliza tanto o céu como o inferno. Analogamente, ela é um destino essencial no itinerário de todo intelectual deste final de século que, no final das contas, acaba compelido a dar sua olhadela e a emitir alguma opinião sobre se "LOS ANGELES É TUDO ISSO AO MESMO TEMPO" (slogan oficial da cidade) ou, antes, o pesadelo no ponto final da história americana (conforme pinta o noir). Los Angeles - muito mais do que Nova Iorque, Paris ou Tóquio - polariza o debate: ela é o terreno e o tema de uma ferrenha DISPUTA IDEOLÓGICA.".

Ideologia que tanto a apropriação de culturas estrangeiras e a propaganda procuram exaltar e fixar. Em nome desta ideologia os studios mantêm uma espécie de máfia. Há no entanto studios independentes, cuja produção se diferencia no O QUE se quer contar... Qual a história contada sobre LA ou sobre qualquer outra coisa.

"O Fim da Violência", procura falar sobre a violência em todos os seus ângulos e toma como palco a cidade de LA. Com certeza não é à toa. Numa produção coletiva, entre a Road Movies Filmproduktion, produtora da maioria dos seus filmes, e mais 3 produtoras, uma francesa e duas americanas e (quase) independentes: a CiBy 2000, a Kintop Pictures e Ciby Pictures, "O Fim da Violência" fala de coisas que se remetem mais aos da categoria Noir dos filmes produzidos em Hollywood, como os clássicos Blade Runner e Chinatown.. O Noir que segundo Davis continua "sendo o anti-mito popular e populista de LA.", trabalhando a imagem da cidade "com uma gramática transformacional que tornava cada um dos charmosos ingredientes da arcádia dos incrementadores (os agentes culturais que no início do século vendiam a imagem propagandística da cidade a serviço dos incorporadores, os corretores imobiliários e grandes impreiteras) em seu equivalente sinistro.". Esta produção wenderiana procura desvendar, identificar não só a violência, mas questiona a cidade onde a cada dia se exacerba mais a violência, seja por seu cinema ou pelas mãos do LAPD (a tão glamorosa polícia de LA, mais um "personagem" chavão dos filmes hollywoodianos), procura dar alguma luz a contribuir com a desestruturação do stabilishment que o cinema-propaganda de hollywood vive a consolidar. "O Fim da Violência" não pretende vender uma imagem de LA semelhante a mostrada pelos studios, onde a Warner pode ser considerada a capi di tutti capo. Coincidência...?! "Cidade dos Anjos" é produzida pela Warner. Há outras coincidências: Wenders já produzira nos EUA, e sua primeira vez foi traumática – foi convidado por Coppola a fazer "Hamett", no decorrer do tempo da filmagem, Coppola passa a transferir verba de "Hamettt" para "Apocalipse Now", o filme que o consagra como diretor em Hollywood – "Hamett" ficou desta forma, abandonado por um tempo e o resultado não agradou nem bilheteria (o que até é esperado neste caso) e nem de crítica (o que leva a Wenders dedicar-se à "O Estado das Coisas", que lhe rendeu o Leão de ouro na Bienal de Veneza de 1982.).

Desaforo! (mútuo)
Em contrapartida, "Cidade dos Anjos" reitera a imagem espetacular de LA e para deixar o trabalho completo, utiliza-se de um dos mais bem conceituados filmes de Wenders "Asas do Desejo".

Deixemos de lado o fato de Brad Silberling ser um profissional ligado às produções para a TV dos studios, cujo único trabalho cinematográfico foi o ingênuo, infantil e também copiado "Gasparzinho". Deizemos também o fato de Nicolas Cage (protagonista de "Cidade dos Anjos") ser sobrinho de Coppola... Bobach!

O mais importante é que num tempo, onde segundo Roland Barthes "A crise da cultura deu lugar à cultura da crise", e num contexto no qual a grande questão é identidade cultural, "Cidade dos Anjos" prima em sua identidade com LA, assim como "Asas do Desejo" com Berlim. Cada qual com sua própria maneira de contar histórias, de falar sobre a cidade e os fatores que lhe são próprios, de produzir cultura e de fazer espetáculos.


Assim, a resposta a Bernardo Carvalho seria: "CIDADE DOS ANJOS" É UMA RESPOSTA A "O FIM DA VIOLÊNCIA" E PRINCIPALMENTE À WENDERS. VOLTANDO À DAVIS, MAIS UM PRODUTO DO DEBATE QUE LA POLARIZA, SENDO "O TERRENO E O TEMA DE UMA FERRENHA DISPUTA IDEOLÓGICA".

Confirmando Bernardo Carvalho, "Se "Asas do Desejo" usava o recurso metafórico dos anjos para fazer um elogio do desejo, dos sentidos, da vida material, carnal, humana, "Cidade dos Anjos", por sua vez, corrompe a fonte em que bebeu (na verdade, bebe e cospe ao mesmo tempo na fonte) ao usar a figura dos anjos para, no fundo, sob um aparente elogio da vida na Terra, justificar o reino dos céus." . Toda intenção histórico-filosófica de "Asas do Desejo" é substituído por uma narrativa em que o humor se confunde ao romantismo piegas e ao espiritualismo sem fundamento.

