I- Introdução
O objetivo desse estudo é analisar através dos filmes "A Greve" e "Outubro", de Seguei Eisenstein, os principais conceitos cinematográficos do cinema soviético, representado pelo próprio diretor Serguei Eisenstein (diretor dos dois filmes citados acima).
Para que este objetivo seja alcançado, este estudo apresentar-se-á dividido estruturalmente em três momentos:
a) num primeiro momento, relataremos brevemente os principais acontecimentos da Revolução Socialista de 1917, já que o momento posterior é de grande importância na definição do fazer cinematográfico soviético.
b) num segundo momento, procuraremos destacar as principais reflexões sobre o fazer cinema do diretor Serguei Eisenstein, com base, sobretudo, no estudo "O Discurso Cinematográfico - A Opacidade e a Transparência", de Ismail Xavier, 2 edição, São Paulo: Editora Paz e Terra, 1984.
c) e finalmente, num terceiro momento, faremos uma análise comparativa entre os filmes "A Greve" e "Outubro", onde nos centramos em analisar algumas seqüências e cenas dos filmes.
É interessante pontuar que em alguns momentos fizemos algumas considerações sobre o filme "Encouraçado Potenkim, embora ele não seja nosso objeto de estudo.
II- A Revolução Socialista de 1917
a) Os movimentos grevistas e a chegada de Lênin ao poder.
Viva a Revolução!
(aclamação de Lênin)
Em meados do século XIX, a Rússia passou a promover uma série de reformas internas na economia, na administração e no exército. No entanto, tais medidas só agravaram as tensões sociais já existentes.
Diversos fatores contribuíram para aumentar a revolta e difundir a propaganda revolucionária em diversas camadas da população, oprimida pela autocracia czarista.
À crise interna somaram-se os fracassos russos no avanço imperialista. Esses fatos, ao lado das falsas promessas de um regime constitucional, minaram o poder do soberano absoluto, culminando na abolição do regime czarista com a vitória da Revolução de 1917.
Vamos aos principais acontecimentos:
As elites dirigentes russas avaliaram erroneamente o poderio militar do país. Isso lançou a Rússia num desastroso confronto com o Japão pela disputa de áreas chinesas (Guerra Russo-Japonesa,1904-1905). A derrota esmagadora para os japoneses fez crescer a insatisfação popular. Em 9 de janeiro de 1905 cerca de 200 mil pessoas dirigiram-se ao Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao Czar Nicolau II, onde expunham a situação dos trabalhadores, agravada pela guerra, e pediam a eleição de uma Constituinte por sufrágio universal, direto e secreto, a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias e a fixação do salário mínimo. A manifestação pacífica foi reprimida pelas tropas cossacas, o que constituiu o chamado Domingo Sangrento. Uma onda de protestos e intranqüilidade espalhou-se pelo império russo, resultando em greve geral e levantes militares, como o do Encouraçado Potenkim , ancorado no porto de Odessa.
Em agosto de 1905 foi publicado o regulamento para a eleição da Duma, como até outubro o pleito não foi realizado, estourou uma greve geral de várias categorias profissionais, paralisando totalmente o país.
Em agosto de 1914, a Rússia se envolveu num confronto com a Alemanha, agravando ainda mais os problemas internos. Aos poucos, a sociedade russa começou a questionar os objetivos e a legitimidade da guerra, o que acabou culminando com novas greves e agitações de caráter político. A partir desse momento, a burguesia passou a fazer oposição ao regime.
Em fevereiro de 1917, a crise russa chegou ao máximo, quando esgotados os estoques de alimentos, a população se revoltou. Desencadearam-se greves gerais e passeatas pacíficas, às quais se juntaram várias guarnições militares, revoltadas com a ordem do governo de atirar contra os manifestantes. O czar acabou sendo obrigado a abdicar e formou-se um governo provisório com Kerenski como ministro da Guerra.
O governo provisório estabeleceu uma ditadura que não se preocupou em resolver os problemas mais prementes: a paz e as reformas em todos os níveis. Enquanto isso, Lênin e Trótski foram ganhando popularidade com as Teses de Abril, enunciadas na plataforma: "paz, terra e pão".
Em agosto de 1917, houve um golpe contra-revolucionário articulado pela burguesia conservadora e pela alta oficialidade do Exército. Em setembro, Trótski organizou a milícia revolucionária, com isso, as forças burguesas perderam definitivamente o poder de conduzir a República. Todos queriam a imediata passagem do poder aos sovietes. Em outubro de 1917, após a deposição do governo provisório, Lênin assumiu o poder.
Mais tarde, Stálin assume o poder e tem-se início a uma ditadura autoritária e centralizadora, com o comando central do governo nas suas mãos.
