A questão de Frodo
com o cinema atual
Sempre que uma
obra cinematográfica é resultado de uma adaptação
literária, as dificuldades de linguagem e a necessidade de
modificações são necessárias para criar
um universo visual do que, quando lido, traz um caráter pessoal
imaginativo individual muito forte de quem lê.
Quanto maior a obra literária, mais imensos se tornam os cuidados
obrigatórios para que a essência da obra não seja
subtraída. Algumas obras são consideradas impossíveis
de serem adaptadas, ou ainda se aposta que a mesma só vale
como livro, e não como cinema. Em 2001 muito discutiu-se sobre
o que viria a ser a obra "O Senhor dos Anéis" no
cinema. Os olhos de milhares de fãs se voltaram para o diretor
Peter Jackson e quais as soluções que ele iria buscar
para dimensionar no filme o universo criado por J. R. R. Tolkien.
Resolvi então ler a obra, ainda que tardiamente, pois sendo
um amante da literatura e ainda um jogador de Rpg, os livros de Tolkien
é leitura obrigatória, e somente eu posso saber as maravilhas
que perdi na chance de tê-las sabido antes.
Quando estive no cinema para ver o filme, acompanhado de inúmeros
garotos de faixa etária jovem vestidos de Gandalf, Legolas
e outras belas loiras de Galadriel, pude perceber que a obra de Tolkien
ainda hoje, e sempre será, uma leitura universal, porque manipula
a magia real que existe em nós e em seres que infelizmente
não podemos ser, caso não seja nos nossos sonhos ou
jogos.
Mas, no filme do Harry Potter também há milhares de
crianças que se fantasiam de bruxinhos, e por que ele não
é tão grandioso quanto "Lord of the Rings"?
Primeiro que, sendo uma literatura contemporânea, a linguagem
da escritora J. Rowling já faz o livro possuir facilidades
e já abre um certo nicho mercadológico. Acho que este
é o problema de Harry Potter. Seus ensinamentos nada mais são
do que lições de Paulo Coelho para crianças,
e o mercado se une à isso para fazer de Harry um fenômeno,
pois no filme, o bruxo tem que comprar a capa, comprar tal coisa...ou
seja...que magia é esta ?
Enquanto a magia do Harry vem dos objetos que ele compra, a magia
de Frodo vem da sua simplicidade de vida e a sabedoria que outros
lhe dão.
Muito discutia-se se o filme conseguiria reproduzir o "universo
grandioso criado por Tolkien". A resposta inicial é sim,
o filme abusou do argumento de que "uma imagem vale mais que
mil palavras" e com isso os cenários e algumas situações
só precisaram disso para existirem no cinema. Jackson e sua
equipe conseguiram sim fazer que as cenas de batalhas fossem tão
grandiosas, que a emoção palpitasse de forma intensa
também nos momentos mais melancólicos. Tecnicamente
o filme é perfeito, a Direção de Arte convence
e encanta; a Fotografia paira do sombrio ao emocional de forma dinâmica;
os Efeitos Especiais erraram em uma ou outra parte mas só com
a tecnologia de hoje foi possível realizar um filme como este;
e o elenco é sem dúvida tudo o que está na livro.
O universo referido de Tolkien é sem dúvida grandioso
pelo trabalho que este escritor teve em criar mil histórias,
enormes árvores genealógicas e inventar raças
e personagens que nos encantasse. Ao mesmo tempo, este universo grandioso
também é simples demais , pois mesmo os hobbits nada
mais são do que humanos menores que adoram comer e dormir,
e imagino que este seja o "segredo" de Tolkien: seu universo
nada mais é do que nós mesmos vistos de outra forma.
Frodo é a pessoa mais comum do mundo, que vivia descalça
no mato como se fosse um bom caipira do interior. O destino sempre
nos prega peças e Frodo então deve se lançar
à uma questão à princípio impossível
de ser cumprida. Frodo simplesmente é nosso reflexo quando
perdemos uma pessoa que amamos ou ainda devemos fazer uma grande escolha
que irá mudar nossa vida. A insegurança de que não
estamos preparados para isso, ou a sempre insistente pergunta "por
que isso foi acontecer comigo?" são provas irrefutáveis
de que nós somos Frodo e sua turma.
A simplicidade de Tolkien está em transformar sentimentos que
todos nós humanos precisamos e temos em pessoas. Aragorn é
o sentido de liderança e a obrigação que temos,
em alguns momentos de nossa vida, de tomar uma decisão. Sam
Gamgi é a lealdade impossível de ser transformada. Peregrin
Tûk e Meriadoc Brandebuque representam a amizade em sua força
máxima. Todos os outros também são valores fáceis
de serem reconhecidos.
Discursado sobre o livro em contraponto com o filme, vamos agora com
mais afinco ao cinema.
Os fãs
de Star Wars parecem não saber conciliar ambos os filmes, como
se um fosse naturalmente rival do outro. A grande verdade é
que Star Wars foi uma obra feita ao seu tempo, cujas inovações
e seus heróis fantasiosos não existem mais e realmente
só nos marcaram graças ao carisma e valor na época.
