SALAS DE CINEMA DE SÃO PAULO
 

PESQUISA

Camila Vitule Brito de Souza
Esmir Oliveira Filho
Fabíola Bonatto Thomal
Maria Gabriela dos Santos Ribeiro
Rafael Esteves Candido Gomes


REDAÇÃO

Maria Gabriela dos Santos Ribeiro
Rafael Esteves Candido Gomes

* Trabalho realizado para a disciplina de Sociologia do 1º semestre/2001 do curso de Cinema da Faculdade de Comunicação FAAP - Professora Ana Paula Simioni


A reprodutibilidade da obra de arte, ao longo da história, é dividida em dois estágios: há a cópia que existe a partir de um original único e valioso, servindo para a sua difusão e produzida artesanalmente, e há a obra que já nasce para ser copiada, da qual original e reprodução em nada diferem em termos de valor. Esta só passou a existir a partir de uma evolução tecnológica que permitiu a reprodução em escala industrial. A reprodutibilidade técnica, portanto, inaugurou uma nova era na maneira de olhar e entender a obra de arte.

A maior questão levantada parece mesmo ter sido a autenticidade da obra. Tomemos como exemplo uma pintura. O quadro criado pelo artista é único: possui um valor que nunca poderá ser apropriado por nenhuma cópia, por mais perfeita que ela seja. Cada pintura, portanto, possui um valor de culto, uma vez que é feita por determinado artista em determinadas circunstâncias que não se repetem.

A fotografia foi quem primeiro desestruturou o conceito de valor de culto e trouxe consigo a prerrogativa de um novo valor, o de exposição. Na arte fotográfica, o original em nada difere de sua cópia, o que acaba por tornar incoerente o culto por esse original. O valor de exposição, então, toma o espaço do valor de culto, pois a valorização dessa obra não está mais no objeto em si, e sim na visibilidade que ele venha a adquirir.

Se a reprodução em escala industrial já é uma característica marcante nos tempos capitalistas, o que dizer da possibilidade de reprodução sem limites de uma obra, tornando-a assim, acessível a enorme quantidade de pessoas? É exatamente esta idéia da obra de arte disponível ao consumo de um incontável contingente de público que caracteriza a era da sua reprodutibilidade técnica.

O objeto artístico não é mais feito para ser visto e apreciado como um exemplar único; ele é feito para ser reproduzido para o maior número de pessoas possível. E este fator, ou esta mudança na maneira de encarar a produção artística, foi quem "criou" a cultura de massa, que , por sua vez, representa exatamente esta produção cultural feita em grande escala para um grande público e, supostamente, sem uma preocupação notável com a qualidade.

O cinema é o exemplo máximo da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica e também de veículo que atende perfeitamente à cultura de massa: não há, em relação ao filme, uma diferenciação de seu original para sua cópia e ele existe, apenas, para ser visto pelo maior número possível de pessoas.

"Ao se emancipar dos seus fundamentos no culto, na era da reprodutibilidade técnica, a arte perdeu qualquer aparência de autonomia. Porém a época não se deu conta da refuncionalização da arte, decorrente dessa circunstância." - Benjamin W. "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica."

Por sua natureza, o cinema, ainda hoje, é alvo de debates em relação a seus valores artísticos. Para entendermos as diferentes relações dos paulistanos com o cinema, entrevistamos 100 pessoas em locais diferentes da cidade, cada um com características próprias.

O primeiro grupo de pessoas entrevistado foram os freqüentadores das salas Espaço Unibanco de Cinema (r. Augusta, 1.470/1.475) e Top Cine (av. Paulista, 854). Estes cinemas são conhecidos pela sua programação de filmes não comerciais e não americanos, procurando sempre destacar novas e desconhecidas cinematografias, além de promover relançamentos de obras de grandes cineastas.

