"O Bebê de Tarlatana Rosa"
argumento por David Ribeiro* (FAAPr)


Há uma espessa névoa azulada. Conforme se adentra por ela, aparecem estátuas de gesso distorcidas, escuras, com expressões tristes, de abandono e melancolia. Aparece, então, no meio da névoa, uma Lua azulada, estática. Aproxima-se cada vez mais dela, e à medida que se faz, a bela Lua se torna mais e mais azulada até que vai se transformando em uma íris de um olho azul.

Continua se aproximando, até que, por fim, entra-se dentro dele, através da negra pupila. A cor negra se torna um céu escuro, nublado. É noite. Descendo do céu, em direção ao chão, aparece um grande muro, com um enorme portão antigo de grade ao centro. Avança-se na direção dele, que imediatamente se abre e ao entrar, vê-se que dentro há vários túmulos, com muito neblina por entre os mesmos e uma luz fraca e azulada que vem do céu.
Percorre-se as ruas do cemitério com uma vista um pouco acima do olhar. Há duas pessoas andando por uma rua. Ambas estão de capa preta e capuz. Não é possível ver seus rostos. As duas figuras estão em um passo um pouco lento.

Bebê: Sempre tem esse cheiro de morte por aqui?
Heathcliff: Ao menos quando os podres drogados não estão aqui. Mas a Morte é uma preocupação dos vivos.
Bebê: E uma lembrança de renascimento aos mortos.
Heathcliff: Como chegaste aqui?
Bebê: Vim por uma trágica poética. Algo além de um Carnaval...

A imagem escurece. Nada se vê. De repente a cor negra vai tomando forma de uma bunda. Aparece então uma garota gorda, com calça preta, que vai sambando e se distanciando da câmera. Ela se encontra num belo salão de festas, onde há umas 300 pessoas, todas sambando, de máscaras, roupas coloridas e muito confete e serpentina. Está todo mundo gritando histérico. Alguns dançam desequilibrados devido ao estado alcóolico. De repente uma moça fantasiada de "franga" sai do meio da multidão e joga uma bela e suculenta maçã para cima. Ela roda duas vezes no ar. Numa rua de paralelepípedos, com água suja escorrendo, cai uma maçã podre e já mordida. Aparece então uma ruela, com casas antigas, simples e um terreno abandonado, onde há uns 30 metros há uma esquina. Na rua há umas 10 pessoas, todas cambaleando de bêbadas. Encostadas num paredão, estão três prostitutas, mascando chiclete e batendo o pé, todas sorridentes.
Na esquina, em um muro de uma das casas, sobe aos poucos a sombra de três homens que se aproximam pela outra rua. Logo ouve-se as risadas e então dobram a rua três homens jovens, aparentando 19 anos. Um de palhaço, com uma roupa toda colorida (Calvin), outro, um gordo, maquiado de Pierrô e com boina (Jim) , e o terceiro, com uma máscara nos olhos, um fraque e uma capa preta (Elói). Os dois primeiros, logo olham as prostitutas.

Calvin: Há algo de belo nas ruas do Rio.

O segundo personagem retira a boina.

Jim: Sem boina então... Melhor ainda!
Calvin: Avante soldados!! O primeiro que guardar a chave, alcança a felicidade!

Os dois personagens avançam em direção às prostitutas e começam a se esfregar nelas, que correspondem. Elói, o homem de capa, fica parado. Entorta os lábios para o lado, coça os cabelos, cruza os braço e começa a dar pequenos passos para o lado, cabisbaixo. Começa então a andar muito devagar. Duas pessoas passam por ele gritando e ele levanta lentamente a cabeça. Tem-se a visão dos olhos dele. Conforme a cabeça vai levantando, aparecem duas sandálias brancas, uma meia calça de rede, envolvendo belas pernas, uma saia prateada, ao lado uma bolsa de couro preta, dois braços com pulseiras prateadas, uma blusinha preta, seios médios, ombros claros, sendo que em um deles há cabelo negro liso caído até a altura do seio, um pescoço claro, um rosto comum, uma bela boca com batom vermelho, dois brincos de lua minguante nas orelhas, um belo nariz pontudinho e pouco acima, um belo par de olhos azuis brilhantes e marejados. O cabelo é liso, escuro e vai até o meio das costas, a pele clara e uma aparência de 16 anos.
Aparece novamente o rosto do jovem. Ele está de boca aberta. A bela garota de olhos azuis está séria, olhando pra ele. Ele se aproxima vagarosamente à ela.

