"Rio - Zona Norte "
de Nelson Pereira dos Santos

por Joaquim C. Ghirotti*


Interessante e delicado retrato da vida de um artista popular carioca, a produção parte de uma série de memórias do personagem vivido por grande Otelo, um talentoso e humilde compositor de sambas de salão que vive na periferia do Rio de Janeiro. Assim como em "Rio quarenta graus", longa metragem anterior de Pereira dos Santos, temos o como tema o povo das classes humildes do Rio de Janeiro.

A caracterização do personagem é feita mostrando seu dia-a-dia, suas reações ao mundo que o cerca e sua ingenuidade perante as coisas. Sua bondade e simplicidade são mostradas conforme ele se emociona com as coisas pequenas que o cercam, sua poesia do cotidiano reflete essa apreciação dos momentos significantes e puros que se dão na vida na periferia. Otelo é logo visto cantando em uma festa de salão por Paulo Goulart (Moacir) um homem rico e sofisticado, que vê nele a possibilidade de um grande compositor. Goulart lhe oferece a possibilidade de prosseguir em uma carreira no meio musical. Por outro lado temos a outra face da moeda: Jece Valadão, um ganancioso homem de negócios, também nota o talento do sambista, e aproxima-se dele oferecendo-lhe uma oportunidade no rádio.

Valadão entretanto representa os "abutres" da indústria musical, e se extrapolarmos essa visão toda a forma de exploração que se tem sobre as classes marginalizadas no Brasil. Evidente que, para efeito dramático, Otelo associa-se com Valadão, que trata de roubar-lhe o samba obrigando-o a passar por uma série de processos burocráticos que tiram de Otelo qualquer garantia ou direito de autoria sobre a obra.

O Samba é gravado sem a participação de Otelo, que tem sua obra literalmente roubada. Paralelamente, Otelo vê seu filho (Dorival) mais velho tentando uma revirada na vida de diversas formas: primeiro tenta ir para São Paulo, após o fracasso dessa empreitada ele volta e ao se associar com os pequenos criminosos locais, acaba roubando o próprio patrão de Otelo, Figueiredo, dono de um pequeno estabelecimento comercial local. Estando em "dívida" com os marginais, Dorival é assassinado "a facadas e pedradas na frente do pai" como a notícia do jornal do dia seguinte descreve. Completanto a tragédia generalizada, Otelo tem o dinheiro que lhe foi dado por Valadão (como um irrisório pagamento pelo samba) roubado pelos mesmos.

O filme nesse momento mostra a banalidade da violência e a fragilidade de uma vida na periferia carioca. A morte de Dorival não é nada para o cotidiano sofrido daquela favela, é apenas mais uma morte e seu significado está diluído em meio a todos os problemas enfrentados diariamente por aquelas pessoas. Até mesmo o sofrimento de Otelo ao perder o filho parece ser atenuado pelo fato de que ele se "conforma" com o que aconteceu, algo recorrente em um meio sem esperança e dessensibilizado pela violência.

Apesar de toda sua tristeza (a perda do filho, roubo de sua musica somado ao abandono pela mulher amada) Otelo ainda encontra refúgio em seu trabalho como compositor, e apresenta um samba a uma das mais célebres interpretes da época, Angela Maria, que canta o samba de Otelo lindamente. Sendo esse um momento chave do filme, onde a personagem de Otelo atinge seu ponto mais alto de satisfação e realização.

Quando finalmente entra em contato com Moacir para estabelecer algo definitivo, Otelo já esta um tanto quanto desiludido, ao tomar um trem fica a cantar, solitário, um samba para o Rio de Janeiro, até cair nos trilhos e morrer, tendo como única testemunha de sua morte o próprio Moacir, que chega "tarde demais" para salvar Otelo, que, assim como os papéis com seus sambas levados pelos ventos, tem sua vida levada nos trilhos do trem, perdida e esquecida como folhas de papel jogadas ao vento.

O filme é extremamente melancólico, não apresenta uma perspectiva positiva ou esperançosa para os excluídos que apresenta. Otelo é o homem simples que extrai poesia e beleza dos momentos mais comuns (como quando se emociona com um bebe e a mãe lhe pergunta: "O que foi? Nunca viu um menino?" e ele retruca: "Sim, mas ele é lindo!"). Sua poesia, assim como a beleza simples e ingênua de todos os sambas populares, vem de momentos cotidianos e preciosos de lirismo que escapam aos olhos dos menos atentos. O filme deixa uma sensação final ambígua: toda beleza está fadada a ser massacrada pelo meio intelorante onde ela nasce? Ou os momentos que ele aprecia, mesmo que quando definhando cantando para brisa no trem, logo antes de morrer, são o que compõe o que vale na vida? A flor que nasce em meio ao concreto está destinada a ser esmagada?

O retrato é triste mas bonito. Assim como seu protagonista, trata-se de um filme humilde. Santos trabalha com o lirismo da tragédia, como Otelo, seu cinema aprecia os momentos, mas apresenta uma perspectiva desanimadora no plano geral. A pergunta que se faz no final é: tudo isto de nada vale? E ela fica sem resposta.

Com excelente interpretação de Grande Otelo passando ingenuidade e pureza, Paulo Goulart como o homem sofisticado, rico e disposto, Jece Valadão como o oportunista sangue-suga. Fotografia bem realizada de Hélio Silva (apesar de ser difícil julgar pela cópia utilizada especificamente na transição para vídeo), produção e direção de Nelson Pereira do Santos.


Joaquim C. Ghirotti é cineasta, formado em Cinema pela FAAP.