"Asas do Desejo" não tem nenhum traço de comédia, nem de alta produção,. Já o filme de Silberling utiliza-se de imagens saturadas e vibrantes (alta produção) para contar a história do anjo Seth e sua paixão por Maggie Rice - um trocadilho infame com o nome da atriz, Meg Ryan, assim como é infame outro trocadilho – quando Seth precisa dar-se um sobrenome e escolhe o nome Plate. Seth Plate que ama Maggie Rice. (Que fiasco!)

O protagonista de Wenders é Damiel, um anjo com sede de viver, com um olhar sempre positivo com relação a História da humanidade, a suas atitudes – Damiel tem o olhar de um ancião e o coração de um menino.

Já o protagonista de Silberling é Seth. Mais uma coincidência! Seth é o mesmo nome do anjo mau que Wenders apresenta em "Tão Longe, Tão Perto" – Seth em Wenders é um anjo malígino que vive a procura dos anjos que se transformam em humanos para "castigá-los" de alguma forma, é um anjo perdido, desgarrado.

Em "Cidade dos Anjos", Seth é Damiel, mas de qualquer forma, é um anjo da morte, um anjo encarregado de levar para o "céu" as pessoas que morrem. Um anjo da morte para um anjo da vida: a médica Meg Ryan, a namoradinha da América com seus cachinhos dourados.

A mulher pela qual Damiel se apaixona é Marion, trapezista de um circo de periferia que o vê ir embora e não sabe para onde ir, o que fazer. Marion não tem pátria, não tem casa, não tem dinheiro, está sozinha e tem crises existenciais profundas.

Maggie, por sua vez é bem suscedida que vê um paciente seu morrer em suas mãos e passa a pensar sobre a vida e a morte. Não é sozinha – tem um namorado – outro médico. Maggie tem uma bicicleta, uma casa, um cachorro, uma casa de campo que empresta do tio – tem tudo para ser uma mulher bem resolvida e realizada. Sua crise se resume no fato de ter sempre achado que poderia dar a vida e de repente passa a questionar-se com relação a isso. (O que, convenhamos, todo médico(a), até os(as) globais do Sr. Roberto Marinho, tem)
O Cassiel de Wenders vai aparecer mais em "Tão Longe, Tão Perto". Em "Asas do Desejo" aparece mais como um grande companheiro de Damiel, que o compreende e ajuda em sua decisão de ser humano. Sua aparência, que é o mais nos importa, é tipicamente alemã.

O Cassiel de Silberling é tão companheiro quanto o de Wenders, embora o assunto que conversam seja absolutamente mais superficial. Além do que Hollywood não poderia deixar de colocar um negro na história, só para manterem a boa e velha propaganda de que eles (quase) não possuem discriminação racial. Quanta hipocrisia!

Em LA isso tem um significado importante. A maioria dos filmes hollywoodianos procuram passar a imagem de que os negros possuem na sociedade um papel de absoluta igualdade com os brancos – o que é apenas mais uma ficção de LA.

O valor primordial para Damiel é o DESEJO. Não só o desejo sexual e romântico que sentia por Marion, mas o desejo pela vida, o desejo de existir como humano, o desejo pelo presente, contrapondo-se à eternidade.

O valor primordial para Seth é a sensibilidade física e o livre-arbítrio. O que também não é muito aprofundado no filme – que passa a impressão de que Seth resolve mesmo ser gente quando fica sabendo que Maggie poderia se casar com o namoradinho ginecologista – ele se transforma em gente unicamente por ela. Não há grandes indícios de que ele sentia grande fome de viver, além do diálogo que tem com Maggie sobre a sensibilidade. A incoerência fica explícita quando, sem a Maggie, morta num acidente, ele descobre que vale a pena viver, ou melhor, o que vale mesmo é tê-la tido por uma noite. Este diálogo, que tem com Cassiel no final do filme, é o que mais deixa claro o quanto americanizado foi o filme – num conformismo hipócrita e pueril que põe as "espermáticas" ondas da praia de Santa Mônica para seu desfecho, no lugar de uma sala vazia onde Damiel ajuda Marion a "flutuar" numa corda suspensa de trapézio e pensa: "Quando a criança era criança subia nas árvores para colher cerejas. Era tímida diante de estranhos e ainda o é. Aguardava a primeira neve e ainda a aguarda da mesma forma. Quando a criança era criança arremessou uma lança contra uma árvore. Ainda balança na árvore até hoje... (...) Agora eu sei o que nenhum anjo sabe.". Para Damiel, o importante é saber, para Seth, é sentir.

Os anjos de Wenders são bons, conhecem toda a História da Humanidade, sofrem quando alguém morre, e fazem o que podem para minimizar o sofrimento dos homens.

