Ao mesmo tempo que surge o cinema falado, em 1929 nos Estados Unidos,
este encontra-se naufragado numa das mais implacáveis crises
econômicas até então vividas. A bolsa de Nova York
estava quebrada e no meio de incansáveis questionamentos sobre
os seus valores, de incessantes buscas a uma identidade política,
a sociedade norte americana refugia-se em "salas escuras"
na tentativa de, mesmo que por duas horas apenas, fugir da realidade
caótica na qual se encontrava a nação. O cinema
então emerge como uma nova artéria do corpo nacional trazendo
dentro de si, pelo menos dentro do campo social, o plasma da esperança.
Passado alguns anos depois da I Guerra Mundial, uma grande agência
de jornal New Bulletin - está fazendo um "limpeza"
de funcionários na busca de um pessoal mais qualificado e com
o ganancioso objetivo de elevar o número de vendas o mais alto
possível. Uma das suas principais jornalistas, Srta. Mitchel,
interpretada por Barbara Stanwick foi uma das demitidas e na tentativa
de salvar seu emprego publica no jornal, sob o pseudônimo de "John
Doe", uma série de reportagens denunciando as injustiças
sociais e preconceitos existentes entre todas as sociedades do Estados
Unidos e que num último grito de protesto contra todo o sistema
"John Doe" saltaria do prédio da Prefeitura, suicidando-se
na noite de natal. Para não serem acusados pelo jornal concorrente,
o Chronicle (já "dirigido pelo cidadão Kane"),
de farsantes dão a "John Doe" o corpo e a voz de um
ex-jogador de beisebol à procura de emprego (Gary Cooper). De
vagabundo a herói popular, esta é a história de
"John Doe".
A fama cresce. "Seu" carisma toma conta da cidade. As pessoas
começam a ver em "John Doe" um traço de esperança
que muito tempo estava apagado. Com seus discursos no rádio e
envolto por todo o mistério criado em cima "seu" caráter,
a mídia, com prazer, amplifica sua imagem e logo passam a existir
dezenas, centenas de clubes "John Doe" espalhados por todo
o país. "Sua" imagem move a fé da população
e por meio de "seus" ideais, proporciona à sociedade
a visualização de novos caminhos de progresso social e
político. "John Doe" reergue a coragem da multidão
para enfrentar os problemas existentes ao mesmo tempo que sustenta seus
princípios de mudança de comportamento social; a começar
pelos os vizinhos.
Ele e seu amigo "Colonel" (Walter Brennan), assim por ele
chamado, são jogados no interior de um mundo regido pelo mais
fictício dos reis: o dinheiro. E por através da ficção
a grande massa indistinguível se transforma, pois acabara de
se submeter a uma "autoridade" que nem se quer existia, mas
que foi o suficiente universalizada pela mídia para receber a
crença pública.
O simples anuncio de seu suicídio dava-lhe uma nova identidade
e era o bastante para lhe garantir a credulidade e o reconhecimento
a população. Frank Capra traduz em seu filme o estado
vertiginoso em que se encontra a classe média americana, mergulhada
numa quase indomável crise financeira. Ele arrasta os fracassos
individuais para uma catástrofe coletiva, o seja, a elevação
da desgraça como a única chance libertadora.
A febrilidade de Capra na sua luta obstinada contra a ficção
de massa denuncia a existência dentro da massa amórfica
a necessidade cega de acreditar em algo, mesmo que este algo não
pertença ao mundo físico conhecido, beirando assim, de
modo derrisório, a abstração coletiva potencializada
em seu ponto máximo. A sociedade grita através do corpo
de "John Doe", expele tudo o que estava mal digerido pelos
poros de sua pele, manifesta-se por meio de um indivíduo que
apesar de ter sido também esmagado pela civilização
de massa, se recusa a aceitar o papel que lhe destina a história.
Não demora muito para "John Doe" virar um produto da
mídia e da publicidade, e ao mesmo tempo, uma grande e geniosa
fonte de dinheiro para a elite que comanda tudo do alto. O ideal de
uma nação de princípios mais filantrópicos
passa a depender de forma direta do beneficiamento de cada um que ocupa
uma poltrona estofada na política e passa o dia com um charuto
enfiado na boca. "John Doe" vive, sobrevive enquanto a corrupção
política viver. E para nenhum "funcionário da casa"
ficar infeliz, lhe são dados "singelos" e "sinceros"
presentes. Pois o que de fato não se pode comprar hoje em dia?
Ou melhor questionando, quem?
Em pleno início da década de 40, período em que
a Alemanha estava toda contaminada pelos ideais arianos de Adolf Hitler,
o filme não deixava de ser um evidente o ao mesmo tempo camuflado
protesto às teorias fascistas. Um dos personagens do filme, o
chefão do "New Buletin", D. B. Norton (Edward Arnold),
é o espírito encarnado - num belo disfarce de chefe político
de uma sistema capitalista - do fascismo alemão, se mostrando
como um poderoso e competente manipulador de massas. Porém Norton
exerce influência apenas pela imediação da ficção
"John Doe", que tem sua própria força embutida
e portanto não pode ter sua autonomia diminuída.
A ganância do poder não governamental do Estado não
deixa portanto de ser também denunciada no filme. A postura dos
chefões não poderia ser outra ao sentirem que não
poderão abocanhar um pedaço do "bolo", o enterram.
Contemporâneo não? Frank Capra abordou um assunto que mais
de 50 anos mais tarde continua tão intacto e ileso que o filme
poderia ser rodado hoje apenas com mudanças de figurino.