O segundo grupo de pessoas foi entrevistado nas salas de cinema do Shopping Ibirapuera (av. Ibirapuera, 3.103) que, assim como grande parte das salas de cinema de São Paulo, especialmente aquelas situadas em shoppings, exibia grandes produções hollywoodianas, lançadas recentemente com grandes campanhas de marketing.

O perfil dos entrevistados mostrou-se o seguinte: 43% das pessoas abordadas no Shopping Ibirapuera têm idade entre 14 e 18 anos e apenas uma delas afirmou ver o cinema como uma forma de arte, enquanto o restante vê o cinema somente como entretenimento. Entre os entrevistados nas outras salas, a porcentagem de freqüentadores da mesma faixa etária foi nula, estando os jovens entre 19 e 25 anos como maioria (39%). Destes, 33% afirmam ver o cinema como arte, 55% como arte e entretenimento e 12% apenas como lazer.

Nesta faixa etária (19 a 25 anos) encontravam-se 30% dos entrevistados nas salas de cinema do shopping, e , destes, 14% vêem no cinema uma forma de arte, 29% arte e entretenimento e o restante (57%) diz ser o cinema apenas lazer. Esta porcentagem difere drasticamente entre os entrevistados do mesmo local com idade entre 26 a 35 anos. Neste grupo, representando apenas 9% do total dos entrevistados, 50% das pessoas dizem ser o cinema entretenimento e arte e 50% diz ser apenas lazer.

Entre as pessoas abordadas no Espaço Unibanco de Cinema e no Top Cine, 30% têm idade entre 26 e 35 anos e, entre elas, 14% consideram o cinema apenas como lazer, enquanto o restante o considera tanto arte quanto entretenimento. No mesmo local, 26% das pessoas encontram-se na faixa entre 36 e 50 anos e apenas 4% possuem mais de 50 anos. Entre as primeiras, 33% vêem o cinema como arte e o restante como arte e entretenimento. No último grupo, 100% consideram o cinema um misto entre arte e entretenimento.

Nas salas do shopping, 9% dos entrevistados disseram ter entre 26 e 35 anos, 13% entre 36 e 50 anos e apenas 4% mais de 50 anos. No primeiro grupo, a porcentagem é igualmente dividida entre os que acham ser o cinema uma forma de lazer e os que também o consideram arte. Já nos dois últimos grupos, 100% dos entrevistados vêem o cinema apenas como lazer.

Com base nessas respostas, ficam claras as diferentes significações que o cinema tem para os dois grupos entrevistados. Nas salas que exibem filmes mais selecionados, mais freqüentemente vistos por críticos e especialistas como " arte", a maior parte do público vai ao cinema procurando exatamente isto, "arte".

Já nas salas que exibem filmes mais comerciais, que por sua própria natureza não aspiram a ser um produto artístico, quase a totalidade das pessoas vão ao cinema somente em busca de diversão. Essa maneira de encarar o cinema é exemplo típico da cultura de massa, que tem como base produtos de fácil digestão, feitos para agradar a todos e que visam atingir o maior número possível de pessoas, gerando, assim, o lucro.

"Afirma-se que as massas procuram na obra de arte distração, enquanto o conhecedor a aborda com recolhimento. Para as massa, a obra de arte seria objeto de diversão, e para o conhecedor, objeto de devoção." - Benjamin W.

Os críticos da cultura de massa alegam que ela nivela por baixo a qualidade dos produtos culturais, dando ao público, no entanto, aquilo que ele deseja. Para piorar, "o que o público deseja" lhe é imposto por uma agressiva publicidade.

Esta crítica adquire fortes ares de verdade de acordo com as respostas da maioria dos entrevistados do Shopping Ibirapuera, onde estavam sendo exibidos os filmes "O Retorno da Múmia" (EUA, 2001), "Pearl Harbor" (EUA, 2001) e "Mais que o Acaso" (EUA, 2000), todos eles exemplares típicos da cultura de massa - que, no cenário cinematográfico atual, se traduz perfeitamente em filmes americanos, de grande orçamento, com grande investimento em publicidade e capitaneados ou por suntuosos efeitos especiais ou por grandes estrelas. Dentre os entrevistados que assistiram a qualquer um dos três filmes, apenas 13% não tinham uma opinião positiva sobre o mesmo. Alguns chegaram a dar respostas exaltadas louvando as qualidades das produções a que assistiram.

