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Uma mão
segurando um crucifixo. De joelhos um homem negro permanece calado.
Ele está dentro de uma cela com as grades abertas. Dois oficiais
fardados estão plantados na porta; um deles é branco,
loiro e forte, ou outro também é branco, alto, de cabelos
pretos, juntos a eles está mais um homem, branco, de idade
aproximada 60 anos. Dentro da cela vê-se apenas duas camas paralelas
encostadas na parede e bem arrumadas, a parede ao fundo é branca
e não possui nenhuma janela. De pé um senhor de aproximadamente
60 anos, vestido de batina preta, segurando um crucifixo, reza em
voz baixa:
- Senhor que estais no céu, santificado seja teu nome...
O crucifixo que o padre segura é refletido no olho do homem
ajoelhado. Em sua face não se obtém nenhuma reação,
seu olhar é fixo em algum lugar na parede. Sua fisionomia está
magra, ele aparenta cerca de 28 anos, ele está com a cabeça
raspada, vestindo um macacão laranja com o número 666
estampado no peito. O padre ergue o crucifixo em direção
a cabeça do homem ajoelhado, este continua com o seu olhar
vago, a voz do padre ao fundo:
- Em nome do pai...
Os olhos do homem negro começam a movimentar-se, a imagem fica
turva, a cena fica cinza. Um quarto escuro com uma mulher branca,
cabelos loiros, coberta de sangue deitada na cama, imagens confusas,
gritos, o quarto esta escuro dificultando a identificação
de detalhes, gritos de crianças ao fundo, o homem negro aparece
segurando uma escopeta calibre 12, ele volta-se para as crianças
e aponta a arma.
A imagem volta ao normal, as cores voltam, os olhos do homem negro
continuam a movimentar-se incessantemente. Ao fundo o padre fala:
-... do filho...
A imagem fica turva e cinza novamente, o quarto escuro novamente,
as duas crianças chorando, o clarão do tiro, uma das
crianças cai, o choro da outra continua, outro tiro, o silêncio
impera.
A imagem volta ao normal, o homem negro ajoelhado, os olhos agitados,
e ao fundo o padre:
-... e do Espírito Santo...
A imagem volta a ficar turva e cinza, um tribunal lotado, todos estão
de pé. Um homem, branco, de aproximadamente 40 anos, com um
papel na mão ao lado de mais seis pessoas, todas brancas, lê
o que está escrito em voz alta:
- Consideramos Michael Wallace culpado pelo crime de triplo homicídio.
A sua pena será a morte, sua execução será
realizada através da injeção letal, com testemunhas
presentes, às 23:00 horas do dia 30 de Julho de 2000.
Michael de pé, olha para o nada. Sua expressão é
vaga, seus olhos se movimentam.
A imagem volta ao normal, na cela, vê-se os olhos de Michael
fixarem no crucifixo na mão do padre, que fala ao fundo:
-...Amém.
O homem branco, que está entre os dois policiais na porta da
cela, observa o final da extrema-unção de Michael. No
momento em que o padre fala amém. O homem abaixa a cabeça
lentamente, coça a vista por baixo dos óculos, a imagem
começa a ficar cinza, a cena do julgamento de Michael no momento
que a sentença é lida reaparece, Michael esta de pé
e por cima do ombro dele vê-se o professor Gustaffson de pé
na primeira fileira do auditório, ele abaixa a cabeça
fazendo o gesto de reprovação. A imagem volta ao normal,
o professor continua a observar Michael sentado na cama, com o padre
a sua frente, o professor suspira, a imagem fica cinza novamente,
o professor Gustaffson aparece dando aula, para uma sala cheia de
alunos. Ele está de pé, virado para a lousa falando,
ouve-se a porta da sala bater, ele vira-se para a sala e aponta para
Michael, jovem, com idade de aproximadamente 17 anos, que está
entrando. O professor pergunta ao aluno que entra, Michael responde,
o professor ainda faz um ultimo comentário:
- Quem começa chegando atrasado, muito longe não vai.
A imagem volta ao normal, o professor esboça um leve sorriso.
A imagem volta a ficar cinza, o professor está sentado em sua
mesa entregando provas, ele chama Michael e entrega a ele, e pergunta:
- O que você me diz disso?
Na prova vê-se a nota 10 estampada, Michael sorri e devolve
a prova, o professor também abre um sorriso. A imagem volta
ao normal, os olhos do professor observam ao aluno sentado na cama
dentro da cela, ele fecha os olhos emocionadamente, a imagem volta
a ficar cinza, a cena é da formatura de Michael, o professor
Gustaffson está no palco e faz a convocação:
- Gostaria de chamar o presidente e orador da turma... Michael Wallace!
