Há uma espessa
névoa azulada. Conforme se adentra por ela, aparecem estátuas
de gesso distorcidas, escuras, com expressões tristes, de abandono
e melancolia. Aparece, então, no meio da névoa, uma
Lua azulada, estática. Aproxima-se cada vez mais dela, e à
medida que se faz, a bela Lua se torna mais e mais azulada até
que vai se transformando em uma íris de um olho azul.
Continua se aproximando, até que, por fim, entra-se dentro
dele, através da negra pupila. A cor negra se torna um céu
escuro, nublado. É noite. Descendo do céu, em direção
ao chão, aparece um grande muro, com um enorme portão
antigo de grade ao centro. Avança-se na direção
dele, que imediatamente se abre e ao entrar, vê-se que dentro
há vários túmulos, com muito neblina por entre
os mesmos e uma luz fraca e azulada que vem do céu.
Percorre-se as ruas do cemitério com uma vista um pouco acima
do olhar. Há duas pessoas andando por uma rua. Ambas estão
de capa preta e capuz. Não é possível ver seus
rostos. As duas figuras estão em um passo um pouco lento.
Bebê: Sempre
tem esse cheiro de morte por aqui?
Heathcliff: Ao menos quando os podres drogados não estão
aqui. Mas a Morte é uma preocupação dos vivos.
Bebê: E uma lembrança de renascimento aos mortos.
Heathcliff: Como chegaste aqui?
Bebê: Vim por uma trágica poética. Algo além
de um Carnaval...
A imagem escurece.
Nada se vê. De repente a cor negra vai tomando forma de uma
bunda. Aparece então uma garota gorda, com calça preta,
que vai sambando e se distanciando da câmera. Ela se encontra
num belo salão de festas, onde há umas 300 pessoas,
todas sambando, de máscaras, roupas coloridas e muito confete
e serpentina. Está todo mundo gritando histérico. Alguns
dançam desequilibrados devido ao estado alcóolico. De
repente uma moça fantasiada de "franga" sai do meio
da multidão e joga uma bela e suculenta maçã
para cima. Ela roda duas vezes no ar. Numa rua de paralelepípedos,
com água suja escorrendo, cai uma maçã podre
e já mordida. Aparece então uma ruela, com casas antigas,
simples e um terreno abandonado, onde há uns 30 metros há
uma esquina. Na rua há umas 10 pessoas, todas cambaleando de
bêbadas. Encostadas num paredão, estão três
prostitutas, mascando chiclete e batendo o pé, todas sorridentes.
Na esquina, em um muro de uma das casas, sobe aos poucos a sombra
de três homens que se aproximam pela outra rua. Logo ouve-se
as risadas e então dobram a rua três homens jovens, aparentando
19 anos. Um de palhaço, com uma roupa toda colorida (Calvin),
outro, um gordo, maquiado de Pierrô e com boina (Jim) , e o
terceiro, com uma máscara nos olhos, um fraque e uma capa preta
(Elói). Os dois primeiros, logo olham as prostitutas.
Calvin: Há
algo de belo nas ruas do Rio.
O segundo personagem
retira a boina.
Jim: Sem boina
então... Melhor ainda!
Calvin: Avante soldados!! O primeiro que guardar a chave, alcança
a felicidade!
Os dois personagens
avançam em direção às prostitutas e começam
a se esfregar nelas, que correspondem. Elói, o homem de capa,
fica parado. Entorta os lábios para o lado, coça os
cabelos, cruza os braço e começa a dar pequenos passos
para o lado, cabisbaixo. Começa então a andar muito
devagar. Duas pessoas passam por ele gritando e ele levanta lentamente
a cabeça. Tem-se a visão dos olhos dele. Conforme a
cabeça vai levantando, aparecem duas sandálias brancas,
uma meia calça de rede, envolvendo belas pernas, uma saia prateada,
ao lado uma bolsa de couro preta, dois braços com pulseiras
prateadas, uma blusinha preta, seios médios, ombros claros,
sendo que em um deles há cabelo negro liso caído até
a altura do seio, um pescoço claro, um rosto comum, uma bela
boca com batom vermelho, dois brincos de lua minguante nas orelhas,
um belo nariz pontudinho e pouco acima, um belo par de olhos azuis
brilhantes e marejados. O cabelo é liso, escuro e vai até
o meio das costas, a pele clara e uma aparência de 16 anos.
