"Eyes wide shut"

por Lúcio de Miro de Moraes Mazzaro*

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Desajuste. Esta parece ser a palavra chave para definir a ferramenta utilizada na obra de Kubrick. É dentro desta ótica, do ser "deslocado" do ambiente que o cerca, e que sobretudo (tenta) condicioná-lo - o escravo que subverte seu aprendizado de guerra em prol da liberdade em Spartacus, ou o homem rumo à uma autodeificação via tecnologia em 2001 - que surge a revelação das mazelas do mundo, para não dizer, sua decadência.

Com "...Olhos bem fechados" não é diferente: Cruise e Kidman formam um casal classe média, com seus valores familiares convencionais, que são abalados repentinamente pela revelação de uma possível traição da mulher. É nesta dúvida que se conduz a tortuosa noite de Cruise, que vai então de encontro com situações que testam a sua também possível corruptibilidade, frente às diversas formas corrompidas de amor-sexo: a mulher de luto(?) pelo pai [fuga (de uma realidade)]; passando pela prostituta [mercadoria]; pela "ninfeta" da loja de fantasias [fetiche (da inocência)]; até finalmente chegar à reunião orgiástica [regulamentação social].

Aliás, esta última "fase" (a orgia) parece não ser mais do que uma síntese, uma reunião, daquelas três primeiras (fuga, fetiche, e mercadoria), passo a passo apresentadas como camadas que transformam o sexo num mecanismo de um sistema de poder, mas somente acessível àqueles que atentem às regras a serem seguidas (uma "fidelidade" já aludida pela senha de entrada: Fidelio).

Então, como uma espécie de Barry Lyndon (numa boa referência na cena da loja de fantasias, onde pode-se ver entre várias roupas do mostruário, duas no estilo das do século XVIII), Cruise tenta galgar (sem sucesso) cada uma desta camadas em direção aquele último mundo, "côrte" a qual ele não pertence. Embora use uma máscara como os outros convidados, internamente mantém sua "pureza" (como a mulher que o defende, e que por isso é sacrificada em seu lugar).

Descoberto, nada mais resta senão voltar para seu mundo, mas sob nova condição: ele passa também a possuir sua "história secreta", que, quando revelada a Kidman, acaba por estabelecer ironica e finalmente o verdadeiro equilíbrio entre o casal, já que, acima do casamento, formal e inocente antes cultivado (e praticamente declarando a falência também daquela instituição), agora terão que manter uma relação baseada na confiança mútua (convicção pessoal) sobre história que cada um contou ao outro.

E é na frase final do filme ("Let´s fuck!!"), que o sexo (que a exemplo da clava do macaco de 2001, até então cumpria um papel de ferramenta de dominação do Homem pelo Homem) parece escapar daquela "função" e resgatar, ainda que apenas no microcosmo do casal, a sua condição natural de objeto de pura e livre partilha.


*Estudante de cinema da FAAP
texto apresentado para disciplina Direção do Filme I - Professor: Paulo Lustig