Se a sua resposta é afirmativa, devo parabenizá-lo(a).
Poucas pessoas neste país são tão corajosas, insanas,
criativas, batalhadoras e amantes da arte como você. Se você
não se encaixa em nenhum desses adjetivos, então tem alguma
coisa errada. Fazer cinema no Brasil exige deste bravo profissional
um certo talento, uma boa dose de loucura e muito, muuuito Q.I. ( isso
mesmo: Quem Indique). Agora, se você já tem uma outra ocupação
que garanta seu provimento e paga suas contas ou é sustentado
pelos seus pais ou possui alguma outra fonte de renda e faz cinema por
hobby, tudo bem, são outros quinhentos.
Estou me referindo àqueles que desejam sobreviver de cinema única
e exclusivamente, que se entregarão de corpo e alma à
produção do filme e que se alimentarão (?) com
o salário de cineasta. Estes, ao final do curso, além
do glorioso diploma, deveriam receber uma coroa de louros, uma caixa
de Lexotan, uma outra de Valium e uma lata de filme virgem (just in
case). Aos nossos queridos bixos aspirantes a cineastas e um tanto quanto
alheios à nossa realidade, alguns alertas e conselhos (afinal,
titio Shedd não quer desanimá-los): aqui neste país
NÃO existe glamour algum na nossa profissão, você
NÃO vai ficar muito famoso (Nelson Pereira do quê ??) como
cineasta pois poucos são os espectadores que guardam o nome do
diretor (se conseguir chegar a diretor), você vai se matar para
produzir um bom trabalho e NÃO vão dar o menor valor pra
ele nem pra você. Você NÃO vai ficar podre de rico
trabalhando nisso e, se não tiver Q.I, você NÃO
vai encontrar um anúncio de "PRECISA-SE CINEASTA" no
caderno de empregos.
Tá bom ou quer mais ?
Então toma : A maioria do público brasileiro hoje NÃO
gosta de filmes nacionais , portanto a renda NÃO vai pagar o
seu filme, a crítica NÃO costuma ser muito gentil com
nossos diretores (há exceções, é claro)
e, esta é para os rapazes, as menininhas dão preferência
aos atores-tigrões aos cineastas intelectuais, ou seja, meu amigo,
NEM mulher você vai arranjar sendo "film maker". Eu
até poderia continuar a lista, mas vou parar por aqui, pois agora
está na hora dar algumas dicas sobre como sobreviver no Brasil
sendo um cineasta:
1) Comece a estocar comida desde já, você pode vir a precisar
dela depois que se formar;
2) Arranje um(a) namorado(a) que já esteja na área, talvez
ele(a) te consiga pelo menos um estágio;
3) Arranje algum parente cheio da grana pra bancar os seus filminhos;
4) Arranje um(a) outro namorado(a), um(a) milionário(a) de preferência,
só por garantia;
5) se a dica anterior for um pouco complicada de se alcançar,
comece a guardar dinheiro desde já, pois dentro de pouco tempo
você terá que comprar latas de filme virgem (mais ou menos
US$ 180 por 10 minutos de película 16mm) e pagar pela revelação
(em torno de US$ 0,20/metro), sem contar o copião usado na montagem;
6) Tente conseguir um contato de trabalho fora do Brasil (caso você
já tenha um, por favor, tente me incluir no lance!).
É preciso também ter muito estômago e paciência.
Num set de filmagem, normalmente, o diretor tem mais trabalho tentando
apagar egos inflamados do que dirigindo o filme propriamente dito (palavras
da diretora Tata Amaral). Isto sem contar o puxa-saquismo, o jogo de
interesses, as picuinhas, os chiliques, a putaria e as venenosas fofocas.
Em minha história de vida já cruzei com péssimos
profissionais que só se mantinham no cargo às custas de
um doentio puxa-saquismo ou por ser truta de algum chefe. Já
tive amigo (amizade de 10 anos !!) que "puxou meu tapete"
na emissora onde trabalhávamos (sim, já trabalhei em televisão
pra pagar as contas), já tive trabalhos meus exibidos na tv,
no MIS e em festivais pelo Brasil (lá fora também) e nem
por isso minha vida mudou de rotina, já cansei de enviar infindáveis
currículos para emissoras e produtoras e, por não ter
o contato exigido, não consegui nem mesmo um estágio (em
tempo: aquele meu amigo foi o meu Q.I. na emissora). Por tais motivos
e outros posso já me considerar uma autoridade neste assunto:
trabalhar nesta área de cine-video/produção por
aqui é fogo na roupa, meu filho !! Isso porque eu nem entrei
na questão do corporativismo que domina esta terra de Deus.
Freqüentemente
me pergunto por que ainda insisto em fazer cinema. Por que não
mudar para Informática ou Engenharia ou Medicina, profissões
que são certeza de emprego, independente de indicações
ou puxa-sacos ??
Filmar é muito mais do que uma grande brincadeira de "faz-de-conta".
Difícil de se definir a palavra "amor", assim como
é difícil de se explicar o que leva um sujeito a querer
fazer cinema. Minha resposta a esta questão é simples:
o cinema é divino!!
O cinema é luz e a luz é a manifestação
de Deus. O cinema exige todo um ritual: você sai da sua casa e
penetra num Oráculo, num templo escuro, silencioso, lotado de
pessoas que se reúnem neste mesmo local com objetivo de prestar
culto à Sétima Arte. Portanto, o cineasta se transforma
numa entidade sacra, num sacerdote espiritual, eclesiástico,
com o poder de construir mundos, vidas, situações, glórias
e tragédias. Filmar acho que deveria ser definido como: "dar
à luz". Somos verdadeiras mães que se apaixonam por
seus filhos logo no início da fecundação (na criação
do argumento), sofre indescritíveis dores durante a gestação
(na produção) e choram de emoção ao ver
o lindo filhote prontinho logo após o parto (o Lançamento
do filme).
Então, gostaria de finalizar com uma homenagem adiantada ao dia
das mães ( o dia do cineasta deveria ser comemorado na mesma
data...) que pode se extender a todos os film-makers do Brasil e do
mundo: apesar de todas as lutas e agruras que existem ao longo da jornada
materna e cinematográfica, não existe nada mais GRATIFICANTE
e DIVINO nesta vida do que a profissão de cineasta-mãe-amante-da-arte-e-da-loucura!
Filmou ?!