Aparece novamente o rosto do jovem. Ele está de boca aberta.
A bela garota de olhos azuis está séria, olhando pra
ele. Ele se aproxima vagarosamente à ela.
Elói: Olá!
Você está sozinha?
Bebê: Sempre. Talvez você possa me ajudar... ?
Elói acena
afirmativamente com a cabeça. A garota segura o braço
dele e em seguida o abraça. Elói está olhando
fixo nos olhos dela.
Elói: Esses
olhos...
Bebê: O que eles têm?
Elói: São tão tristes... Tão ... Lindos!
A garota dá
um leve sorriso, já toda entrelaçada no jovem Elói.
Bebê: Como
é o seu nome?
Elói: É...
Ambos ouvem um
grito: "Elói!!" - É Calvin, que está
abraçado com duas prostitutas. Perto dele há um Escort
parado, com a porta aberta, e no volante, Jim, que dá risadas
sem parar.
Calvin: Vamos,
que a festa vai começar!
Elói olha
para a garota.
Elói: Vamos
com a gente?
Bebê: Humm... Não.
Ela solta Elói
e dá dois passos para trás.
Calvin: Vamos
rápido, Elói!!
Elói olha
para a garota.
Bebê: A
gente ainda se encontra por aí!
A garota vira
de costas e começa a andar. Ouve-se uma buzina. Elói
continua olhando para a garota indo embora. Ele se vira e começa
a andar em direção ao carro. Conforme ele anda, aos
poucos, a imagem escurece
Aparece um teto cinza. A imagem se abaixa seguindo a parede e em seguida
o chão, quando aparece uma cama, com Elói deitado nela.
Ele está só num quarto simples, com uma cama, um criado
mudo, uma mesinha e um guarda roupa. Ao lado direito da cama há
uma porta fechada. Ouve-se no quarto ao lado, um ranger de camas num
movimento contínuo e o bater da cabeceira na parede, fazendo
um "TUM! TUM! TUM!" que se acelera cada vez mais. Elói
está se revirando na cama, com o lençol pelos joelhos.
Ele se vira para a esquerda, para a direita e de bruço, quando
pára e abraça o travesseiro. Aos poucos, uma névoa
rala e azulada começa a cobri-lo. A névoa se torna mais
intensa e cobre toda a cena. Aparece uma estrada de terra e grama
cheia da mesma névoa. Há várias árvores
escuras e sem folhas nos lados da trilha. Elói está
de pijama, parado em pé no meio da estrada. Ele começa
a caminhar lentamente.
Ele pára de repente e olha para as árvores do lado.
Todas elas são escuras, mortas e distorcidas, e no lugar de
folhas, existem vários globos oculares, todos com a íris
de cor azul. Elói franze a testa. A névoa começa
a aumentar. Começa a se ouvir um canto lírico, que vem
de fora. No meio da névoa, um pouco adiante de Elói,
aparecem várias colunas gregas e caminhando entre elas um vulto,
com a forma de uma mulher, com um véu no corpo, que dança
no meio da névoa, até sumir.
Elói continua andando e de repente, à sua frente, aparece
uma caixão, com uma tampa de vidro, no chão. Elói
se aproxima e olha pra dentro. Aparece a vista de cima do caixão.
Dentro há um esqueleto, vestindo fraque e capa. A imagem começa
a ficar azulada e cada vez mais azulada.
Ouve-se um grito, ao mesmo tempo que Elói levanta-se rapidamente
em sua cama. Está tudo quieto. Aos poucos, ouve-se umas risadinhas
no quarto ao lado, som de buzinas de carro, que vem da rua, som de
rojões estourando no céu. Há uma luz clara de
sol que entra pela janela. Elói suspira fundo e se solta na
cama, encostando sua cabeça no travesseiro novamente.
