Horror: Definições
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"Aqui está a verdade final sobre os filmes de horror.
Eles não amam a morte, como alguns tem proposto, eles amam
a vida. Eles não celebram a deformidade, mas, habitando a deformidade,
cantam a saúde e a energia. Eles são os purificadores
da mente, tirando não rancor, mas ansiedade" Stephen
King, "Dança Macabra".
"A emoção mais forte e mais antiga do homem
é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo
é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão
esses fatos e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade
e dignidade das narrações fantásticas de horror
como forma literária" Howard Phillips Lovecraft, "O
Horror Sobrenatural na Literatura".
Mas o que é o verdadeiro horror? Ou melhor, o que é,
em qualquer caso, o horror? O que é este sentimento um tanto
quanto proibido, letal, desesperador, que seduz e atrai a humanidade
a séculos? Como ele se propagou através dos tempos?
Como cada época tem o seu horror pessoal? O que é o
horror agora? O que foi o horror antes? E como era (e foi o horror)
quando surgiu o cinema?.
Desde os imemoriais tempos das cavernas o homem, seduzido pelo que
não pode entender, retrata o que teme. Não eram raros
os desenhos e rabiscos demonstrando o perigo das florestas e das caçadas.
Trovões, relâmpagos, chuvas, erupções vulcânicas,
terremotos, tufões, eclipses e toda sorte de manifestação
das intempéries da natureza eram interpretados como sinais
dos deuses (ou de demônios). Sinais vingativos, de aproximação
do fim, punições, castigos místicos que o homem
não conseguia entender. A floresta não passava de uma
enorme ratoeira humana.
Lá, na escuridão, entre as folhas, os sons dos animais
sibilantes e os olhos vermelhos que observavam, vivia o verdadeiro
mal. A floresta era em si um organismo vivo, que, ao anoitecer, tragava
os que se aventuravam em suas entranhas. Assim também era o
mar, um ambiente inóspito, turvo, escuro e incerto, povoado
por estranhos animais. O mar, assim como a floresta, tragava o homem
para sua profundeza interminável e assustadora. A morte, o
fim da vida, o incerto, a dúvida. Essa sempre foi, e será,
a base do horror.
Cada momento histórico teve seus horrores. Da mesma forma que
em eras medievais temeu-se a própria encarnação
do demônio (se pudessemos inalar o ar medieval ao observar uma
linha temporal, com certeza sentiríamos em nossas narinas o
inquietante aroma de carne queimada) e iniciou-se a maior onda (e
desenvolvimento de mitos e lendas) de superstições a
cerca da existência de seres malignos prontos a corromper e
danar a raça humana. Esses demônios acabaram sendo a
projeção dos próprios medos e antagonismos, paradoxos
e incongruências humanas.
A Santa Inquisição, órgão católico
criado para manter a hegemonia da igreja, espalha o terror com suas
torturas e mortes. Acontecimentos e fatos históricos permeados
pelo macabro não são novidade na história da
humanidade. Mesmo contos infantis como os dos irmãos Grimm,
Han Christian Andersen e outros continham lições mórbidas.
Os irmãos Hansel e Gretel são deixados a mercê
de uma bruxa canibal. Chapéuzinho Vermelho é molestada
pelo primeiro lobo que se disfarça como um homem. Nossa cultura
sempre esteve permeada pelo macabro.
O medo do novo, das novas teorias, dos cientistas, das descobertas,
da possibilidade de estarem errados, levas esses clérigos medievais,
bem posicionados socialmente, acomodados e satisfeitos com sua situação
dominante a um sentimento de... Horror. O Horror é o que ainda
não conseguimos explicar, o horror é aquilo que não
entendemos, o horror é o que não conhecemos, é
o que nos ataca, nos altera, nos mata, e deixa a nós acuados,
sem saber o que fazer. O Horror é o que nos domina, sem que
possamos fazer nada. Mas junto do misterioso, do fantástico,
do sobrenatural, do aterrorizante, sempre há uma ligação,
uma atração ao misterioso, pelo desconhecido, pelo inexplicável.