III- Principais reflexões de Serguei Eisenstein
a) O "music-hall-circus", a montagem figurativa, o "parti-práxis", a linguagem "cine-dialética": representações de uma arte revolucionária: o cinema visto como arte.
"Viver é um momento da história é o mais sublime patético na sensação de nossa integração naquele movimento, na sensação de nossa progressão em bloco e de nossa participação coletiva na luta". Eisenstein
Nos anos 20, Eisenstein se envolveu numa luta entre o Teatro de Arte de Moscou (tradição naturalista e psicológica = expressão acabada da burguesia) e os movimentos teatrais de vanguarda de que participava. "O Teatro de Moscou é meu inimigo mortal", disse por acusa de sua preocupação com uma réplica fiel da realidade. Os construtivistas mostravam esse realismo, levando os vários aspectos do teatro para sua esfera, onde podiam ser recompostos de acordo com o desejo formal do diretor. Eisenstein procurava, no teatro, caminhos onde pudesse transformar a realidade em material útil a ser moldado pelo diretor.
No seu método fundamental, Eisenstein vai manipular o cinema. As cenas ficariam inseridas num conjunto onde a hierarquia "fatos essenciais + ornamentos de encenação" não teria lugar, sendo substituída por uma apresentação de estímulos não amarrados à íntegra do texto. Tais estímulos seriam combinados de modo a produzir os efeitos emocionais e os impactos necessários para tornar claro as significações e os valores propostos pelos espetáculos. Para Eisenstein, o filme, o music-hall e o circo constituem a escola para o montador, pois construir um bom espetáculo, significa construir um forte programa de music-hall-circus, partindo da situação básica da peça.
Assim, logo após sua experiência no teatro, Eisenstein criou para o cinema um sistema em que todos os elementos seriam iguais e comensuráveis: iluminação, composição, história, interpretação e até mesmo as legendas deveriam estar inter-relacionadas , para que o filme pudesse escapar do realismo. Cada elemento deveria funcionar como uma atração circense, atraindo o espectador a fim de causar-lhe uma impressão psicológica precisa.
Quando envolvido na produção cinematográfica, ele transforma a montagem de atrações no "método para a produção de um cinema proletário". O modelo griffithiniano precisava ser superado, dadas as limitações ideológicas do ilusionismo, de mesma natureza que as encontradas no teatro e na literatura naturalista. O que está admitido no projeto cinematográfico de Eisenstein é o princípio de Maiakovski: sem forma revolucionária, não há arte revolucionária.
Eisenstein vai propor a montagem figurativa, uma montagem que segue o raciocínio, que define significações claras. Uma montagem que interrompe o fluxo dos acontecimentos e marca a intervenção do sujeito através da inserção de planos que destroem a continuidade do espaço diegético. No seu cinema, a sucessão de eventos não obedece uma causalidade linear e não encontramos uma evolução dramática do tipo psicológico.
Eisenstein não opõe o espelho para refletir as aparências do real. Ao mundo fabricado da indústria, ele não opõe a desfabricação e a dissolução do discurso no mundo. O que ele propõe é o cinema com "parti-pris". "Em minha opinião, sem uma apresentação clara do porque não se pode começar o trabalho num filme. É impossível criar sem reconhecer os sentimentos e paixões em torno dos quais queremos especular... Dirigimos as paixões dos espectadores, mas usamos uma válvula de segurança, um pára-raios, e este é o parti-pris".
Propondo um cinema que pensa por imagens em vez de narrar por imagens, Eisenstein está consciente dos problemas a enfrentar, mas está convencido de que as tensões existentes entre a leitura naturalista e a leitura dialética, produzida pela montagem de atrações, produzem ricas soluções para a leitura dialética.
Eisenstein procura redefinir conceitos como percepção, forma e conteúdo, superando a leitura burguesa destes conceitos e propõe uma síntese dialética entre a linguagem das imagens e a linguagem da lógica, reunidas na linguagem da cine-dialética. O que está implicado nesta cine-dialética é a edificação do cinema como lugar específico da fusão entre o sentir e o pensar.
O conflito de personagem, enredo e todos os níveis mais elevados de significação é exatamente análogo ao conflito físico que Eisenstein considerava estar na base da montagem clássica. Os conflitos de atrações produzem os grandes conflitos e tensões do drama.
Outro elemento que Eisenstein recorre é o princípio da repetição. A repetição pode facilitar a criação de um todo orgânico, como podemos observar em Encouraçado Potemkin, na repetição de "Irmãos!", que ocorre pela primeira vez antes dos fuzileiros se recusarem a atirar; como seqüência quando os barcos que fundem cais e navio e quando, a esquadra permite que o Potemkin passe sem ser atacado.
