Cantando na Chuva


Por Patricia Alegre *


FILMES MUSICAIS - Introdução

Estados Unidos, final da década de 20, crise econômica. As novas tecnologias propiciam uma grande novidade para o cinema: a possibilidade da inserção de ruídos e diálogos nos filmes que, até então, eram "mudos", podendo ter apenas uma trilha sonora separada nem sempre feita especialmente para o filme. Ao mesmo tempo, sendo viável o sincronismo entre o som e a imagem, surge um problema estético, uma vez que não se sabia o que fazer com o som. Uma boa saída para essa questão foi a utilização da música, cantada, como o foco da ação. Daí é que veio o grande sucesso do musical The Jazz Singer (1927) considerado o primeiro filme "sonoro", utilizando o sistema vitaphone. Em plena depressão, produtores cinematográficos norte-americanos viam nos filmes sonoros, em especial os musicais, um grande potencial financeiro, já que o som e a música atraíam o público. É nesse contexto que está situada a trama de Singin' in the Rain (Cantando na Chuva) (1951), dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly.

Estados Unidos, final da década de 40. A popularidade da televisão crescia. Era preciso deter o declínio da freqüência aos cinemas. "A MGM fez diversas pesquisas para descobrir o que os cinéfilos da época desejavam ver. Um estudo do tempo da guerra indicava que as comédias musicais eram as favoritas, de modo que a MGM reviveu o gênero". (Robert Sklar em História Social do Cinema Americano). Os filmes desafiaram a concorrência com a TV com "belas e sofisticadas produções musicais em cores (technicolor) sendo quase todas sucessos de bilheteria". O auge da série de filmes musicais realizados nessa época se deu, segundo Robert Sklar, com Cantando na Chuva (1951) e Band Wagon (1953) de Vicente Minelli, ambos "ironicamente mergulhados na saudade dos velhos tempos de Hollywood" (idem).

Os filmes musicais, em sua maioria, foram inspirados no teatro musical e em peças da Broadway. Por isso muitos dos primeiros filmes de tal gênero não passavam de espetáculos filmados, não explorando uma linguagem cinematográfica. Foi Busby Bekerley quem de certa forma revolucionou o cinema musical dos anos 30 utilizando diferentes enquadramentos e lentes, dando closes nos rostos das bailarinas e filmando, de cima para baixo, dezenas de dançarinos se movimentando geometricamente formando imagens caleidoscópicas e muito bonitas de se ver. Talvez seja por essa razão que Mário de Moura, em Aspectos do cinema americano afirma que o filme musical é "um elemento de distração, anestésico, analgésico profundo, tóxico das massas, contrafator da realidade, fantasia e escapismo". E isso vale tanto para os musicais pós-depressão como para os pós Segunda Guerra, como é o caso de Cantando na Chuva.

Porém, apesar do escapismo facilmente perceptível neste filme, (que não trata profunda e diretamente de nenhum tema político ou social) a realidade na qual os artistas e atores da época em que a ação está situada viviam, tenta ser bem descrita. É claro que tudo é "maquiado", não se toca em questões econômicas ou políticas, nem é exigido do espectador uma grande reflexão, embora esta possa ser realizada. É exatamente o que diz o mote da MGM: ars gratia artis.

A TRAMA

A história se inicia em um grande encontro de celebridades do cinema, no conhecido Grauman's Chinese Theater onde haveria a estréia de um filme, estrelado pelos famosíssimos e assediados Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen). Nesse momento, Don conta como iniciou sua carreira de sapateador, passando por dublê até chegar a ator de Hollywood. Seu "discurso" é bem típico dos astros de cinema e as imagens apresentadas, flashbacks, nem sempre estão de acordo com a fala do personagem. Assim, vemos logo o tom satírico e paródico que estará presente durante todo o filme. Notam-se também duas idéias centrais da narrativa, que no decorrer da obra são identificadas: será que podemos acreditar em tudo que vemos nesse mundo mágico do cinema? Agora que o cinema é sonoro, podemos acreditar tanto em nossos olhos quanto nos ouvidos?