Elói: Olá! Você está sozinha?
Bebê: Sempre. Talvez você possa me ajudar... ?

Elói acena afirmativamente com a cabeça. A garota segura o braço dele e em seguida o abraça. Elói está olhando fixo nos olhos dela.

Elói: Esses olhos...
Bebê: O que eles têm?
Elói: São tão tristes... Tão ... Lindos!

A garota dá um leve sorriso, já toda entrelaçada no jovem Elói.

Bebê: Como é o seu nome?
Elói: É...

Ambos ouvem um grito: "Elói!!" - É Calvin, que está abraçado com duas prostitutas. Perto dele há um Escort parado, com a porta aberta, e no volante, Jim, que dá risadas sem parar.

Calvin: Vamos, que a festa vai começar!

Elói olha para a garota.

Elói: Vamos com a gente?
Bebê: Humm... Não.

Ela solta Elói e dá dois passos para trás.

Calvin: Vamos rápido, Elói!!

Elói olha para a garota.

Bebê: A gente ainda se encontra por aí!

A garota vira de costas e começa a andar. Ouve-se uma buzina. Elói continua olhando para a garota indo embora. Ele se vira e começa a andar em direção ao carro. Conforme ele anda, aos poucos, a imagem escurece
Aparece um teto cinza. A imagem se abaixa seguindo a parede e em seguida o chão, quando aparece uma cama, com Elói deitado nela. Ele está só num quarto simples, com uma cama, um criado mudo, uma mesinha e um guarda roupa. Ao lado direito da cama há uma porta fechada. Ouve-se no quarto ao lado, um ranger de camas num movimento contínuo e o bater da cabeceira na parede, fazendo um "TUM! TUM! TUM!" que se acelera cada vez mais. Elói está se revirando na cama, com o lençol pelos joelhos. Ele se vira para a esquerda, para a direita e de bruço, quando pára e abraça o travesseiro. Aos poucos, uma névoa rala e azulada começa a cobri-lo. A névoa se torna mais intensa e cobre toda a cena. Aparece uma estrada de terra e grama cheia da mesma névoa. Há várias árvores escuras e sem folhas nos lados da trilha. Elói está de pijama, parado em pé no meio da estrada. Ele começa a caminhar lentamente.
Ele pára de repente e olha para as árvores do lado. Todas elas são escuras, mortas e distorcidas, e no lugar de folhas, existem vários globos oculares, todos com a íris de cor azul. Elói franze a testa. A névoa começa a aumentar. Começa a se ouvir um canto lírico, que vem de fora. No meio da névoa, um pouco adiante de Elói, aparecem várias colunas gregas e caminhando entre elas um vulto, com a forma de uma mulher, com um véu no corpo, que dança no meio da névoa, até sumir.

Elói continua andando e de repente, à sua frente, aparece uma caixão, com uma tampa de vidro, no chão. Elói se aproxima e olha pra dentro. Aparece a vista de cima do caixão. Dentro há um esqueleto, vestindo fraque e capa. A imagem começa a ficar azulada e cada vez mais azulada.

Ouve-se um grito, ao mesmo tempo que Elói levanta-se rapidamente em sua cama. Está tudo quieto. Aos poucos, ouve-se umas risadinhas no quarto ao lado, som de buzinas de carro, que vem da rua, som de rojões estourando no céu. Há uma luz clara de sol que entra pela janela. Elói suspira fundo e se solta na cama, encostando sua cabeça no travesseiro novamente.

