No final do século XIX, quando surgiu o cinema, nasceu também um novo
gênero que ajudaria a tornar o cinema popular: o gênero erótico. Devido
a complexidade que este tema traria, iremos nos centrar no começo
do Cinema até a metade do século XX, fazendo um panorama sobre como
este gênero foi se consolidando e os mitos que ele trouxe. Iremos
nos resumir ao cinema erótico e sensual, sem entrar no gênero explícito
que merece ser estudado à parte. Como não havia um interesse imediato
de arquivar e nomear os filmes exibidos em cinema no seu começo, muito
material se perdeu e algumas datas são difíceis de precisar.
Sabe-se que, quando estava se tornando uma diversão de massa nos chamados
vaudevilles, muitos filmes já traziam conotação erótica e até mesmo
cenas de sexo explícito. A ausência de história, dava margem à cenas
rápidas, com atores não creditados e que serviria como uso imediato,
para logo depois o filme ser esquecido ou jogado fora. Como os vaudevilles
eram de certa forma marginalizados, estes filmes não sofriam censura
e eram exibidos normalmente. Um exemplo de como o Cinema Erótico era
lucrativo, em 1908 um anúncio na Kinematograph Weekly estampava o
seguinte recado: "Venus filmes - Especial para exibições para cavalheiros.
Filmes e diapositivos muito picantes. Envie 6 dinheiros em selos e
receberá um catálogo de 48 páginas ricamente ilustrado".
O Cinema, no entanto, ainda não era levado muito à sério, e nas primeiras
vezes em que o tema sexo foi abordado nas principais telas de exibição,
tinha um caráter documental sobre a escravidão sexual branca das ruas
de Nova Iorque. Um exemplo foi o curta " Traffic in souls", de 1913,
que custou 5.700 dólares e rendeu 450.000. Com o sucesso, surgiram
novos filmes tratando do tema, como por exemplo "The inside of White
slavery traffic". Neste tempo, no meio da década de 10, por vários
fatores o Cinema começou a ser levado à sério. Um dos motivos, por
exemplo, foi o filme O nascimento de uma nação, de D.W. Griffith,
que abordou temas sociais e mostrou que o espectador não era impassível
frente ao que assistia, mas sim possuía atitudes e opiniões.
O Cinema começava então a se moldar, e os filmes adquiriram respeito
e aos poucos, começaram a se modificar também. Para entendermos o
sucesso que o primeiro filme sério a tratar de sexo fez, será preciso
regredirmos um pouco e fazer associações fora de Hollywood. No ano
de 1897, Philip Burne-Jones exibiu em Londres, no museu New Gallery
, uma pintura que causou furor e foi chamada de "grotesca" pelas pessoas
e críticos. O nome que Philip batizou-a, no entanto, foi "The vampire".
A pintura mostra uma mulher pálida, quase surreal, sentada em uma
cama na qual jaz um homem de peito nú todo ensangüentado.
A polêmica chamou a atenção de Rudyard Kipling que escreveu um poema
intitulado The Vampire também, que circulou nos Eua na mesma época
em que Drácula ( de Bram Stoker ) começou a ser vendido. A parceria
de sucesso criou um estereótipo de mulher: A vampira. Dotada de uma
sensualidade incomum, a vampira era sempre de pele muito clara ( graças
ao mito dos vampiros não poderem tomar Sol ), olhos e cabelos muito
negros, para criar um contraste mórbido e sombrio. A popularidade
da vampira fez Porter Emerson Browne escrever uma peça baseada no
poema que se chamou " A fool there was ", que estreou em 1909 no N.Y.
Liberty Theatre. O produtor de cinema William Fox, logo percebeu que
o sucesso da vampira era garantido e comprou os direitos da peça,
com a intenção de fazer um filme aproveitando o momento oportuno.
A direção ficou a cargo de Frank Powell, que escolheu a desconhecida
Theodoria Goodman para ser a atriz. Theodoria era o nome real da famosa
atriz que viria a ser conhecida como Theda Bara. Para garantir ainda
mais o sucesso que o filme deveria ser, a indústria cinematográfica
criou toda uma lenda em cima de Theda. O nome "Theda Bara" era um
anagrama com Death Arab, e criou-se um mito de que ela havia nascido
em uma pirâmide, dona de poderes mágicos que usava para encantar os
homens com sua beleza incomum. A medida funcionou e , quando o filme
estreou em 1915, foi um tremendo sucesso. Muita sensualidade em tela
e uma ousadia comedida fizeram de Theda o primeiro arquétipo sexual
do Cinema, apesar de ser arriscado precisar tanto. Com o sucesso do
filme e o encanto do público, Theda passou a ser exigida e fez mais
de 40 filmes nos 3 anos seguintes.
