Apesar do cinema ser uma forma de expressão tão controlada
pelas leis que governam a República Islâmica do Irã,
ele é um meio de nos fazer refletir sobre o Islam e o modo
de vida dos muçulmanos. Mesmo levando em conta que cada filme
tem por trás o olhar do diretor que o realiza, não podendo
ser um documento fiel da realidade, mas pelo menos, é uma forma
de entrarmos em contato com esta sociedade tão diferente da
nossa. Que nos fascina, ao mesmo tempo que assusta.
O Irã é um país Islâmico, de maioria xiita,
que são em torno e 93%. A palavra árabe Islam significa
"submissão". É derivada de uma palavra que
significa paz. No contexto religioso, significa total submissão
à palavra de Deus. Na sociedade Muçulmana, a religião
é um código de vida geral que rege todos os campos:
o político, o cultural, o financeiro e o social. Todos os princípios
da religião Muçulmana são os mesmos, o que existe
são interpretações diferentes, que originam ramificações,
como os xiitas, sunitas, wahabita. Elas surgiram depois da morte do
profeta Muhamad.
Segundo os muçulmanos,
o Alcorão são palavras que Deus - Allah - revelou ao
profeta Muhamad , por intermédio do anjo Gabriel. Por quatorze
séculos, nenhuma palavra do Alcorão foi mudada. Para
os muçulmanos não há separação
entre Estado e a Religião, todo o código de vida está
baseado no Alcorão. Ele trata de "todos os assuntos relacionados
com os seres humanos: Sabedoria, doutrina, rituais e lei. Mas o seu
tema básico é o relacionamento entre Deus e suas criaturas."
A história do Irã é marcada por disputas que
acontecem desde a Antigüidade. Mesmo quando ainda era a Pérsia,
que foi habitada por povos arianos (medos e persas) desde o século
IX a.C.. Em 539 a.C., Ciro, líder dos Persas, tornou-se rei
dos dois povos, iniciando a Dinastia Arquemênida (de Arquêmenides,
antepassado de Ciro), que estendeu seus domínios por uma vasta
região do Oriente Médio, formando o maior império
da Antigüidade Oriental, abrangendo áreas Indo ao Mediterrâneo
e do Caúcaso ao Índico. Outras conquistas como o Egito
e a Líbia ocorrem durante o reinado de Cambises II, que sucedeu
a Ciro em 529 a.C. O Império Persachegou ao fim em 331 a.C.
Os árabes axemita (dinastia da família de Maomé),
conquistaram o Irã em meados do século VII, quando o
califa Omar transformou o Estado nacional árabe num império
teocrático mundial. No início do século XVI,
Ismail (xeque safavida)proclamou-se rei e em 1510, conseguiu conquistar
todo o Irã e transformou o xiismo em religião do estado.
O Irã viveu sob o regime de Império teocrático
até março de 1979, quando um plebiscito aprovou com
98% dos votos, a implantação da República Islâmica
do Irã, e a autoridade suprema se torna Aiatolá Khomeini,
que ganha o título de Aiatolá por conta de sua luta
contra o xá Muhammed Reza Pahlevi em 1963. Aiatolá é
o título que se dá ao penúltimo estágio
na hierarquia xiita, é o líder máximo espiritual.
O título deixa muitos aiatolás descontentes, pois cultuam-se
apenas os doze imãs, descendentes diretos do profeta Maomé.
Este período pós-revolução, onde acaba-se
o Império, várias facções disputam o poder.
De um lado os Aiatolás, que estavam contestes com o regime
teocrático e do outro, as forças civis, que lutam por
um Estado não religioso.
Aiatolá Khomeini morre em 1989, após ter enfrentado
fases turbulentas em seus últimos anos frente à República,
como a crise com os EUA e a guerra contra o Iraque. Depois disso o
Irã foi presidido por Aiatolá Sayyed Ali Khamenei e
posteriormente, por Ali Akbar Hachmi Rafsandjani, ambos conservadores.