Ele fecha os olhos, passa a mão pela testa e senta na cama. Calça os chinelos, pega uma revista de quadrinhos japoneses que há no criado-mudo, levanta-se e anda até uma porta que há ao lado.

Ele entra e em seguida a porta se fecha. Aproxima-se vagarosamente da porta, na direção do buraco da fechadura. Quando finalmente chega-se à fechadura, a imagem começa a escurecer e ouve-se apenas o barulho da descarga sanitária, que vai se prolongando. Ainda com o barulho, aparece uma boca de bueiro na rua, com enxurrada escorrendo pra dentro do mesmo. Então o som de descarga pára. Segue-se o caminho da enxurrada, sobe-se pela calçada de pedra molhada, até que se vê pés de mesas e então, três pares de pernas de pessoas que estão sentadas. Então sobe-se pela mesa e finalmente aparece quem está sentado: Calvin, Elói e Jim -

Nesta ordem, da esquerda para a direita. Os três estão num café. Está caindo uma leve chuvisco. Embora seja dia, não há raios de sol. As mesas da calçada ficam em uma parte coberta do café. Há mais umas cinco mesas na calçada. Apenas mais duas estão ocupadas. Uma com um casal e outra com um rapaz sozinho. Atrás deles há uma placa, onde se vê escrito: "THE FRENCH COFEE!"

Elói está apenas com uma xícara de café. Cabisbaixo, ele se concentra apenas em um desenho que está rabiscando. Jim está comendo cerca de cinco panquecas. Calvin está tomando um milkshake. Os três estão vestidos com roupas simples, como calças jeans, camisetas, tênis. Eles estão conversando, mas não se ouve suas vozes. Aproxima-se da mesa e então, começa-se a ouvir a conversa.

Calvin: Pois é, eu marquei cinco gols.
Jim: Que droga! Esse tubo de catchup deve estar entupido.

Elói olha pra Jim, tira o tubo das mãos dele, dá um batida com o fundo do
tubo na mesa e em seguida dá uma única e rápida chacoalhada no tubo, que espirra
catchup na mesa do lado. Não se vê se acertou alguém. Elói espreme todo o tubo
nas panquecas de Jim.

Jim: Há! Perfeito!!
Calvin: Liga não.... Ele tá apaixonado...
Jim: O quê? Pela mina lá do beco? Tu nem falou direito com ela!
Elói: Eu não falei porque... Não precisei.
Jim: Xii! Pra mim esse negócio de romantismo... Paixão... Amor.... É tudo coisa de anjo!
Pra gente o que interessa é o sexo!
Calvin: Bom, o rosto da garota eu não vi... Mas até que tinha uma bundinha daquelas
hein!

Elói faz uma cara de zangado. Calvin se levanta e vai até o banheiro. Elói pega
o tubo de catchup e espreme o resto no milkshake de Calvin. Jim coloca um cigarro à
boca, mas não o acende. Elói se vira novamente para seu desenho e aparece então a
figura. Ele está desenhando o rosto do Bebê. O lápis estão agora desenhando a ponta
do nariz. Ouve-se o barulho de pingos de chuva.

Jim: Ih, parece que a chuva vai recomeçar.
Elói: Ué? Sem querer ser chato, mas... Seu cigarro está apagado!
Jim: Eu sei. Fumar é prejudicial à saúde!

Elói levanta a cabeça e percebe que está começando a cair pingos mais grossos
de chuva novamente. De repente, seu olhar pára. Ele está olhando para alguma
coisa à sua frente. Do outro lado da rua há Lívia, uma garota de casacão escuro, boina e
guarda chuva vermelho, que está com um bloco de desenho embaixo do braço. No
bloco, está desenhado o rosto do Bebê e pouco abaixo, na página de canson,
está escrito o título do quadro ("Bebê"). Elói está paralisado, olhando o desenho.
Lívia continua indo, pela calçada molhada, coberta pela sombra das árvores, em
meio à chuva que começa a engrossar. Aos poucos, seu guarda chuva vermelho vai
sumindo em meio às águas que caem.