Todos os que acompanham
a cerimônia aplaudem a Michael de pé, este se dirige
ao palco agradece aos presentes, o professor Gustaffson lhe entrega
o canudo, Michael recebe, e estende a mão para cumprimentar
o professor, este lhe pega pela mão, e o puxa dando-lhe um
forte abraço.
A imagem volta ao normal, o professor fixa os olhos em algum ponto
da parede dentro da cela de Michael, a imagem volta ficar cinza, o
professor está na mesa da cozinha com um jornal em sua frente
sobre a mesa, ele está tomando café, ao virar uma página,
ele assusta-se e derruba a xícara de café sobre o jornal.
Ele limpa o café derramado sobre o jornal com as mãos,
preocupando-se especialmente em limpar a manchete, que diz:
"Advogado de sucesso mata mulher e os dois filhos".
No jornal aparece estampada a foto de Michael. A imagem volta ao normal,
o professor está parado frente à cela entre os dois
guarda, o padre sai da cela e passa entre eles.
O Padre sai da cela. Dentro dela esta Michael, em silêncio sentado
na cama olhando para um ponto fixo na parede. O professor entra na
cela, senta-se na cama em frente a Michael e lhe chama:
- Michael, Michael!
Michael continua a olhar para um ponto fixo na parede. O professor
volta a chamar:
- Fale comigo! Vamos! Sou eu Gustaffson.
Michael permanece estático, nulo. Os guardas na porta da cela
apenas observam a cena. O professor tenta uma última vez falar
com Michael:
- Michael, meu amigo, o que há, fale algo!
Michael continua sem reação. O professor levanta-se
da cama e sai da cela, para em frente à porta, de costas para
a cela, e coça a vista por baixo dos óculos. Os guardas
fecham a porta da cela. Michael continua sentado dentro da cela, quieto,
olhando para o nada.
O professor começa a andar, acompanhado pelos dois guardas,
um pouco mais atrás, em direção ao final do corredor
da ala que comporta a cela de Michael. Nesta ala existem 10 celas
todas postadas de um só lado, a cela de Michael é a
última do corredor. O professor e os guardas passam através
da ala, que está vazia, apenas três celas contém
presos, todos estão deitados, um dos presos é branco
loiro, e conforme o professor passa em frente a sua cela, ele levanta-se
e senta-se na cama apenas observando ao professor. Os outros dois
presos estão deitados, cobertos dos pés a cabeça,
o professor os observa e escuta barulho de choro vindo das duas celas.
O professor continua andando sem parar, acompanhado pelos guardas,
em silêncio, até que o guarda loiro fala:
- Não falei para o senhor, ele está assim faz dias,
não fala nada, a não ser...
O outro guarda o cutuca com o cotovelo, e olha para ele em sinal de
repreensão. O professor percebe a interrupção,
e pergunta:
- A não ser o que?
Os dois guardas entreolham-se, e o loiro responde:
- Nada.
O professor o indaga:
- Nada?
O guarda respira fundo e responde:
- Eu ia falar, a não ser que ele esteja com dor de garganta.
O professor para de andar, olha para os guardas, abaixa a cabeça
e faz um sinal de negativo, vira-se e segue a andar até o final
do corredor. Eles param em frente à porta que está fechada.
O guarda moreno tira o cacetete da bainha e bate na porta, falando:
- Pode abrir.
A porta se abre, e o professor sai por ela acompanhado pelos dois
guardas. A porta se fecha.
O Professor acompanhado pelos dois guardas segue pelos corredores
da prisão, até chegar a sala de espera das testemunhas,
é uma sala média, com três sofás, formando
um "U" e uma pequena mesa de centro, e uma máquina
de café expresso no canto. Na sala estão mais cinco
pessoas, duas mulheres, e três homens, todos brancos.
Dois homens: um branco, forte, alto, cabelos pretos e barba, aproximadamente
34 anos, vestido de camisa polo e calça jeans, conversa com
outro, de cabelos grisalhos, óculos, aproximadamente 55 anos,
vestido de camisa e calça sociais, ambos estão sentados
num dos sofás. As duas mulheres, uma loira de aproximadamente
38 anos, de vestido amarelo. Conversa com a outra mulher, uma senhora
de aproximadamente 50 anos, gordinha, de vestido preto, cabelos mal-pintados,
e expressão facial fechada. No canto da sala falando ao celular
um homem de aproximadamente 45 anos, branco, cabelos loiros. Vestido
de terno azul muito fino, o professor o reconhece, é o advogado
de Michael, ele segue para falar com ele. O advogado percebe a aproximação
do professor e levanta a mão esquerda em sinal de cumprimento,
enquanto ainda fala ao telefone:
O professor pára e assiste a cena, prendendo sua atenção
na voz do advogado que fala animadamente ao celular:
- Exatamente, Alyssa. As contas da Davidson Enterprises, tanto quanto
as da Milano e Nutty estão sendo transferidas para nós
agora.
