"Adorável Vagabundo" (Meet John Doe ) de Frank Capra (1941)

por Flávio Arnizant*

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Ao mesmo tempo que surge o cinema falado, em 1929 nos Estados Unidos, este encontra-se naufragado numa das mais implacáveis crises econômicas até então vividas. A bolsa de Nova York estava quebrada e no meio de incansáveis questionamentos sobre os seus valores, de incessantes buscas a uma identidade política, a sociedade norte americana refugia-se em "salas escuras" na tentativa de, mesmo que por duas horas apenas, fugir da realidade caótica na qual se encontrava a nação. O cinema então emerge como uma nova artéria do corpo nacional trazendo dentro de si, pelo menos dentro do campo social, o plasma da esperança.

Passado alguns anos depois da I Guerra Mundial, uma grande agência de jornal – New Bulletin - está fazendo um "limpeza" de funcionários na busca de um pessoal mais qualificado e com o ganancioso objetivo de elevar o número de vendas o mais alto possível. Uma das suas principais jornalistas, Srta. Mitchel, interpretada por Barbara Stanwick foi uma das demitidas e na tentativa de salvar seu emprego publica no jornal, sob o pseudônimo de "John Doe", uma série de reportagens denunciando as injustiças sociais e preconceitos existentes entre todas as sociedades do Estados Unidos e que num último grito de protesto contra todo o sistema "John Doe" saltaria do prédio da Prefeitura, suicidando-se na noite de natal. Para não serem acusados pelo jornal concorrente, o Chronicle (já "dirigido pelo cidadão Kane"), de farsantes dão a "John Doe" o corpo e a voz de um ex-jogador de beisebol à procura de emprego (Gary Cooper). De vagabundo a herói popular, esta é a história de "John Doe".

A fama cresce. "Seu" carisma toma conta da cidade. As pessoas começam a ver em "John Doe" um traço de esperança que muito tempo estava apagado. Com seus discursos no rádio e envolto por todo o mistério criado em cima "seu" caráter, a mídia, com prazer, amplifica sua imagem e logo passam a existir dezenas, centenas de clubes "John Doe" espalhados por todo o país. "Sua" imagem move a fé da população e por meio de "seus" ideais, proporciona à sociedade a visualização de novos caminhos de progresso social e político. "John Doe" reergue a coragem da multidão para enfrentar os problemas existentes ao mesmo tempo que sustenta seus princípios de mudança de comportamento social; a começar pelos os vizinhos.

Ele e seu amigo "Colonel" (Walter Brennan), assim por ele chamado, são jogados no interior de um mundo regido pelo mais fictício dos reis: o dinheiro. E por através da ficção a grande massa indistinguível se transforma, pois acabara de se submeter a uma "autoridade" que nem se quer existia, mas que foi o suficiente universalizada pela mídia para receber a crença pública.

O simples anuncio de seu suicídio dava-lhe uma nova identidade e era o bastante para lhe garantir a credulidade e o reconhecimento a população. Frank Capra traduz em seu filme o estado vertiginoso em que se encontra a classe média americana, mergulhada numa quase indomável crise financeira. Ele arrasta os fracassos individuais para uma catástrofe coletiva, o seja, a elevação da desgraça como a única chance libertadora.

A febrilidade de Capra na sua luta obstinada contra a ficção de massa denuncia a existência dentro da massa amórfica a necessidade cega de acreditar em algo, mesmo que este algo não pertença ao mundo físico conhecido, beirando assim, de modo derrisório, a abstração coletiva potencializada em seu ponto máximo. A sociedade grita através do corpo de "John Doe", expele tudo o que estava mal digerido pelos poros de sua pele, manifesta-se por meio de um indivíduo que apesar de ter sido também esmagado pela civilização de massa, se recusa a aceitar o papel que lhe destina a história.

Não demora muito para "John Doe" virar um produto da mídia e da publicidade, e ao mesmo tempo, uma grande e geniosa fonte de dinheiro para a elite que comanda tudo do alto. O ideal de uma nação de princípios mais filantrópicos passa a depender de forma direta do beneficiamento de cada um que ocupa uma poltrona estofada na política e passa o dia com um charuto enfiado na boca. "John Doe" vive, sobrevive enquanto a corrupção política viver. E para nenhum "funcionário da casa" ficar infeliz, lhe são dados "singelos" e "sinceros" presentes. Pois o que de fato não se pode comprar hoje em dia? Ou melhor questionando, quem?

Em pleno início da década de 40, período em que a Alemanha estava toda contaminada pelos ideais arianos de Adolf Hitler, o filme não deixava de ser um evidente o ao mesmo tempo camuflado protesto às teorias fascistas. Um dos personagens do filme, o chefão do "New Buletin", D. B. Norton (Edward Arnold), é o espírito encarnado - num belo disfarce de chefe político de uma sistema capitalista - do fascismo alemão, se mostrando como um poderoso e competente manipulador de massas. Porém Norton exerce influência apenas pela imediação da ficção "John Doe", que tem sua própria força embutida e portanto não pode ter sua autonomia diminuída.
A ganância do poder não governamental do Estado não deixa portanto de ser também denunciada no filme. A postura dos chefões não poderia ser outra ao sentirem que não poderão abocanhar um pedaço do "bolo", o enterram. Contemporâneo não? Frank Capra abordou um assunto que mais de 50 anos mais tarde continua tão intacto e ileso que o filme poderia ser rodado hoje apenas com mudanças de figurino.