Nesta mesma cena conhecemos o simpático músico Cosmo Brown (Donald O'Connor), fiel amigo de Don, que o acompanhou desde a infância na carreira artística, porém não ficou tão famoso.

Certo dia, fugindo de fãs histéricas, Don literalmente cai no carro de uma moça, Kathy Selden (Debbie Reynolds) que diz ser uma atriz de teatro. O diálogo entre os dois nessa seqüência é bastante interessante pois discutem o valor do cinema como arte e o preconceito que artistas teatrais tinham dessa nova arte. Kathy fala que o palco, diferentemente do cinema, é uma profissão muito mais digna, no cinema as pessoas (atores) "não falam, só fazem caretas, não passam de uma sombra" além de que "se você viu um filme já viu todos". Isso ofende o "grande astro" (Don) que, no entanto, mais tarde descobrirá que Kathy era apenas uma corista aspirante a atriz e que ela adorava assistir filmes e, é claro, se apaixona por Kathy.

O conflito central da trama começa quando os jornais anunciam a estréia de The Jazz Singer e a "Revolução em Hollywood" com "A nova onda dos musicais". Assim, o diretor do filme no qual Lina e Don atuariam exige que a nova produção seja sonora. Mas há um empecilho: Lina tem uma voz horrível que decepciona o público, além de não conseguir falar ao microfone que era utilizado para a captação do som direto. Vemos aí a dificuldade que tinham os realizadores dos primeiros filmes sonoros de esconder microfones no meio do cenário. Vemos também a dificuldade de sincronizar o som com a imagem, gerando cenas bastante cômicas. Lina é o próprio estereótipo da atriz burra, temperamental e querida pelos espectadores. O diretor, também temperamental e irritado é outro estereótipo com o qual o filme brinca.

Preocupado com isso, Don, Kathy e Cosmo pensam em como resolver o problema. Então, ela e o esperto Cosmo sugerem que seja feito um musical. E para que não fosse preciso que Lina cantasse com aquela voz, Kathy poderia dublar. Alegre com a solução do problema (e por conquistar Kathy) Don sai pela rua "dancing and singing in the rain" (dançando e cantando na chuva), em um dos números mais conhecidos da história do cinema musical. No dia seguinte, Don expõe a idéia ao produtor do filme, que gosta da possibilidade de fazer um musical e se prepara para transformar o filme, que se chamaria "The Duelling Cavallier" em "The Dancing Cavallier".

Vemos, assim, que Cantando na Chuva se trata de um filme altamente metalingüístico, que, de certa maneira, tira sarro e debocha de sua própria condição. Mas ao mesmo tempo, não deixa de se valorizar, afinal é uma superprodução cinematográfica musical na qual certamente seus personagens principais sonhariam em atuar. A metalinguagem é presente durante o filme inteiro e, depois da dança e das músicas, é o que mais chama atenção. Isso, porém não é nenhuma novidade para o cinema, como se pode imaginar. (Por exemplo, Cidadão Kane, de Orson Welles foi feito dez anos antes de Cantando na chuva e diversos filmes musicais metalingüísticos foram realizados ao longo da década de 40.)

A última e belíssima seqüência de dança de Cantando na Chuva, não tem relação direta com o filme. É surrealista e tem estilo que remete às produções de Busby Berkeley. Uma recriação do musical Broadway Melody (1929) na qual o personagem de Gene Kelly oferece a seu produtor um "projeto" (digamos que é um projeto um tanto ambicioso...) de um novo filme musical. Nesta seqüência, há uma dupla metalinguagem, pois o próprio ator (Don Lockwood), enquanto personagem, fala de sua experiência na profissão. Vários cenários, figurinos e grande elenco embelezam a cena e Gene Kelly aproveita para mostrar todo o seu incrível talento de dançarino e também de coreógrafo. Além disso, nesse trecho há uma referência aos filmes de gângsteres, muito conhecidos na primeira metade do século XX, na parte que Gene Kelly dança um pas de deux com a atriz e bailarina Cyd Charisse. Essa estratégia de, no final do filme ser realizada uma coreografia que, de certa forma, resume o filme inteiro através da dança se tornou comum em musicais mais recentes como Vem Dançar Comigo (1993), de Baz Luhrmann e Sob a Luz da Fama (2000), de Nicholas Hytner.