O cinema, por sua vez, sempre tentou retratar o horror, e a maneira
que este nos atinge. Iniciando seu processo de exploração
do indizível e desconhecido no horror gótico do século
XIX (Drácula, Poe, Lovecraft, Carmilla, W.W. Jacobs, Maupassant,
Bierce, etc) e chegando até o horror Cyberpunk dos anos noventa
(Alien, Predador, Resident Evil), uma coisa foi constante na película:
Medo.
Vamos explorar o início do Horror nos filmes, suas causas,
suas conseqüências, sua importância.
Venha, pegue na minha mão, está escuro mas você
não deve ter medo. Eu vou lhe mostrar o verdadeiro horror...
Princípios
Poucos contestarão a idéia de que o medo e o terror
são estados ideais a serem retratados pelo cinema. Que outra
mídia poderia captar os sons, as imagens, os climas e situações
que compõe o genuíno terror de maneira mais fidedigna?
O espectador senta-se em silêncio numa sala escura.
Há um certo desligamento de consciência, um desprendimento,
uma disposição a aceitação a fantasia.
Neste estado de relaxamento, nosso subconsciente toma um pouco do
controle, a espécie de "torpor" que o cinema nos
leva propicia uma pequena janela, pela qual nossa irracionalidade
pode tomar, mesmo que apenas um pouco, o controle.
Essas fantasias, aparentemente sem significado, passam a ser o nosso
primeiro plano de percepção dentro da sala escura. O
"censor" que age sobre o nosso subconsciente está
adormecido, e nossos desejos, medos e anseios tem um acesso maior
a nossa mente. De maneira geral, o cinema fantástico é
visto como um entretenimento, algo superficial, um gênero de
pouca importância, puro escapismo.
Mas devemos perceber que se estamos escapando de algum lugar (de nossa
realidade cotidiana) também estamos escapando para algum lugar,
para nossos edos. Logo podemos ver, então, que o horror, assim
como todo gênero fantástico, não é apenas
"escapismo". O horror sempre retratou os medos, o proibido,
o tabu de sua respectiva época, e se ele tem algum valor social
que o redime de sua característica "escapista", com
certeza ele consiste em sua habilidade de captar e reproduzir a patologia
de seu tempo.
Desde cedo, portanto, passamos a ter manifestações do
que era até então um rico gênero literário
concretizadas na tela. O conceito vigente de horror em meados do século
passado (XIX), quando os primeiros experimentos com sais de prata
foram realizados, levando a descoberta da fotografia, e o aperfeiçoamento
das técnicas de captação de imagem até
o surgimento do cinema, era, naturalmente, o horror gótico.
Analisemos pois, brevemente, esta tão cultuada vertente.
O Horror Gótico
O termo "gótico" foi aplicado a este tipo de horror
muito depois que sua importância se deu em matéria de
produção constante. Trata-se do horror com "classe",
"chique" , "estiloso" o antigo horror europeu,
de cadeiras de couro, cortinas de veludo e mortes com pouco sangue.
O Horror gótico, de maneira geral, centra-se em cenários
típicos da Europa medieval: Castelos, afastadas mansões
mal-assombradas, pequenos vilarejos no interior da Europa. Homens
de cartolas e fraques, damas de longos vestidos e cabelos bem arrumados,
velas com sua luz amarelada, afastando (mas não muito) a escuridão,
carruagens, longas capas negras, teatros mal-assombrados, seqüestros,
lutas de espada, festas a fantasia com máscaras aterrorizantes,
fantasmas nos esgotos de Paris, assassinatos misteriosos e corvos
negros que repetem "nunca mais" e sempre um pequeno filete
de sangue rubro compõe o clima desse tipo de Horror. Temos
como obra literária marcante do horror gótico (pouco
antes da invenção do cinema) o conhecido Drácula,
de Bram Stoker, que estabeleceu o padrão (mais tarde estereotipado)
do gênero. Os escritos do americano Ambroise Bierce (desaparecido
após ir para a guerra no México, no inicio do século
vinte. Curiosamente, Bierce tem inúmeras histórias de
horror que lidam com desaparecimentos) Edgar Alan Poe, Guy De Maupassant,
Arthur Conan Doyle, Mary Shelley, Robert Louis Stevenson, Anatole
France, M. G. Lewis, Charles Maturin e muitos outros deram a base
para o surgimento dos primeiros fotogramas de terror.