Também é curioso se observar o que levara os entrevistados do Shopping a assistir aos filmes por eles escolhidos. As respostas confirmam totalmente a crítica que aponta a cultura de massa como homogeneizadora dos produtos culturais. Poucos haviam escolhido o filme pelo tema ou pelos atores. Entre a maioria, aqueles que não haviam escolhido pela publicidade vista na televisão, em outdoors ou dentro da própria sala de cinema, nem sequer sabiam dizer porque o tinham escolhido. Foram comuns respostas do tipo "Vim com amigos, nem sabia que filme iria ver" ou "Cheguei aqui e escolhi pelo horário".

Estas afirmações demonstram que o próprio consumidor da dita cultura de massa, ou seja, a massa em si, tem consciência da padronização do produto "consumido" e reconhecem, ainda que inadvertidamente, que em pouco eles diferem um dos outros.

Este tipo de comportamento já não é observado nas salas Espaço Unibanco de Cinema e Top Cine. Na primeira sala, onde foi realizada pequena parte das entrevistas, estavam sendo exibidos os filmes "Infiel" (Suécia/Itália/Alemanha, 2000), "Código Desconhecido" (França, 2000) e "Amores Possíveis" (Brasil,2001), enquanto na segunda foram entrevistados os espectadores do filme "Domicílio Conjugal" (França, 1970). Perguntados sobre o porquê de terem escolhido os filmes a que assistiram, a absoluta maioria respondia ter sido pelo diretor do filme (especialmente no caso de "Domicílio Conjugal"). Outros disseram ter lido críticas em jornais ou ido por recomendação de amigos. Ninguém parecia não ter escolhido cuidadosamente o filme antes de sair de casa.

"Em suma, o que é aura? É uma figura singular, composta de elementos especiais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja." - Benjamin W.

A aura de uma obra de arte são as qualidades toda específicas que nela estão contidas e que a fazem única, diferente de todas as demais. Diante da possibilidade de reprodução, e mais, diante do surgimento de uma "arte" em que a reprodução deixa de ser um "auxiliar" para torna-se o próprio fim com que ela é produzida, propulsionando a crescente difusão e intensidade dos movimentos de massa, onde fica a aura?

Se um objeto já não é mais único, haverá nele uma aura? Onde está a aura no cinema? Como conhecida na era da obra de arte artesanal - caracterização de sua autenticidade e unicidade material - a aura não sobreviveu aos tempos industriais do cinema. No entanto, a singularidade antes física parece ter sido transmitida para o ramo intelectual.

Explica-se: um filme como objeto (a película) não tem qualquer valor artístico e, raramente, tem algum monetário. O que assegura a um filme hoje em dia seu valor de culto são os nomes envolvidos em sua produção, que por um motivo ou por outro, trazem consigo uma certa "aura" de respeitabilidade e prestígio. Assim, aos olhos do público, especialmente do público mais "educado", determinado diretor ou ator de cinema possui qualidades únicas que os diferem dos demais.

Nas entrevistas realizadas nas salas Top Cine e Espaço Unibanco de Cinema - especialmente na primeira - e pelas próprias condições com que elas foram realizadas, percebe-se a forte presença desta "aura metamorfoseada". Ela aparece visivelmente encarnada na figura de François Truffaut, cineasta francês cujo filme, "Domicílio Conjugal" estava sendo exibido no Top Cine.


