A reprodutibilidade da obra de arte, ao longo da história,
é dividida em dois estágios: há a cópia
que existe a partir de um original único e valioso, servindo
para a sua difusão e produzida artesanalmente, e há
a obra que já nasce para ser copiada, da qual original e reprodução
em nada diferem em termos de valor. Esta só passou a existir
a partir de uma evolução tecnológica que permitiu
a reprodução em escala industrial. A reprodutibilidade
técnica, portanto, inaugurou uma nova era na maneira de olhar
e entender a obra de arte.
A maior questão levantada parece mesmo ter sido a autenticidade
da obra. Tomemos como exemplo uma pintura. O quadro criado pelo artista
é único: possui um valor que nunca poderá ser
apropriado por nenhuma cópia, por mais perfeita que ela seja.
Cada pintura, portanto, possui um valor de culto, uma vez que é
feita por determinado artista em determinadas circunstâncias
que não se repetem.
A fotografia foi quem primeiro desestruturou o conceito de valor de
culto e trouxe consigo a prerrogativa de um novo valor, o de exposição.
Na arte fotográfica, o original em nada difere de sua cópia,
o que acaba por tornar incoerente o culto por esse original. O valor
de exposição, então, toma o espaço do
valor de culto, pois a valorização dessa obra não
está mais no objeto em si, e sim na visibilidade que ele venha
a adquirir.
Se a reprodução em escala industrial já é
uma característica marcante nos tempos capitalistas, o que
dizer da possibilidade de reprodução sem limites de
uma obra, tornando-a assim, acessível a enorme quantidade de
pessoas? É exatamente esta idéia da obra de arte disponível
ao consumo de um incontável contingente de público que
caracteriza a era da sua reprodutibilidade técnica.
O objeto artístico não é mais feito para ser
visto e apreciado como um exemplar único; ele é feito
para ser reproduzido para o maior número de pessoas possível.
E este fator, ou esta mudança na maneira de encarar a produção
artística, foi quem "criou" a cultura de massa, que
, por sua vez, representa exatamente esta produção cultural
feita em grande escala para um grande público e, supostamente,
sem uma preocupação notável com a qualidade.
O cinema é o exemplo máximo da obra de arte na era da
reprodutibilidade técnica e também de veículo
que atende perfeitamente à cultura de massa: não há,
em relação ao filme, uma diferenciação
de seu original para sua cópia e ele existe, apenas, para ser
visto pelo maior número possível de pessoas.
"Ao se
emancipar dos seus fundamentos no culto, na era da reprodutibilidade
técnica, a arte perdeu qualquer aparência de autonomia.
Porém a época não se deu conta da refuncionalização
da arte, decorrente dessa circunstância." - Benjamin
W. "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica."
Por sua natureza,
o cinema, ainda hoje, é alvo de debates em relação
a seus valores artísticos. Para entendermos as diferentes relações
dos paulistanos com o cinema, entrevistamos 100 pessoas em locais
diferentes da cidade, cada um com características próprias.
O primeiro grupo de pessoas entrevistado foram os freqüentadores
das salas Espaço Unibanco de Cinema (r. Augusta, 1.470/1.475)
e Top Cine (av. Paulista, 854). Estes cinemas são conhecidos
pela sua programação de filmes não comerciais
e não americanos, procurando sempre destacar novas e desconhecidas
cinematografias, além de promover relançamentos de obras
de grandes cineastas.
O segundo grupo de pessoas foi entrevistado nas salas de cinema do
Shopping Ibirapuera (av. Ibirapuera, 3.103) que, assim como grande
parte das salas de cinema de São Paulo, especialmente aquelas
situadas em shoppings, exibia grandes produções hollywoodianas,
lançadas recentemente com grandes campanhas de marketing.