Eternal Sin, Ivory Angel e The serpent são alguns dos outros filmes
realizados. Pelos próprios nomes, é possível imaginar que eram dotados
de ousadia e traziam uma personagem poderosa, sedenta da vitalidade
do seus parceiros e pronta para toma-la, através de um "vampirismo"
sexual e enérgico. Este cinema erótico comportado trazia temas como
transgressão, e valores de céu e inferno, bem e mal. Os papéis à Theda
reservados foram de "vampiras" históricas, mulheres poderosas como
Salomé, Cleopatra, Carmem e outras. Theda instalava assim o Sex appeal
no cinema e o encaminhava para uma tendência natural erótica. Nos
anos posteriores à Theda, alguns fatos históricos ajudaram a impulsionar
o assunto Sexo no Cinema. No pós-guerra, surgiu Cecil B. De Mille
, que entre 1918 e 1922 fez filmes com o tema. Outro diretor do mesmo
estilo foi Erich Von Stroheim. Seus filmes falavam ( na maioria )
sobre as esposas solitárias que ficaram em casa enquanto seus jovens
maridos foram mandados à guerra. O assunto era um pouco mais que sexo
agora, pendia para traição, virgindade e outros valores. No caso de
De Mille, o tema era sobre a importância do sexo no casamento para
que ele se mantenha. Filmes como Male & Female ( 1919 ), Why change
your wife ( 1920 ) e Adam`s Rib ( 1923 ) repensavam vários valores
morais. Abordavam a liberdade e o prazer, questionando a moral e a
fidelidade. Convém ainda chamarmos a atenção em Male & Female, que
usou ( provavelmente pela primeira vez ) o buraco de fechadura do
banheiro, que seria uma janela para vermos o outro em sua intimidade
enquanto estamos protegidos.
Este distanciamento é parte do voyeurismo e o espectador assumia esta
posição no filme. Uma ajuda ao cinema erótico que surgiu foi a proximidade
das grifes de roupa. Para salientar as formas das atrizes e ajudar
a insinuar ainda mais, pois a nudez era vigiada ainda , novas roupas
foram desenhadas para modelar o corpo feminino. O marketing se juntava
ao Cinema e estas vestes seriam logo mais incorporadas pelo público.
Neste momento da história, é notável a importância que o cinema erótico
foi ganhando e a atitude das pessoas em querer debater sobre sexo
revendo tabus. A escritora Elinor Glyn seria a fonte da qual viria
um novo mito sexual. Seus romances mostravam a mulher como personagem
principal e esta era sempre misteriosa. Elinor disse: " A mulher deve
manter-se misteriosa para manter vivos os instintos de caçador do
homem". Livros como Three weeks ( 1907 ) e This passion called love
tratavam do mesmo tema, com uma boa dose de ousadia e muita sensualidade
sugerida. Elynor incorporava a sua personalidade nas personagens.
Por ser ruiva, ela havia sido considerada vulgar quando jovem, pois
as ruivas eram vistas assim na época, graças à associação de que o
cabelo cor de fogo significava devassidão e muita potência sexual.
Suas heroínas eram todas ruivas e sexualmente instigantes. No ano
de 1923, Elynor publicou na revista Cosmopolitan uma novela chamada
"It". O romance falava sobre o estranho magnetismo que une duas pessoas,
uma atração que não precisa de beleza necessariamente, mas sim de
atração física. Esta atração, ela chamou de "it", que era uma constatação
de que Sex appeal é algo que existe e merece ter um nome.
Em 1923 também, a MGM comprou os direitos de ambos. Elinor tinha o
direito de testar os atores para saber qual se adequaria mais ao papel.
O método da escritora consistia em colocar os concorrentes com o corpo
todo tapado, apenas os olhos de fora. Através dos olhos, os atores
deviam expressar a emoção pedida, pois ela achava o olhar essencial.
A garota escolhida para ser a personagem foi Clara Bow, ruiva e de
olhos expressivos. Clara ficaria eternamente conhecida como a It-Girl,
a garota que tinha "aquilo" que ninguém explicava, mas era seduzido.
Na tela, em Three Weeks, Clara vivia uma lady que desapontada com
o casamento, trai o marido com um jovem aristocrata inglês. A infiel
personagem mantinha as características feministas de Elinor, e mais
uma vez compromisso e fidelidade sexual voltavam às telas de cinema
com sucesso absoluto.
