O público de idades variadas que lotam o Cinesesc, principalmente nos fins de semanas, deve ter motivos diversos. Mesmo enfrentando a maratona fisiológica de quase três horas de duração, os mais velhos venham talvez para se recordar dos bons tempos e os mais novos atraídos pelo fascínio de uma época de diversão sem remorsos.
A realidade é que o mestre Fellini é um bravo sobrevivente com a Doce Vida, pois passado quarenta anos consegue atrair o público com esse título e ser atual com seu Marcelo.
A verdade que a vida nunca foi doce no grande cinema italiano. Da vida sofrida do pós-guerra retratada pelo neo-realismo de Rosselini, De Sica e até Fellini aos problemas existenciais de uma Europa reconstruída e prospera pelo Plano Marshall, porém que aos poucos vai perdendo sua personalidade, mergulhando num estilo de vida superficial.
Fellini retrata desde o início essa superficialidade dos repórteres em busca de qualquer tipo de notícia ou diversão, seja na forma de um cristo transportado por um helicóptero ou garotas de biquíni numa cobertura.
A perda da auto-estima com a gradativa perdas dos valores culturais do pós-guerra é uma constante em A Doce Vida. O comentário de um figurante numa festa, dizendo que as mulheres de verdade são as orientais, a presença constante de personagens americanos inexpressivos e ritmos musicais não italianos, somente confirma uma tendência que perdura até os dias de hoje com a pseudo globalização.
A grande estrela Silvia (Anita Ekberg), o maior símbolo para se fazer acreditar que a vida era realmente doce, protagoniza junto com Marcelo (Marcelo Mastroianni) o maior coito-interruptus da história do cinema quando é desligada água da Fontana-di-Trevi. Talvez tenha sido essa ducha de água fria que faça Marcelo tentar acordar dessa permanente ilusão.
Seu amigo Steiner, o que se achava sério demais para um amador e não o suficiente para um profissional, é o mais lúcido e talvez por isso o mais perdido e desajustado. De origem alemã e portanto talvez se sentido culpado demais para viver uma vida superficial.
A morte de Steiner aos olhos de Marcelo é uma prova que seriedade talvez seja sinônimo de amargura. Seus planos de largar seu jornal e se tornar um escritor é arriscado demais para sua saúde existencial. Nada melhor para um filme que retrata a fuga e a superficialidade, que seu personagem principal vire publicitário e impeça que a pureza retratada na figura da menina que gostaria de aprender datilografia, seja ela um dia talvez uma escritora.
* Renato Pinto é formado em Economia pela USP e estudou Cinema na New York Film Academy
data
de publicação: 28/08/2000