Ele fecha os olhos, passa a mão pela testa e senta na cama.
Calça os chinelos, pega uma revista de quadrinhos japoneses
que há no criado-mudo, levanta-se e anda até uma porta
que há ao lado.
Ele entra e em seguida a porta se fecha. Aproxima-se vagarosamente
da porta, na direção do buraco da fechadura. Quando
finalmente chega-se à fechadura, a imagem começa a escurecer
e ouve-se apenas o barulho da descarga sanitária, que vai se
prolongando. Ainda com o barulho, aparece uma boca de bueiro na rua,
com enxurrada escorrendo pra dentro do mesmo. Então o som de
descarga pára. Segue-se o caminho da enxurrada, sobe-se pela
calçada de pedra molhada, até que se vê pés
de mesas e então, três pares de pernas de pessoas que
estão sentadas. Então sobe-se pela mesa e finalmente
aparece quem está sentado: Calvin, Elói e Jim -
Nesta ordem, da esquerda para a direita. Os três estão
num café. Está caindo uma leve chuvisco. Embora seja
dia, não há raios de sol. As mesas da calçada
ficam em uma parte coberta do café. Há mais umas cinco
mesas na calçada. Apenas mais duas estão ocupadas. Uma
com um casal e outra com um rapaz sozinho. Atrás deles há
uma placa, onde se vê escrito: "THE FRENCH COFEE!"
Elói está apenas com uma xícara de café.
Cabisbaixo, ele se concentra apenas em um desenho que está
rabiscando. Jim está comendo cerca de cinco panquecas. Calvin
está tomando um milkshake. Os três estão vestidos
com roupas simples, como calças jeans, camisetas, tênis.
Eles estão conversando, mas não se ouve suas vozes.
Aproxima-se da mesa e então, começa-se a ouvir a conversa.
Calvin: Pois é,
eu marquei cinco gols.
Jim: Que droga! Esse tubo de catchup deve estar entupido.
Elói olha
pra Jim, tira o tubo das mãos dele, dá um batida com
o fundo do
tubo na mesa e em seguida dá uma única e rápida
chacoalhada no tubo, que espirra
catchup na mesa do lado. Não se vê se acertou alguém.
Elói espreme todo o tubo
nas panquecas de Jim.
Jim: Há!
Perfeito!!
Calvin: Liga não.... Ele tá apaixonado...
Jim: O quê? Pela mina lá do beco? Tu nem falou direito
com ela!
Elói: Eu não falei porque... Não precisei.
Jim: Xii! Pra mim esse negócio de romantismo... Paixão...
Amor.... É tudo coisa de anjo!
Pra gente o que interessa é o sexo!
Calvin: Bom, o rosto da garota eu não vi... Mas até
que tinha uma bundinha daquelas
hein!
Elói faz
uma cara de zangado. Calvin se levanta e vai até o banheiro.
Elói pega
o tubo de catchup e espreme o resto no milkshake de Calvin. Jim coloca
um cigarro à
boca, mas não o acende. Elói se vira novamente para
seu desenho e aparece então a
figura. Ele está desenhando o rosto do Bebê. O lápis
estão agora desenhando a ponta
do nariz. Ouve-se o barulho de pingos de chuva.
Jim: Ih, parece
que a chuva vai recomeçar.
Elói: Ué? Sem querer ser chato, mas... Seu cigarro está
apagado!
Jim: Eu sei. Fumar é prejudicial à saúde!
Elói levanta
a cabeça e percebe que está começando a cair
pingos mais grossos
de chuva novamente. De repente, seu olhar pára. Ele está
olhando para alguma
coisa à sua frente. Do outro lado da rua há Lívia,
uma garota de casacão escuro, boina e
guarda chuva vermelho, que está com um bloco de desenho embaixo
do braço. No
bloco, está desenhado o rosto do Bebê e pouco abaixo,
na página de canson,
está escrito o título do quadro ("Bebê").
Elói está paralisado, olhando o desenho.