Uma curiosidade em relação à parceria Clara-Elinor foi o lançamento
do filme Red Hair (baseado no livro The Vicissitudes of Evangeline)
teve o nome justificado por ter uma cena em Technicolor no começo
do filme. Clara se tornou um mito sexual, ajudada pelo papel de suas
personagens sempre irresistivelmente atrativas sexualmente das quais
não há possibilidad de fuga do "it' que elas tinham. O terceiro mito
sexual que iremos analisar é o contraste total de Clara Bow. A jovial
Mary Pickford tinha 16 anos quando conheceu D.W. Griffith que lhe
deu seu primeiro papel. Ela atuou no filme Pippa Passes (1909), baseado
em um drama de Browning. As personagens de Mary estavam sempre intimamente
ligadas à pureza, passavam uma imagem jovial de uma virgindade impossível
de ser profanada. Mary logo virou um sucesso. Virou uma estrela que
escolhia seus roteiristas e dava palpites até na direção e produção.
O corpo de Mary e seu olhar inocente, foram cruciais na sua carreira.
Possibilitaram-na de fazer o filme Pollyanna ( de 1920 ) quando ela
tinha 27 anos e ainda fazia um papel de 12 anos. No filme Daddy-Long-Legs
( 1919) com 26 anos fez um papel de garota órfã. A direção que a sensualidade
tomou com Mary Pickford foi de associar sexo com pureza casta, angelical
e próxima dos deuses. Trocava-se a imagem quase maligna da vampira
pela santidade da virgem. Uma nova reviravolta sexual aconteceria
no Cinema. Durante a Grande Depressão e a Era da Proibição, a sensação
sexual que surgiu foi Mae West. Ao contrário do clima no qual se encontrava
os Eua, Mae West era uma explosão de bom humor e voluptuosidade.
O erotismo cômico da pin up via o sexo sem culpa alguma, e sim como
uma necessidade para o well fare. Mae havia feito uma peça em 1926
chamada Sex, que pela primeira vez isolou esta palavra ( e tema )
na Broadway. Acusada de imoral, um mandado de prisão de 10 dias foi
dado à Mae West, mas seu público masculino , que era 80% da platéia,
pedia que ela voltasse. A atriz começou no cinema em 1932 com o filme
Night after Night, seguido o clássico I`m no Angel em 1933. A curvilínea
atriz virou rapidamente um sucesso e mais uma vez colocou em debate
os assuntos sexuais que o Cinema tratava. Mae virou alvo dos puritanos,
e a Motion Picture Production Code quis censurá-la, mas por ser muito
rentável, Hollywood teve condições de garantir à ela de manter as
coisas como estavam.
Um grupo de católicos romanos e a Legion of Decency se juntaram à
Proibição e tentaram supervisionar os filmes da atriz. Porém, não
conseguiram nada além de obrigar os produtores a mudarem o nome do
filme It ain`t no sin para Belle of the Nineties. Vale lembrar ainda
que Mae West tinha um recurso cinematográfico à seu favor, que apareceu
com o avanço tecnológico do cinema: som. Suas personagens não apenas
seduziam fisicamente como faziam insinuações e provocações sonoras,
permitindo abordar ainda mais alguns temas e situações. O sexo como
algo natural e saudável de Mae West colocou mais uma vez em contraponto
a religião e a censura em relação ao Cinema, e serve como um bom parâmetro
na nossa pesquisa sobre a evolução que o Cinema foi tendo ao abordar
sexo e os diferentes tipos e mitos que surgiram em cada período específico.
No ano de 1930, explodia na Alemanha o filme O anjo azul , de Josef
Von Sternberg, baseado em um livro de Heinrich Mann. A personagem
principal do filme era nada menos que uma cantora de cabaret, uma
espécie de prostituta, chamada Lola Lola (com uma possível semelhança
com a personagem de Louise Brooks em A caixa de Pandora). A atriz
escolhida foi Marlene Dietrich, que cantou e seduziu no cabaret facilmente,
já que quando nova, a mãe da atriz queria que a mesma fosse violinista
e lhe ensinava música. Marlene Dietrich decretou um tipo de personagem
no Cinema que vingou: a femme fatale. Aquela mulher irresistível capaz
de levar os homens à destruição total, sem amor próprio. Lola é a
mais perfeita femme fatale. Ela seduz um respeitável professor e o
humilha em não retribuir a mesma paixão que ele sente. Cruel, ela
o vê degradar-se socialmente e aceita tudo com a passividade fria
que toda femme fatale possui. A personalidade forte deste tipo de
mulher dá à ela um traço narcisista, pois parece fazer isso para testar
seu poder e orgulha-se de tal.
