Desajuste. Esta parece ser a palavra chave para definir a ferramenta
utilizada na obra de Kubrick. É dentro desta ótica, do
ser "deslocado" do ambiente que o cerca, e que sobretudo (tenta)
condicioná-lo - o escravo que subverte seu aprendizado de guerra
em prol da liberdade em Spartacus, ou o homem rumo à uma autodeificação
via tecnologia em 2001 - que surge a revelação das mazelas
do mundo, para não dizer, sua decadência.
Com "...Olhos bem fechados" não é diferente:
Cruise e Kidman formam um casal classe média, com seus valores
familiares convencionais, que são abalados repentinamente pela
revelação de uma possível traição
da mulher. É nesta dúvida que se conduz a tortuosa noite
de Cruise, que vai então de encontro com situações
que testam a sua também possível corruptibilidade, frente
às diversas formas corrompidas de amor-sexo: a mulher de luto(?)
pelo pai [fuga (de uma realidade)]; passando pela prostituta [mercadoria];
pela "ninfeta" da loja de fantasias [fetiche (da inocência)];
até finalmente chegar à reunião orgiástica
[regulamentação social].
Aliás, esta última "fase" (a orgia) parece não
ser mais do que uma síntese, uma reunião, daquelas três
primeiras (fuga, fetiche, e mercadoria), passo a passo apresentadas
como camadas que transformam o sexo num mecanismo de um sistema de poder,
mas somente acessível àqueles que atentem às regras
a serem seguidas (uma "fidelidade" já aludida pela
senha de entrada: Fidelio).
Então, como uma espécie de Barry Lyndon (numa boa referência
na cena da loja de fantasias, onde pode-se ver entre várias roupas
do mostruário, duas no estilo das do século XVIII), Cruise
tenta galgar (sem sucesso) cada uma desta camadas em direção
aquele último mundo, "côrte" a qual ele não
pertence. Embora use uma máscara como os outros convidados, internamente
mantém sua "pureza" (como a mulher que o defende, e
que por isso é sacrificada em seu lugar).
Descoberto, nada mais resta senão voltar para seu mundo, mas
sob nova condição: ele passa também a possuir sua
"história secreta", que, quando revelada a Kidman,
acaba por estabelecer ironica e finalmente o verdadeiro equilíbrio
entre o casal, já que, acima do casamento, formal e inocente
antes cultivado (e praticamente declarando a falência também
daquela instituição), agora terão que manter uma
relação baseada na confiança mútua (convicção
pessoal) sobre história que cada um contou ao outro.
E é na frase final do filme ("Let´s fuck!!"),
que o sexo (que a exemplo da clava do macaco de 2001, até então
cumpria um papel de ferramenta de dominação do Homem pelo
Homem) parece escapar daquela "função" e resgatar,
ainda que apenas no microcosmo do casal, a sua condição
natural de objeto de pura e livre partilha.
*Estudante de cinema da FAAP
texto apresentado para disciplina Direção do Filme I -
Professor: Paulo Lustig