O perfil dos entrevistados mostrou-se o seguinte: 43% das pessoas
abordadas no Shopping Ibirapuera têm idade entre 14 e 18 anos
e apenas uma delas afirmou ver o cinema como uma forma de arte, enquanto
o restante vê o cinema somente como entretenimento. Entre os
entrevistados nas outras salas, a porcentagem de freqüentadores
da mesma faixa etária foi nula, estando os jovens entre 19
e 25 anos como maioria (39%). Destes, 33% afirmam ver o cinema como
arte, 55% como arte e entretenimento e 12% apenas como lazer.
Nesta faixa etária (19 a 25 anos) encontravam-se 30% dos entrevistados
nas salas de cinema do shopping, e , destes, 14% vêem no cinema
uma forma de arte, 29% arte e entretenimento e o restante (57%) diz
ser o cinema apenas lazer. Esta porcentagem difere drasticamente entre
os entrevistados do mesmo local com idade entre 26 a 35 anos. Neste
grupo, representando apenas 9% do total dos entrevistados, 50% das
pessoas dizem ser o cinema entretenimento e arte e 50% diz ser apenas
lazer.
Entre as pessoas abordadas no Espaço Unibanco de Cinema e no
Top Cine, 30% têm idade entre 26 e 35 anos e, entre elas, 14%
consideram o cinema apenas como lazer, enquanto o restante o considera
tanto arte quanto entretenimento. No mesmo local, 26% das pessoas
encontram-se na faixa entre 36 e 50 anos e apenas 4% possuem mais
de 50 anos. Entre as primeiras, 33% vêem o cinema como arte
e o restante como arte e entretenimento. No último grupo, 100%
consideram o cinema um misto entre arte e entretenimento.
Nas salas do shopping, 9% dos entrevistados disseram ter entre 26
e 35 anos, 13% entre 36 e 50 anos e apenas 4% mais de 50 anos. No
primeiro grupo, a porcentagem é igualmente dividida entre os
que acham ser o cinema uma forma de lazer e os que também o
consideram arte. Já nos dois últimos grupos, 100% dos
entrevistados vêem o cinema apenas como lazer.
Com base nessas respostas, ficam claras as diferentes significações
que o cinema tem para os dois grupos entrevistados. Nas salas que
exibem filmes mais selecionados, mais freqüentemente vistos por
críticos e especialistas como " arte", a maior parte
do público vai ao cinema procurando exatamente isto, "arte".
Já nas salas que exibem filmes mais comerciais, que por sua
própria natureza não aspiram a ser um produto artístico,
quase a totalidade das pessoas vão ao cinema somente em busca
de diversão. Essa maneira de encarar o cinema é exemplo
típico da cultura de massa, que tem como base produtos de fácil
digestão, feitos para agradar a todos e que visam atingir o
maior número possível de pessoas, gerando, assim, o
lucro.
"Afirma-se
que as massas procuram na obra de arte distração, enquanto
o conhecedor a aborda com recolhimento. Para as massa, a obra de arte
seria objeto de diversão, e para o conhecedor, objeto de devoção."
- Benjamin W.
Os críticos
da cultura de massa alegam que ela nivela por baixo a qualidade dos
produtos culturais, dando ao público, no entanto, aquilo que
ele deseja. Para piorar, "o que o público deseja"
lhe é imposto por uma agressiva publicidade.
Esta crítica adquire fortes ares de verdade de acordo com as
respostas da maioria dos entrevistados do Shopping Ibirapuera, onde
estavam sendo exibidos os filmes "O Retorno da Múmia"
(EUA, 2001), "Pearl Harbor" (EUA, 2001) e "Mais que
o Acaso" (EUA, 2000), todos eles exemplares típicos da
cultura de massa - que, no cenário cinematográfico atual,
se traduz perfeitamente em filmes americanos, de grande orçamento,
com grande investimento em publicidade e capitaneados ou por suntuosos
efeitos especiais ou por grandes estrelas. Dentre os entrevistados
que assistiram a qualquer um dos três filmes, apenas 13% não
tinham uma opinião positiva sobre o mesmo. Alguns chegaram
a dar respostas exaltadas louvando as qualidades das produções
a que assistiram.
