"Eyes wide shut", traduzido no Brasil como De olhos bem fechados
(mas cuja tradução literal tenderia para Olhos escancaradamente
fechados, brincando mesmo com o paradoxo sugerido), traz a ironia já
no título. O filme foi recebido com grande expectativa: o que
esperar do último filme de um dos maiores diretores do mundo,
filme o qual traz como temática o sexo? Os cinéfilos do
mundo todo entraram em polvorosa.
Durante todo o filme, o diretor propõe uma ironia metalinguística:
o espectador de cinema é um voyeur por natureza. Já na
abertura pode-se apreciar a nudez da atriz principal em um closet forrado
por espelhos. A tão comentada seqüência da orgia é
plasticamente impecável, deslumbrante, em sua mistificação
do sexo.
Falando em sexo, o filme traz um leque de possibilidades de discussão:
pulsões, recalques, pedofilia, fidelidade, doenças sexualmente
transmissíveis, grupo de risco. Tudo sem vulgaridade, com a classe
que só Stanley Kubrick poderia conceber. Isso porque a sugestão
é muito mais tentadora do que o explícito. Não
existe uma só cena de sexo propriamente dito entre o (esforçado
mas fraco outra ironia do diretor) casal principal.
O filme, mais do que discutir o sexo, discute os papéis sociais,
o casamento. Para isso escolhe um casal bem sucedido na vida. Ele, médico,
ela, bonita e inteligente, mas desempregada, uma filha que é
uma gracinha, um ótimo apartamento, relações entre
a alta sociedade. Ele é o provedor (bem ao gosto dos antigos
arquétipos de masculinidade) e ela nunca trairia ele por ser
sua esposa e mãe de sua filha. A seqüência em que
o casal discute a traição, empolgados por um baseado (o
qual deve ser de maconha com cocaína, porque nem o mais potente
skank surtiria aquele efeito na mais histérica pessoa), traz
à tona a problemática da mulher que não aceita
mais o papel que lhe foi imposto durante toda a História (com
h maiúscula para não se entrar no mérito da Pré-História)
da humanidade. É a mulher pós revolução
sexual reafirmando seus desejos, porque, na verdade, os casais de hoje
lutam contra os antigos arquétipos de masculinidade e feminilidade
que ainda persistem.
Algumas críticas acusam o filme de moralista. Eu diria que ele
tenta ser realista, uma vez que ele trata de um problema atual do mundo
"real", sem mistificá-lo mas sim discutí-lo.
Ademais, as direções de fotografia e de arte são
refinadíssimas, a montagem pontual e o roteiro, naturalmente,
um exemplar da linguagem cinematográfica. Mais uma vez, obrigada
Stanley Kubrick.
*Estudante de cinema da FAAP
- Texto apresentado para disciplina Direção do Filme I
- Professor: Paulo Lustig