Diversos filmes de Truffaut, todos anteriores a 1982, tiveram recentes relançamentos na cidade, quase que em sua totalidade na referida sala de exibição. Este fato em si já demonstra a existência de um culto acerca da figura de Truffaut, pois, assim não fosse, seus filmes, antigos, não estariam sendo exibidos novamente em cinemas. Esta série de relançamentos criou um novo público para o diretor: isto se mostra pelo fato de cerca de 25% dos entrevistados que assistiram ao seu filme terem entre 18 e 25 anos. Além disso, essa reedição dos filmes de Truffaut veio alimentar a saudade e o culto de fãs já antigos.

Cerca de 94% dos entrevistados que assistiram ao filme de François Truffaut disseram ter escolhido o filme por causa do diretor e por já terem visto os outros recentes relançamentos exibidos; 100% dos entrevistados manifestaram uma opinião positiva em relação ao filme. Este é, sem dúvida um atestado de que Truffaut, assim como outros diretores e profissionais do cinema, traz em seu nome respeitabilidade e admiração intelectual por uma parte do público cinematográfico; público este que, inadvertidamente ou não, em maior ou em menor grau, mantém viva uma aura em torno do diretor que, se não se relaciona à definição transmitida pela tradição, não deixa de ser uma transfiguração da aura tradicional que vem a mantendo viva em meio a tempos industriais e veículos culturais calcados na reprodutibilidade.

É curioso observar o que se sucede aos espectadores dos cinemas de shopping em relação à questão da aura. Entre os entrevistados, 52% disseram ter escolhido o filme por causa do tema, 35% alegaram não ter a escolha um motivo específico, 9% disseram ter ido ao cinema por causa da atriz e apenas 4% motivaram sua escolha na figura do diretor. Onde fica a aura nestas circunstâncias? Não havendo uma unidade nas respostas em relação a uma pessoa, ou melhor, havendo tão poucas respostas que dissessem respeito à uma única figura, fica difícil pensar na existência de um culto, qualquer que seja.

Há, no entanto, fatos a serem observados. Os entrevistados foram confrontados com uma lista de nomes de atores que incluíam Julia Roberts, Brad Pitt, Mel Gibson, Denzel Washington, Marcello Mastroiani, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau e Vittorio Gassman. A disparidade entre as respostas de pessoas abordadas nos diferentes lugares é curiosa.

No Shopping, os entrevistados, de uma maneira geral, associam os dois primeiros nomes da lista - atores de grandes produções americanas - com a beleza física de ambos. Julia Roberts também é comumente associada à indústria de cinema, exemplificadas por definições como "bilheteria" e "Oscar". Alguns a disseram uma boa atriz.

Mel Gibson aparece como paradigma do bom ator para grande parte dos entrevistados, sem, no entanto, deixar de ser associado à beleza física. Já o nome de Denzel Washington - outro ator de filmes americanos da lista, mas que, não raro, participa de produções menos comerciais e ambiciosas - causava uma certa confusão nas respostas. Poucos pareciam o conhecer de fato, dividindo opiniões entre bom e ruim. A maioria parecia não estar certa de que pessoa estava se falando, dando respostas nulas.

Entre os espectadores das salas Top Cine e Espaço Unibanco, praticamente todos também associaram os nomes de Julia Roberts e Brad Pitt à beleza e à indústria americana de cinema. Mel Gibson, além de ter sua beleza lembrada, é associado invariavelmente à canastrice. Denzel Washington, por sua vez, continua não dizendo muita coisa aos entrevistados, já que metade disse não o conhecer e a outra metade destacou seu talento.

Perguntados sobre os atores europeus da lista, os mesmos espectadores citados acima apresentaram respostas parecidas entre si. Marcello Mastroiani e Catherine Deneuve foram sempre lembrados pelo talento e pela elegância. O teor das respostas mostrou um grande respeito e admiração por ambos, colocando-os como mitos do cinema. Vittorio Gassman e Jeanne Moreau foram lembrados por metade dos entrevistados, que sempre elogiou-lhes o talento com adjetivos como "mestre" e "maravilhosa".

