A estética
de Lourenço Mutarelli é a estética do grotesco.
Suas formas
são disformes, seus personagens, perturbados, doentes,
sofridos. Predominam as sombras, o escatológico, a morte,
os inimagináveis processos pelo qual o corpo passa após
o fim de suas funções vitais. A perda, a deformação,
o desespero, o limite, o fim, a angústia, o pesadelo infernal
de se viver em dor. Estes são temas abordados constantemente
através da obra de Mutarelli.
Suas histórias,
desenhadas predominantemente em preto e branco, nos remetem a
um universo onírico, de escuridão, deformação,
mutação e morte. Um universo enevoado, uma espécie
de pesadelo perene, eterno e real, que é a realidade.
No universo
dos quadrinhos, esta é uma abordagem relativamente recente,
entretanto, outras mídias gráficas já haviam
explorado o disforme e o soturno. Em especial, o cinema. No final
do século XIX, com a invenção do cinematógrafo
pelos irmão Lumiére, tudo passa a ser assunto para
a câmera que registra imagens em movimento. Paralelamente,
ao mesmo tempo pensadores como Freud trazem o desenvolvimento
da psicanálise, que faz vir a tona todo um novo universo,
o inconsciente, que demanda ser explorado. Nietzsche mata deus,
há uma guerra mundial. Vivemos em tempos de mudança
e caos. Se o Cinema precisa de uma tela branca que receba a projeção
das imagens registradas em película, Freud propôs
que o psicanalista funcionasse como uma "tela branca"
onde o analisando "projetasse" suas fantasias. Para
Lourenço Mutarelli, sua "tela branca" é
o papel, aonde ele imprime suas sensações e impressões
mais negras. O cinema expressionista surge retratando a loucura,
a doença, a morte. Os filmes expressionistas são
sombrios e pessimistas, com cenários fantasmagóricos,
exagero na interpretação dos atores e nos contrastes
de luz e sombra. A realidade é distorcida para expressar
conflitos interiores dos personagens.
A obra fundadora
do movimento em sua vertente cinematográfica, "O gabinete
do doutor Caligári", dirigido por Robert Weine em
1919, passa-se justamente em um sanatório. Dois loucos
conversam, e um deles conta uma bizarra e sombria história:
em Holstenwall, uma pequena cidade no interior da Alemanha, um
homem chamado Caligári controlava o sonâmbulo Cesáre.
Sob seu comando, Cesáre pratica pequenos assassinatos nas
sombras. Denso e perturbador, todo o cenário de Caligári,
com ângulos distorcidos, sombras fortes, cenários
improváveis, perspectivas fora de eixo e proporções
descabidas, remete a um pesadelo inconsciente. E é esse
uns dos efeitos que Mutarelli atinge em sua obra. Descascar a
realidade e expor as desagradáveis entranhas do subjetivo,
trazendo choque confronto, são objetivos claros das obras
do expressionismo e de Mutarelli. O imaginário de Lourenço
Mutarelli é povoado pela morte, pelo monstruoso e pelo
deformado. Temos estes mesmos temas abordados em outra clássica
obra Expressionista, "Nosferatu" de Friedrich Murnau.
Livremente inspirado em Drácula de Bram Stoker, "Nosferatu"
retrata a existência de uma criatura disforme, solitária,
a procura de amor perdido. Um vampiro. Uma criatura noturna, que
precisa matar outros seres humanos para sobreviver, se apaixona
por uma mortal e deve mata-la para que possam ficar juntos.
Após a ascenção do nazismo o cinema expressionista
Alemão é sufocado. A última grande obra é
Metrópolis, uma fantasia futurista dirigida por Fritz Lang.
As produções passam a se centrar nos EUA e alguns
outros pontos, escassos, da Europa. Como particularmente interessantes
podemos destacar o trabalho de dois cineastas. "O cão
andaluz", filme de Luis Buñuel e do papa do surrealismo
Salvador Dalí, e Freaks de Todd Browning. Em "O cão
andaluz" temos a exploração do absurdo, do
surreal, do imaginário e do violento. Uma amálgama
de temas concentrados em 17 minutos de película sombria
e perturbadora. Conforme uma nuvem passa pela lua, o olho de uma
mulher é dilacerado por uma navalha. Um homem tropeça
em uma mão decepada na rua. De outra mão, com um
buraco no meio, saem formigas. A justaposição de
imagens surreais e violentas nos leva a associar o que vemos com
o inconsciente. Da mesma forma, a obra de Mutarelli, em muito,
explora os lados obscuros, negros e dormentes da alma humana.
Não são raros seus painéis que abordam a
religião, o sexo, a decomposição, tudo concentrado
em uma única imagem.
Em Freaks,
de Browning, temos uma narrativa contada de forma tradicional.
Em um circo, um grupo de aberrações humanas forma
uma pequena família. Temos a mulher barbada, o homem sem
pernas, a anão, a mulher com a cabeça encolhida,
entre outros. Durante as filmagens foram usados atores realmente
deformados, fato que causou censura e protestos a época
de sua exibição. Mais recentemente, temos os filmes
do cineasta e roteirista de histórias em quadrinhos Alejandro
Jodorowsky (que trabalhou com o francês Moebius em obras
como "O Incal") como "El Topo" e Holy Moutain.
Nelas o absurdo também é explorado. Suas histórias,
violentas, são povoadas pelo grotesco, e ele também
usou pessoas com defeitos congênitos em cenas de El Topo.
Outros cineastas contemporâneos como David Cronemberg e
David Lynch também exploram o inconsciente humano e a fragilidade
do corpo e da carne. Um sinal de nossos tempos, o pessimismo expressionista
continua tão atual quanto sempre, aparecendo em diversas
formas de expressão artística. Como se vê
muitos de seus elementos tomaram em muito o teor das histórias
em quadrinhos atuais, e a obra de Lourenço Mutarelli é
um exemplo disso.
Joaquim Guirotti é cineasta, formado em Cinema pela FAAP.