Surge o Cinema de Horror
De certa forma, a primeira exibição pública feita
pelos irmãos Lumiére teve o efeito de um filme de terror.
Quando "A chegada do trem a estação" foi exibido,
causou-se frenesi e inquietação entre os presentes,
pois muitos chegaram a proteger-se do trem, que parecia poder romper
a tela e invadir o recinto. Esse elemento chocante sempre esteve presente
no cinema, a função de supresa, de quebra com o tradicional,
de emulação da realidade (com intensificação
da catarse e da participação do público em seus
momentos agradáveis... e no caso do horror, nos desagradáveis)
é parte da própria definição de o que
deve ser o cinema.
O primeiro filme de horror propriamente dito, é provavelmente
"The Devil's Castle", de George Mélies, onde o demônio
é representado (de maneira um tanto o quanto cômica)
por um morcego. Mélies, um mágico e dono do Teatro Robert-Houdin
em Paris, entrou em contato com o cinema logo na primeira exibição
pública feita pelos irmãos Lumiére, em 28 de
Dezembro de 1895. Em fevereiro do ano seguinte ele adquiriu sua primeira
câmera, e começou a fazer seus filmes em Maio do mesmo
ano.
A tecnologia no cinema estava sendo apenas desenvolvida, e Mélies
inventou e estudou inúmeros mecanismos para criar os mais diversos
efeitos. Seus estudos de múltipla exposição do
filme são conhecidos (criavam o efeito de se ver objetos e
pessoas aparecendo e desaparecendo a distanciam ou mudando de forma).
Mélies foi o primeiro cineasta a tocar de maneira séria
no cinema fantástico, e, com seus projetos e engenhos, conseguir
resultados e efeitos interessantes.
Sua abordagem dos mitos do monstro do pólo norte, vampiros,
viagens espaciais e outras ficções improváveis
permanecem como o exemplo clássico do tradicional cinema ousado
e estabeleceram, a época, o conceito de "efeitos especiais".
Entretanto, ele era muito mais um mágico que um cineasta em
si, e com o paralelo desenvolvimento da narrativa cinematográfica
por outros cineastas e a falta de uma política capitalisadora
por parte de seu estúdio, Mélies tornou-se, lentamente,
obsoleto diante de cineastas como Murnau, Edwin S. Porter e David
W. Griffith, que investiram pesado na narrativa e montagem . Ele terminou
seus dias (após ter sua produtora falida, em 1913) vendendo
pequenos brinquedos e jogos de mágica em banquinhas nas ruas
de Paris, vindo a morrer em 1938.
Entretanto, essas primeiras experiências de Mélies eram
vagamente cômicas, onde o ponto principal era entreter com os
efeitos e maquinarias inventadas para realizar seus filmes (cenários
gigantescos, luas com rostos, foguetes voadores e etc.). Foi só
com o passar do tempo que o terror pode amadurecer e alongar-se, sofisticando
o gênero e dando-o mais espaço. Com o tempo, novas obras
começaram a surgir, tanto nos EUA como na Europa. Em 1910,
Edison faz a primeira versão cinematográfica de Frankestein,
(muito inspirada nas inúmeras adaptações teatrais
da época). Em Frankenstein temos um tema agregado ao próprio
conceito de cinema: O Dr. Frankestein, obcecado com a idéia
de manipular o poder sobre a vida, constrói um experimento
que o levará a sua ruína.