Sua intenção é atingir uma montagem de imagens como forma de escrita pictórica, que pela justaposição de unidades discretas, conseguiria traduzir o pensamento articulado, expondo conceitos.
Assim, vemos em Eisenstein que tanto a natureza como a história devem ser transformadas pela mente antes de se tornarem verdadeiras. A tarefa do cineasta é apreender a verdadeira forma de um evento e então utilizar essa forma na construção de seu trabalho. Isso aconteceu com o Potemkin. Eisenstein achava que este evento poderia ser filmado de várias maneiras, mas apenas uma tiraria vantagem da verdadeira forma do evento. Somente um filme seria amarrado organicamente à verdade da história.
VI- Análise dos filmes "Outubro" e "A Greve"
a) O filme "Outubro"
O filme "Outubro" de Serguei Eisenstein foi feito em 1927 para comemorar o 10 aniversário da Revolução Bolchevique à pedido do Comitê Central Soviético (da URSS). Participaram deste filme operários, soldados e marinheiros que estavam na revolução. O roteiro foi escrito entre novembro de 1926 e março de 1927, as filmagens ocorreram entre abril e setembro de 1927 em Leningrado, e em outubro em Moscou. Terminada a montagem em janeiro de 1928, "Outubro" teve uma pré-estréia neste mesmo mês em Leningrado e exibições públicas a partir de março.
O grande tema e o personagem individualizado deste filme é a própria Revolução de Outubro . "Outubro" procurou mostrar dados históricos através de simbolismo e de metáforas; e onde através de um raciocínio intelectual procura prender a atenção do espectador; o espectador vai sendo cooptado pela imagem e passa a refletir o significado desta.
No filme de Eisenstein, o ritmo não é um jogo paralelo, há contradições internas, que criando conflitos, provoca a emoção. Exemplo é a cena da abertura da ponte que separa os bairros operários do centro da cidade. A cena é longa, demora para a ponte ficar aberta; e esta cena cria tensão: o cavalo demora para cair no rio .
Segundo Ismail Xavier , Eisenstein procura redefinir conceitos como percepção, forma e conteúdo, de modo a superar a leitura burguesa destes conceitos e propor uma síntese dialética entre a linguagem das imagens e a linguagem da lógica, reunidas na linguagem da cine-dialética (edificação do cinema como lugar específico da fusão entre o sentir e o pensar), como já citado.
Ele procura atingir uma montagem de imagens como forma de escrita pictórica, procurando expor e articular conceitos. Uma cena que reflete a forma como Eisenstein trabalha este conceito é a cena onde aparecem deuses do mundo inteiro, contrastando com imagens da estátua de Napoleão Bonaparte, insígnias militares (medalhas): Religião e Poder. Eisenstein trabalha com o conceito e a simbolização da divindade e também com o conceito de parte-todo .
Outras características merecem serem destacadas: como o tratamento dado às massas: as passeatas tornam-se sujeitos da ação, quebrando, dessa forma, com o preceito da individualidade. Algumas cenas, através da montagem, repete-se várias vezes e sob vários ângulos, exemplo: cena do Ministro da Marinha e do Exército subindo as escadas do Palácio de Inverno.
Finalizando, podemos observar que pelas cenas dos relógios, além do mostrador principal, também tinha uma coroa de pequenos mostradores em redor do maior. Em cada um desses mostradores havia o nome de uma cidade: Londres, Nova York, Paris e Xangai. Cada um mostrava uma hora, em contraste com a hora de Petrogrado, Eisenstein procurou através desta montagem trabalhar com o momento histórico da vitória e instauração do poder soviético com a concepção de tempo. A hora da revolução emergiu através de uma variedade de horas locais, como que fundindo todos os povos na percepção do momento da vitória. Houve uma hora histórica única.
b) O filme "A Greve"
O filme "A Greve" (1925) do diretor Serguei Eisenstein, apresenta como temática central (e personagem individualizado) a greve da classe trabalhadora de uma fábrica de Moscou, logo após a morte de um trabalhador, que morreu acusado injustamente de roubo. Este filme foi filmado entre julho e outubro de 1924, terminado de montar em dezembro do mesmo ano e suas primeiras exibições públicas ocorreram em março de 1925.
Numa tentativa de quebrar com a unidade dos trabalhadores, os empresários e o governo czarista uniram-se e enviaram um "infiltrador" no interior da classe operária. No entanto, fracassado o intento, eles enviaram então, a polícia e os grevistas desarmados foram massacrados num confronto final.
A história de "A Greve" está dividida em seis partes, caracterizando, dessa forma, a quebra de linearidade (ruptura de uma leitura linear), e esse corte vai exercer um papel de atração e passar uma idéia de conflito, assim como no seu filme "Encouraçado Potemkin".