Até que nas eleições de 1997, por seu discurso
moderado, Sayyed Mohammad Khatami ganha a eleição à
presidência. Apesar de se filho de um famoso aiatolá
e usar o turbante preto daqueles que acreditam ser descendentes diretos
do profeta Maomé, Khatami sempre representou politicamente
uma linha mais progressista, mostrando que é perfeitamente
possível conciliar os preceitos humanistas do Islamismo com
uma sociedade mais livre. Alguns avanços nesse sentido já
ocorriam desde 1992, quando Khatami, então Ministro da Cultura,
reduziu a censura literária e criou a Fundação
Farabi de Cinema. Ele é considerado o grande impulsionador
do cinema iraniano.
Há quatro anos, com o apoio dele, a classe cinematográfica
conseguiu aprovar a lei que baixou os impostos sobre os filmes de
15% para 0,5%, permitindo um maior retorno para investimentos nas
produções.
Mesmo assim, a censura é rígida no Irã. Há
quatro estágios no controle dos projetos de filmes iranianos.
Primeiro, o roteiro deve ser aprovado por um conselho, devendo estar
de acordo com os preceitos morais islâmicos; segundo, a lista
dos técnicos e dos atores deve ser aprovada. Estes últimos,
na maioria das vezes, são parentes dos próprios diretores,
ou pessoas que viveram realmente a situação que originou
a idéia do roteiro. Terceiro, o filme já pronto é
mandado ao Conselho de Censura do Governo, o qual aprova, exige mudanças
para liberação ou proíbe totalmente. Se aprovado,
o quarto estágio é os produtores receberem permissão
de exibição, com a avaliação de A, B ou
C, que determina o acesso à mídia, com a definição
se pode ou não ser comercializado para a tv.
Apesar de no Irã existirem salas de exibição
e o ingresso ser considerado bastante acessível, um amigo meu
que é de Teerã, disse que as pessoas não vão
muito ao cinema. A maioria delas, prefere esperar que o filme passe
na tv.
Os festivais internacionais de cinema são uma ótima
oportunidade para os cineastas iranianos mostrarem seu trabalho e
alguns plena indignação diante da repressão vivida
pelo povo muçulmano. O filme "O Círculo",
de Jafar Panahi, continua censurado em seu país, mesmo tendo
participado de diversos festivais e ganho o Leão de Ouro em
Veneza. Por tratar da temática feminina.
O cinema é um espelho da sociedade que o produziu, pois nenhuma
produção está livre dos condicionamentos sociais
de sua época. Mas a forma como o filme reflete a sociedade
não é direta, pois ele é produto de uma coletividade
que nunca esconde sua subjetividade. No regime repressivo da República
Islâmica do Irã, o artista é obrigado a expressar
o conteúdo de sua arte através de deslocamento de discursos.
Mesmo assim, nestas obras, é possível dissecar significados
ocultos, buscando elementos da realidade através da ficção.
Os filmes podem espelhar gesto, vestuário, língua, vocabulário,
arquitetura e costumes da sua época e lugar, tanto quanto a
mentalidade de sua sociedade e sua ideologia.
No filme A Caminho de Kandahar, Mohsen Makhmalbaf mostra sua visão
sobre a condição da mulher muçulmana e sobre
a situação do Afeganistão, que vive sobre o regime
fundamentalistas sunitas Islâmico. Em 1998, Makhmalbaf recebeu
uma carta de uma jornalista afegã, residente no Canadá,
Niloufar Pazira, que viveu no Afeganistão até completar
16 anos de idade. Nesta carta, a mulher manifestara sua preocupação
diante da amiga de infância que continuara no país. Segundo
o jornalista Alessandro Giannini, sua amiga "escreveu que se
sentia feliz por tudo o que havia feito, mas não via sentido
em continuar viva, já que não podia sair na rua livremente.
Ao fim de tudo, dizia-se feliz pela amiga, que tinha uma vida inteira
pela frente e deveria vivê-la pelas duas." Após
receber esta carta, Niloufar, tentou ir à sua procura, mas
não conseguiu entrar no país. Mesmo não conseguindo
ajudar a jornalista, Makhmalbaf se apropriou de sua história
e a transformou em filme.