O cinema também era um experimento tecnológico, o final
do século XIX, com seu impressionante e vertiginoso avanço
(alavancado pela revolução industrial, seguido do desenvolvimento
de máquinas mais potentes, motores a explosão, etc)
impressiona e assusta as pessoas que não estão preparadas
para lidar com as consequências éticas e morais dessas
novas descobertas. Recentemente, também vivemos uma situação
análoga e semelhante.
Com o desenvolvimento da engenharia de gens, ganhamos o poder de manipular
o mapa genético do ser humano, o DNA está a nossa mercê,
para que possamos criar quantos "transgênicos" quisermos.
Assim como o Dr. Frankenstein, temos a oportunidade de "brincar
de Deus" em nossas mãos, de manipular a vida, e a forma
como ela virá a ser. Ao monstro a vida é dada, mas ele
não passa de um tubo de ensaio, um experimento bem-sucedido
do Dr. Frankestein. Um experimento que sente, sofre e chora, e se
vinga de seu criador por esquecer disso.
O horror é visionário, e é o conto de terror
que capturou de maneira consistente e expressou nossos medos e ansiedades
coletivas. Filmes como Frankenstein mostram que, muitas vezes, o inimigo
vem de dentro, e não do desconhecido. Essa é uma crítica
a prepotência e arrogância do auto centrismo (característica
tanto de pessoas como de organizações ou nações)
que não admite questionamento ou reavaliação.
Um dos pontos marcantes do cinema de horror é o clássico
"O Gabinete do Dr.Caligári", de Robert Wiene. Supostamente
Wiene não teria passado de um diretor contratado (Fritz Lang,
que mais tarde faria, no gênero horror, o imortal "M -
O vampiro de Dusseldorff" deveria ter dirigido o filme, mas não
pode devido a obrigações previamente assumidas). "Caligári"
expõe o mais latente e forte horror da primeira metade de nosso
século. Mas uma vez, o horror que vem de dentro, o horror que
está entre nós, o horror da mente.
Com os desenvolvimentos da pesquisa psicanalítica e a publicação
dos primeiros trabalhos de Jung e Freud, abre-se um novo campo de
estudos na ciência humana: o subconsciente. Mas o que é
esse subconsciente? O que é este suposto "inimigo"
que mora dentro de nós mesmos e, pasmem, pode controlar nossas
ações? Estas questões, e muitas outras, são
levantadas.
Doenças de evidente origem mental como histeria e esquizofrenia
agora são mostradas como resultados de distúrbios do
cérebro, e não mais possessão por espíritos
ou outras interpretações mitológicas. Mas isso
levanta uma série de medos, pois se temos um subconsciente,
temos uma parte de nossa psique que não está sob nosso
controle, a mente é o nosso medo.
Caligári então se passa em um asilo, onde dois internos
conversam. Toda a perspectiva do filme é irregular e inconstante.
Os artistas contratados para pintar os cenários (membros do
grupo avant-garde Der Sturm), fizeram jus ao mais sóbrio estilo
expressionista alemão. As próprias paredes curvas e
suas perspectivas incongruentes nos levam a uma comparação
com o caos e a insanidade interior.
Cada curva é um distúrbio mental, cada sombra, cada
cenário irregular é uma alegoria as neuroses psíquicas
de nossa mente. A história de um interno de asilo que, conta
sua narrativa através de sua visão distorcida e fragmentada
do mundo, tecendo uma bizarra trama sobre um sonâmbulo e seu
mestre maligno, impressionou muitos. O medo, em Caligári, vem
do advento da psicanálise, vem dessa estranha descoberta de
que nosso inimigo pode estar dentro de nós mesmos, de que somos
controlados por algo que mora dentro de nós e se chama subconsciente,
e a situação de imponência a qual essa constatação
leva. O que aterroriza o homem do início do século vinte
é a constatação de que ele não tem dominio
total sobre sua mente. O Dr. Caligári pode ser visto como uma
metáfora de nosso inconsciente em ação nos dizendo
o que realmente queremos fazer, e obrigando-nos a faze-lo (assim como
Cesare simplesmente TEM que obedecer aos comandos de Caligári,
não há escolha).