O individualismo, encontra-se imerso em toda a parte do filme até
o momento em que os ideais de "John Doe" começam fazer
efeito. Nas grandes metrópoles, as pessoas, que por puro preconceito,
deixam de se falar, acabam criando em suas cabeças personagens
para aqueles que na verdade são indivíduos reais. Não
para os olhos do outro o que em espíritos são, mas sim
projeções de seres criados dentro da realidade de cada
um. Então de fato inexiste uma realidade comum que possa ser
compartilhada e difundida. Cada "mundo individual" fecha-se,
tranca-se dentro da própria casa preferindo ignorar a realidade
externa ao invés de passar através dela. E "John
Doe", apesar de não existir em matéria , protestou
contra essas injustiças do cotidiano, que antes de serem injustiças
eram preconceitos e antes disso, imposição política
dissimulada.
Os personagens do universo de Capra possuem um espectro de milagroso
no fato de deslocarem para frente o veículo crítico que
trespassa seus filmes deixando marcada sua trilha no piso do enredo
imprevisível. O jogo de aparências, as impressões,
ora explícitas, ora subjacentes, são uma das fontes de
alimento de sua obra e não deixam de climatiza-las com o vácuo
de ar das identidades que não permanecem fixas, que não
foram criadas para se alojar num espaço-tempo permanente, e sim
transitar pela narrativa desafiando a índole delas próprias.
As interpretações são ambíguas a ponto de
conduzir, de modo frenético, o espectador à conclusão
que até o último momento parece indecisa, duvidosa...
Capra, de fato, se apodera do mundo do burlesco, da invenção
do "burlesco americano" suprindo-se do cômico como contraponto
das horas mais dramaticamente carregadas. Referindo-se aos "John
Does" de todo o país pode-se interpretar seu sobrenome como
o ato e a capacidade de fazer. Na verdade John faz, ou pelo menos agora
têm vontade.
"Adorável Vagabundo" foi o primeiro filme completamente
independente de Capra e um de seus objetivos era, segundo ele, superar
as expectativas da crítica. Alguns anos antes da realização
do filme, Capra havia se tornado presidente de sua própria companhia
renunciando em dezembro de 1940 o cargo devido ao tempo que este lhe
consumia. Nesse período, Joe Walker, o cameraman de sua personnel
staff aperfeiçoou e patenteou as primeiras lentes zoom para câmeras.
Todo o elenco do filme, escolhido a dedo pelo diretor, estava na época
disponível para a interpretação dos papeis e todos
os atores e atrizes, incluindo os protagonistas Gary Cooper e Barbara
Stanwyck, aceitaram o papel antes mesmo de lerem o roteiro demonstrando
a confiança no diretor. O filme provocou grande agitação
na imprensa. Primeiro por ser inédito o fato de um roteirista
e um diretor investirem juntos o próprio dinheiro num filme e
segundo porque eles não iriam revelar à imprensa sobre
a história de "John Doe" antes da exibição,
além de ser ela ainda a um segredo para os dois. A fórmula
usual do lúcido e honesto "herói do povo" havia
sido abandonada em troca de um sujeito medíocre desprovido de
ideais e sem um centavo no bolso. Era uma trama fora do comum. Tão
fora que Capra e Bob Rinskin - o roteirista não conseguiam
encontrar um final para o filme, um fim compatível com toda a
estória para "John Doe". Foram rodados quatro finais
diferentes, mas nenhum chegou a ser satisfatório por completo.
Passavam-se o dias, com o elenco já todo escalado e o dinheiro
deles correndo entre as paredes daquele filme.
Depois de aflições e mistério pois de fato
como poderia um filme tão encorpado nos dois primeiros atos ficar
sem um fim, como se o final fosse insondável Capra recebe
uma carta assinada pelo nome "John Doe" dizendo-lhe que "a
única coisa que poderia salvá-lo do suicídio seriam
os próprios "John Does" do país, a pedido deles"
Capra então roda o quinto e decisivo final do filme determinado,
mais ainda sem saber se era o mais "possível".
Valeria, então, de fato cometer suicídio? Uma morte leva
alguém acreditar em algo? No início era fictício,
mas agora "John Doe" esta prestes a encerrar a estória;
ou a estará apenas começando? "John Doe", irreal
ou não, imagem ou objeto, deu a origem a um processo de reconhecimento
de quem está ou habita a casa ao lado. No sentido mais literal
da palavra, ensinou a "conhecer de novo" o outro, o estranho,
o pressupostamente esquisito. Inevitável os fatos convergirem
em direção à perplexa indagação a
respeito dos grandes feitos humanos: importa saber quem foi o realizador
se no final compreende-se que o mundo encontra-se agora uma atmosfera
acima? Curaram-se as mentes! "John Doe" pode ter sido uma
farsa mas não o que ele representou! Afinal, "o ideal ainda
é bonito..."
Bibliografia:
VEILLON,
Olivier-René. O Cinema Americano nos anos 30. São Paulo,
Martins Fontes Editora, 1992.
SCHERLE, Victor; LEVY, William Turner. The Films of Frank Capra. Toronto,
Citadel Press, 1977
CAPRA, Frank. The Name Above the Title. New York, The Macmillan Company,
1971.
QUINLAN, David. The Illustrated Guide to Film Directors. London, B.
T. Batsford Ltd., 1983.
Ficha técnica:
"Adorável Vagabundo" (Meet John Doe)
dir. Frank Capra (1941); Roteiro de Robert Riskin baseado numa história
de Richard Connell e Robert Presnell.
Fotografia: George Barnes. Direção artística: Stephen
Goosson. Música: Dimitri Tiomkin.
Frank Capra Productions/Warner Bros.
Com Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Edward Arnold, Walter Brennan, Spring
Byington,
James Gleason, Gene Lockhart, Rod La Rocque, Irving Bacon, Regis Toomey.
* Flávio Arnizant é estudante de cinema na FAAP
- Texto apresentado para disciplina História do Cinema III -
Professor: Flavio Brito