O advogado com um gesto indica ao professor que em um minuto falará
com ele.
- Agora é minha chance! Você liga para Houston, hoje,
para trazer essas contas para mim ainda essa semana. Ok.
- Tudo certo então!
O Advogado desliga o telefone e volta-se para falar com o professor:
- Professor que bom revê-lo
O professor lhe responde:
- Pena que é numa situação dessas.
O advogado com desdém responde:
- O que se pode fazer. Tenho a consciência limpa de que fiz
o possível.
O Professor olha para o advogado estranhando o desdém com o
qual ele trata da situação.
O Advogado ainda completa:
- E além de tudo, Gustaffson, justiça foi feita.
O professor tenta disfarçar a surpresa pela qual passa com
o que o advogado fala, e lhe pergunta:
- Você tem falado com Michael?
O advogado mantendo o desdém responde:
- Não, desde o dia do julgamento.
O professor lhe indaga:
- Você sabia que ele não fala com ninguém, praticamente
catatônico.
O advogado olhando no celular em busca de um número responde:
- Sei sim, me informaram a situação.
O professor, confuso pergunta:
- Você tem alguma idéia do que pode ter acontecido para
que ele esteja numa situação dessas?
O advogado, acha no celular o número que procura e abre um
leve sorriso, volta-se para o professor e fala:
- Não sei, mas para mim sinceramente o que está acontecendo
com ele é culpa, remorso pelo que ele fez. Agora se o senhor
me dá licença tenho uma ligação importante
para fazer.
O Professor balança a cabeça em sinal de positivo, pede
desculpas, e segue na direção da porta da sala de espera.
Abre a porta e fala com dois guardas, um branco alto de cabelos pretos
de aproximadamente 30 anos. E outro também branco, cabelos
castanhos, um pouco mais baixo que seu companheiro, de aproximadamente
23 anos, que fazem vigia na porta e lhes pergunta:
- Eu poderia falar com o diretor do presídio?
O guarda mais velho responde:
- Só um momento, pois teremos que chamar um guarda para acompanhá-lo
até o diretor.
O guarda tira o walk-talk que está preso a cintura e fala:
- Poderiam mandar um oficial até a sala das testemunhas para
acompanhar um visitante até o diretor.
Do outro lado a resposta:
- O Guarda Dale está a caminho.
O policial guarda
o walk-talk e dirige-se ao professor:
- O senhor pode voltar para a sala, e assim que ele chegar eu o chamo.
O professor agradece e volta para a sala, fechando a porta.
O professor encosta-se na parede próxima a porta e cruza os
braços esperando pelo policial que vai acompanha-lo, ele observa
a todos na sala, abaixa a cabeça, puxa um pouco a manga da
camisa e olha no relógio, são 19:25. Um homem branco,
de aproximadamente 30 anos, vestindo camisa social e calça
jeans entra na sala, o professor o reconhece, é o policial
que prendeu Michael, Richard, o professor dirige-se para falar com
ele. O homem se acomoda no sofá que estava vazio, arruma a
camisa, ele nota a aproximação do professor e com um
gesto leve cumprimenta o professor, que o também responde e
lhe indaga:
- O oficial lembra-se de mim?
O policial faz um gesto de positivo com a cabeça e fala:
- O doutor estava no julgamento.
O advogado senta-se no sofá ao lado do policial:
- O oficial foi quem prendeu Michael. Recorda-se de algo de diferente
nas atitudes dele no momento?
O policial faz uma leve pausa. A imagem começa a ficar turva
e cinza, o policial acompanhado por um outro oficial entram no quarto.
Em cima da cama coberta de sangue esta a esposa de Michael, no chão,
cobertas de sangue, próxima uma da outra estão os dois
filhos de Michael. No canto do quarto está Michael observando
a cena, ajoelhado, falando palavras indecifráveis, lágrimas
correndo pelo rosto, e balançando-se para frente e para trás.
