"The Searchers, 56, EUA
Direção: John Ford
Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles,
Ward Bond, John Qualen
Sinopse Um veterano do exército confederado, volta
para a casa de seu irmão após anos de luta no exército
americano. Logo após sua chegada, a casa é atacada por
índios, que matam seu irmão, cunhada, sobrinhos e raptaram
sua sobrinha. A partir daí ele e um sobrinho adotado começam
uma caçada que dura anos a procura de sua sobrinha caçula,
e dos índios que a seqüestraram.
"Rastros de Ódio" é considerado por muitos críticos
o maior filme que John Ford já realizou. Pessoalmente, considero
este e "No Tempo das Diligências" de 1939, suas maiores
realizações. Porém temos de considerar que "Rastros
de Ódio" é uma obra muito mais madura de Ford, e
uma espécie de síntese da carreira vitoriosa no cinema,
de um homem que praticamente criou e consolidou um gênero: o Western.
Existem vários aspectos a serem abordados neste filme. A princípio
a trama é absolutamente comum, os índios vilões,
contra o americano herói. Mas com um olhar mais aprofundado neste
filme, percebemos muitas sutilezas que Ford quis mostrar. Primeiramente
na construção do personagem Ethan, interpretado por John
Wayne. Ford constrói um homem sério, destruído,
amargurado, um verdadeiro soldado americano, que não permite
para sí mesmo a idéia da derrota, já que perdeu
a Guerra Civil, mas nunca vai perder a noção de honra
e dever.
Percebemos isto logo no começo do filme. Quando os índios
vão atacar, e o Reverendo local faz Ethan jurar obediência
a ele, para combaterem os Comanches, Ethan logo diz : "Já
fiz um juramento a Federação".
Outro personagem interessante de ser comentado é Martin, filho
adotado do irmão de Ethan. Na verdade foi este que o salvou muitos
anos atrás em um ataque de índios na casa de sua verdadeira
família. Martin na verdade é um mestiço, fato que
causa em Ethan um certo desprezo, mas é ele que parece estar
mais preocupado em encontrar sua meio irmã, Debbie, mais preocupado
do que o verdadeiro tio, que demonstra estar mais interessado em matar
os índios, e até mesmo matar a sua sobrinha se esta tiver,
através do tempo, assimilado a cultura indígena, e ter
se transformado em índia também. Mas é com um mestiço,
que ele próprio salvou tempos atrás, que durante 5 anos
eles vasculham todo o deserto à procura de sua sobrinha. Seria
tudo isto um castigo para Ethan que no passado abandonou sua família
para se alistar no exército. Esta brilhante construção
central dá a tônica principal ao filme.
A construção dos personagens femininos também é
muito interessante, Ford deixa transparecer que naquela época
só as mulheres sabiam ler. As diversas cartas que Martin manda
para Laurie, sua namorada, nunca é lida por nenhum homem. Ou
seja enquanto os homens trabalhavam para a construção
de um oeste forte e soberano, as mulheres iam para a escola. A própria
mãe de Laurie diz em um certo momento que são elas que
dão força e sustentação para a construção
do Texas. Outro aspecto a ser abordado é a espera de Laurie durante
anos, aguardando a volta de Martin, até que um dia ela se cansa
de esperar, e se casa com outro, deixando transparecer que muitas mulheres
tiveram que passar por isso na época, principalmente aquelas
que tinham seus namorados, ou maridos alistados no exército da
Federação.
Ford constrói também um personagem com problemas mentais,
mas que na verdade é o mais lúcido naquele meio, e que
consegue prever tudo o que vai acontecer antes de todo o mundo, como
um cego que tudo vê. Cabe também uma análise sobre
o papel do índio no filme. Ford não os trata só
como os vilões da trama, tanto que em um determinado momento
Debbie, agora já transformada em índia, diz ter muito
orgulho de ser o que é. Mesmo assim os índios são
vistos como vilões, e transmitem raiva para o público.
Apesar desta questão, entre brancos e índios, ser secundária,
o que importa mesmo é abordar bem a amargura de Ethan. Não
podemos esquecer também que a região que se passa o filme
era uma região de muitas mistura de raças, índios,
mexicanos e americanos, e aquele, era o momento decisivo de consolidação
do território.
A meia hora final é cheia de reviravoltas e cenas de grande impacto.
Com o tempo Ethan começa a adquirir carinho e respeito por Martin,
tanto que faz um testamento onde deixa todo o seu dinheiro para Martin
após sua morte. Outra cena belíssima é o momento
do encontro entre Martin, Ethan, e Debbie. Ethan percebe que esta se
transformou em uma índia e resolve matá-la, Martin se
põe na frente da meia irmã impedindo, Debbie sai correndo,
Ethan vai atrás até que ela escorrega e cai. O tio olha
bem para ela e, ao invés de atirar, a pega no colo e diz "Lets
go home, Debbie". Este é, sem dúvida, um dos mais
belos planos do cinema . A cena final é um daqueles raros momentos
de beleza que só o cinema pode proporcionar. Ethan vai partir,
mas antes se vê Martin com Laurie e Debbie. Neste momento a camêra
vai para dentro da casa, e mostra Ethan de costas partindo, se afastando;
ele hesita um pouco como se quisesse também integrar-se ao conforto
daquela ordem, que ele sabe com que preço foi restaurada. Mas
logo, Laurie e Martin, entre beijos de namorados, pedem passagem; Ethan
cede o passo e eles entram. Novamente só, Ethan contempla da
entrada da varanda a harmonia restabelecida. Dá meia volta. O
seu futuro é permanecer na paisagem, é dissolver-se na
luz vermelha do Monument Valley. O guerreiro jamais ficará em
paz com a sua guerra. A vida dele não era ficar alí, ele
já tinha cumprido sua missão e, se tinha alguma dívida,
já havia pago. Agora só resta partir, deixando alí
as sementes para a continuação da história do Oeste.
A música de Max Steiner e a bonita fotografia de Winton C. Hoch
pelo processo VistaVision, tirou o máximo proveito das belas
locações no Monument Valley, cenário favorito de
Ford, e colaboram muito para a força do filme. Apesar de mal
recebido na época do lançamento, ele conseguiu se impor
através dos anos, e hoje figura como um dos mais perfeitos retratos
da solidão e amargura humana. Ethan é um herói
romântico castigado pelo seu destino de perdedor. Não tem
recursos para se agregar a nova sociedade que então se molda,
permanece à margem, escorado num código moral primitivo,
é um selvagem, ainda que vista a roupa dos brancos. É
uma espécie de Ulisses que não pode voltar para casa depois
de ter perdido a Guerra Civil, derrota que jamais aceitará.
Martin, um mestiço de branco com índio que foi salvo ainda
menino por Ethan, assume a função de domar o bicho John
Wayne, valendo-se seja da sensibilidade dos brancos, seja da sensibilidade
dos índios, de que só ele dispõe.
Bibliografia: Artigo de Carlos Augusto Calil para a Folha de
São Paulo no dia 29/01/95