Confesso que ver Star Wars hoje é algo meio decepcionante.
Ver uma cena na qual um dos "bons" joga uma pedra para distrair
um dos monstros, enquanto o outro dá a volta e o golpeia na
cabeça é "Os Trapalhões" demais para
mim. Mas a magia de Star Wars está lá, presa no seu
passado e sendo um dos filmes mais importantes do Cinema.
Algumas outras reclamações que li é a ausência
de uma "grande cena de ação" em Senhor dos
Anéis. Ou ainda de que as cenas de batalha de Braveheart ou
Gladiador são melhores. Acho que este ponto implica duas questões
importantes. A primeira que vejo é não ler o Senhor
dos Anéis como uma obra de ação. Ele é
um épico, um rpg completo, cujas ações estão
nas pequenas atitudes de seus personagens. Exigir que um filme tenha
uma tremenda cena de ação é cobrar-lhe um cunho
Hollywoodiano demais. A outra questão que destaco é
a sinceridade sempre presente em Senhor dos Anéis. Estes filmes
citados anteriormente utilizam inúmeros recursos cinematográficos
e narrativos para emocionar o espectador ou ainda criar uma cena de
ação espetacular. Senhor dos Anéis é a
busca da simplicidade, ou você se integra ao clima da história
e se deixa seduzir pelo personagem, ou realmente ele não emociona.
Pego como exemplo a cena final de Braveheart ou ainda de Gladiador.
Por mais emocionantes que elas sejam para o espectador comum, nada
mais passa do que uma "forçada" de barra com câmeras
lentas, músicas incidentais e outras recursos batidos que chegam
ao patético. Senhor dos Anéis o máximo que chega
é mostrar um close de cada personagem, rapidamente, após
a morte de Gandalf...e nem tempo de emocionar forçando tem,
porque o inabalável Aragorn logo pede que eles se recuperem.
Afirmo ainda que Star Wars, Braveheart, Gladiador e outros, por melhores
que sejam, infelizmente não possuem momentos cinematográficos
geniais. Se as cenas de ação são boas, este mérito
é fato. Se Senhor dos Anéis não dá uma
cena de ação inesquecível, acho que ele dá
cenas de cinema inesquecíveis. Nenhum dos 3 outros filmes tem
um resumo tão sintético, e tão perfeitamente
cinematográfico, como a cena do anel sobre o altar, no Conselho
de Elrond, tendo o olhar duvidoso de Frodo ao fundo, e na imagem do
anel o reflexo da parte ruim do resto da Comitiva, até chegar
a hora no qual o Um Anel arde em brasa e desperta os sentimentos ocultos
de Frodo.
Outros filmes que Lord of the Rings acarreta comparações
são os baseados em Rpg. Tolkien, pai do Rpg, foi ricamente
homenageado no filme. A história do livro é um desenvolvimento
real do personagem, que começa "simples" e com o
tempo, os objetos que ganha e as pessoas que conversa, vai aumentando
seus "pontos de experiência" e crescendo. Outros filmes
vindos de Rpg resultaram em catástrofe. Dungeons & Dragons
não tem magia alguma. O comentado e famoso Final Fantasy não
é um rpg no cinema. Enquanto nos jogos, os personagens habitavam
castelos e andavam em navios voadores, matando monstros, o filme ignora
toda a série Final Fantasy do passado e fica vinculada apenas
nos futuristas e aborrecedores jogos da série para o PlayStation.
A animação é ótima, a história
boa e o filme convence, mas de rpg ele não possui absolutamente
nada, nem trama, nem envolvimento.
Voltando somente ao filme, o prólogo existente no começo
parece um respeito ao espectador que não leu o livro, pois
este já vai ficar com um filme sem final ( o que é uma
experiência maravilhosa)....deixá-lo sem um começo
também seria pedir muito do público médio. O
ritmo imposto por Jackson é bastante interessante, realmente
as 3 horas de filme fluem de forma confortável.
O elenco não apenas incorpora os personagens como também
lhes confere magia. O novato Elijah Wood conseguiu achar um rosto
para Frodo, que no livro é um personagem que pouco deixa mostrar
do seu interior, o que dificulta achar uma forma de atuação
propícia. O rosto estranho de Wood, com olhos muito grandes
e um ar de moleque, cabem perfeitamente ao personagem.
Os hobbits em geral foram muito bem selecionados, e os humanos, com
destaque para Ian Mckellen (Gandalf ) e Viggo Mortensen (Aragorn)
que são os mais cativantes também fazem sua parte.
A parte mais difícil de elenco seria sem dúvida os elfos.
Apesar da maquiagem ajudar com as orelhas pontudas e outras coisas,
as duas representantes élficas entram de forma genial no filme.
Por mais bela que seja, Liv Tyler sem dúvida tem um rosto com
algum detalhe que não combina, e este é seu charme natural.
De nada adianta uma modelo esteticamente nos padrões de beleza
convencionais, como por exemplo a loirinha de cabelo escorrido Alicia
Silverstone, se ela não tem um "tempero" extra.