O Policial chocado pela atrocidade da cena corre empunhando sua espingarda
em direção a Michael, e com o cabo bate violentamente
no rosto de Michael, que cai no chão desacordado e com supercilho
sangrando, o policial ainda cospe em cima de Michael. O policial agressor
olha para Michael deitado desacordado no chão e fala:
- Crioulo assassino.
O parceiro de Richard olha assustado para a cena. A imagem volta ao
normal. O policial responde:
- Não, nada de anormal.
O professor insiste:
- Tem certeza?
O policial demonstrando um certo incômodo responde rispidamente
ao professor:
- Tudo que eu tinha para falar, já reportei no meu relatório.
O professor agradece
com um movimento de cabeça, levanta-se do sofá e volta
a recostar-se na parede cruzando os braços. O policial sentado
no sofá, olha para o advogado no canto da sala falando ao telefone,
que se volta para ele e faz um sinal de positivo com a cabeça.
A porta da sala se abre e um dos guardas que faz campana na porta
da sala entra e chama pelo professor:
- Doutor, o guarda designado para acompanha-lo até a sala do
diretor chegou.
Todos na sala observam ao professor saindo da sala. Nicolai e Richard
entreolham-se.
O professor sai da sala e o guarda que o chamou fecha a porta, enquanto
o outro guarda que também faz campana na porta apresenta o
oficial que vai acompanhá-lo.
- Este é o guarda Dale.
O professor o cumprimenta com um leve movimento de cabeça,
o guarda responde da mesma maneira. Os dois saem andando pelo longo
corredor lado a lado, o silêncio só é quebrado
pelos passos dos dois homens. Eles chegam a sala do diretor e são
recebidos por uma secretária, sentada na mesa em frente à
porta da sala do diretor que lhes pergunta:
- O que desejam?
O guarda Dale responde:
- Este é o senhor que gostaria de falar com o Dr. Wilson.
A secretária faz com a cabeça sinal de positivo, e através
do intercomunicador, situado em cima da mesa, entra em contato com
o diretor:
- Diretor Corbay?
Através do intercomunicador ouve-se uma voz ríspida:
- O que?
A secretária responde:
- O homem que gostaria de falar com o senhor está aqui.
O diretor, mantendo a rispidez na voz responde:
- Ok! Mande que ele entre.
A secretária levanta-se, abre a porta da sala para a entrada
do professor e do guarda.
Os dois entram na sala, que contém estantes com livros nas
duas paredes laterais, na parede de fundo, uma janela de onde é
possível se ver o pátio da prisão, e na parede
vê-se oito quadros, quatro deles contendo menções
honrosas, em outros três diplomas, e no oitavo quadro vê-se
uma foto.
Em frente à parede de fundo, está a mesa do diretor,
com duas cadeiras na frente, o diretor está sentado na cadeira
atrás da mesa, fumando um charuto e com um grande anel vermelho
no dedo menor da mão direita, mesma mão que ele segura
o charuto.
Sobre a mesa do
diretor, têm-se: o intercomunicador, uma pequena bandeira dos
confederados, um telefone preto, e dois porta-retratos, sendo que
em um deles a foto do diretor com sua esposa e três filhos,
e no outro a foto de uma turma de faculdade onde o diretor aparece
jovem, e onde é possível se ler os dizeres:
- "Princeton University, Turma de 1978".
O guarda Dale fica parado ao lado da porta que é fechada pela
secretária. O diretor indica com a mão para que o professor
sente-se em uma das cadeiras, o professor agradece e senta-se. O diretor
indaga ao professor:
- Em que posso ajudar o colega?
O professor ajeita-se melhor na cadeira e responde:
- Gostaria de falar-lhe sobre o rapaz que vai ser executado essa noite,
um ex - colega de ofício.
O diretor interrompe o professor rispidamente:
- Nunca fui amigo de assassino.
O professor com um leve movimento de cabeça mostra sua surpresa
pelas palavras do diretor, ajeita-se novamente na cadeira, demonstrando
certo desconforto pela atitude do diretor e fala, buscando evitar
conflito com o mesmo:
- Desculpe, mas esse não é o caso. Gostaria de saber
se o senhor sabe o motivo pelo qual Michael não fala com ninguém.
O diretor coça o queixo com a mão esquerda e responde
rispidamente:
- Não sei!
O professor volta a indagá-lo:
- O senhor não lembra mesmo de algo que tenha o levado a ficar
no estado em que se encontra?