No filme, Niloufar faz o papel de Nafas (que significa respirar em
farsi), jornalista que vai em busca de sua irmã que continua
morando no Afeganistão e que se suicidaria no dia do último
eclipse do século.
Nafas, a personagem, consegue uma carona no avião da ONU até
perto da fronteira. Ela consegue carona com uma família, mas
o carro é roubado, forçando-a a seguir viagem sozinha.
No seu longo percurso, ela cruza com grupos de pessoas, que estão
levando sua vida rotineira, e que ela acaba mantendo um contato, a
fim de conseguir chegar em Kandahar.
O primeiro grupo é o dos estudantes, que estão aprendendo
a recitar o Alcorão , para talvez se tornarem mulás
um dia. Um garoto, Khor, é expulso, por não saber recitar
e tenta ajudá-la em troca de dinheiro. Mas devido a água
de poço, Nafas adoece e procura a ajuda de um médico.
Nesta cena, as mulheres são examinadas pelo médico através
de um buraco num pano. Ora elas mostram a boca, ora os olhos. E há
a necessidade de um intermediário, pois um não pode
falar diretamente ao outro. O médico, que também fala
inglês, desrespeita a conduta imposta e a aconselha a livrar-se
do guia, o garoto Khor. Assim ela o faz.
O Taleban que assumiu o poder do Afeganistão, aboliu inclusive
o corte de barba, e o personagem do médico, é um americano,
que desiludido com a vida, vai ao Afeganistão assistir as pessoas
que necessitam de ajuda. Mesmo sendo muçulmano, ele usa uma
barba postiça, para poder continuar vivendo no país
de acordo com as leis do Alcorão, interpretadas segundo mulá
Omar, que dirige o Afeganistão.
Makhmalbaf mostra um país devastado pelos conflitos entre facções
religiosa e conflitos externos, onde as pessoas morrem de fome, frio
, diarréia causada pelos vermes na água, ou pelas minas,
que são milhares espalhadas pelo chão, algumas dentro
de bonecas. Numa cena do filme, o professor fala para as estudantes
meninas ficarem em suas casas, por precaução por causa
das minas, e pra elas não se sentirem tão mal, imaginarem
ser formigas, assim, achariam a casa maior.
Enquanto as mulheres ficam em casa, os garotos aprendem a mexer nas
armas, para lutar pela jihad ( que significa esforço sobre
si mesmo ), também significa guerra santa em reposta a uma
agressão externa. Segundo o livro Compreenda o Islam e os Muçulmanos,
o Islam permite a luta em defesa própria, em defesa da religião,
ou para defesa daqueles que foram expulsos à força,
de seus lares. Ele impõe estritas regras de combate que incluem
proibições quanto a causar danos aos civis, o destruir
plantações, árvores e gado. Os Muçulmanos
acham que a injustiças triunfará no mundo se boas pessoas
não forem preparadas para arriscar suas vidas pela causa justa.
O Alcorão diz: "Combatei pela causa de Deus àqueles
que vos combatem; porém, não os provoqueis, porque Deus
não estima os agressores."(2°Surata, versículo
190)
Em outro trecho, "Se eles se inclinarem à paz, inclina-te
também a ela e encomenda-te a Deus, porque Ele é o Oniouvinte,
o Sapientíssimo."(8°Surata, versículo 61).
A guerra, portanto, é o último recurso, está
sujeita às rigorosas condições decretadas pela
lei do Alcorão.
Em um dos diálogos do filme, o médico diz que sempre
é preciso uma razão pra viver. No caso dele, esta razão
é a esperança. No caso das mulheres com a burca, é
de um dia, poderem ser vistas.
