Dançando no Escuro: entre a ternura e a força
 
por Claudia Silene*

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O público de hoje é bombardeado por filmes em que, em geral, falta o mistério, elemento, senão essencial, importante à toda obra de arte. E neles, seus diretores evitam perturbar nossa tranquilidade trazendo temas que são o prolongamento de nossas vidas comuns, para fazer-nos esquecer as demasiadas horas do trabalho cotidiano. E repetidas vezes vemos o mesmo drama, sancionado pela moral vigente, pelas religiões, regido pelo bom gosto e pelo humor. Fórmulas esgotadas? Não. Talvez seja positivo essa "mesmisse" do cinema mercadológico, porque de vez em quando somos presenteados com obras fílmicas que contradizem, ignoram ou satirizam as "mega produções" do tio Sam. E o sucesso dessas obras, mostra que o público busca novas idéias de concepção cinematográfica, as quais tragam reflexão e, não somente, um jogo de montagem e tecnologia que camuflam o enredo, tornando-o dispensável.

O filme Dançando no Escuro de Lars Von Trier, idealizador do Dogma 95, convida o público e os críticos a tomarem partido. Nem que seja para dizer que nele, seu diretor subverte o próprio manifesto. Pelas regras do documento, não são permitidos filmes de gênero. Von Trier, mistura logo dois. O filme é um musical, embora não seja um musical tradicional, e um melodrama. As tais cem câmeras de vídeo usadas na cena da fábrica desmontam o mito do minimalismo e da pobreza do Dogma. Outras regras - nada de efeitos de luz, nada de música, exceto ambiental, e por aí afora. Os filmes deveriam surgir depois, porque as obras do Dogma são captadas em vídeo, para posterior kinescopagem. Um cinema barato, criativo, autoral e antiilusionista que vai na contramão do ilusionismo de Hollywood.

Dessas regras podemos atribuir a Dançando no Escuro a criatividade, sua captação que foi feita toda em digital e, talvez o que se tem de mais importante, seu antiilusionismo.
Premiado em Cannes/2000 com a Palma de Ouro e Prêmio de Melhor Atriz à novata Bjork, o filme de Trier foi transformado num emblema das novas tecnologias que vão mudar a face do cinema. Esse mesmo festival foi precedido com uma discussão em torno da possível tendência tecnológica para a linguagem cinematográfica. Concluiu-se que ele era digital mas uma pergunta ficou irresolvida: se mudarem os suportes, o cinema continuará sendo cinema ou vai virar outra coisa?

Dançando no Escuro não é meramente uma análise de sua composição técnica ou da negação ao próprio manifesto a que se deu seu diretor. Ele negou, mesmo que parcialmente, seu ideal em Dançando no Escuro e o fez primorosamente. Há nele peculiaridades de conceber as imagens que revelam o melodrama vivido pela megastar Bjork. Talvez esteja nela a grandiosidade do filme. Sua interpretação simples e intensa permeiam a tela de ritmos que se apropriam ao que estamos assistindo.

Enquanto sofremos junto a personagem principal, temos uma iluminação e cores frias, tomadas feitas com a "câmera na mão" (característica do Dogma), retratando o sofrimento. Já nos delírios musicais, iluminação e cores foram reforçadas, demonstrando o ilusionismo do antiilusionismo do filme apresentado pelo diretor, com formas clássicas de enquadramentos e montagem, típicos de filmes musicais. (Aqueles filmes em que as grandes indústrias cinematográficas se fortaleceram ao lançar o ilusionismo em épocas extremamente agressivas à população. Época da guerra e da queda da bolsa de Nova York. Grandes crises mundiais em que os gêneros musicais ... salvaram a Warner da falência).

Selma (Bjork) é uma imigrante tcheca nos Estados Unidos e está quase cega. Operária e pobre, luta para conseguir dinheiro para a operação do filho Gene que sofre da mesma doença nos olhos. Ela se sente culpada por ter tido a criança mesmo sabendo que herdaria o mesmo problema. O amor, quase infantil, pelo seu filho lhe conduzirá ao extremo, chegando ao assassinato, para conseguir seu objetivo. Com sua voz baixa, sua aparência miúda, seus vestidos humildes, em volta a seus óculos "fundo de garrafa" contradiz um interior forte e determinado.

Amante dos musicais de Hollywood, encontra neles o refúgio para seu drama. São fantasias tiradas do realismo, do barulho das máquinas da fábrica ou até mesmo na falta dele, ela constrói seu lirismo dando cor e movimento, regados de coreografias, a sua vida cinzenta. E de quebra somos contagiados pela voz de Bjork que compôs a trilha para o filme. Até Catherine Deneuve, de A Bela da Tarde, de Buñuel, que faz o papel da amiga protetora e trabalha na fábrica com Selma, cede o brilho da atuação à Björk com estilo à francesa.

Dançando no Escuro, encerra uma trilogia que começou com Ondas do Destino e Os Idiotas. Neles o diretor Lars von Trier, personifica suas personagens pelo sofrimento e redenção, tudo em busca de um ideal.


Cláudia Silene é estudante do curso de Imagem e Som da UFSCAR


Data de publicação:10/02/2001