O direto coloca o charuto na boca, a imagem começa a ficar
turva e cinza, na cena aparece Michael, vestindo a mesma roupa que
estava no tribunal, carregando nas mãos o macacão laranja
dobrado, algemado nas mãos e pés, e acompanhado por
dois guardas, chegando ao pátio principal da prisão
e sendo recebido pelo diretor que lhe fala:
- Crioulo comigo não tem vez, saiba que, a pedido de Nicolai,
vou cuidar bem de você, fazendo seus últimos dias na
Terra bem marcantes, preparando você muito bem para o inferno.
Michael abaixa a cabeça, depois volta a ergue-la e encara o
diretor, este também o encara, e fala:
- Algum problema negro?
Michael não responde, o diretor fala para os guardas:
- Leva esse crioulo para a solitária, para ele aprender a não
desafiar quem manda aqui.
A imagem volta ao normal, e o diretor responde:
- Não nada.
O professor prende
a sua atenção na foto que está na parede atrás
do diretor, na foto estão dois homens, sendo um deles o diretor
mais jovem, vestindo roupa de pesca, abraçado a outro homem,
e nas fotos os dizeres:
- "Lembre-se dos velhos tempos. Assinado: Nic".
O professor tem sua atenção quebrada pelo diretor que
lhe pergunta:
- O doutor necessita de algo mais?
O professor ajeita-se na cadeira, arruma a gravata e o terno, agradece
ao diretor e levanta-se. E começa a dirigir-se para a porta,
ele pára e volta-se para o diretor e pergunta:
- Michael tinha um colega de cela certo?
O diretor após dar um trago no charuto responde:
- Tinha sim, Brian, porque?
O professor coça a testa levemente e indaga:
- Será que eu poderia falar com ele?
O diretor ajeita o anel, olha para Dale parado ao lado da porta e
fala:
- Pode, o guarda Dale o acompanha até ele. Porém tome
cuidado com ele, é um estuprador assassino, crime típico
de um negro, não entendo como um branco faz isso, iguala-se
a essa raça.
O professor agradece e responde:
- Obrigado pela preocupação, mas eu sei me cuidar.
O diretor move a cabeça para trás em sinal de surpresa
pela rispidez do professor na resposta, olha para Dale e faz uma última
pergunta:
- Por que tanta preocupação com o crioulo.
O professor que estava voltado para porta, vira-se para o diretor
coça a testa e responde:
- Justiça.
O diretor olha para Dale, esse abaixa a cabeça e saí
da sala acompanhando o professor.
O professor e Dale andam pelo corredor em silêncio, ouvindo-se
somente os passos dos dois. Eles chegam a porta da ala que está
Brian, é a mesma que Michael. Dale fala com o guarda que faz
campana na porta:
- O doutor veio falar com Brian.
O guarda que de campana, faz sinal de positivo com a cabeça
e abre a porta, Dale e o professor entram na ala, e a porta atrás
deles fecha-se. Os dois andam pela ala até chegar a cela de
Brian. Ele está deitado, ao notar a presença dos dois
homens em frente à porta da cela que se abre, levanta-se e
senta-se na cama. Os dois homens entram na cela, e o professor apresenta-se:
- Meu nome é Prof. Steven Gustaffson.
Antes que o professor pudesse falar algo mais, Brian o interrompe
falando.
- O senhor estava vendo a extrema - unção do negão.
É amigo dele?
O professor faz sinal de positivo com a cabeça, senta-se na
cama situada a frente de Brian, e lhe pergunta:
- Você sabe de algo que tenha deixado Michael neste estado,
sem querer falar com ninguém, parecendo catatônico?
Brian com indiferença responde:
- Não, nada.
O professor encara Brian e lhe pergunta:
- Não mesmo?
Brian olha para Dale que está parado de pé na porta
da cela. A imagem começa a ficar turva e cinza, Brian está
deitado na cela. A ala está toda no escuro quando ele começa
a escutar um murmúrio, ele olha é Michael, que está
movimentando-se bruscamente na cama e falando coisas indecifráveis.
Michael levanta-se da cama e começa a gritar, dois guardas
correm pela ala e entram na cela. Quem os acompanha é o diretor
da cadeia. Os dois guardas dominam Michael segurando-o pelos braços,
o diretor defere murros no rosto e no estômago de Michael que
se curva desacordado. Durante os murros o diretor fala:
- Quando vai aprender a ficar quieto crioulo.
Michael, desacordado é jogado sobre a cama. O diretor volta-se
para Brian e fala:
- Volte a dormir marginal.
A imagem volta ao normal, e Brian fala:
- Não. Por que o senhor se importa. Ele é um maníaco.
O professor encara e indaga Brian:
- Por que ele é o maníaco? Pelo que eu sei você
também matou alguém.
Brian sorri ironicamente, e responde:
- Pelo menos eu não o fiz com conhecidos.