Os anjos de Silberling não são maus, mas parecem mais ingênuos, menos sábios, mais vulneráveis, além é claro de possuírem outra relação com a morte das pessoas. Damiel quando se transforma em humano, possui mais habilidade de lidar com o mundo e saber viver, sem encontrar grandes dificuldades. A seqüência de sua transformação é feita numa sequência de cenas muito rápidas, com elementos a serem compreendidos, bem coerente com a constante apropriação de Wenders por hiper-signos.

Seth quando se transforma em humano (uma das melhores cenas do filme) – cai literalmente de um grande edifício e seu nascimento é bem mais detalhado – o que é bem característico do cinema hollywoodiano – é uma cena de impacto e Seth parece ser mais limitado, tendo muito mais dificuldade em lidar com suas novas características humanas.

Mas o impacto não fica só neste "nascimento", neste "parto" via altura de um edifício – impactante também é a cena na qual Seth é roubado e espancado em plena via pública – ao menos a violência de LA não é inteiramente encoberta, no entanto é uma cena fugaz que poucos vão se lembrar, diante de outras imagens muito mais convincentes, fruto da alta e cara produção da Warner.
Brad Silberling aproveita o figurino alemão de roupas pretas, olhar sereno, passo suave, o costume de ficarem nas Bibliotecas Municipais e percorrendo suas respectivas cidades ouvindo o que as pessoas pensam.

E se, por exemplo, Cassiel procura ouvir o "contador de histórias" que divaga sobre a desestruturação da cidade de Berlim depois da guerra e as interferências que o muro causou à sua organização, Seth parece mais distante com relação aos problemas alheios.

Em Berlim, eles aparecem mais sobre um monumento com a forma de um anjo; em LA, sobre as placas das free ways, sobre o letreiro gigante de Hollywood.
Sempre sobre partes da cidade que mostram sua história, sua identidade, com a diferença de que em Berlim, História e Identidade têm um significado diverso do que é para LA. Em Wenders, as imagens captadas da cidade são ricas de memória, imagens que carregam a história da cidade, partes da cidade que possuem as marcas nítidas do tempo: "Uma rua ou a fachada de uma casa, uma montanha ou uma ponte ou um rio ou o que quer que seja, são mais que um ‘último plano’.

Eles também possuem uma história, uma ‘personalidade’, uma identidade que deve ser levada a sério. Eles influenciam os carácteres humanos que vivem neste último plano, criam uma atmosfera, uma noção do tempo, uma certa emoção. Eles têm o direito de serem levados a sério.

Em "Cidade dos Anjos", vigora a linguagem hollywoodiana do excesso, do cartão postal de Los Angeles. As imagens da cidade deixam de dialogar com o estado de espírito dos personagens do filme, para se relacionarem unicamente consigo mesmas, para se transformarem em puro elemento gráfico, propaganda de Los Angeles, ou simples referência à "Asas do Desejo". Isto entretanto, não deixa de contar a "história do lugar". Nada mais "Los Angeles" do que isso: Um caleidoscópio imagético que não remonta a nada que não seja Los Angeles, que é rapidamente (e superficialmente) absorvido para logo depois se tornar from Los Angeles.

Todas as imagens-hiper-signos de Wenders são então diluídas à logica de seu novo espaço. No lugar do monumento de onde Damiel observa a cidade, a estátua sagrada com seu olhar panóptico, temos agora out doors gigantescos e anjos contemplando o fluxo de carros do alto de placas de sinalização. As cenas em que os anjos de Wenders contemplam as praças e estradas e falam sobre suas histórias, dão lugar às tomadas nas praias de Santa Mônica com anjos reunidos para ouvir o canto do amanhecer e do entardecer. Los Angeles é de fato autoreferencial sempre, e suas imagens não servem na verdade para mais nada do que falar de Los Angeles. Este egocentrismo denota nitidamente a essência do pensamento americano, de uma sociedade que se vê como centro do mundo, e que tem em seu cinema o principal meio de propagar esta ideologia e qualquer referência é raptada para tornar-se veículo a serviço da mesma. No lugar do existencial questionamento de Damiel sobre seu papel no mundo, Silberling nos traz a simplista e fácil questão da escolha. No lugar do desejo humano universal, o desejo pela vida, com todas suas alegrias e tristezas, o desejo pela História, "Cidade dos Anjos" fala sobre o desejo que é muito mais sexual que existencial, e a falsa lógica do "livre-arbítrio".

Não poderia ser diferente. O cinema americano não peca apenas em ser comercial, anti-ético e comercial, mas principalmente em ser extremamente previsível. Suas mensagens são sempre as mesmas. Só não foram mais redundantes porque não colocaram os anjos sobre a Estátua da Liberdade – talvez seja mesmo porque ela fica em Nova Iorque, à revelia de Los Angeles, é claro....

Sem querer menosprezar "Cidade dos Anjos", o que não lhe faz cair na mesmice e no esquecimento próprios dos enlatados hollywoodianos é sua relação com "Asas do Desejo" e "O Fim da Violência".
Vale a pena conferir Todos!
 


* Sirlene Cheriato é estudante de Arquitetura e Urbanismo da USP, Campus São Carlos