Lívia continua indo, pela calçada molhada, coberta pela
sombra das árvores, em
meio à chuva que começa a engrossar. Aos poucos, seu
guarda chuva vermelho vai
sumindo em meio às águas que caem.
Elói: Cara,
você acredita em surrealismo?
Jim: Aquele tipo de peixe?
Calvin volta
à mesa. Ele se senta e toma um gole do milkshake.
Calvin: Nossa,
como a qualidade daqui baixou de nível!!
Elói: Hã? Eu acho melhor nós sairmos de perto
da chuva antes que ela engrosse mais.
Eu não quero estar gripado hoje à noite!
Jim: Há! Há! Eu me lembrei uma vez que eu estava gripado
e saí com uma mina. No
meio do beijo, a coitada vira pra mim e diz: Nossa... Acho que engoli
seu chiclete!! Há!
Elói: Hã??!
Jim: Não entendeu? Eu não estava mascando chiclete!
Elói: Eghlrrh!!
A chuva começa
a engrossar. Algumas pessoas se levantam das cadeiras
e vão para dentro. Elói olha o papel que desenhou. Segura-o
com a mão, dá uma leve
amassada e joga-o na rua. O papel cai na forte enxurrada e vai boiando,
até cair pelo
esgoto. Então a imagem escurece.
A cor escura
se mexe. É a capa preta de Elói. Por trás da
capa aparece
o rosto de Elói. Ele está balançando-a na sua
frente. A imagem se afasta e aparece as
costas de Elói. A primeira imagem era a de um espelho. Elói
está novamente de fraque
e capa, mas desta vez está ajustando uma máscara ( destas
típicas de Carnaval ) no seu
rosto. Na parede atrás dele abre uma porta. Saem Calvin e Jim.
Calvin está fantasiado
de pênis e Jim está de "Chorona" (com uma toca
de banho e um camisolão).
Calvin: Vamos
rápido, estamos atrasados.
Elói: Está dando pra ver que sou eu?
Calvin: Bom, com a máscara... Não. E eu?
Elói: É, com essa fantasia de pênis aí...
Tá idêntico!!
Jim: Vamos logo!
Os três pegam suas coisas e saem pela porta. Quando a porta
é batida, a
mesma já se abre e aparece uma salão de bailes, não
muito bonito, porém enfeitado com
máscaras de Carnaval pelas paredes, bexigas e outros enfeites
do tipo. Há confetes e
serpentinas caindo por todos os cantos. Uma banda carnavalesca está
tocando e cerca de
150 pessoas estão tentando dançar. Do lado de fora do
salão, um táxi estaciona. Com
uma visão da parte debaixo do carro, vê-se o salão
do outro lado da rua. Ouve-se o
barulho da porta abrindo e em seguida um par de pés masculinos
com chinelo desce,
depois desce um par de sapatos creme e em seguida um par de sapatos
escuros e
engraxados, que logo após tocarem a rua e darem o primeiro
passo, são cobertos por
uma capa preta, que rasteja no chão. Dentro do salão,
Elói, Jim e Calvin acabam de
entrar no recinto.
Elói: Que
calor. Eu vou comprar alguma coisa para beber.
Jim: Bom, eu vou atrás de diversão.
Calvin: E eu vou soltar meus hormônios!!
Os três
se separam pelo salão. Vê-se o salão por cima,
com todos
dançando sob focos de luzes azul, branco e lilás. Lentamente
começa a cair sobre todos,
vários confetes brancos do teto, que lembram flocos de neve.
A intensidade da música
abaixa e ela vai ficando mais lenta. A quantidade de confetes aumenta.
A imagem vai
banca aos poucos, até sumir. Aparece água, caindo por
uma pia. Elói está sozinho no
banheiro, enxaguando o rosto. Ele olha para o espelho. Dá mais
uma enxaguada no
rosto. Olha de novo pro espelho.
Elói: Puta,
que merda está acontecendo?