O professor ajeita o terno, passa a mão pelos cabelos brancos,
e fala ironicamente:
- Quanta nobreza.
Brian balança a cabeça em sinal de positivo, mantendo
o sorriso. O professor, volta a lhe perguntar:
- Por que você pediu para ser transferido?
Brian olha para Dale, a imagem começa a ficar turva e cinza
novamente, Brian está deitado à cela está escura,
a porta da cela abre-se e Michael carregado por dois guardas é
lançado sobre a cama, o diretor, enxugando as mãos em
um lenço entra na cela e indaga Brian:
- Soube que queria falar comigo.
Brian faz sinal de positivo com a cabeça e fala:
- Não quero mais dividir a cela com esse cara. Ele é
louco, só grita e anda sem mais nem menos.
O diretor interrompe Brian, bruscamente falando:
- Aqui você não tem nada o que querer.
Brian, abrindo um sorriso irônico e encarando o diretor fala:
- É verdade, mas acho que seria interessante aos direitos humanos
saber como vocês fazem o cara ficar quieto.
O diretor pegando Brian pelo pescoço o pressiona contra a parede
e fala:
- Está querendo me ameaçar seu merda. Quem você
pensa que é? Para mim você só não é
tão podre quanto ele por causa da sua cor.
Brian, sempre mantendo o sorriso irônico fala:
- Não estou querendo ameaçar, só quero oferecer
uma troca.
O diretor soltando Brian lhe pergunta:
- O que você quer?
Brian, passando a mão sobre o pescoço, tosse um pouco
e fala:
- Nada demais, só quero que me troque de cela, e que mexa os
pauzinhos para inverter minha pena de morte para perpétua.
O diretor coça os olhos, respira fundo e fala:
- Ok, eu troco você de cela, agora quanto à pena, o máximo
que posso fazer é com que seja prolongada a sua permanência.
Porém se você abrir o bico para alguém, faço
com que você seja executado antes dele.
Brian sorri ao diretor.
A imagem volta a ficar normal. Brian balança a cabeça
para o lado sorri ironicamente e responde ao professor:
- Não queria me misturar com essa raça. Ia pegar mal
para minha imagem.
O professor abaixa a cabeça e fazendo um sinal de negativo,
levanta-se e sai da cela, acompanhado por Dale. A porta da cela se
fecha, o professor vira-se para Brian dentro da cela e fala:
- Você parece muito calmo para alguém que em breve também
vai ser executado.
Brian mantendo o sorriso irônico fala ao professor:
- Sabe como é né doutor, as coisas mudam, às
vezes a morte não está tão próxima como
todos pensam.
O professor ajeita a gravata, e segue para sair da ala acompanhado
por Dale. Eles chegam ao final da ala, Dale bate na porta com o cacetete
e pede para que abram a porta, esta se abre e os dois saem da ala.
O professor Gustaffson, e Dale caminham pelo longo corredor logo após
a conversa com Brian. O professor balança a cabeça em
sinal de negativo, mostrando-se inconformado com a situação
de Michael. O professor retira um lenço do bolso e enxuga o
suor da testa e se pergunta:
- Como a natureza humana pode ser corrompida de tal forma?
Dale continua andando sem transparecer qualquer reação
a indagação do professor. Gustaffson pára sua
caminhada e pergunta a Dale:
- Como um advogado tão bem sucedido pode fazer o que fez? E
agora se encontrar nessa situação?
Dale também pára, olha para o professor e responde:
- Muitas vezes a culpa não é só do criminoso.
O professor encara Dale e o pergunta:
- Como você pode falar com tanta certeza?
Dale com segurança na voz responde:
- Convivo com criminosos no corredor da morte há muito tempo.
Entre eles os piores criminosos, com os crimes mais hediondos.
O professor continua surpreso encarando Dale que continua falando:
- Ás vezes é necessário observar o ambiente que
cerca a pessoa para que se possa entender aos seus atos.
O professor surpreso indaga a Dale:
- O que o oficial está querendo dizer com essas palavras?
Dale demonstra um certo nervosismo, começa a suar e responde
gaguejando:
- Nada doutor. É só uma opinião que eu tenho.
O professor nota o nervosismo de Dale e com maior veemência
indaga o guarda:
- Por que essa opinião? Não é somente pelo fato
da convivência com criminosos. Você sabe algo que possa
me ajudar a esclarecer a situação de Michael, não
sabe?
Dale nervoso e gaguejando cada vez mais responde:
- Não sei nada.
