Em Através da Janela, segundo filme de Tata Amaral, não
há de forma alguma a preocupação primeira com o
público. O filme mostra, em um tom de tragédia, a relação
conturbada entre uma idosa mãe aposentada e seu jovem filho desempregado.
Com personagens
pouco carismáticos a narrativa é carregada de gestos simbólicos,
praticados em pequenas ações cotidianas, que refletem
e revelam sentimentos de amor, desespero e desilusão. Selma e
Raí (mãe e filho) têm um relacionamento à
beira da apatia e com uma cumplicidade vil. O menino tem uma personalidade
ciclotímica, sem credibilidade alguma; a mulher está restrita
aos atos do cotidiano, que são verdadeiros rituais de fuga da
realidade de uma nova perspectiva vital para o menino.
Não obstante,
um universo se abre para Raí: o mundo ao lado de fora de sua
casa. Selma, aos poucos, dá-se conta de que perde o controle
sobre sua cria.
A premissa de que a vida persuade e devora é válida. Há
também um certo contexto político e social, sendo retratada
uma classe à beira da falência econômica; em uma
sociedade capitalista com exorbitante número de desempregados
etc.
O filme desenvolve as características possíveis de forma
sutil e melancólica. Não há retórica, é
um cuspe na cara de quem vê. O desenrolar enfadonho, em raros
momentos, é subvencionado por pouquíssimos instantes diferenciados,
sob o aspecto da suficiência de fatos e acontecimentos prestativos
ao "prender" a atenção do espectador.
É uma epopéia
às avessas. Onde o vazio que o filme nos passa comove reações
estapafúrdias de indiferença e insensibilidade. Através
da Janela não é inteligente. Não engendra fatos,
não desenvolve personagens. É um filme de sentimentos,
visões, audições e empatia microscópicas.
Não é uma nova forma de estabelecer cognição
e transmitir uma enxurrada de informações, é apenas
um filme ruim onde o distanciamento é completo, e não
satisfaz no público o desejo de assistir ao espetáculo
de fatos, nem mesmo o desejo de identificar-se com um personagem próximo.
Por tratar de uma
obra que permeia as estruturas clássicas dos mitos, segundo os
próprios autores afirmam, não há, ou pelo menos
é mínimo, o elemento catártico, graças à
canastrice que nos é apresentada.
No filme Magnólia,
de Paul Thomas Anderson, por exemplo, há a quebra da catarse
na seqüência em que os atores começam a cantar uma
música, "pausando" os acontecimentos como um espirro
que satisfaz e torna o "continuar a respirar" mais agradável;
ou até mesmo na esplendorosa chuva, irreal mas com tino e brio
de um toque com a razão de ser.
Através da
Janela chega a implodir as circunstâncias, deixando-nos a soluçar,
trivializando as passagens que dariam notoriedade aos personagens, até
mesmo sucateando o enredo em nome de repetições clichê,
como os planos sobre a mesa, a cada novo dia, sugerindo a deterioração
da relação entre mãe e filho.
Um filme fácil
de seguir. Sem grandes segredos. Com atores ruins, com exceção
de Laura Cardoso, uma trilha regular e um péssimo roteiro, o
filme de Tata Amaral não se dá ao direito de ser democrático
e honesto, ele demonstra uma preocupação pessoal de argumentação
inválida para o cinema e o público. Nada mais de que um
placebo para o cinematografia nacional, que está à beira
da necessidade, antes de mais nada financeira, de um retorno e encontro
com o conforto e o alento da respeitabilidade.
Parece-me que o
filme é tecnicamente agradável, porém simples e
higienizado. Características tão infantis e perecíveis
caem no esquecimento com facilidade absurda.
É curioso notar que a história nada mais é que
um reles desabrochar que não suplanta menor comoção.
Um desapertar truculento e monótono, tedioso e desagradável.
Ei, Tata Amaral,
o que acha de extrair alguns minutos e transformá-lo em um curta
metragem? Seu filme é apenas lânguido, sem nenhum charme.
data de publicação: 27/06/2000