Também é curioso se observar o que levara os entrevistados
do Shopping a assistir aos filmes por eles escolhidos. As respostas
confirmam totalmente a crítica que aponta a cultura de massa
como homogeneizadora dos produtos culturais. Poucos haviam escolhido
o filme pelo tema ou pelos atores. Entre a maioria, aqueles que não
haviam escolhido pela publicidade vista na televisão, em outdoors
ou dentro da própria sala de cinema, nem sequer sabiam dizer
porque o tinham escolhido. Foram comuns respostas do tipo "Vim
com amigos, nem sabia que filme iria ver" ou "Cheguei aqui
e escolhi pelo horário".
Estas afirmações demonstram que o próprio consumidor
da dita cultura de massa, ou seja, a massa em si, tem consciência
da padronização do produto "consumido" e reconhecem,
ainda que inadvertidamente, que em pouco eles diferem um dos outros.
Este tipo de comportamento já não é observado
nas salas Espaço Unibanco de Cinema e Top Cine. Na primeira
sala, onde foi realizada pequena parte das entrevistas, estavam sendo
exibidos os filmes "Infiel" (Suécia/Itália/Alemanha,
2000), "Código Desconhecido" (França, 2000)
e "Amores Possíveis" (Brasil,2001), enquanto na segunda
foram entrevistados os espectadores do filme "Domicílio
Conjugal" (França, 1970). Perguntados sobre o porquê
de terem escolhido os filmes a que assistiram, a absoluta maioria
respondia ter sido pelo diretor do filme (especialmente no caso de
"Domicílio Conjugal"). Outros disseram ter lido críticas
em jornais ou ido por recomendação de amigos. Ninguém
parecia não ter escolhido cuidadosamente o filme antes de sair
de casa.
"Em suma,
o que é aura? É uma figura singular, composta de elementos
especiais e temporais: a aparição única de uma
coisa distante, por mais perto que ela esteja." - Benjamin W.
A aura de uma
obra de arte são as qualidades toda específicas que
nela estão contidas e que a fazem única, diferente de
todas as demais. Diante da possibilidade de reprodução,
e mais, diante do surgimento de uma "arte" em que a reprodução
deixa de ser um "auxiliar" para torna-se o próprio
fim com que ela é produzida, propulsionando a crescente difusão
e intensidade dos movimentos de massa, onde fica a aura?
Se um objeto já não é mais único, haverá
nele uma aura? Onde está a aura no cinema? Como conhecida na
era da obra de arte artesanal - caracterização de sua
autenticidade e unicidade material - a aura não sobreviveu
aos tempos industriais do cinema. No entanto, a singularidade antes
física parece ter sido transmitida para o ramo intelectual.
Explica-se: um filme como objeto (a película) não tem
qualquer valor artístico e, raramente, tem algum monetário.
O que assegura a um filme hoje em dia seu valor de culto são
os nomes envolvidos em sua produção, que por um motivo
ou por outro, trazem consigo uma certa "aura" de respeitabilidade
e prestígio. Assim, aos olhos do público, especialmente
do público mais "educado", determinado diretor ou
ator de cinema possui qualidades únicas que os diferem dos
demais.
Nas entrevistas realizadas nas salas Top Cine e Espaço Unibanco
de Cinema - especialmente na primeira - e pelas próprias condições
com que elas foram realizadas, percebe-se a forte presença
desta "aura metamorfoseada". Ela aparece visivelmente encarnada
na figura de François Truffaut, cineasta francês cujo
filme, "Domicílio Conjugal" estava sendo exibido
no Top Cine.
Diversos filmes de Truffaut, todos anteriores a 1982, tiveram recentes
relançamentos na cidade, quase que em sua totalidade na referida
sala de exibição. Este fato em si já demonstra
a existência de um culto acerca da figura de Truffaut, pois,
assim não fosse, seus filmes, antigos, não estariam
sendo exibidos novamente em cinemas. Esta série de relançamentos
criou um novo público para o diretor: isto se mostra pelo fato
de cerca de 25% dos entrevistados que assistiram ao seu filme terem
entre 18 e 25 anos. Além disso, essa reedição
dos filmes de Truffaut veio alimentar a saudade e o culto de fãs
já antigos.