Dale começa a andar, o professor o segura pelo braço
e fala:
- Como você vai conseguir conviver com esta morte em sua consciência?
Esconder a verdade por medo?
O professor alterado continua falando:
- O que diabos acontece dentro desta penitenciaria? O que você
sabe e tem tanto medo de contar? Fale Dale, honre sua farda, seu juramento.
Seu bunda suja!
Dale sentindo-se pressionado pelo professor, gagueja, olha para os
dois lados para ver se estão sendo acompanhados e fala:
- O doutor sabe que o que eu vou falar pode custar meu emprego.
O professor irritado fala rispidamente:
- E você não falar pode valer uma vida.
Dale abaixa a cabeça. Coça a sobrancelha. Ergue a cabeça.
Olha para os dois lados buscando ver se estão sendo observados.
E fala em tom de voz baixo:
- Eu acompanho
este crime desde o princípio. Eu estava com Richard no dia
da prisão de Michael. Não posso negar que a cena me
horrorizou, nunca tinha visto algo igual em minha vida, tanta frieza.
Ver os corpos das crianças e da mulher estendidos. Sem vida.
E Michael ajoelhado no canto chorando, parecendo ao certo não
saber o que tinha feito, estava entregue. Apesar dos horrores cometidos,
ainda acho que a maneira a qual trataram Michael desde o dia da prisão
não é justificável. Nós não estamos
aqui para vingar ninguém, e sim para cumprir a justiça.
O professor se mostrando surpreso com as palavras de Dale lhe pergunta:
- O que fizeram com Michael?
Dale abaixa a cabeça e começa a falar:
- Fizeram com que ele ficasse quieto.
O professor rispidamente pergunta:
- Como?
Dale continuando com a cabeça abaixada sem encarar o professor
responde:
- No dia da prisão, Richard mesmo percebendo que Michael estava
entregue lhe agrediu de forma a deixa-lo inconsciente. Ainda cuspiu
nele.
O professor surpreso com a declaração de Dale lhe pergunta:
- Por que isso não fez parte do relatório de prisão?
Dale faz uma pausa e responde:
- O Dr. Nicolai falou que ele cuidaria do assunto.
O professor mostrando-se desnorteado pergunta:
- O advogado de Michael?
Dale suspira e faz apenas um sinal de positivo com a cabeça.
O professor ainda surpreso com as declarações de Dale,
pergunta:
- O que mais aconteceu com Michael?
Dale responde:
- Agressões, muitas agressões. Tanto raciais quanto
físicas.
O professor lhe indaga:
- Na cadeia, que ocorreram essas agressões?
Dale faz sinal de positivo com a cabeça. O professor lhe pergunta:
- E o diretor, o que fazia a respeito?
Dale ergue a cabeça, encara o professor e responde:
- Ele era o principal agressor.
O professor demonstrando irritação fala:
- Por que?
Dale responde:
- Não sei!Não sei.
O professor olha para o chão. Dale continua a andar, o professor
o acompanha.
Ouve-se o barulho das celas se abrindo. Michael está sentado
em sua cama. Ele está quieto. Está com seu olhar fixo
no chão. O diretor acompanhado de dois guardas entra na cela.
O Diretor olha para Michael, e sorrindo sarcasticamente fala:
- Chegou sua hora, negão!
Michael encara o diretor, este parte para cima de Michael e lhe defere
um forte soco na face. Michael recebendo o soco vira o rosto de uma
maneira a assimila-lo, e volta encarar o diretor. O diretor massageando
a mão após o soco. E se surpreende com a atitude de
Michael, e sai da cela. Vira-se para os guardas e fala:
- Tragam o morto.
Um dedo aperta a opção capuccino na máquina de
café. O copo desce e começa a ser preenchido. Após
o preenchimento do café, uma mão pega o copo e o traz
em direção a boca. Vê-se que quem segura o copo
é professor Gustaffson. Ele caminha em direção
ao sofá que está sentado Richard e senta-se ao lado
dele sem falar nada. A porta da sala se abre, um oficial entra na
sala e fala:
- Queiram me acompanhar até a sala de execução.
Todos na sala levantam-se e dirigem-se para acompanhar o oficial.
Pés algemados. Ouve-se apenas o barulho dos passos e do ranger
das correntes. As algemas dos pés estão presas a uma
corrente que segue até as algemas das mãos. Trajando
o macacão laranja com a numeração 666 está
Michael, que caminha a passos curtos. A sua frente está o diretor
e acompanhando ao seu lado estão os dois oficiais devidamente
trajados, empunhando pistolas.