No filme Shangai Express de 1932, Marlene continua fazendo este gênero
de mulher, ainda mais reforçado com os véus que ela usa durante o
filme e lhe dá ainda mais impressão de distanciamento, impessoalidade.
Neste filme, tem uma cena que resume tudo isso, quando a personagem
diz: "Once upon a time we loved each other" e em seguida dá uma baforada
de cigarro com descaso, pela mesma boca que acabara de pronunciar
isso. Em seu último filme com Sternberg, chamado The devil is a woman
(35), Marlene continua com este mesmo papel, ao fazer a espanhola
Concha que humilha seu marido apenas por prazer perverso. O poder
autoritário que a femme fatale tem é reforçado através de roupas masculinizadas.
Em contraste com a liga agarrada nas coxas nuas da Lola, em Dishonoured
de 1931 Marlene vive uma prostituta que acaba trabalhando de espiã
durante a primeira guerra.
A superioridade fica ainda mais visível e caricata, e só resta aos
homens cumprir as ordens que elas darão. Ordens estas que o público
adorou e fez de Marlene um sucesso. A femme fatale veio para seduzir
e ficar, e o público sabia muito bem disso. A próxima grande estrela
que viria seria a que mais teve problemas com a indústria. Greta Garbo
ficaria conhecida como a "fugitiva", por não viver uma vida social
aberta. Dela é a frase: "I want to be alone" , que abandonou a carreira
de forma precoce e sem maiores explicações. Edgar Morin , no livro
The Stars, diz que os homens projetam seus desejos e medos em imagens.
O espetáculo do Cinema está no processo psíquico de identificações
do espectador com a ação representada. Greta representava a demanda
do público então. Sempre fez os tipos que eles pediam e fez uma nova
linhagem de atuação em Hollywood. Gene Markey, que adaptou As you
desire me (1932) disse que Greta não mudava a ação e os diálogos,
mas sim incorporava seu talento e traços de sua personalidade. Esta
proximidade com Stanislavsky determinou que ela era um "novo tipo"
em Hollywood. Greta possuía talento e postura, mudando alguns conceitos
sobre atuação. Em Rainha Christina (1933) Greta viveu a rainha sueca
e em uma cena fica visível sua forma de atuação. No enredo, ela é
obrigada a passar uma noite no mesmo quarto de um embaixador espanhol.
Na manhã , quando acorda, Greta caminha pelo quarto e a forma que
ela usa os objetos de cena são notáveis. A musa vai caminhando e os
tocando de forma especial, como se fosse o toque de Midas, dona de
uma aura sedutora. A seriedade de suas personagens tendia às vezes
à melancolia. Tanto que a comédia de costumes Ninotchka (1939) ficou
conhecido como "o filme no qual Greta sorri". Sua seriedade saía das
telas e invadia sua vida pessoal. Em Two-faced Woman , todos diziam
que aquele era o papel no qual ela mais emprestou sua personalidade
ao personagem, pois Greta tinha uma vida nas telas e outra fora delas.
O maior mito do cinema estava para chegar nas telas: Marilyn Monroe.
Junto com ela, por ser dona do mesmo tipo de arquétipo, estourou Jean
Harlow também. As loiras viraram o que foi chamado de símbolo sexual.
Ambas tiveram vidas semelhantes, por terem tido milhares de problemas
com o star-system e uma vida pessoal conturbada.
O tipo que elas
representavam nos filmes estava de acordo com as reivindicações do
público na época, que exigia uma certa liberação sexual. As loiras
com seus seios fartos, volúpia assumida instalaram a época das "blondies"
no cinema. Para insinuar os seios, símbolo de ambas, temos como exemplo
o filme Hell`s Angel no qual Jean assume a postura de usar ombros
sempre nús, um início de strip-tease em potencialidade. A ausência
de sutiã viraria marca registrada de ambas.
Em Platinum Blonde, por exemplo, temos uma cena na qual Jean de bruços,
só de toalha, recebe uma mensagem nas costas, e a vemos dominando
a tela com os seios insinuados. Para alimentar o posto de símbolo
sexual , ambas precisavam de uma dose de nudez para tanto.
Marilyn por exemplo fez calendários nua e saiu até mesmo na Playboy.