O personagem levanta uma questão delicada, que é a base
do filme. A problemática da mulher Muçulmana é
muito polêmica e causa controvérsias. Enquanto uns acham
que elas vivem sob tamanha repressão, outros justificam falando
que as mulheres tem vários direitos, como no caso do Sheik
Ali Abdune, numa entrevista que ele deu à revista Caros Amigos:
"O Islã restringe algumas questões pelo benefício
da mulher. A vestimenta, seja num calor de 40 graus ou de 50, isso
é uma opção dela. Elas usam por convicção
mesmo. E por que essa vestimenta? Em respeito. O Islã acha
que a mulher é um ser que deve ser respeitado, não pode
ser assediado nem pelos olhos, nem pelas palavras, nem pelos movimentos.
Temos um grande respeito pela mulher e esse respeito é que
leva o Islã a preservar a mulher dessa maneira. Dentro da sua
casa, ela tem toda a liberdade com seus íntimos de se pintar,
de andar decotada, de short, de camiseta, sem roupas, o que ela quiser."
Mas se uma mulher não usa, ela pode apanhar e até ir
presa. Numa época em que se questionou a não obrigatoriedade
do chador no Irã, as mulheres foram às ruas reclamar
pelo seu uso obrigatório. O Alcorão fala que a mulher
deve cobrir a cabeça. Mas no Afeganistão, o que vimos
no filme é o uso da burca, que cobre o rosto inteiro da mulher,
permitindo que ela só enxergue através dos furos que
ficam na frente do rosto e as atrapalha até para respirar.
Por isso a referência do nome Nafas para a personagem. E elas
são referidas como cabeças-negras, ao invés de
mulher. Um personagem fala ao outro no filme: "Olha uma cabeça-negra
chegando."
Uma coisa que na nossa cultura ocidental é proibido e nos países
Islâmicos é permitido e está no Alcorão,
é a poligamia. A maioria dos personagens do filme possuem mais
do que duas mulheres. Nafas, em sua primeira carona, tem que passar
por quarta esposa do homem que guia o caro, para poder seguir viagem,
com ele, suas outras três mulheres e seus filhos. ao mesmo tempo
que isto acontece, "Dentro do lar, ela não é obrigada
a cozinhar para o marido, a lavar, a passar roupa.
Os direitos dela estão no Alcorão e na doutrina do profeta
Muhamad. Se ela for para qualquer sheik e falar "olha, meu marido
me obriga a fazer isso e eu quero os meus direitos completos aqui
na minha frente", ele os coloca e ela tem todo o direito. E o
homem tem a obrigação de cumpri-los ou trazer alguém
que os cumpra. Agora, se ela faz isso por espontânea vontade,
por amor ao marido, isso o Islã não impede."
Mesmo não sendo uma cópia fiel da realidade, o filme
nos faz pensar em todas as questões que levanta, nos permite
chegar mais perto do que é ou pode ser o Islam, levado a fundo
pelos fundamentalistas Afegãos e da situação
da mulher, que vive debaixo da burca, em pleno deserto e não
pode sair de casa para evitar pisar numa mina. O que levou Makhmalbaf
a fazer este filme foi sua indignação perante um regime
distorcido. Não sou ninguém para julgar se o Islam é
bom ou ruim, e o caso do Afeganistão é ainda mais delicado.
Apenas procuro entender um pouco mais sobre os muçulmanos e
o Oriente Médio através, principalmente, dos filmes
iranianos, que mesmo contendo a subjetividade de toda uma equipe que
o realiza, reflete pelo menos um pouco da sociedade muçulmana,
mesmo através do uso de metáforas.
Bibliografia
ABDUNE, Sheik
Ali. As Leis do Islã. Revista Caros Amigos. Ano V, nº56,
nov.2001.
GIANNINI, Alessandro. Sob o céu do Afeganistão. Site:
www.no.com.br
HAYEK, Samir El. Compreenda o Islam e os Muçulmanos. Ed. Junta
de Assistência Social Islâmica Brasileira. São
Bernardo do Campo, São Paulo.
YALE, Pat. Iran. Lonely Planet Publications, Australia, july 2001.
Kelen Pessuto
é estudante de cinema da FAAP e pesquisadora do Site Porto
Alegre 2002.