A Europa havia acabado de passar pela traumática experiência
da primeira guerra mundial, e a Alemanha, particularmente sofrida
no evento (e retalhada pelas nações vencedoras) passava
pela época mais terrível desde a sua unificação.
Podemos também ver no filme uma crítica a essa guerra,
onde há a sugestão que as autoridades era criminosos
insanos, que exigiam que milhares de assassinatos fossem cometidos
por soldados cegamente obedientes. Ao mesmo tempo, o filme quebra
com o realismo e naturalismo vigentes no cinema até então
(exceção feita a Mélies), com o cinema transcendendo
o realismo fotográfico e ousando com imagens abstratas e irreais
da arte moderna. Esse tipo de cinema, de certa forma, continua pouco
explorado até hoje. Conrad Veidt ficou assutador como Cesare,
com sua fantasmagórica maquiagem branca e roupa preta. Wiene
fez um excelente trabalho, apesar de nunca mais conseguir obter o
mesmo sucesso. Caligári é um marco do cinema, e um dos
pilares do horror psicológico.
O expressionismo alemão rendeu excelentes frutos ao cinema
de horror. Filmes como "Der Golem" onde um Gólem
(especie de gárgula) de pedra ganha vida e sai cometendo crimes,
ou "O estudante de Praga", história onde um jovem
estudante faz um pacto faustiano com um mago (uma encarnação,
ou variação do demônio?) em troca da boa e velha
fama e fortuna, apenas para mais tarde ter sua alma cobrada.
Nos anos vinte já temos adaptações do clássicos
como "O Corcunda de Notre-Dame", "Dr.Jeckyll e Mr.Hyde",
"O Cão dos Baskervilles". Os anos vinte traçam
a definição do gênero horror em duas vertentes:
a americana e a européia. Nos EUA, o horror tinha um aspecto
mais entretedor, enquanto que na Europa sua sutileza era usada para
que fossem passadas mensagens mais comlplexas. Até Griffith
fez filmes de horror, como "One Exciting Night," 1922, onde
temos a exploração de uma casa mal-assombrada. Em Jeckyll
e Hyde, produzido por Zukor (mais tarde dono da FOX) em 1920, podemos
novamente ver o tema da psicanálise abordado através
da investigação da dupla personalidade. O Doutor Henry
Jekyll separa a o bem e o mal em sua personalidade, com um misteriosos
experimento químico, criando assim a personalidade de um monstro.
Em 1921, temos o lançamento de Nosferatu, de Murnau, o primeiro
dos grandes filmes de Vampiro. Sendo uma adaptação não-oficial
de Drácula, de Bram Stoker, Nosferatu causou grande polemica
ao ser lançado nos cinemas. Logo processado pela família
de Stoker, um juíz inglês ordenou que todas as cópias
do filme fossem destruídas. Felizmente a maior parte das cópias
alemãs sobreviveu, deixando o legado que prova sua reputação
como um dos maiores feitos cinematográficos da história.
Toda a sexualidade reprimida do início do século está
presente em Nosferatu. Seu desejo por sangue chega a ser sexual, o
frenesi que o vampiro atinge após dar sua mordida pode ser
entendido como o ápice de sua excitação sexual.
Como ele se alimenta de sangue, não importando muito de aonde
vem, temos ainda o seu lado andrógino e de sexualidade não
definida, o vampiro alimenta-se tanto de homens como de mulheres,
com igual apetite. Sua libido esta diretamente conectada com a mordida,
e mesmo quem é mordido também passa por um momento de
catarse, aceitação e prazer. Não resistir a violência
e na verdade, de forma masoquista, deleitar-se com ela. O conceito
de vampiro é sensual, o seu elemento, a noite, é um
ambiente sexual. Muitos chegam ao exagero de dizer que Max Schreck,
com sua pesada maquiagem, careca, levantando-se de seu caixão
na transilvania absolutamente ereto representaria em si uma ereção.