O individualismo, encontra-se imerso em toda a parte do filme até o momento em que os ideais de "John Doe" começam fazer efeito. Nas grandes metrópoles, as pessoas, que por puro preconceito, deixam de se falar, acabam criando em suas cabeças personagens para aqueles que na verdade são indivíduos reais. Não para os olhos do outro o que em espíritos são, mas sim projeções de seres criados dentro da realidade de cada um. Então de fato inexiste uma realidade comum que possa ser compartilhada e difundida. Cada "mundo individual" fecha-se, tranca-se dentro da própria casa preferindo ignorar a realidade externa ao invés de passar através dela. E "John Doe", apesar de não existir em matéria , protestou contra essas injustiças do cotidiano, que antes de serem injustiças eram preconceitos e antes disso, imposição política dissimulada.

Os personagens do universo de Capra possuem um espectro de milagroso no fato de deslocarem para frente o veículo crítico que trespassa seus filmes deixando marcada sua trilha no piso do enredo imprevisível. O jogo de aparências, as impressões, ora explícitas, ora subjacentes, são uma das fontes de alimento de sua obra e não deixam de climatiza-las com o vácuo de ar das identidades que não permanecem fixas, que não foram criadas para se alojar num espaço-tempo permanente, e sim transitar pela narrativa desafiando a índole delas próprias. As interpretações são ambíguas a ponto de conduzir, de modo frenético, o espectador à conclusão que até o último momento parece indecisa, duvidosa...

Capra, de fato, se apodera do mundo do burlesco, da invenção do "burlesco americano" suprindo-se do cômico como contraponto das horas mais dramaticamente carregadas. Referindo-se aos "John Does" de todo o país pode-se interpretar seu sobrenome como o ato e a capacidade de fazer. Na verdade John faz, ou pelo menos agora têm vontade.

"Adorável Vagabundo" foi o primeiro filme completamente independente de Capra e um de seus objetivos era, segundo ele, superar as expectativas da crítica. Alguns anos antes da realização do filme, Capra havia se tornado presidente de sua própria companhia renunciando em dezembro de 1940 o cargo devido ao tempo que este lhe consumia. Nesse período, Joe Walker, o cameraman de sua personnel staff aperfeiçoou e patenteou as primeiras lentes zoom para câmeras.

Todo o elenco do filme, escolhido a dedo pelo diretor, estava na época disponível para a interpretação dos papeis e todos os atores e atrizes, incluindo os protagonistas Gary Cooper e Barbara Stanwyck, aceitaram o papel antes mesmo de lerem o roteiro demonstrando a confiança no diretor. O filme provocou grande agitação na imprensa. Primeiro por ser inédito o fato de um roteirista e um diretor investirem juntos o próprio dinheiro num filme e segundo porque eles não iriam revelar à imprensa sobre a história de "John Doe" antes da exibição, além de ser ela ainda a um segredo para os dois. A fórmula usual do lúcido e honesto "herói do povo" havia sido abandonada em troca de um sujeito medíocre desprovido de ideais e sem um centavo no bolso. Era uma trama fora do comum. Tão fora que Capra e Bob Rinskin - o roteirista – não conseguiam encontrar um final para o filme, um fim compatível com toda a estória para "John Doe". Foram rodados quatro finais diferentes, mas nenhum chegou a ser satisfatório por completo. Passavam-se o dias, com o elenco já todo escalado e o dinheiro deles correndo entre as paredes daquele filme.

Depois de aflições e mistério – pois de fato como poderia um filme tão encorpado nos dois primeiros atos ficar sem um fim, como se o final fosse insondável – Capra recebe uma carta assinada pelo nome "John Doe" dizendo-lhe que "a única coisa que poderia salvá-lo do suicídio seriam os próprios "John Does" do país, a pedido deles" Capra então roda o quinto e decisivo final do filme – determinado, mais ainda sem saber se era o mais "possível".

Valeria, então, de fato cometer suicídio? Uma morte leva alguém acreditar em algo? No início era fictício, mas agora "John Doe" esta prestes a encerrar a estória; ou a estará apenas começando? "John Doe", irreal ou não, imagem ou objeto, deu a origem a um processo de reconhecimento de quem está ou habita a casa ao lado. No sentido mais literal da palavra, ensinou a "conhecer de novo" o outro, o estranho, o pressupostamente esquisito. Inevitável os fatos convergirem em direção à perplexa indagação a respeito dos grandes feitos humanos: importa saber quem foi o realizador se no final compreende-se que o mundo encontra-se agora uma atmosfera acima? Curaram-se as mentes! "John Doe" pode ter sido uma farsa mas não o que ele representou! Afinal, "o ideal ainda é bonito..."


Bibliografia:
VEILLON, Olivier-René. O Cinema Americano nos anos 30. São Paulo, Martins Fontes Editora, 1992.
SCHERLE, Victor; LEVY, William Turner. The Films of Frank Capra. Toronto, Citadel Press, 1977
CAPRA, Frank. The Name Above the Title. New York, The Macmillan Company, 1971.
QUINLAN, David. The Illustrated Guide to Film Directors. London, B. T. Batsford Ltd., 1983.


Ficha técnica:

"Adorável Vagabundo" (Meet John Doe)
dir. Frank Capra (1941); Roteiro de Robert Riskin baseado numa história de Richard Connell e Robert Presnell.
Fotografia: George Barnes. Direção artística: Stephen Goosson. Música: Dimitri Tiomkin.
Frank Capra Productions/Warner Bros.
Com Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Edward Arnold, Walter Brennan, Spring Byington,
James Gleason, Gene Lockhart, Rod La Rocque, Irving Bacon, Regis Toomey.


* Flávio Arnizant é estudante de cinema na FAAP

- Texto apresentado para disciplina História do Cinema III - Professor: Flavio Brito