FILMES
MUSICAIS - Introdução
Estados
Unidos, final da década de 20, crise econômica. As novas
tecnologias propiciam uma grande novidade para o cinema: a possibilidade
da inserção de ruídos e diálogos nos filmes
que, até então, eram "mudos", podendo ter
apenas uma trilha sonora separada nem sempre feita especialmente para
o filme. Ao mesmo tempo, sendo viável o sincronismo entre o
som e a imagem, surge um problema estético, uma vez que não
se sabia o que fazer com o som. Uma boa saída para essa questão
foi a utilização da música, cantada, como o foco
da ação. Daí é que veio o grande sucesso
do musical The Jazz Singer (1927) considerado o primeiro filme "sonoro",
utilizando o sistema vitaphone. Em plena depressão, produtores
cinematográficos norte-americanos viam nos filmes sonoros,
em especial os musicais, um grande potencial financeiro, já
que o som e a música atraíam o público. É
nesse contexto que está situada a trama de Singin' in the Rain
(Cantando na Chuva) (1951), dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly.
Estados
Unidos, final da década de 40. A popularidade da televisão
crescia. Era preciso deter o declínio da freqüência
aos cinemas. "A MGM fez diversas pesquisas para descobrir o que
os cinéfilos da época desejavam ver. Um estudo do tempo
da guerra indicava que as comédias musicais eram as favoritas,
de modo que a MGM reviveu o gênero". (Robert Sklar em História
Social do Cinema Americano). Os filmes desafiaram a concorrência
com a TV com "belas e sofisticadas produções musicais
em cores (technicolor) sendo quase todas sucessos de bilheteria".
O auge da série de filmes musicais realizados nessa época
se deu, segundo Robert Sklar, com Cantando na Chuva (1951) e Band
Wagon (1953) de Vicente Minelli, ambos "ironicamente mergulhados
na saudade dos velhos tempos de Hollywood" (idem).
Os
filmes musicais, em sua maioria, foram inspirados no teatro musical
e em peças da Broadway. Por isso muitos dos primeiros filmes
de tal gênero não passavam de espetáculos filmados,
não explorando uma linguagem cinematográfica. Foi Busby
Bekerley quem de certa forma revolucionou o cinema musical dos anos
30 utilizando diferentes enquadramentos e lentes, dando closes nos
rostos das bailarinas e filmando, de cima para baixo, dezenas de dançarinos
se movimentando geometricamente formando imagens caleidoscópicas
e muito bonitas de se ver. Talvez seja por essa razão que Mário
de Moura, em Aspectos do cinema americano afirma que o filme musical
é "um elemento de distração, anestésico,
analgésico profundo, tóxico das massas, contrafator
da realidade, fantasia e escapismo". E isso vale tanto para os
musicais pós-depressão como para os pós Segunda
Guerra, como é o caso de Cantando na Chuva.
Porém,
apesar do escapismo facilmente perceptível neste filme, (que
não trata profunda e diretamente de nenhum tema político
ou social) a realidade na qual os artistas e atores da época
em que a ação está situada viviam, tenta ser
bem descrita. É claro que tudo é "maquiado",
não se toca em questões econômicas ou políticas,
nem é exigido do espectador uma grande reflexão, embora
esta possa ser realizada. É exatamente o que diz o mote da
MGM: ars gratia artis.
A
TRAMA
A
história se inicia em um grande encontro de celebridades do
cinema, no conhecido Grauman's Chinese Theater onde haveria a estréia
de um filme, estrelado pelos famosíssimos e assediados Don
Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen). Nesse momento, Don
conta como iniciou sua carreira de sapateador, passando por dublê
até chegar a ator de Hollywood. Seu "discurso" é
bem típico dos astros de cinema e as imagens apresentadas,
flashbacks, nem sempre estão de acordo com a fala do personagem.
Assim, vemos logo o tom satírico e paródico que estará
presente durante todo o filme. Notam-se também duas idéias
centrais da narrativa, que no decorrer da obra são identificadas:
será que podemos acreditar em tudo que vemos nesse mundo mágico
do cinema? Agora que o cinema é sonoro, podemos acreditar tanto
em nossos olhos quanto nos ouvidos?