A situação dos atores europeus nas salas de cinema do shopping não se mostra muito animadora: 91% dos entrevistados alegou não conhecerem Jeanne Moreau e Vittorio Gassman. Não obstante, os 9% restantes lembraram-se dos dois atores com grande respeito pelo seu talento. Marcello Mastroiani e Catherine Deneuve foram, em geral, bem lembrados, mas as respostas não indicavam uma familiaridade dos espectadores com ambos, e sim uma lembrança advinda da imagem deles na mídia.

Todo este panorama traçado encontra fortes ecos nas teorias que cuidam da indústria cultural. As alegações dos defensores da cultura de massa, que dizem ser ela uma maneira de democratização da informação, podendo o exagero quantitativo causar uma mutação qualitativa, é fortemente contradita pelo fato, descrito acima, de os entrevistados no shopping, ou seja, daqueles que poderiam ser considerados "massa", conhecerem ou lembrarem-se de dois atores criticamente prestigiadíssimos como Marcello Mastroiani e Catherine Deneuve somente pela imagem midiática que se faz deles, e nunca por ter visto algum filme em que eles atuam e reconhecido seu talento. Sobre esta constatação, a cultura de massa parece, sim, nivelar a qualidade por baixo e impor aquilo que o público deve desejar, ao contrário daqueles que dizem que ela oferece uma enorme gama de possibilidade a serem descobertas.

Observando os freqüentadores das três diferentes salas visitadas, e com base em suas respostas, concluímos que há uma clara divisão não conceitual mas também espacial entre "público" e "massa" nos cinemas paulistanos. Os conhecedores da arte cinematográfica, aqueles que a encaram com uma certa devoção e vêem nela, muitas vezes, uma manifestação artística, encontram-se entre os espectadores das salas Top Cine e Espaço Unibanco de Cinema. Já aqueles que vêem o cinema majoritariamente como entretenimento e não apresentam rígidos critérios ou mesmo opinião própria ao escolher um filme, sendo guiados por grandes e ofensivas campanhas publicitárias, e que, portanto, representam a "massa", encontram-se entre os espectadores das salas do cinema do Shopping Ibirapuera, que, por sua vez, em nada ou pouco diferem das outras salas de cinema de shoppings de São Paulo.

Esta divisão se faz ainda mais clara analisando-se as respostas dos entrevistados quando perguntados sobre quem os atraia aos cinemas. Em todas as salas de cinema pesquisadas, 60% dos freqüentadores disseram não ter preferência por ninguém em especial. Dentre os restantes, as diferentes respostas obtidas nas diferentes salas mostram opiniões bastante díspares. Nas salas de cinema Top Cine e Espaço Unibanco, foram citados os nomes de Jim Jamursch, Lars Von Trier, Quentin Tarantino, Ingmar Bergman, Rainer Werner Fassbinder, Hal Hartley, Woody Allen, Al pacino, Federico Fellini e Julia Roberts. Nas salas do Shopping Ibirapuera, foram lembrados os nomes de Steven Spielberg, James Cameron, Julia Roberts, Fernanda Montenegro, Alfred Hitchicock, Brad Pitt, Ben Affleck, Ewan McGregor e Sandra Bullock.

De uma maneira geral, salvo algumas exceções, os espectadores que caracterizam-se como público conhecedor de cinema citaram os nomes considerados por parte da crítica e de especialistas como possuidores de estilos próprios e outras características positivas individuais, mas que costumam permanecer restritos a uma pequena parcela de público. Os espectadores considerados parte da massa, por sua vez, citaram nomes considerados pela crítica como menores, sem valor artístico, mas que, não obstante, obtêm grande retorno financeiro nos projetos em que se envolvem e que são louvados e assistidos por um incomensurável número de pessoas no mundo inteiro.