Elói: Cara, você acredita em surrealismo?
Jim: Aquele tipo de peixe?

Calvin volta à mesa. Ele se senta e toma um gole do milkshake.

Calvin: Nossa, como a qualidade daqui baixou de nível!!
Elói: Hã? Eu acho melhor nós sairmos de perto da chuva antes que ela engrosse mais.
Eu não quero estar gripado hoje à noite!
Jim: Há! Há! Eu me lembrei uma vez que eu estava gripado e saí com uma mina. No
meio do beijo, a coitada vira pra mim e diz: Nossa... Acho que engoli seu chiclete!! Há!
Elói: Hã??!
Jim: Não entendeu? Eu não estava mascando chiclete!
Elói: Eghlrrh!!

A chuva começa a engrossar. Algumas pessoas se levantam das cadeiras
e vão para dentro. Elói olha o papel que desenhou. Segura-o com a mão, dá uma leve
amassada e joga-o na rua. O papel cai na forte enxurrada e vai boiando, até cair pelo
esgoto. Então a imagem escurece.

A cor escura se mexe. É a capa preta de Elói. Por trás da capa aparece
o rosto de Elói. Ele está balançando-a na sua frente. A imagem se afasta e aparece as
costas de Elói. A primeira imagem era a de um espelho. Elói está novamente de fraque
e capa, mas desta vez está ajustando uma máscara ( destas típicas de Carnaval ) no seu
rosto. Na parede atrás dele abre uma porta. Saem Calvin e Jim. Calvin está fantasiado
de pênis e Jim está de "Chorona" (com uma toca de banho e um camisolão).

Calvin: Vamos rápido, estamos atrasados.
Elói: Está dando pra ver que sou eu?
Calvin: Bom, com a máscara... Não. E eu?
Elói: É, com essa fantasia de pênis aí... Tá idêntico!!
Jim: Vamos logo!

Os três pegam suas coisas e saem pela porta. Quando a porta é batida, a
mesma já se abre e aparece uma salão de bailes, não muito bonito, porém enfeitado com
máscaras de Carnaval pelas paredes, bexigas e outros enfeites do tipo. Há confetes e
serpentinas caindo por todos os cantos. Uma banda carnavalesca está tocando e cerca de
150 pessoas estão tentando dançar. Do lado de fora do salão, um táxi estaciona. Com
uma visão da parte debaixo do carro, vê-se o salão do outro lado da rua. Ouve-se o
barulho da porta abrindo e em seguida um par de pés masculinos com chinelo desce,
depois desce um par de sapatos creme e em seguida um par de sapatos escuros e
engraxados, que logo após tocarem a rua e darem o primeiro passo, são cobertos por
uma capa preta, que rasteja no chão. Dentro do salão, Elói, Jim e Calvin acabam de
entrar no recinto.

Elói: Que calor. Eu vou comprar alguma coisa para beber.
Jim: Bom, eu vou atrás de diversão.
Calvin: E eu vou soltar meus hormônios!!

Os três se separam pelo salão. Vê-se o salão por cima, com todos
dançando sob focos de luzes azul, branco e lilás. Lentamente começa a cair sobre todos,
vários confetes brancos do teto, que lembram flocos de neve. A intensidade da música
abaixa e ela vai ficando mais lenta. A quantidade de confetes aumenta. A imagem vai
banca aos poucos, até sumir. Aparece água, caindo por uma pia. Elói está sozinho no
banheiro, enxaguando o rosto. Ele olha para o espelho. Dá mais uma enxaguada no
rosto. Olha de novo pro espelho.

Elói: Puta, que merda está acontecendo?

