Pequeno ensaio sobre um grande diretor

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<introdução ao ensaio>
"Ver um filme de Bergman é meditar, é ir mais fundo possível no âmago do ser humano... o cinema é utilizado como instrumento de introspecção, como meio revelador dos estados da alma... e o caminho para penetrar na alma de um ser humano começa pelo rosto."

Aproprio-me das palavras de Carlos Armando, em seu *O Planeta Bergman* para dar início a este ensaio literário acerca do cineasta que mais explorou e nos ensinou sobre o homem e a condição humana.

Lembro-me da primeira vez que entrei em contato com uma obra sua, através de um texto sugerido por um professor no primeiro ando da faculdade. Ainda tenho na memória a sensação que experimentei ao ler sobre um de seus filmes, Persona. Fiquei muito tocada de curiosidade para entrar em contato com tal obra... E lembro-me também que fora difícil assimilá-lo, eu não tinha muita bagagem cinematográfica e nem de experiências de vida, mas percebo que aquele filme tinha me influenciado mais do que eu pudesse imaginar na época.

Anos mais tarde me proponho a explorar o universo bergmaniano, (incentivada pela admiração que uma pessoa muito querida tem pelo cineasta), a fim de, com a ajuda da experiência e da visão que seus filmes trazem sobre o Homem, entrar em contato com questões psicológicas e sentimentais, aumentando meu conhecimento sobre a existência humana e sua multiplicidade de intenções.

A
qui procuro criar uma introdução ao estudo do cineasta, apontando a questão do cinema de autor em que sua obra está inserida, o contexto em que ele produz e a sua formação dentro das expressões artísticas.


<a questão do autor no cinema>
"A unidade não envolve apenas o conjunto dos filmes, mas também a vida do autor. Obra e autor formam uma única unidade coesa."
(Bernardet, 1994:38)

Como já citei anteriormente, o cinema bergmaniano apresenta um tema, as questões do homem, e seus diversos desmembramentos. Dentro da sua galeria de filmes pode-se perceber certas constantes, e essas constantes exploradas, como repetições, criam uma unidade na obra de um cineasta.

Na década de 50, jovens críticos franceses (futuros cineastas, como Godard, Truffaut, Rivette, Chabrol) passaram a divulgar novas idéias sobre o cinema através da revista Cahiers du Cinéma; algumas idéias ligadas a um termo, "política dos autores": o seu método crítico visa perceber o autor como uma unidade, a absoluta coerência interna do sujeito que se expressa.

Portanto, um autor seria aquele que realiza uma obra cinematográfica, exprimindo de forma a criar um mundo e universo ficcionais próprio, fatores extremamente ligados à experiência e bagagens próprias, uma combinação de expressão interior e estilo narrativo de mis-en-scéne.

Estilo narrativo e mis-en-scéne são fatores expressivos fundamentais na arte cinematográfica. O cineasta autor seria aquele que, além de explorar temas recorrentes, sua expressão estética apresenta também certa unidade, características similares entre seus filmes. Aí pode-se citar como exemplo constantes na construção dramática das personagens, dos cenários e locações, das cores, da linha narrativa, do uso de recursos próprio da montagem, da música... O autor cinematográfico cria um mundo ficcional com constantes temáticas e estéticas.

<Bergman autor>
*contexto, vida e obra*
Paulo Emílio Salles Gomes, crítico e estudioso do cinema, sintetiza:
"(...) autor na plena acepção da palavra: alguém que define uma concepção de mundo através dos personagens que cria e da história que narra."

Ado Kyrou em: *Amour, erotism et cinéma*: "As grandes linhas de inspiração do cinema sueco são: misticismo, amores torturados, inextrincável mistura de pastores e prostitutas, garotas nuas e com uniformes do Exército da Salvação... país jovem, a Suécia oscila entre socialismo e as tendências reacionárias vindas da herança religiosa."

Nesta parte do ensaio, traço de modo geral o perfil da Suécia, a fim de fazer uma relação com o universo tratado por Ingmar Bergman com seus filmes. A Suécia manteve-se de certa forma isolada do resto da Europa, portanto apresenta um isolamento histórico e cultural. Um país que se desenvolveu muito rapidamente, formando uma sociedade onde cada um tem as mesmas chances e direitos e possibilidades.

Por outro lado, o clima sueco é muito predominante na mentalidade do país, o inverno é rigoroso, frio e sombrio. O suicídio é um fato recorrente do país, causado pela chamada "angústia da floresta", um sentimento que assola as pessoas, onde há solidão mergulhada na natureza hostil.
Essas características associadas a um racionalismo exacerbado levam os suecos a necessitar de calor humano e novamente ele procura alguma coisa superior, mais profunda, Deus talvez. E essa coisa superior é presente nos filmes de Bergman.

