Interessante
retrato da miscegenação religiosa brasileira, "O
Pagador de Promessas" tem em sua maior preocupação
destacar a sincera ingenuidade e devoção do povo,
em oposição a burocratização imposta
pelo próprio sistema católico em sua organização
interior. "Zé do burro", um homem simples do
campo trata de cumprir sua promessa (ou tentar) após ter
tido Nicolau, seu burro, curado devido a promessa feita a Santa
Bárbara. O que deveria ser um simples ato de fé
toma proporções gigantescas quando Zé é
barrado pelo vigário local, que o impede de entrar na igreja
carregando a cruz que havia prometido.
Os interesses
locais então se voltam para o pequeno caso, e cada segmento
social da cidade quer tomar partido da situação
da forma que puder. Os jornalistas se interessam pelo caso levantando
a bandeira de partirem em defesa da "liberdade de expressão"
que o vigário estaria colocando em jogo, ou pelo menos
pretendem parecer estar fazendo isso, mas na verdade, como é
colocado na primeira cena que se dá dentro da redação
do jornal eles precisam de notícias que façam dinheiro,
e não de notícias de qualidade. O texto de Dias
Gomes é, nesse ponto, direto e até um tanto quanto
maniqueísta, as intenções são desmascaradas
demais, não há sutileza nas palavras dos oportunistas,
o que da a tudo uma leve obviedade. Nem os clérigos, que
exigem de Zé uma "retificação"
de sua promessa vem com meias palavras em seus discursos sobre
como o evento pode alterar e afetar a estrutura interna (ao fazer
uma concessão e deixar Zé cumprir sua promessa)
e a visão política externa que se tem da igreja:
eles sabem que se trata de um acontecimento com repercussão
social e é apenas isso que lhes interessa, não a
genuina devoção de Zé e seu ato. Políticos
se aproximam dele pedindo apoio, mães de santo defendem-no
como representante do candomblé, até mesmo o contador
de histórias oferece seus talentos como proseador para
imortalizar a história, do seu ponto de vista. Ele passa
a ser visto como santo e mártir, e ao mesmo tempo é
um infiel para igreja e um criminoso arruaceiro para polícia.
Cada instituição passa a legitimar sua presença,
ou condena-la, da forma que lhe cabe, Zé passa a ser um
exemplo dos excluídos sociais e tem a ele agregado o ideal
de injustiça e liberdade desejado pelo povo, é associado
a "revolução" social, a "reforma
agrária" e classificado como "comunista"
sem ao menos ter idéia do que são estes conceitos
tão alienígenas ao seu universo. Temos que os grupos
sociais passam a projetar nele suas perspectivas e crenças,
ele deixa de ser um indivíduo para tornar-se um ícone,
maleável de acordo com os interesses de quem se aproxima
e defende suas teses usando Zé como exemplo. Ele deixa
de ser um homem com um propósito pessoal na situação
em que se colocou, pois passa a ser colocado pelo meio em que
está. Martirizado, ele torna-se o novo Cristo local, e
através de sua morte é imortalizado como ícone,
sem conseguir simplesmente pagar a sua promessa.
Mas é
isso que interessa a Dias Gomes e Anselmo Duarte: a devoção
sincera e ingênua de um povo que desconhece as raízes
históricas e sociais de seus cultos, e transforma tudo
em um amálgama eficaz de crenças que se inter-relacionam
em harmonia, a despeito de suas origens históricas, sociais,
geográficas e culturais divergentes. O povo tudo adapta,
e o povo brasileiro cria sua cultura a partir desses elementos
heterogêneos. Não importa se no candomblé
Santa Bárbara chama-se Iansã, se a promessa foi
feita em um terreiro e está sendo entregue em uma igreja,
se Zé carrega nas costas uma cruz no interior da Bahia
enquanto Cristo o fez a 2000 anos atrás em Jerusalém.
A sinceridade com que o povo cria o seu meio, a suas crenças
e como isso se reflete de forma concreta em seus atos é
o que interessa a Gomes. A pureza desses atos e da mentalidade
simples desse povo entram em conflito direto com a complicada
hierarquização e politicagem da igreja católica
organizada, que não faz sentido e tampouco interessa a
esse povo.
O filme conta
com uma produção técnica excelente, apoiada
pela fotografia de Chick Fowle (alguns ângulos de câmera
como a igreja de cabeça para baixo ao final e a visão
de Zé sentado a escadaria sendo filmado através
das grades, preso a situação em que está,
mostram alguns toques especiais), edição concisa
de Carlos Coimbra e excelente e segura direção de
Anselmo Duarte, um estreante, faz excepcional trabalho com os
atores (destacam-se Leonardo Vilar, passando toda a humildade
e sinceridade de Zé e Glória Menezes como sua companheira
aflita, assim como Norma Bengell que passa grande credibilidade
retratando uma personagem instável e difícil) e
consegue um gradual desenvolvimento da narrativa até o
clímax final, que se fecha de forma densa e sublime.
Jaquim Guirotti é cineasta, formado em Cinema pela FAAP.