Vê-se Elói
de costas por um outro espelho. Ele se vira e vai em direção
ao
mictório, abaixo do espelho. Elói abre o zíper
e começa a urinar. A imagem desce até o mictório,
onde se vê o líquido amarelado caindo . Aparece um líquido
amarelado, de cor semelhante, sendo derramado dentro de um copo. Elói
está sentado no balcão do bar do salão. Na sua
frente há um copo de cerveja. Elói está cabisbaixo,
olhando para o copo. Ao lado dele está um casal lésbico,
com pouca roupa, se abraçando e se beijando intensamente. Ele
dá um suspiro e olha para a festa que ainda ocorre no salão.
Jim e Calvin estão acompanhados com duas garotas. Ele olha
mais uma vez para o copo. Olha para o relógio, se levanta do
balcão, põe novamente sua máscara, pega sua capa,
que estava no outro banco, a segura com uma das mãos sobre
as costas e começa a andar pelos cantos do salão. O
salão já está mais vazio. Têm agora cerca
de 50 pessoas. A maioria delas está sorrindo e se divertindo.
Elói começa a andar em direção à
porta principal. Sai do grande salão onde está havendo
o baile e entra numa câmara menor, onde à frente há
uma enorme porta de vidro. Sua capa está arrastando pelo chão,
quando um belo pézinho feminino, vestido com uma sandália
branca, pisa na capa e a segura. Elói olha para trás
e vê Bebê. A garota está com os cabelos soltos,
vestindo somente um corpete de Tarlatana rosa e uma calcinha grandona,
que parece uma fraldona.
Bebê: Oi.
Eles ficam frente
à frente. Ao fundo tem uma faixa no alto da parede
escrito: "Os Bons Amigos Sempre se Encontram". Conforme
eles começam a
conversar, vão andando em direção à rua.
Elói: Oi.
Bebê: Hum... Você parece que não está se
divertindo. Gosta de Carnaval?
Elói: Só quando estou em depressão.
Bebê: Isso é que é sinceridade! Ontem você
estava melhor.
Elói: E você? Veio ser feliz aqui?
Bebê: Eu só vim pra procurar você.
Elói: Hum... bom, já achou!
Bebê aproxima
e abraça Elói. Eles já estão numa rua
escura e sem
pessoas.
Elói: Ei,
você acha que eu sou um cara fácil?
Bebê levanta
a máscara de Elói até sua testa, põe suas
mãos no pescoço
do rapaz, fecha os olhos e dá um beijo na boca dele, que não
reage. Ela termina o beijo,
abre os olhos e olha para Elói com aqueles olhos brilhantes.
Elói: É,
você acertou!
Elói à
abraça forte e começa a beijá-la. A capa de Elói
por fim cai
no chão, entre os pés dos dois. Elói ergue o
pé e pisa na capa. Os pés do Bebê começam
a esfregar nos pés dele. A imagem sobe mostrando ambas pernas
(de Bebê e Elói ), os corpos bem juntos, a mão
direita de Elói envolvendo a cintura de Bebê, os dois
braços de Bebê abraçando Elói na altura
do pescoço, a mão esquerda de Elói deslizando
por entre os cabelos escuros de Bebê e ambos os rostos se beijando,
com os olhos fechados.
Elói começa a descer a boca para o pescoço de
Bebê e começa a dar vários beijinhos.
Elói: Por
favor, não feche os olhos....
Bebê: Hum..?
Elói: Quando beijar... Não feche os olhos.
Bebê está
de olhos abertos. Elói começa a beijar a bochecha do
Bebê. Vai subindo e beija o nariz com um beijinho simples e
depois com uma chupada como quem chupa sorvete. Os lábios de
Elói sobem até a testa. Ele dá um beijo e começa
a descer para o olho. Dá um leve beijo na sobrancelha e em
seguida na pálpebra. Elói olha para o Bebê. A
garota está olhando firme nos olhos de Elói, que dá
outro beijo na pálpebra, olha para aquele belo olho azul, franze
a testa, mexe os lábios e como que num empurrão, dá
um intenso beijo na íris do olho.
Elói não pára de beijar. Por trás de seu
pescoço, as belas mãos de Bebê começa a
enrijecer os dedos. A garota começa a apertar os lábios,
franzir a sobrancelha e soltar uns pequenos gemidos, como se sentisse
dor. Um relâmpago rasga o céu, clareando toda a cena.