Nesta
mesma cena conhecemos o simpático músico Cosmo Brown
(Donald O'Connor), fiel amigo de Don, que o acompanhou desde a infância
na carreira artística, porém não ficou tão
famoso.
Certo
dia, fugindo de fãs histéricas, Don literalmente cai
no carro de uma moça, Kathy Selden (Debbie Reynolds) que diz
ser uma atriz de teatro. O diálogo entre os dois nessa seqüência
é bastante interessante pois discutem o valor do cinema como
arte e o preconceito que artistas teatrais tinham dessa nova arte.
Kathy fala que o palco, diferentemente do cinema, é uma profissão
muito mais digna, no cinema as pessoas (atores) "não falam,
só fazem caretas, não passam de uma sombra" além
de que "se você viu um filme já viu todos".
Isso ofende o "grande astro" (Don) que, no entanto, mais
tarde descobrirá que Kathy era apenas uma corista aspirante
a atriz e que ela adorava assistir filmes e, é claro, se apaixona
por Kathy.
O
conflito central da trama começa quando os jornais anunciam
a estréia de The Jazz Singer e a "Revolução
em Hollywood" com "A nova onda dos musicais". Assim,
o diretor do filme no qual Lina e Don atuariam exige que a nova produção
seja sonora. Mas há um empecilho: Lina tem uma voz horrível
que decepciona o público, além de não conseguir
falar ao microfone que era utilizado para a captação
do som direto. Vemos aí a dificuldade que tinham os realizadores
dos primeiros filmes sonoros de esconder microfones no meio do cenário.
Vemos também a dificuldade de sincronizar o som com a imagem,
gerando cenas bastante cômicas. Lina é o próprio
estereótipo da atriz burra, temperamental e querida pelos espectadores.
O diretor, também temperamental e irritado é outro estereótipo
com o qual o filme brinca.
Preocupado
com isso, Don, Kathy e Cosmo pensam em como resolver o problema. Então,
ela e o esperto Cosmo sugerem que seja feito um musical. E para que
não fosse preciso que Lina cantasse com aquela voz, Kathy poderia
dublar. Alegre com a solução do problema (e por conquistar
Kathy) Don sai pela rua "dancing and singing in the rain"
(dançando e cantando na chuva), em um dos números mais
conhecidos da história do cinema musical. No dia seguinte,
Don expõe a idéia ao produtor do filme, que gosta da
possibilidade de fazer um musical e se prepara para transformar o
filme, que se chamaria "The Duelling Cavallier" em "The
Dancing Cavallier".
Vemos,
assim, que Cantando na Chuva se trata de um filme altamente metalingüístico,
que, de certa maneira, tira sarro e debocha de sua própria
condição. Mas ao mesmo tempo, não deixa de se
valorizar, afinal é uma superprodução cinematográfica
musical na qual certamente seus personagens principais sonhariam em
atuar. A metalinguagem é presente durante o filme inteiro e,
depois da dança e das músicas, é o que mais chama
atenção. Isso, porém não é nenhuma
novidade para o cinema, como se pode imaginar. (Por exemplo, Cidadão
Kane, de Orson Welles foi feito dez anos antes de Cantando na chuva
e diversos filmes musicais metalingüísticos foram realizados
ao longo da década de 40.)
A
última e belíssima seqüência de dança
de Cantando na Chuva, não tem relação direta
com o filme. É surrealista e tem estilo que remete às
produções de Busby Berkeley. Uma recriação
do musical Broadway Melody (1929) na qual o personagem de Gene Kelly
oferece a seu produtor um "projeto" (digamos que é
um projeto um tanto ambicioso...) de um novo filme musical. Nesta
seqüência, há uma dupla metalinguagem, pois o próprio
ator (Don Lockwood), enquanto personagem, fala de sua experiência
na profissão. Vários cenários, figurinos e grande
elenco embelezam a cena e Gene Kelly aproveita para mostrar todo o
seu incrível talento de dançarino e também de
coreógrafo. Além disso, nesse trecho há uma referência
aos filmes de gângsteres, muito conhecidos na primeira metade
do século XX, na parte que Gene Kelly dança um pas de
deux com a atriz e bailarina Cyd Charisse. Essa estratégia
de, no final do filme ser realizada uma coreografia que, de certa
forma, resume o filme inteiro através da dança se tornou
comum em musicais mais recentes como Vem Dançar Comigo (1993),
de Baz Luhrmann e Sob a Luz da Fama (2000), de Nicholas Hytner.