Cerca de 94% dos entrevistados que assistiram ao filme de François
Truffaut disseram ter escolhido o filme por causa do diretor e por
já terem visto os outros recentes relançamentos exibidos;
100% dos entrevistados manifestaram uma opinião positiva em
relação ao filme. Este é, sem dúvida um
atestado de que Truffaut, assim como outros diretores e profissionais
do cinema, traz em seu nome respeitabilidade e admiração
intelectual por uma parte do público cinematográfico;
público este que, inadvertidamente ou não, em maior
ou em menor grau, mantém viva uma aura em torno do diretor
que, se não se relaciona à definição transmitida
pela tradição, não deixa de ser uma transfiguração
da aura tradicional que vem a mantendo viva em meio a tempos industriais
e veículos culturais calcados na reprodutibilidade.
É curioso observar o que se sucede aos espectadores dos cinemas
de shopping em relação à questão da aura.
Entre os entrevistados, 52% disseram ter escolhido o filme por causa
do tema, 35% alegaram não ter a escolha um motivo específico,
9% disseram ter ido ao cinema por causa da atriz e apenas 4% motivaram
sua escolha na figura do diretor. Onde fica a aura nestas circunstâncias?
Não havendo uma unidade nas respostas em relação
a uma pessoa, ou melhor, havendo tão poucas respostas que dissessem
respeito à uma única figura, fica difícil pensar
na existência de um culto, qualquer que seja.
Há, no entanto, fatos a serem observados. Os entrevistados
foram confrontados com uma lista de nomes de atores que incluíam
Julia Roberts, Brad Pitt, Mel Gibson, Denzel Washington, Marcello
Mastroiani, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau e Vittorio Gassman. A
disparidade entre as respostas de pessoas abordadas nos diferentes
lugares é curiosa.
No Shopping, os entrevistados, de uma maneira geral, associam os dois
primeiros nomes da lista - atores de grandes produções
americanas - com a beleza física de ambos. Julia Roberts também
é comumente associada à indústria de cinema,
exemplificadas por definições como "bilheteria"
e "Oscar". Alguns a disseram uma boa atriz.
Mel Gibson aparece como paradigma do bom ator para grande parte dos
entrevistados, sem, no entanto, deixar de ser associado à beleza
física. Já o nome de Denzel Washington - outro ator
de filmes americanos da lista, mas que, não raro, participa
de produções menos comerciais e ambiciosas - causava
uma certa confusão nas respostas. Poucos pareciam o conhecer
de fato, dividindo opiniões entre bom e ruim. A maioria parecia
não estar certa de que pessoa estava se falando, dando respostas
nulas.
Entre os espectadores das salas Top Cine e Espaço Unibanco,
praticamente todos também associaram os nomes de Julia Roberts
e Brad Pitt à beleza e à indústria americana
de cinema. Mel Gibson, além de ter sua beleza lembrada, é
associado invariavelmente à canastrice. Denzel Washington,
por sua vez, continua não dizendo muita coisa aos entrevistados,
já que metade disse não o conhecer e a outra metade
destacou seu talento.
Perguntados sobre os atores europeus da lista, os mesmos espectadores
citados acima apresentaram respostas parecidas entre si. Marcello
Mastroiani e Catherine Deneuve foram sempre lembrados pelo talento
e pela elegância. O teor das respostas mostrou um grande respeito
e admiração por ambos, colocando-os como mitos do cinema.
Vittorio Gassman e Jeanne Moreau foram lembrados por metade dos entrevistados,
que sempre elogiou-lhes o talento com adjetivos como "mestre"
e "maravilhosa".
A situação dos atores europeus nas salas de cinema do
shopping não se mostra muito animadora: 91% dos entrevistados
alegou não conhecerem Jeanne Moreau e Vittorio Gassman. Não
obstante, os 9% restantes lembraram-se dos dois atores com grande
respeito pelo seu talento. Marcello Mastroiani e Catherine Deneuve
foram, em geral, bem lembrados, mas as respostas não indicavam
uma familiaridade dos espectadores com ambos, e sim uma lembrança
advinda da imagem deles na mídia.
