Interessante
e delicado retrato da vida de um artista popular carioca, a produção
parte de uma série de memórias do personagem vivido
por grande Otelo, um talentoso e humilde compositor de sambas de
salão que vive na periferia do Rio de Janeiro. Assim como
em "Rio quarenta graus", longa metragem anterior de Pereira
dos Santos, temos o como tema o povo das classes humildes do Rio
de Janeiro.
A caracterização
do personagem é feita mostrando seu dia-a-dia, suas reações
ao mundo que o cerca e sua ingenuidade perante as coisas. Sua
bondade e simplicidade são mostradas conforme ele se emociona
com as coisas pequenas que o cercam, sua poesia do cotidiano reflete
essa apreciação dos momentos significantes e puros
que se dão na vida na periferia. Otelo é logo visto
cantando em uma festa de salão por Paulo Goulart (Moacir)
um homem rico e sofisticado, que vê nele a possibilidade
de um grande compositor. Goulart lhe oferece a possibilidade de
prosseguir em uma carreira no meio musical. Por outro lado temos
a outra face da moeda: Jece Valadão, um ganancioso homem
de negócios, também nota o talento do sambista,
e aproxima-se dele oferecendo-lhe uma oportunidade no rádio.
Valadão
entretanto representa os "abutres" da indústria
musical, e se extrapolarmos essa visão toda a forma de
exploração que se tem sobre as classes marginalizadas
no Brasil. Evidente que, para efeito dramático, Otelo associa-se
com Valadão, que trata de roubar-lhe o samba obrigando-o
a passar por uma série de processos burocráticos
que tiram de Otelo qualquer garantia ou direito de autoria sobre
a obra.
O Samba é
gravado sem a participação de Otelo, que tem sua
obra literalmente roubada. Paralelamente, Otelo vê seu filho
(Dorival) mais velho tentando uma revirada na vida de diversas
formas: primeiro tenta ir para São Paulo, após o
fracasso dessa empreitada ele volta e ao se associar com os pequenos
criminosos locais, acaba roubando o próprio patrão
de Otelo, Figueiredo, dono de um pequeno estabelecimento comercial
local. Estando em "dívida" com os marginais,
Dorival é assassinado "a facadas e pedradas na frente
do pai" como a notícia do jornal do dia seguinte descreve.
Completanto a tragédia generalizada, Otelo tem o dinheiro
que lhe foi dado por Valadão (como um irrisório
pagamento pelo samba) roubado pelos mesmos.
O filme nesse
momento mostra a banalidade da violência e a fragilidade
de uma vida na periferia carioca. A morte de Dorival não
é nada para o cotidiano sofrido daquela favela, é
apenas mais uma morte e seu significado está diluído
em meio a todos os problemas enfrentados diariamente por aquelas
pessoas. Até mesmo o sofrimento de Otelo ao perder o filho
parece ser atenuado pelo fato de que ele se "conforma"
com o que aconteceu, algo recorrente em um meio sem esperança
e dessensibilizado pela violência.
Apesar de
toda sua tristeza (a perda do filho, roubo de sua musica somado
ao abandono pela mulher amada) Otelo ainda encontra refúgio
em seu trabalho como compositor, e apresenta um samba a uma das
mais célebres interpretes da época, Angela Maria,
que canta o samba de Otelo lindamente. Sendo esse um momento chave
do filme, onde a personagem de Otelo atinge seu ponto mais alto
de satisfação e realização.
Quando finalmente
entra em contato com Moacir para estabelecer algo definitivo,
Otelo já esta um tanto quanto desiludido, ao tomar um trem
fica a cantar, solitário, um samba para o Rio de Janeiro,
até cair nos trilhos e morrer, tendo como única
testemunha de sua morte o próprio Moacir, que chega "tarde
demais" para salvar Otelo, que, assim como os papéis
com seus sambas levados pelos ventos, tem sua vida levada nos
trilhos do trem, perdida e esquecida como folhas de papel jogadas
ao vento.
O filme é
extremamente melancólico, não apresenta uma perspectiva
positiva ou esperançosa para os excluídos que apresenta.
Otelo é o homem simples que extrai poesia e beleza dos
momentos mais comuns (como quando se emociona com um bebe e a
mãe lhe pergunta: "O que foi? Nunca viu um menino?"
e ele retruca: "Sim, mas ele é lindo!"). Sua
poesia, assim como a beleza simples e ingênua de todos os
sambas populares, vem de momentos cotidianos e preciosos de lirismo
que escapam aos olhos dos menos atentos. O filme deixa uma sensação
final ambígua: toda beleza está fadada a ser massacrada
pelo meio intelorante onde ela nasce? Ou os momentos que ele aprecia,
mesmo que quando definhando cantando para brisa no trem, logo
antes de morrer, são o que compõe o que vale na
vida? A flor que nasce em meio ao concreto está destinada
a ser esmagada?
O retrato
é triste mas bonito. Assim como seu protagonista, trata-se
de um filme humilde. Santos trabalha com o lirismo da tragédia,
como Otelo, seu cinema aprecia os momentos, mas apresenta uma
perspectiva desanimadora no plano geral. A pergunta que se faz
no final é: tudo isto de nada vale? E ela fica sem resposta.
Com excelente
interpretação de Grande Otelo passando ingenuidade
e pureza, Paulo Goulart como o homem sofisticado, rico e disposto,
Jece Valadão como o oportunista sangue-suga. Fotografia
bem realizada de Hélio Silva (apesar de ser difícil
julgar pela cópia utilizada especificamente na transição
para vídeo), produção e direção
de Nelson Pereira do Santos.
Joaquim
C. Ghirotti
é cineasta, formado em Cinema pela FAAP.