O desprezo de Godard

download


Um estúdio de cinema e um filme sendo rodado nos introduz ao universo do filme "O Desprezo". Uma narrativa dentro do estilo e do mundo do cineasta francês Jean-Luc Godard, realizada em 1963. ("Contempt"- "Le Mepris").

A metaliguagem está claramente presente no conteúdo deste filme: ao roteirista Paul (Michel Picoli)é encomendado escrever um outro desencadeamento da "Odisséia", um roteiro que está sendo filmado pelo estúdio ao qual já fomos introduzidos, uma outra "Odisséia", com outras características para os seus personagens. (O próprio "Desprezo" foi encomendado a Godard por Carlo Ponti).

Então entra a figura do produtor Prokosh, interpretado por Jack Palance, cuja maior característica do personagem é a arrogância e o cinismo; e o diretor, Fritz Lang, interpretando ele mesmo (!). Essa relação roteirista/produtor/diretor toma consistência na narrativa do filme quando eles assistem juntos à exibição dos planos já captados para a nova "Odisséia", daí a posição ideológica de cada personagem/profissão é evidenciada.

Paul prefere o teatro, mas como forma de garantir maior conforto burguês a sua esposa Camille (a exuberante Brigite Bardot, extremamente sensual no auge de sua carreira), aceita escrever uma nova visão da história de Homero.

Após essa introdução entramos no universo íntimo de Paul e Camille, uma relação em crise, a manifestação do desinteresse da mulher pelo homem, perda da atração física, de afinidade, a falta de identificação com o outro, narradas através de longas discussões profundas sobre ele, ela , eles. Ao longo da sequência, há analogias com planos mostrando os personagens da "Odisséia". A construção da dramaticidade é enriquecida através do cenário, o jogo de cores têm influência marcante como narrador dramático, o vermelho e o branco dos móveis e a brincadeiras com a peruca morena usada por Camille, como se tivesse uma outra identidade.

Ela não o ama mais. Paul se vê diante de uma outra situação, causada pela separação física e psicológica, uma ruptura que passa a abalar seus pensamentos e questões íntimas de seu ser. O sentimento de abandono, o desprezo da companheira a quem ainda sente-se muito ligado. Um homem diante da perda de um complemento de sua existência.

A paradisíaca ilha de Capri agora é o cenário da tentativa de reconciliação de Paul, mas Camille é inflexível. Nesta sequência, há inserts de imagens da intimidade perdida do casal através da exuberante forma física de BB e a relação com Paul, evidenciando a relação que um dia tiveram. E a cena na escadaria, analogia de seus degraus com o caminhar do homem na vida.

Paul agora reescreve a "Odisséia": "Talvez Ulysses não quisesse voltar", argumenta a Fritz Lang; por que ficara fora por tanto tempo? A relação entre Penelope e Ulysses é questionada no roteiro de Paul. Ulysses também fora desprezado pela amante(?!)... mas desta vez quem vai embora é ela, Camille, e com o produtor Prokosh.

"O Desprezo" faz uma crítica à estrutura da produção do cinema holywoodiano, e Godard está mais uma vez próximo da filosofia e do existencialismo, através da sua multiplicidade de referências, inclusive a trabalhos dele mesmo, passados (Acossado) e por vir ("A Chinesa", "Pra Sempre Mozart"). É de extrema riqueza narrativa a analogia com as paisagens do mar Mediterrâneo, evidenciando a fragilidade do homem diante da imensidão do oceano.

* Mônica Palazzo é estudante do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)


data de publicação: 27/06/2000