Além do pesado terror Europeu, tivemos o surgimento da escola
americana de terror do entretenimento. Filmes com o ator Lon Chaney
(ou o homem de mil faces) como o "Fantasma da ópera, 1924"
e "O Corcunda de Notre-Dame" (1923), "The magician",
(1926). E "London after midnight" (1927). Estes filmes pavimentaram
o caminho para a escola de horror do estúdio Universal, que
iria seguir. Um horror mais leve, despretensioso e divertido, acessível
ao público médio e assistível pela tradicional
família americana. Filmes como "Bride of Frankestein",
"Frankestein meets the Wolf Man", "The Mummy"
(recentemente refilmado e estrondoso sucesso de bilheteria) , "I
walked with a Zombie", (1943) e etc. que não lidavam com
temas muito contestadores ou ousados, mas sim repetiam uma fórmula
segura de sucesso. Marcaram as décadas de trinta e quarenta.
Assim, surgiram atores e grandes nomes como Boris Karloff (que fez
o imortal e estereotipado Frankestein de James Whale) e Bela Lugosi,
o eterno Drácula da versão clássica (a primeira
cinematográfica oficial) de Todd Browning, outro mestre do
macabro.
Ainda no tema vampiros, temos o excelente "Vampyr" (1931),
de Carl Theodore Dreyer, sendo a história de um jovem chamado
David Gray que se envolve com duas irmãs, Leone, que aparenta
estar morrendo de alguma doença misteriosa, e Gisele, que parece
estar sendo mantida presa.
Estranhos acontecimentos envolvem o trio, quando Gray se da conta
que elas estão sob o domínio de alguma estranha força.
O filme é estranhamento contrastado, uma espécie de
chiaroscuro, e novamente temos constante referências a sonhos
e o inconsciente. David Gray, em certa cena, chega a sonhar com o
seu próprio funeral, e nós espectadores podemos ver
o mundo a partir de sua perspectiva enevoada dentro do caixão.
Muitas outras sequências seguem essa linha abstrata e irregular
de narrativa (aparentemente desconexas, existem diversas cenas que
quebram o fio narrativo, como um sabá de bruxas, a visão
curiosa de um homem de uma perna só e sua sombra, etc.) Novamente
lidando com temas psicanalíticos em voga na época: sonhos
reprimidos e desejos.
Em 1932 Todd Browning, o genial mestre do horror por trás de
várias parcerias com o enigmático Lon Chaney e o Drácula
de Lugosi, faz outro filme espetacular: "Freaks". Trata-se
de uma colisão terrível da normalidade com a anormalidade.
Em um circo, Baclanova, uma artista de trapézio, casa-se com
um Anão, devido a sua riqueza, planejando envenena-lo com a
ajuda de seu amante, o levantador de pesos Vitor. O anão faz
parte da segregada seleção de anomalias do circo: a
mulher barbada, gêmeos siameses, um hidrocéfalo, um homem
completamente amputado que podia apenas usar a sua boca, uma mulher
com o crânio subdesenvolvido. Enfim, os deformados, a seção
de horrores do circo. Logo, entretanto, eles descobrem o plano de
Baclanova, e mutilam-a com facas, numa dantesca cena de horror, lentamente
transformando ela mesma (a mais bela das mulheres do circo) em uma
aberração. O filme causou polêmica quando lançado
(Browning usou aberrações, ou pessoas realmente deformadas)
e foi proibido na Inglaterra por trinta anos. Browning apresenta uma
visão humanista do mundo, usando o tradicional "julgar
pelas aparências" como seu tema central. As aberrações
são vistas como inocentes, vítimas de uma sociedade
que não as tolera e as separa como um câncer. Nossa repulsa
inicial torna-se lentamente, compreensão.
Na década de cinqüenta, após o fim da Segunda Guerra
mundial, há o surgimento de um novo tipo de horror, e o terror
gótico é levado ao esquecimento, nunca tendo ressurgido
completamente (os livros e filme da escritora Anne Rice, "Entrevista
com Vampiro" e suas seqüências são exceção).