Pelo pescoço de Elói começa a escorrer uma gota
de sangue. Bebê dá um gemido alto e empurra Elói,
que cai no chão. Vê-se as pernas de Bebê, por trás.
Por entre elas, vê-se Elói, um pouco mais à frente,
caído na sarjeta. Uma enorme gota de sangue cai no chão.
Elói passa a mão na sua boca que está toda suja
de sangue. Segura alguma coisa entre as mãos e abre bem os
olhos, assustado. Aos poucos vai levantando sua cabeça, pra
olhar o Bebê. A garota está com as mão cobrindo
o rosto, todo ensangüentado. O pescoço, o tronco, os braços
e pernas estão todos cobertos por fios de sangue.
Elói: Aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh!!!!!!!
Bebê cai
no chão. Em meio à poça de sangue, começa
a sair do corpo da garota uma estranha névoa azul. O sangue
vai escorrendo sem parar pela calçada. O corpo da garota começa
a se deformar e a névoa aumenta cada vez mais.
Elói se levanta aos tropeços e sai correndo. Subjetiva
do olho dele mostra uma imagem trêmula, sem cor e desfocada.
Só se vê o caminho da rua, que Elói faz, indo
cada vez mais rápido. Mais clarões de relâmpagos
ressoam do céu. A chuva começa a cair, bem forte.
No local onde Bebê caiu, só se vê a névoa
azul. Começa-se a seguir o caminho da névoa, que vai
subindo pelas paredes do prédio, pelas janelas, até
parar sobre um cartaz no qual está desenhada uma rosa azul,
que começa a soltar as pétalas pelo ar. A imagem se
torna uma mistura de névoa e pétalas azuis que voam
no ar.
Em meio à neblina azul aparece uma cruz. Reaparece o mesmo
cemitério do começo. As duas pessoas com capuz ainda
estão andando por entre os túmulos, cheios de névoa.
Bebê levanta sua cabeça e podemos ver parcialmente seu
rosto, dentro do capuz.
Bebê: E
assim tudo aconteceu... Novamente eu me desprendi do tempo de do espaço.
Heathcliff: Eu sempre achei mesmo que o tempo era uma invenção.
Bebê: Ah, pára com isso.
Uma outra pessoa
encapuzada ( Mona ) sai de trás de uma árvore e começa
a acompanhá-los.
Heathcliff: Olá!
Bebê: Oi.
Mona apenas faz
um gesto com a cabeça.
Bebê: Gostei
da sua boca. Você está rindo ou sorrindo??
Mona: Nunca descobriram!
As três
figuras continuam andando pela ruela do cemitério. A névoa
vai aumentando e a imagem escurece.
No escuro, ouve-se uma batida de porta. De repente, a luz acende.
Vê-se um pequeno quarto, com uma cadeira, uma mesa, um guarda
roupa e uma porta, a qual há alguém batendo.
Calvin: Elói!!!
Você não vem pro baile???
Jim: Vamos lá! É Carnaval, meu chapa!!
Então
vê-se Elói sentando-se na cama.
Elói: Não,
obrigado! Hoje eu não vou.
Aparece Calvin
e Jim, do lado de fora. O primeiro está de absorvente, o segundo
está de mago.
Calvin: OK, você
que sabe. Vamos nós!
Jim: E vamos rápido, que já estamos atrasados, pra variar!
Elói se
levanta, vai até o guarda roupa, abre a porta e retira uma
pequena caixa de madeira. Senta-se na cadeira, põe a caixa
em cima da mesa. Abre a caixa e aos poucos, começa a surgir
um sorriso no seu rosto, ao mesmo tempo que seus olhos ficam marejados.
Dentro da caixa, vê-se apenas um globo ocular, com a íris
de cor azul. A tampa da caixa se fecha lentamente e a imagem escurece.
"O bebê de Tarlatana Rosa"
- Fim da Parte I -
Argumento: David
Ribeiro
25/03/01