Já a ótima atriz Cate Blanchett, na pele da Senhora
de Lothlorien , Galadriel, tem uma fotografia própria onde
tudo reluz muito, tudo fulge excessivamente em branco e azul. Cate
também é dona de um rosto peculiar, que lhe propicia
uma beleza excessiva de encher os mais exigentes olhos.
O filme mescla bons momentos de humor, ação, aventura
e drama na dosagem correta, sem buscar demais cada um. Antes de qualquer
coisa, o que está sendo contado é a "grande questão"
de Frodo, e o que ele pode fazer para desequilibrar na luta do bem
contra o mal. O carisma de cada um, as boas situações
da história e o ritmo acertado do filme tecem uma obra prima
do cinema, sem maiores discussões.
O Senhor dos Anéis peca nas cenas de ação, pois
a câmera muito rápida suga um pouco a força do
que acontece na batalha. Sendo a obra antiga e a narrativa da ação
idem, acho que esta linguagem cinematográfica não foi
uma escolha feliz nas horas de combate. Esta mesma câmera inquieta
perturba nas cenas em Mordor e em Orthanc ( a torre de Saruman ),
pois aquele abuso de movimentação é desnecessário
e meio gratuito. Acho que são os erros mais primordiais do
filme.
A melhor notícia que podíamos receber, vem do próprio
diretor Peter Jackson, ao dizer que o segundo filme deve ser melhor
que o primeiro e o terceiro terá que ser melhor que o segundo.
Se logo de início ele acertou a mão, nos outros dois
filmes quem mais tem a ganhar somos nós, apreciadores do bom
Cinema de Entretenimento que sabe usar sua magia.
O que o filme tem melhor que o livro
O filme dá
um espaço maior ao personagem de Arwen e busca logo de imediato
seu romance com Aragorn, o que no livro fica mais subjetivo. Além
do mais, na obra a primeira elfa a abrir mão de sua imortalidade,
para ficar com um humano, Beren, é a elfa Tinúviel.
Isso nem é mostrado, mas contado pelos elfos. No filme, esta
história antiga é vivida pelo casal em questão,
o que foi um acerto.
Outra diferença é mostrar Saruman logo no primeiro filme.
O aparecimento do mago é adiado até o segundo livro,
mas isso fez o filme ganhar um pouco mais de força neste combate
maniqueísta.
O que o filme tem pior que o livro
Alguma grandes
ausências são sentidas sem dúvida pelos fãs.
Não é questão de ser purista demais ou exigir
uma obra toda fiel, mas reconhecer que o filme não é
perfeito e que seus erros existem.
A primeira grande falta é o personagem Tom Bombadil. Este simpático
Senhor da Floresta salva Frodo de uma dificuldade sem fim na Floresta
Sombria. Este cenário também faltou no filme, que sem
dúvida é um dos pontos de maior suspense no romance,
pois além de ser uma das primeiras dificuldade de Frodo, ele
estava praticamente sozinho pois a Sociedade de Anel ainda não
existia.
O maior pecado é ignorar o capítulo Neblina sobre as
Colinas dos Túmulos. A parte mais assustadora da obra graças
à situação de Frodo e ainda uma das mais terríveis
criaturas, as Criaturas Tumulares, poderiam ajudar no ritmo do filme.
No livro, a missão de Frodo é requintada com uma grande
viagem que ele deve fazer, do Condado até as Fendas da Perdição.
No filme, a Sociedade do Anel chega do Condado até Os Pilares
dos Reis muito rapidamente, isso não dá muita dimensão
da grande viagem que Frodo sofre.
Outra dificuldade natural é que, em 3 horas de filme, não
dá para dar maior ênfase aos personagens, buscando seus
perfis psicológicos e resgatar seu passado. No livro, Aragorn
é um líder ainda mais admirável. No filme , Merry,
Pippin e Gimli são vistos por cima, praticamente sem fala.
O anão ainda neste livro já começa uma aproximação
de amizade com Legolas ( elfos e anões são brigados),
o que é ignorado pelo filme. Já quem mais sofre é
Boromir. O nobre guerreiro do livro , de muito valor e estima, infelizmente
se perde porque é o "selecionado' pelo anel para ser seduzido.
No filme, ele parece ser um fraco, ou ainda um personagem ruim que
foi escolhido erroneamente para ser da Sociedade.
A trilha sonora é também um erro. A já batida
Enya, a cantora preferida dos atletas olímpicos, entra sem
vitalidade no filme, junto com a trilha incidental. Quem sabe Loreena
McKennitt tivesse sido uma escolha mais acertada, já que a
mesma é uma elfa celta que faz músicas mais vigorosas.
Outro erro grave é ignorar as músicas do livro. Os hobbits
e os elfos contam suas lendas e histórias do passado através
de músicas, além de naturalmente serem povos que gostam
de cantar. Este "detalhe" do livro era bastante importante
para nem sequer aparecer no filme.
* Fernando Tiezzi é estudante de cinema na FAAP
publicado em: 18/02/02