Vê-se Elói de costas por um outro espelho. Ele se vira e vai em direção ao
mictório, abaixo do espelho. Elói abre o zíper e começa a urinar. A imagem desce até o mictório, onde se vê o líquido amarelado caindo . Aparece um líquido amarelado, de cor semelhante, sendo derramado dentro de um copo. Elói está sentado no balcão do bar do salão. Na sua frente há um copo de cerveja. Elói está cabisbaixo, olhando para o copo. Ao lado dele está um casal lésbico, com pouca roupa, se abraçando e se beijando intensamente. Ele dá um suspiro e olha para a festa que ainda ocorre no salão. Jim e Calvin estão acompanhados com duas garotas. Ele olha mais uma vez para o copo. Olha para o relógio, se levanta do balcão, põe novamente sua máscara, pega sua capa, que estava no outro banco, a segura com uma das mãos sobre as costas e começa a andar pelos cantos do salão. O salão já está mais vazio. Têm agora cerca de 50 pessoas. A maioria delas está sorrindo e se divertindo. Elói começa a andar em direção à porta principal. Sai do grande salão onde está havendo o baile e entra numa câmara menor, onde à frente há uma enorme porta de vidro. Sua capa está arrastando pelo chão, quando um belo pézinho feminino, vestido com uma sandália branca, pisa na capa e a segura. Elói olha para trás e vê Bebê. A garota está com os cabelos soltos, vestindo somente um corpete de Tarlatana rosa e uma calcinha grandona, que parece uma fraldona.

Bebê: Oi.

Eles ficam frente à frente. Ao fundo tem uma faixa no alto da parede
escrito: "Os Bons Amigos Sempre se Encontram". Conforme eles começam a
conversar, vão andando em direção à rua.

Elói: Oi.
Bebê: Hum... Você parece que não está se divertindo. Gosta de Carnaval?
Elói: Só quando estou em depressão.
Bebê: Isso é que é sinceridade! Ontem você estava melhor.
Elói: E você? Veio ser feliz aqui?
Bebê: Eu só vim pra procurar você.
Elói: Hum... bom, já achou!

Bebê aproxima e abraça Elói. Eles já estão numa rua escura e sem
pessoas.

Elói: Ei, você acha que eu sou um cara fácil?

Bebê levanta a máscara de Elói até sua testa, põe suas mãos no pescoço
do rapaz, fecha os olhos e dá um beijo na boca dele, que não reage. Ela termina o beijo,
abre os olhos e olha para Elói com aqueles olhos brilhantes.

Elói: É, você acertou!

Elói à abraça forte e começa a beijá-la. A capa de Elói por fim cai
no chão, entre os pés dos dois. Elói ergue o pé e pisa na capa. Os pés do Bebê começam a esfregar nos pés dele. A imagem sobe mostrando ambas pernas (de Bebê e Elói ), os corpos bem juntos, a mão direita de Elói envolvendo a cintura de Bebê, os dois braços de Bebê abraçando Elói na altura do pescoço, a mão esquerda de Elói deslizando por entre os cabelos escuros de Bebê e ambos os rostos se beijando, com os olhos fechados.
Elói começa a descer a boca para o pescoço de Bebê e começa a dar vários beijinhos.

Elói: Por favor, não feche os olhos....
Bebê: Hum..?
Elói: Quando beijar... Não feche os olhos.