No
final de Cantando na Chuva, como em todo filme tipicamente hollywoodiano,
temos a solução de todos os problemas, o tão
esperado happy end. "The Dancing Cavallier" faz um grande
sucesso, a verdadeira voz da "vilã" Lina Lamont é
conhecida pelo público e este descobre que, na verdade, o filme
foi dublado por Kathy, portadora de uma bela voz. Tudo isso graças
a um esperto plano de Cosmo e, é claro do "herói",
Don. A última cena completa a metalinguagem sempre presente,
quando vemos um cartaz de um filme cujas estrelas são Don Lockwood
e Kathy Selden, e cujo nome é Singing in the Rain.
O
ROTEIRO
Como
vimos, o a trama é relativamente simples, seguindo os moldes
de Hollywood . O roteiro, escrito por Betty Comden e Adolph Green
(dramaturgos, autores de musicais da Broadway e roteiristas de The
Band Wagon) apresenta decupagem clássica, narrativa aristotélica
e é praticamente linear, apesar das inserções
de remontagens de cenas de musicais já existentes, da seqüência
de dança final e dos flashbacks do início.
Os
diálogos e as letras da música, concebidas por Arthur
Freed, sustentam a narrativa. A localização no espaço
e no tempo se torna óbvia logo no primeiro plano do filme,
sendo reforçada ao longo do mesmo através de notícias
de jornal e da constante referência ao The Jazz Singer.
Há
pouquíssimas montagens paralelas e apenas uma "grande"
elipse (de três semanas). Isso porque o que realmente interessa
é a história de Don e Kathy e, é claro, a dança.
Vale
ainda lembrar que todas as canções do filme, inclusive
a canção-tema, não são originais, com
exceção de Moses.
A FOTOGRAFIA
No
filme inteiro há apenas um plano de detalhe (da mão
da costureira prendendo o microfone no vestido de Lina). Identificamos
pouquíssimos planos fechados, sendo sua maioria planos de conjunto,
para mostrar as coreografias.
Mesmo em cenas não dançadas os movimentos da câmera
e dos personagens formam certa coreografia.
Quanto à iluminação, há poucos efeitos
significativos e, em geral, a luz é difusa.
CONCLUSÃO
É
inegável a importância de Cantando na Chuva na história
da dança, pois de todos os filmes musicais já feitos
até os dias de hoje é provavelmente o que apresenta
melhores números coreográficos e melhor atuação
de atores-bailarinos-cantores.
Cantando
na Chuva é um filme escapista, fácil de ser compreendido
pelo espectador e tem como proposta exatamente isso. Pode-se dizer
que alcança seu objetivo, diferentemente de outros filmes cuja
proposta é a mesma. Além disso, pode até ter
certo aspecto documental, no sentido de tentar retratar com fidelidade
uma época de tantas mudanças na história do cinema
e, conseqüentemente, nos meios de comunicação e
na recepção da informação pelo público.
FONTES
DVD
Cantando na Chuva - Edição Especial 50 anos, 2002.
BARRO,
Máximo. O Cinema Aprende a Falar (texto distribuído
pelo Núcleo de Cinema e Vídeo). São Paulo, 2000.
MOURA, Mário. Aspectos do Cinema Americano. Editora Páginas.
Rio de Janeiro, 1956.
SALLES, Filipe. Imagens Sonoras ou Música Visual. Dissertação
de Mestrado. SP 2002.
SKLAR, Robert. História Social do Cinema Americano. Editora
Cultrix. SP 1978.
VHS
That's Dancing - documentário dirigido por Jack Haley Jr. ,
1985.
VHS Gene Kelly, the Anatomy of a Dancer - documentário dirigido
por Robert Trachtenberg, 2002.
www.filmsite.com
www.mnemocine.com.br
* Patricia Alegre cursa o 5o. semestre do curso de cinema da Faap