No final de Cantando na Chuva, como em todo filme tipicamente hollywoodiano, temos a solução de todos os problemas, o tão esperado happy end. "The Dancing Cavallier" faz um grande sucesso, a verdadeira voz da "vilã" Lina Lamont é conhecida pelo público e este descobre que, na verdade, o filme foi dublado por Kathy, portadora de uma bela voz. Tudo isso graças a um esperto plano de Cosmo e, é claro do "herói", Don. A última cena completa a metalinguagem sempre presente, quando vemos um cartaz de um filme cujas estrelas são Don Lockwood e Kathy Selden, e cujo nome é Singing in the Rain.

O ROTEIRO

Como vimos, o a trama é relativamente simples, seguindo os moldes de Hollywood . O roteiro, escrito por Betty Comden e Adolph Green (dramaturgos, autores de musicais da Broadway e roteiristas de The Band Wagon) apresenta decupagem clássica, narrativa aristotélica e é praticamente linear, apesar das inserções de remontagens de cenas de musicais já existentes, da seqüência de dança final e dos flashbacks do início.

Os diálogos e as letras da música, concebidas por Arthur Freed, sustentam a narrativa. A localização no espaço e no tempo se torna óbvia logo no primeiro plano do filme, sendo reforçada ao longo do mesmo através de notícias de jornal e da constante referência ao The Jazz Singer.

Há pouquíssimas montagens paralelas e apenas uma "grande" elipse (de três semanas). Isso porque o que realmente interessa é a história de Don e Kathy e, é claro, a dança.

Vale ainda lembrar que todas as canções do filme, inclusive a canção-tema, não são originais, com exceção de Moses.


A FOTOGRAFIA

No filme inteiro há apenas um plano de detalhe (da mão da costureira prendendo o microfone no vestido de Lina). Identificamos pouquíssimos planos fechados, sendo sua maioria planos de conjunto, para mostrar as coreografias.
Mesmo em cenas não dançadas os movimentos da câmera e dos personagens formam certa coreografia.
Quanto à iluminação, há poucos efeitos significativos e, em geral, a luz é difusa.


CONCLUSÃO

É inegável a importância de Cantando na Chuva na história da dança, pois de todos os filmes musicais já feitos até os dias de hoje é provavelmente o que apresenta melhores números coreográficos e melhor atuação de atores-bailarinos-cantores.

Cantando na Chuva é um filme escapista, fácil de ser compreendido pelo espectador e tem como proposta exatamente isso. Pode-se dizer que alcança seu objetivo, diferentemente de outros filmes cuja proposta é a mesma. Além disso, pode até ter certo aspecto documental, no sentido de tentar retratar com fidelidade uma época de tantas mudanças na história do cinema e, conseqüentemente, nos meios de comunicação e na recepção da informação pelo público.


FONTES

DVD Cantando na Chuva - Edição Especial 50 anos, 2002.

BARRO, Máximo. O Cinema Aprende a Falar (texto distribuído pelo Núcleo de Cinema e Vídeo). São Paulo, 2000.
MOURA, Mário. Aspectos do Cinema Americano. Editora Páginas. Rio de Janeiro, 1956.
SALLES, Filipe. Imagens Sonoras ou Música Visual. Dissertação de Mestrado. SP 2002.
SKLAR, Robert. História Social do Cinema Americano. Editora Cultrix. SP 1978.

VHS That's Dancing - documentário dirigido por Jack Haley Jr. , 1985.
VHS Gene Kelly, the Anatomy of a Dancer - documentário dirigido por Robert Trachtenberg, 2002.

www.filmsite.com
www.mnemocine.com.br


* Patricia Alegre cursa o 5o. semestre do curso de cinema da Faap