Sendo assim, parece haver uma polarização da cultura cinematográfica: há uma pequena parcela dos espectadores, geralmente intelectualizados, que louvam determinados nomes da arte fílmica sobre os quais se vê derramadas chuvas de elogios por parte de "especialistas", e há uma imensa massa de pessoas que admiram figuras possuidoras de grande apelo popular, mas que oferecem a seus espectadores um cinema dito pasteurizado e sem grandes qualidades. Ocorre aí um triste círculo vicioso. O público conhecedor admira e assiste a filmes que acabam sendo feitos somente para tal público, já que não têm penetração nas massas. As massas, por estarem acostumadas e acomodadas com aquilo que lhes é oferecido, raramente buscam novas alternativas. Se por um lado o conhecedor tem acesso à cultura de massa, o espectador que se insere na massa dificilmente tem acesso à produtos mais intelectualizados como os vistos pelo conhecedor.

Todas as argumentações feitas anteriormente levam a uma conclusão bastante clara: no que diz respeito ao cinema e à maneira como sua exibição é estruturada na cidade de São Paulo, há uma indústria cultural despejando dezenas de produtos - via de regra ruins - em diversas salas de exibição cinematográficas e sendo assistida por milhares de pessoas, enquanto uma pequena parcela de produtos diferenciados e, em geral, de melhor qualidade, fica restrita a um espaço que acaba por tornar-se "elitizado", tanto em termos de renda quanto em termos intelectuais, e freqüentado por um número infinitamente menor de pessoas.

Esta diferenciação na maneira de encarar o cinema - diversão por parte da massa, devoção por parte do público conhecedor - parece agradar a ambas as partes: os dois grupos de espectadores de produtos tão distintos entre si parecem satisfeitos.

Quanto à obra de arte em sua forma cinematográfica, ela também é vítima de uma polarização: dividi-se nos que reconhecem nela algum valor ( de culto) e os que a encaram de maneira mais superficial e descompromissada (elevando a potencialidade de seu valor de exposição, valor esse que acaba sendo vazio por extremamente fugaz e transitório).

Não se trata de fazer aqui uma defesa ou uma acusação da cultura de massa, nem tampouco discutir os benefícios ou malefícios da possibilidade da reprodutibilidade da obra de arte. Fica, no entanto, uma constatação conclusiva: a separação espacial de níveis de cultura como hoje observados tendem a ser prejudiciais para todos. A cultura de massa não é ruim em si e nem a cultura é qualitativamente perfeita. Um senso crítico mais educado em todo o público da indústria cultural talvez já fosse um bom começo para a mudança e quiçá melhora da situação.


REFERÊNCIAS

Amores Possíveis, de Sandra Werneck
(brasil, 2001)

Código Desconhecido, de Michael Haneke
Code Inconnu (França, 2000)

Domicílio Conjugal, de François Truffaut
Domicile Conjugal (França, 1970)

Infiel, de Liv Ullman
Trolösa (Suécia/Itália/Alemanha, 2000)

Mais que o Acaso, de Don Ross
Bounce (EUA, 2000)

Pearl Harbor, de Michael Bay
(EUA, 2001)

Retorno da Múmia, de Stephen Sommers
The Mumy Returns (EUA, 2001)

François Truffaut, ator e cineasta
Nascido na França (1932-1984)
Um dos cineastas mais importantes da França e um dos fundadores da Nouvelle Vague, Truffaut sempre foi aclamado por seu entusiasmo juvenil que nutria pela arte de fazer filmes. Seu tema mais recorrente é o amor e seus filmes são notáveis pela capacidade de misturar risos e lágrimas, leveza e seriedade.

Entre seus filmes de maior destaque encontram-se:

Os Incompreendidos (1959)
Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1961)
Beijos Proibidos (1968)
O Garoto Selvagem (1969)
Domicílio Conjugal (1970)
A noite Americana (1973)
A História de Adele H (1975)
O Homem Que Amava as mulheres (1977)
O Amor em Fuga (1979)
O Último Metrô (1980)
De Repente Num Domingo (1983)


BIBLIOGRAFIA

BENJAMIM, W. "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica" in Magia, Técnica, Arte e Política

ECO, UMBERTO "Cultura de Massa e 'Níveis' de Cultura" in Apocalípticos e Integrados