Com o uso das primeira bombas atômicas em seres humanos, temos
um novo terror a ser explorado: monstros e mutações
causadas pela radiação. Os Vampiros, Gólems,
Sonâmbulos, Castelos mal assombrados e Demônios do passado
são substituidos pelo medo da radiação, da ciência
descontrolada, da tecnologia, fora de nosso domínio, imprevisível.
Mas como justificou o diretor Dreyer, "quero criar um pesadelo
acordado, e mostrar que o horrível não esta ao redor
de nós mas em nossa própria mente inconsciente".
Nosso medo dos cientistas loucos, vampiros, lobisomens e monstros
não passa de medo de nós mesmos, da imprevisível
mente humana.
Referências
Sites
Inúmeros Websites e resenhas de filmes de horror na internet.
Alguns dos mais relevantes seriam:
<http://www.horrormovies.com>
- Site com muitos links, artigos, resenhas, histórias, sons
e imagens ligadas ao cinema de horror
<http://www.houseofhorrors.com>
- Outro excelente site com muita informação no cinema
de horror.
<http://www.imdb.com>-
Site com centenas de resenhas e links para os mais variados filmes
(provavelmente o mais completo da Web, com links interessantes e boas
resenhas dos clássicos de horror)
<http://www.drcasey.com>
- Mais um site com inúmeros links e textos sobre a arte e o
horror (pintura, escultura, filmes, literatura, música, teatro,
etc)
<http://www.edhouse.clara.net>
- Ghoul Brittania, especializado em filmes de horror feitos no reino
unido, desde o século passado até hoje.
Revistas
Filmfax - Excelente publicação norte-americana sobre
o cinema de horror, especializada em clássicos e filmes B.
Fangoria - Tradicional revista norte americana, publicada desde o
fim da décade de setenta. Cobre o cinema de horror mais comercial.
Psico Video - Publicação nacional que, infelizmente,
durou apenas dois números. Muito bem escrita, com artigos relevantes
ao tema e bem pesquisados, fez matérias profundas sobre o tema.
Editora Nova Sampa, 1995.
Chiller Theatre - Mais uma revista (com aspecto de fanzine) norte
americana. Belas fotos em cerca de 100 páginas a cada número.
Chiller Theater inc.
Livros
The Rise & Fall of the Horror Film - Excelente livro do Dr. David
Soren. Ligeiramente datado (foi originalmente publicado em 1977) mas
com uma pesquisa muito interessante, comparando o gênero horror
com a estética Dada, assim como o surrealismo e o simbolismo.
Dança Macabra / (Dance Macabre, 1981, Editora Francisco Alves)
- Livro do escritor Stephen King onde ele explora toda a influência
do horror americano na sociedade, traçando um verdadeiro ensaio
sobre a cultura "horrorísta" norte-americana e seu
horror na literatura e cinema.
O Horror Sobrenatural na Literatura (Supernatural Horror in Literature,
Francisco Alves, 1987. Originalmente escrito e publicado em 1927,
tendo sua edição atual publicada em 1945) - Livro escrito
pelo mestre do horror "indizível", Howard Phillips
Lovecraft. Uma das primeiras análises da literatura de horror
mundial, este pequeno ensaio é um marco no que tange ao uso
de uma abordagem sóbria e abrangente. Lovecraft entra em detalhes,
falando desde desconhecidos autores do século VIII até
finalmente discorrer sobre seu grande mestre, e, seguido de Lovecraft,
provavelmente o maior escritor do sobrenatural americano, Edgar Alan
Poe.
The Overlook Film Encyclopedia - Horror. Overlook Press, 1992 editado
por Phil Hardy. - Maciça coleção de dados sobre
todos os tipos de filme de horror, desde o século passado,
incluindo países pouco comuns no gênero como o Brasil
(Zé do Caixão tem destaque em várias resenhas).
Legendary Horror Films. Metrobooks, 1995 Peter Guttmacher - Belo livro
ilustrado retratando o cinema de horror desde suas origens.
*Joaquim Ghirotti
é estudante
de cinema da FAAP