Um oficial parado em frente a uma porta bate continência ao
diretor e aos dois oficiais que acompanham Michael. Ele abre a porta
da cabine de execução. Michael entra na cabine, acompanhado
pelos dois oficiais.
Na cabine de execução bem ao centro tem uma cama com
amarras para os braços, pernas e tronco. Há uma grande
janela de vidro onde é possível ver a sala de testemunhas.
Na sala de testemunhas, as cadeiras estão dispostas em três
fileiras de cinco cadeiras cada. O professor está sentado na
terceira cadeira da segunda fileira, ao seu lado está o advogado
de Michael, Dr. Nicolai. A porta da sala de testemunhas se abre, por
ela entra o diretor da prisão, que se dirige para cumprimentar
Nicolai. O advogado quando vê o diretor levanta-se e o cumprimenta.
Os dois se abraçam, e o diretor fala:
- Estou feliz por você. Parabéns pela promoção
Nic.
O professor escuta a conversa sem nada fazer. Nicolai e Corbay continuam
a conversar. Corbay pergunta:
- Como vai a família. Apareça lá em casa para
comemorarmos.
Nicolai sorri e agradece.
Na cabine de execução Michael é atado à
cama. O oficial posiciona-se à frente de Michael começa
a discursar:
- Michael Wallace, você foi julgado por um determinado juiz
sob as leis do estado do Texas. A sentença foi à pena
de morte. O qual ocorrerá através da injeção
letal.
Um médico portando uma seringa, estala com os dedos na agulha.
Ele injeta o líquido em Michael e fala:
- Michael Wallace, o líquido percorrerá as suas veias.
Este interromperá os seus batimentos cardíacos, eliminando
os seus sinais vitais. Causando assim a sua morte.
Enquanto o líquido é injetado em Michael, seus olhos
percorrem a todos os rostos na sala de testemunhas, passando lentamente
pelo rosto de Richard que o prendera, Nicolai seu advogado que o traiu,
e o Diretor Corbay que o agrediu. Os olhos de Michael fixam-se no
professor Gustaffson. O Professor e Michael se encaram, uma lágrima
escorre pela face de Michael. O professor fecha os olhos e abaixa
a cabeça lentamente.
Michael morre, estendido na cama. O médico, com o estetoscópio
e verifica os sinais vitais de Michael. Ele olha para o diretor, que
está na sala das testemunhas, e confirma a morte.
Dois oficiais partem para desatar Michael.
O portão da penitenciária se abre, e o professor Gustaffson,
e as demais testemunhas saem. O professor caminha sozinho deixando
os demais para trás. A imagem afasta-se do professor, que conforme
a cena vai escurecendo em voz off fala:
- O homem não nasce mal. É o meio que o corrompe.
Na tela preta, começa a tocar a música FREEDOM e os
letreiros sobem.
ESCALETA:
1. Extrema-unção
de Michael;
2. Flashback do crime;
3. Flashback do julgamento;
4. Flashback do professor conhecendo Michael;
5. Flashback do professor entregando uma prova a Michael;
6. Flashback da formatura de Michael;
7. Padre saindo da cela;
8. Professor entra na cela e tenta falar com Michael;
9. Professor não consegue falar com Michael;
10. Professor sai da cela;
11. Professor conversa com os dois guardas que o acompanham;
12. Professor fica intrigado após a conversa com os guardas;
13. Professor vai falar com o advogado de Michael;
14. Professor fala com o guarda que prendeu Michael;
15. Professor vai falar com o diretor da cadeia;
16. Professor vai falar com o ex-companheiro de cela de Michael;
17. Professor fala com o guarda que cuidou de Michael na prisão;
18. Michael sai da cela, e se encaminha para a execução;
19. Professor através das conversas começa a juntar
as peças do quebra-cabeças;
20. Professor dirige-se para a sala das testemunhas, para assistir
à execução;
21. Michael entra na sala de execução;
22. Michael recebe a injeção letal;
23. Michael deitado, olha para todos na sala das testemunhas;
24. Michael fixa o olhar no professor;
25. O professor junta a peça que faltava para o quebra-cabeças.
26. Uma lágrima corre pelo rosto de Michael;
27. Michael morre;
28. O professor sai da sala das testemunhas;
29. O professor sai da cadeia;
30. O Professor desvenda a Força Escondida.
ARGUMENTO II
ADAPTAÇÃO DO CONTO: FORÇA ESCONDIDA
"FORÇA ESCONDIDA - HIDDEN FORCE"
ARGUMENTISTAS: ALEXANDRE
ARAÚJO e DIEGO GUIDI - 2º
C - CINEMA