"A Greve" é um filme revolucionário na medida em que se propõe a "expor uma tática", explicar um processo de luta, analisando a evolução de um ato revolucionário e não apenas fornecendo uma descrição de seus lances.
É interessante destacar alguns conceitos em que Eisenstein trabalha no filme, como o paralelismo, a montagem e a introdução de imagens simbólicas.
- no final do filme, o matadouro não pertence ao espaço da ação em que se desenvolve o massacre dos trabalhadores, a montagem o introduz num conceito de metáfora (que o diretor quis trabalhar).
- podemos perceber que os animais (pintinhos, gatos, porcos, patos e outros) fazem parte da ação do filme, são sujeitos do filme num jogo de paralelismo: logo no início Eisenstein intercala imagens de seres humanos (homem) com a de animal: animal bebendo água e, logo em seguida, o homem; e na parte 3, as primeiras cenas mostram animais sadios e no final (parte 6), aparece um boi no matadouro num jogo de comparação com a morte dos grevistas (como já citado).
- é interessante observar que na parte 3 aparecem cenas de crianças brincando sozinhas ou em grupos, mulheres e crianças felizes e comendo fartamente, e na parte 4 aparece em contradição, com a parte 3, crianças com fome, esposa brigando com o marido representando a falta de dinheiro.
- os empresários e membros do governo czarista aparecem bem estereotipados: fumando charutos, bebendo uísque e aparecem bem gordos. E eles estão totalmente afastados das classes sociais inferiores, e se comunicam com elas através de subalternos. E este são cúmplices com os detentores do poder.
- a passeata (manifestação dos grevistas) é sujeito da ação, assim como em Outubro e é interessante observar que numa das cenas que a polícia está reprimindo a manifestação, a câmera está fixa.
- a unidade da classe operária é representada por um plano fixo de três gerações de trabalhadores. A desunião está entre os mais velhos: bancam os agentes duplos ou provocadores.
- os trabalhadores hostis à greve são os que estão num certo estado de ambigüidade, são aqueles que de certa forma tem algum privilégio ou poder: bombeiro, motorista (que aciona a sirene), dentre outros.
- a classe operária vive num gueto, está isolada territorial e socialmente, e mesmo no interior deste gueto.
Em "A Greve", Eisenstein faz uso da montagem audiovisual. Há uma seqüência curta mostrando uma assembléia de grevistas com a aparência de um passeio casual com um acordeão. Esta seqüência termina com um plano com efeito sonoro através de meios puramente visuais.
A exposição visual é marcado pela cena de um lago que podia ser visto ao pé de uma montanha, pela qual subia, em direção à câmera, uma fila de artistas ambulantes com seu arcodeão. Na exposição sonora, o arcodeão estava em primeiro plano, enchendo toda a tela com seu fole em movimento e suas telhas brilhantes. Este movimento, visto de diferentes ângulos, criou a sensação de um movimento melódico, que uniu toda a seqüência.
Todo o filme é permeado pela luta capital X trabalho, e a síntese do filme acaba por ser a derrubada do capitalismo e a ascensão da classe trabalhadora.
Podemos concluir que os filmes de Serguei Eisenstein citados neste estudo, apresentam traços marcantes, característicos da forma de fazer cinema do diretor.
O ideário político de Eisenstein é característico nestes filmes. Podemos observar tal caraterística pela preocupação em fazer desses filmes o grande tema, o personagem individualizado: o encouraçado, a greve e a revolução.
Em seus filmes as mulheres estão sempre ligadas a situações de paradoxismo: elas transmitem a ordem da greve, encorajam (ou não) a continuidade do movimento, suscitam o recurso da violência (Batam nele!, papel da mãe em Outubro e em A Greve: Socorro, camarada!). Seu papel é sempre central, anunciador da morte ou do sangue.
É interessante destacar que Eisenstein foi coerente com seu princípio, com sua técnica e com seu tempo.
V- Bibliografia
ANDREW, J. Dudley - As principais teorias do cinema. Uma introdução, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.
EISENSTEIN, Serguei - O sentido do Filme, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990
________ Reflexões de um Cineasta, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1969.
________ Cinematismo, Buenos Aires: Domingo Cortizo Editor, 1982.
FERRO, Marc - A Revolução Russa de 1917, São Paulo: Perspectiva, 1990
HOBSBAWM, Eric - A era das revoluções, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989
REED, Jonh - Dez Dias que Abalaram o Mundo, São Paulo: Editora Sociais, 1960
XAVIER, Ismail - O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência, 2 edição, São Paulo: Paz e Terra, 1984.
Data de publicação: 10/12/2000