Todo este panorama
traçado encontra fortes ecos nas teorias que cuidam da indústria
cultural. As alegações dos defensores da cultura de
massa, que dizem ser ela uma maneira de democratização
da informação, podendo o exagero quantitativo causar
uma mutação qualitativa, é fortemente contradita
pelo fato, descrito acima, de os entrevistados no shopping, ou seja,
daqueles que poderiam ser considerados "massa", conhecerem
ou lembrarem-se de dois atores criticamente prestigiadíssimos
como Marcello Mastroiani e Catherine Deneuve somente pela imagem midiática
que se faz deles, e nunca por ter visto algum filme em que eles atuam
e reconhecido seu talento. Sobre esta constatação, a
cultura de massa parece, sim, nivelar a qualidade por baixo e impor
aquilo que o público deve desejar, ao contrário daqueles
que dizem que ela oferece uma enorme gama de possibilidade a serem
descobertas.
Observando os
freqüentadores das três diferentes salas visitadas, e com
base em suas respostas, concluímos que há uma clara
divisão não conceitual mas também espacial entre
"público" e "massa" nos cinemas paulistanos.
Os conhecedores da arte cinematográfica, aqueles que a encaram
com uma certa devoção e vêem nela, muitas vezes,
uma manifestação artística, encontram-se entre
os espectadores das salas Top Cine e Espaço Unibanco de Cinema.
Já aqueles que vêem o cinema majoritariamente como entretenimento
e não apresentam rígidos critérios ou mesmo opinião
própria ao escolher um filme, sendo guiados por grandes e ofensivas
campanhas publicitárias, e que, portanto, representam a "massa",
encontram-se entre os espectadores das salas do cinema do Shopping
Ibirapuera, que, por sua vez, em nada ou pouco diferem das outras
salas de cinema de shoppings de São Paulo.
Esta divisão se faz ainda mais clara analisando-se as respostas
dos entrevistados quando perguntados sobre quem os atraia aos cinemas.
Em todas as salas de cinema pesquisadas, 60% dos freqüentadores
disseram não ter preferência por ninguém em especial.
Dentre os restantes, as diferentes respostas obtidas nas diferentes
salas mostram opiniões bastante díspares. Nas salas
de cinema Top Cine e Espaço Unibanco, foram citados os nomes
de Jim Jamursch, Lars Von Trier, Quentin Tarantino, Ingmar Bergman,
Rainer Werner Fassbinder, Hal Hartley, Woody Allen, Al pacino, Federico
Fellini e Julia Roberts. Nas salas do Shopping Ibirapuera, foram lembrados
os nomes de Steven Spielberg, James Cameron, Julia Roberts, Fernanda
Montenegro, Alfred Hitchicock, Brad Pitt, Ben Affleck, Ewan McGregor
e Sandra Bullock.
De uma maneira geral, salvo algumas exceções, os espectadores
que caracterizam-se como público conhecedor de cinema citaram
os nomes considerados por parte da crítica e de especialistas
como possuidores de estilos próprios e outras características
positivas individuais, mas que costumam permanecer restritos a uma
pequena parcela de público. Os espectadores considerados parte
da massa, por sua vez, citaram nomes considerados pela crítica
como menores, sem valor artístico, mas que, não obstante,
obtêm grande retorno financeiro nos projetos em que se envolvem
e que são louvados e assistidos por um incomensurável
número de pessoas no mundo inteiro.