Bebê está de olhos abertos. Elói começa a beijar a bochecha do Bebê. Vai subindo e beija o nariz com um beijinho simples e depois com uma chupada como quem chupa sorvete. Os lábios de Elói sobem até a testa. Ele dá um beijo e começa a descer para o olho. Dá um leve beijo na sobrancelha e em seguida na pálpebra. Elói olha para o Bebê. A garota está olhando firme nos olhos de Elói, que dá outro beijo na pálpebra, olha para aquele belo olho azul, franze a testa, mexe os lábios e como que num empurrão, dá um intenso beijo na íris do olho.
Elói não pára de beijar. Por trás de seu pescoço, as belas mãos de Bebê começa a enrijecer os dedos. A garota começa a apertar os lábios, franzir a sobrancelha e soltar uns pequenos gemidos, como se sentisse dor. Um relâmpago rasga o céu, clareando toda a cena. Pelo pescoço de Elói começa a escorrer uma gota de sangue. Bebê dá um gemido alto e empurra Elói, que cai no chão. Vê-se as pernas de Bebê, por trás. Por entre elas, vê-se Elói, um pouco mais à frente, caído na sarjeta. Uma enorme gota de sangue cai no chão.
Elói passa a mão na sua boca que está toda suja de sangue. Segura alguma coisa entre as mãos e abre bem os olhos, assustado. Aos poucos vai levantando sua cabeça, pra olhar o Bebê. A garota está com as mão cobrindo o rosto, todo ensangüentado. O pescoço, o tronco, os braços e pernas estão todos cobertos por fios de sangue.

Elói: Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh!!!!!!!

Bebê cai no chão. Em meio à poça de sangue, começa a sair do corpo da garota uma estranha névoa azul. O sangue vai escorrendo sem parar pela calçada. O corpo da garota começa a se deformar e a névoa aumenta cada vez mais.
Elói se levanta aos tropeços e sai correndo. Subjetiva do olho dele mostra uma imagem trêmula, sem cor e desfocada. Só se vê o caminho da rua, que Elói faz, indo cada vez mais rápido. Mais clarões de relâmpagos ressoam do céu. A chuva começa a cair, bem forte.
No local onde Bebê caiu, só se vê a névoa azul. Começa-se a seguir o caminho da névoa, que vai subindo pelas paredes do prédio, pelas janelas, até parar sobre um cartaz no qual está desenhada uma rosa azul, que começa a soltar as pétalas pelo ar. A imagem se torna uma mistura de névoa e pétalas azuis que voam no ar.
Em meio à neblina azul aparece uma cruz. Reaparece o mesmo cemitério do começo. As duas pessoas com capuz ainda estão andando por entre os túmulos, cheios de névoa. Bebê levanta sua cabeça e podemos ver parcialmente seu rosto, dentro do capuz.

Bebê: E assim tudo aconteceu... Novamente eu me desprendi do tempo de do espaço.
Heathcliff: Eu sempre achei mesmo que o tempo era uma invenção.
Bebê: Ah, pára com isso.

Uma outra pessoa encapuzada ( Mona ) sai de trás de uma árvore e começa a acompanhá-los.

Heathcliff: Olá!
Bebê: Oi.

Mona apenas faz um gesto com a cabeça.

Bebê: Gostei da sua boca. Você está rindo ou sorrindo??
Mona: Nunca descobriram!

As três figuras continuam andando pela ruela do cemitério. A névoa vai aumentando e a imagem escurece.
No escuro, ouve-se uma batida de porta. De repente, a luz acende. Vê-se um pequeno quarto, com uma cadeira, uma mesa, um guarda roupa e uma porta, a qual há alguém batendo.

Calvin: Elói!!! Você não vem pro baile???
Jim: Vamos lá! É Carnaval, meu chapa!!

Então vê-se Elói sentando-se na cama.

Elói: Não, obrigado! Hoje eu não vou.

Aparece Calvin e Jim, do lado de fora. O primeiro está de absorvente, o segundo está de mago.

Calvin: OK, você que sabe. Vamos nós!
Jim: E vamos rápido, que já estamos atrasados, pra variar!

Elói se levanta, vai até o guarda roupa, abre a porta e retira uma pequena caixa de madeira. Senta-se na cadeira, põe a caixa em cima da mesa. Abre a caixa e aos poucos, começa a surgir um sorriso no seu rosto, ao mesmo tempo que seus olhos ficam marejados.
Dentro da caixa, vê-se apenas um globo ocular, com a íris de cor azul. A tampa da caixa se fecha lentamente e a imagem escurece.


"O bebê de Tarlatana Rosa"


- Fim da Parte I -

Argumento: David Ribeiro

25/03/01