"Sem Bergman é bem possível que a arte do cinema deixe de existir na Suécia, país que acredita que a morte é um mundo onde o ser humano encontrará a imortalidade." (Armando, 1988:121). Nasceu a 14 de julho de 1918, em Uppsala. Teve educação religiosa, pois seu pai era pastor e sua relação com ele fora de extrema repressão, como ele mesmo conclui: "Fiquei à mercê de uma educação literalmente medieval, feita de maus tratos físicos e psicológicos que visavam destruir toda e qualquer manifestação natural de vitalidade"*.

Adolescente deixou a família e foi viver em Ganula Stam, um bairro de artistas de Estocolmo, envolvendo-se com teatro e literatura. Influenciado pelo dramaturgo sueco August Strindberg, dele herdou os personagens, as mulheres destruidoras e os homens destruídos, do filósofo Soren Kierkegaard, o tema obsessivo da dúvida sobre a existência de Deus, além do grande cineasta sueco do período silencioso Victor Sjostrom e Friederich Wilhelm Murnau, cineasta expressionista alemão.

Bergman começou no teatro (estreou aos vinte anos como diretor), de onde sempre levou influências ao cinema. Em seu primeiro filme, CRISE, de 1945, narra a história de uma jovem disputada pela mãe adotiva e pela mãe verdadeira, e segundo Jacques Siclier, "um filme pessimista e revoltado, com influências teatrais".*

"Os filmes de Ingmar Bergman refletem muito bem as diferentes épocas do desenvolvimento do cinema sueco. O primeiro período da cinematografia bergmaniana caracteriza-se precisamente por uma marcada influência do teatro e só muito ligeiramente podem adivinhar-se nos seus primeiros filmes afirmação de cinema"*.
(Rune Waldekranz)

"Bergman propunha em seus filmes o compromisso com a verdade interior dos seres, no lugar do divertimento, a arte. Por isso seus filmes não eram sucessos de bilheteria, não entusiasmavam os distribuidores e tampouco os exibidores ávidos para vender amenidades... ele era um artista que se negava a mentir, a fazer concessões, por isso entre ele e o grande público sempre houve um abismo"
. (Armando, 1988:66)

O cineasta que mais trabalhou com o íntimo do Homem, com questões existenciais e questões de fé. O cineasta do universo feminino; seus personagens mais fortes e contundentes eram mulheres.

Em seus filmes, o conflito é gerado pela busca da razão para a vida, para o amor e para a morte. Cinema metafísico. O cineasta que mais explorou a angústia existencial e as emoções humanas.
Sobre A VIDA DAS MARIONETES, filme de 1980, declara: "Instintivamente as pessoas têm sempre medo das emoções. Na minha geração, no meu meio, educar não era formar um ser humano, mas criar uma pequena marionete, destinada a existir e a andar numa sociedade autoritária. Para que um menino não se comporte como uma menina é preciso ser duro com ele e assim, muito cedo, aprendemos a interpretar nossos papéis. Por isso, seriamente, creio que é, que seria maravilhoso ensinar o ABC das emoções. Com esse ABC eu tento trabalhar e atingir o D do abecedário, mas nós somos todos analfabetos nesse campo."*

<conclusão>
A galeria de filmes de Ingmar Bergman é extensa, não daria e nem é a proposta deste ensaio citar todos, pois ficaria superficial e inconsistente. Portanto, dei-me a liberdade de explorar os aspectos mais gerais da sua obra, a fim de apresentá-lo a quem vier a ler estas palavras, evidenciando "um mundo Bergman" , cujas características são encontradas ao longo de cada um de seus filmes. E finalizo com palavras do próprio Bergman... nada mais peculiar: "Na Suécia, vivemos na ilusão que temos tudo. Mas no meio dessa vida plena, nós temos um grande vazio, a ilusão perdida de Deus, chame isso como quiser, uma necessidade de segurança intelectual que venha compensar todas as de segurança material, social. É esse vazio e tudo o que os homens inventam para preenchê-lo que eu descrevo em meus filmes, e creio que é um modo de fazer filmes engajados nos problemas contemporâneos e mesmo no único problema fundamental: o de dar sentido espiritual ou humano a uma civilização de felicidade material. Em todo caso, é meu problema pessoal. Não me peça para falar de outra coisa, eu não saberia."*
*: excertos do livro "O Planeta Bergman"

<bibliografia>
Armando, Carlos
"O Planeta Bergman", ed. Oficina de Livros, MG, 1988
Bergman, Ingmar
"Lanterna Mágica – uma autobiografia", ed. Guanabara, RJ, 1987
Bernardet, Jean-Claude
"O autor no cinema", ed. Brasiliense, SP, 1994


* Mônica Palazzo é estudante do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Data de publicação: 28/07/2000