Através do público

por Thiago Cecilio Domingos

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Em Através da Janela, segundo filme de Tata Amaral, não há de forma alguma a preocupação primeira com o público. O filme mostra, em um tom de tragédia, a relação conturbada entre uma idosa mãe aposentada e seu jovem filho desempregado.

Com personagens pouco carismáticos a narrativa é carregada de gestos simbólicos, praticados em pequenas ações cotidianas, que refletem e revelam sentimentos de amor, desespero e desilusão. Selma e Raí (mãe e filho) têm um relacionamento à beira da apatia e com uma cumplicidade vil. O menino tem uma personalidade ciclotímica, sem credibilidade alguma; a mulher está restrita aos atos do cotidiano, que são verdadeiros rituais de fuga da realidade de uma nova perspectiva vital para o menino.

Não obstante, um universo se abre para Raí: o mundo ao lado de fora de sua casa. Selma, aos poucos, dá-se conta de que perde o controle sobre sua cria.

A premissa de que a vida persuade e devora é válida. Há também um certo contexto político e social, sendo retratada uma classe à beira da falência econômica; em uma sociedade capitalista com exorbitante número de desempregados etc.

O filme desenvolve as características possíveis de forma sutil e melancólica. Não há retórica, é um cuspe na cara de quem vê. O desenrolar enfadonho, em raros momentos, é subvencionado por pouquíssimos instantes diferenciados, sob o aspecto da suficiência de fatos e acontecimentos prestativos ao "prender" a atenção do espectador.

É uma epopéia às avessas. Onde o vazio que o filme nos passa comove reações estapafúrdias de indiferença e insensibilidade. Através da Janela não é inteligente. Não engendra fatos, não desenvolve personagens. É um filme de sentimentos, visões, audições e empatia microscópicas. Não é uma nova forma de estabelecer cognição e transmitir uma enxurrada de informações, é apenas um filme ruim onde o distanciamento é completo, e não satisfaz no público o desejo de assistir ao espetáculo de fatos, nem mesmo o desejo de identificar-se com um personagem próximo.

Por tratar de uma obra que permeia as estruturas clássicas dos mitos, segundo os próprios autores afirmam, não há, ou pelo menos é mínimo, o elemento catártico, graças à canastrice que nos é apresentada.

No filme Magnólia, de Paul Thomas Anderson, por exemplo, há a quebra da catarse na seqüência em que os atores começam a cantar uma música, "pausando" os acontecimentos como um espirro que satisfaz e torna o "continuar a respirar" mais agradável; ou até mesmo na esplendorosa chuva, irreal mas com tino e brio de um toque com a razão de ser.

Através da Janela chega a implodir as circunstâncias, deixando-nos a soluçar, trivializando as passagens que dariam notoriedade aos personagens, até mesmo sucateando o enredo em nome de repetições clichê, como os planos sobre a mesa, a cada novo dia, sugerindo a deterioração da relação entre mãe e filho.

Um filme fácil de seguir. Sem grandes segredos. Com atores ruins, com exceção de Laura Cardoso, uma trilha regular e um péssimo roteiro, o filme de Tata Amaral não se dá ao direito de ser democrático e honesto, ele demonstra uma preocupação pessoal de argumentação inválida para o cinema e o público. Nada mais de que um placebo para o cinematografia nacional, que está à beira da necessidade, antes de mais nada financeira, de um retorno e encontro com o conforto e o alento da respeitabilidade.

Parece-me que o filme é tecnicamente agradável, porém simples e higienizado. Características tão infantis e perecíveis caem no esquecimento com facilidade absurda.

É curioso notar que a história nada mais é que um reles desabrochar que não suplanta menor comoção. Um desapertar truculento e monótono, tedioso e desagradável.

Ei, Tata Amaral, o que acha de extrair alguns minutos e transformá-lo em um curta metragem? Seu filme é apenas lânguido, sem nenhum charme.


data de publicação: 27/06/2000