"Eyes wide shut"

por Camila Machado Nunes*

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"Eyes wide shut", traduzido no Brasil como De olhos bem fechados (mas cuja tradução literal tenderia para Olhos escancaradamente fechados, brincando mesmo com o paradoxo sugerido), traz a ironia já no título. O filme foi recebido com grande expectativa: o que esperar do último filme de um dos maiores diretores do mundo, filme o qual traz como temática o sexo? Os cinéfilos do mundo todo entraram em polvorosa.

Durante todo o filme, o diretor propõe uma ironia metalinguística: o espectador de cinema é um voyeur por natureza. Já na abertura pode-se apreciar a nudez da atriz principal em um closet forrado por espelhos. A tão comentada seqüência da orgia é plasticamente impecável, deslumbrante, em sua mistificação do sexo.

Falando em sexo, o filme traz um leque de possibilidades de discussão: pulsões, recalques, pedofilia, fidelidade, doenças sexualmente transmissíveis, grupo de risco. Tudo sem vulgaridade, com a classe que só Stanley Kubrick poderia conceber. Isso porque a sugestão é muito mais tentadora do que o explícito. Não existe uma só cena de sexo propriamente dito entre o (esforçado mas fraco – outra ironia do diretor) casal principal.

O filme, mais do que discutir o sexo, discute os papéis sociais, o casamento. Para isso escolhe um casal bem sucedido na vida. Ele, médico, ela, bonita e inteligente, mas desempregada, uma filha que é uma gracinha, um ótimo apartamento, relações entre a alta sociedade. Ele é o provedor (bem ao gosto dos antigos arquétipos de masculinidade) e ela nunca trairia ele por ser sua esposa e mãe de sua filha. A seqüência em que o casal discute a traição, empolgados por um baseado (o qual deve ser de maconha com cocaína, porque nem o mais potente skank surtiria aquele efeito na mais histérica pessoa), traz à tona a problemática da mulher que não aceita mais o papel que lhe foi imposto durante toda a História (com h maiúscula para não se entrar no mérito da Pré-História) da humanidade. É a mulher pós revolução sexual reafirmando seus desejos, porque, na verdade, os casais de hoje lutam contra os antigos arquétipos de masculinidade e feminilidade que ainda persistem.

Algumas críticas acusam o filme de moralista. Eu diria que ele tenta ser realista, uma vez que ele trata de um problema atual do mundo "real", sem mistificá-lo mas sim discutí-lo.

Ademais, as direções de fotografia e de arte são refinadíssimas, a montagem pontual e o roteiro, naturalmente, um exemplar da linguagem cinematográfica. Mais uma vez, obrigada Stanley Kubrick.


*Estudante de cinema da FAAP
- Texto apresentado para disciplina Direção do Filme I - Professor: Paulo Lustig