Sendo assim, parece haver uma polarização da cultura
cinematográfica: há uma pequena parcela dos espectadores,
geralmente intelectualizados, que louvam determinados nomes da arte
fílmica sobre os quais se vê derramadas chuvas de elogios
por parte de "especialistas", e há uma imensa massa
de pessoas que admiram figuras possuidoras de grande apelo popular,
mas que oferecem a seus espectadores um cinema dito pasteurizado e
sem grandes qualidades. Ocorre aí um triste círculo
vicioso. O público conhecedor admira e assiste a filmes que
acabam sendo feitos somente para tal público, já que
não têm penetração nas massas. As massas,
por estarem acostumadas e acomodadas com aquilo que lhes é
oferecido, raramente buscam novas alternativas. Se por um lado o conhecedor
tem acesso à cultura de massa, o espectador que se insere na
massa dificilmente tem acesso à produtos mais intelectualizados
como os vistos pelo conhecedor.
Todas as argumentações
feitas anteriormente levam a uma conclusão bastante clara:
no que diz respeito ao cinema e à maneira como sua exibição
é estruturada na cidade de São Paulo, há uma
indústria cultural despejando dezenas de produtos - via de
regra ruins - em diversas salas de exibição cinematográficas
e sendo assistida por milhares de pessoas, enquanto uma pequena parcela
de produtos diferenciados e, em geral, de melhor qualidade, fica restrita
a um espaço que acaba por tornar-se "elitizado",
tanto em termos de renda quanto em termos intelectuais, e freqüentado
por um número infinitamente menor de pessoas.
Esta diferenciação na maneira de encarar o cinema -
diversão por parte da massa, devoção por parte
do público conhecedor - parece agradar a ambas as partes: os
dois grupos de espectadores de produtos tão distintos entre
si parecem satisfeitos.
Quanto à obra de arte em sua forma cinematográfica,
ela também é vítima de uma polarização:
dividi-se nos que reconhecem nela algum valor ( de culto) e os que
a encaram de maneira mais superficial e descompromissada (elevando
a potencialidade de seu valor de exposição, valor esse
que acaba sendo vazio por extremamente fugaz e transitório).
Não se trata de fazer aqui uma defesa ou uma acusação
da cultura de massa, nem tampouco discutir os benefícios ou
malefícios da possibilidade da reprodutibilidade da obra de
arte. Fica, no entanto, uma constatação conclusiva:
a separação espacial de níveis de cultura como
hoje observados tendem a ser prejudiciais para todos. A cultura de
massa não é ruim em si e nem a cultura é qualitativamente
perfeita. Um senso crítico mais educado em todo o público
da indústria cultural talvez já fosse um bom começo
para a mudança e quiçá melhora da situação.
REFERÊNCIAS
Amores Possíveis,
de Sandra Werneck
(brasil, 2001)
Código
Desconhecido, de Michael Haneke
Code Inconnu (França, 2000)
Domicílio
Conjugal, de François Truffaut
Domicile Conjugal (França, 1970)
Infiel, de Liv
Ullman
Trolösa (Suécia/Itália/Alemanha, 2000)
Mais que o Acaso,
de Don Ross
Bounce (EUA, 2000)
Pearl Harbor,
de Michael Bay
(EUA, 2001)
Retorno da Múmia,
de Stephen Sommers
The Mumy Returns (EUA, 2001)
François
Truffaut, ator e cineasta
Nascido na França (1932-1984)
Um dos cineastas mais importantes da França e um dos fundadores
da Nouvelle Vague, Truffaut sempre foi aclamado por seu entusiasmo
juvenil que nutria pela arte de fazer filmes. Seu tema mais recorrente
é o amor e seus filmes são notáveis pela capacidade
de misturar risos e lágrimas, leveza e seriedade.
Entre seus filmes de maior destaque encontram-se:
Os Incompreendidos (1959)
Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (1961)
Beijos Proibidos (1968)
O Garoto Selvagem (1969)
Domicílio Conjugal (1970)
A noite Americana (1973)
A História de Adele H (1975)
O Homem Que Amava as mulheres (1977)
O Amor em Fuga (1979)
O Último Metrô (1980)
De Repente Num Domingo (1983)
BIBLIOGRAFIA
BENJAMIM, W. "A
Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica"
in Magia, Técnica, Arte e Política
ECO, UMBERTO "Cultura
de Massa e 'Níveis' de Cultura" in Apocalípticos
e Integrados