O legado que as fartas loiras deixaram foi uma época na qual os filmes
trataram o sexo como algo sadio e necessário. A liberdade era uma
obrigação e o prazer que o sexo proporcionava não devia ser proibido
por valores da sociedade.
Um mito sexual que merece um comentário é Elizabeth Taylor, a primeira
a ganhar um milhão de dólares para estrelar um papel. Ela foi Cleopatra,
a poderosa rainha do Egito.
Liz Taylor teve sua carreira prejudicada graças à seu desequilíbrio
emocional, e muitos problemas com a mídia e casamentos. Seus casamentos
fracassados com pessoas famosas servia no entanto para aumentar os
boatos de bastidores, dizendo que os astros eram pessoalmente tão
irresistíveis como nos filmes, o que excitava o público. Outras deusas
apareceram no cinema, como por exemplo Rita Hayworth, Ingrid Bergman
e o assunto foi se diversificando.
A censura no entanto estava começando a fechar o cerco contra a nudez
reveladora que começou a aparecer no cinema. A censura na Inglaterra,
que era a British Board of Films Censors , na época dirigida por John
Trevelyan ( 1958 ) classificava os filmes de três formas ( selos ):
"U" - Qualquer pessoa poderia assistir
"A" - Jovens com menos de 16 anos deveriam estar acompanhados dos
pais ou algum parente. "X" - Menores de 16 estavam terminantemente
proibidos de assistirem.
Vários diretores consagrados tiveram problemas com a censura. Kubrick
com o seu Lolita, Bergman com The Silence, e os clássicos como Cape
Fear e outros. Dois filmes no entanto viriam confrontar de forma bombástica
as leis impostas. Êxtase, que havia sido lançado em 1932 na Tchecoslováquia,
com a insinuante Hedy Lamarr, mostrou-a inteiramente nua, através
das água de um rio e semi nua em várias outras partes. O filme, no
entanto, era um sucesso e era um ótimo filme. Em 1965, o segundo filme
seria The Pawnbroker, dirigido por Sidney Lumet, mostrava de forma
explícita para a câmera uma morena com os seios todos desnudos.
Isso movimentou a Motion Picture Production Code, que revisou as suas
proibições porque o filme era considerado excelente e a cena de nudez
era cabível. O filme foi avaliado pelo seu conteúdo, e não apenas
pela imagem, e o filme teve a permissão, pela primeira vez na história,
de mostrar sem restrições de "selo" os seios da moça. Esta liberdade
estava sendo construída devagar. Em 1962 um filme que tratava de lesbianismo,
chamado Walk on the wild side, havia sido liberado por tratar do tema
de forma discreta e moderada. Uma musa estava para surgir no meio
de 60 e criar mais um mito sexual poderoso no cinema. A loira Carroll
Baker entrava nas telas para fazer papéis incestuosos ou de mulheres
mais velhas que transam com garotos jovens. Em Sylvia, ela era estuprada
pelo pai quando este estava bêbado. Em The Carpetbaggers, ela fazia
amor com o enteado. Em Private Lessions, ela era a professora de piano,
que chantageada por um aluno, ficava à disposição sexual dele. Basta
lembrar que até então, beijos de língua, bikini, ninfomania, lesbianismo
e sedução estavam proibidos até pouco tempo atrás, mas a qualidade
destes filmes mudou o pensamento dos censores e o sexo tomou seu espaço
definitivo no Cinema, sem marginalização.
Pouco tempo depois, a ninfomaníaca Barbarella ( Jane Fonda ), a inesquecível
Ursula Andress em 007 Dr. No e seu bikíni branco estariam livremente
em tela. Como este trabalho fala de sexo pela história e símbolos,
seremos obrigados a sairmos um pouco de Hollywood e comentarmos o
potencialmente erótico cinema italiano. As comédias italianas trouxeram
aquela força latina da femme fatale como Gina Lolobrigida, Sophia
Loren, Claudia Cardinale, Monica Vitti ( uma das primeiras loiras
que ironicamente fazia o papel de menos inteligente ) entre outras
musas. O caso italiano de censura que mais chamou a atenção foi um
filme que seria feito em cima do que Diderot havia escrito sobre as
mulheres que eram obrigadas a ficarem e permanecerem em conventos.
O filme, chamado Simone Simonin - la Religieuse de Diderot - foi proibido
pela Ação Católica e pela Democracia Cristã de ser produzido, frente
ao roteiro analisado. Mas, o produtor M. de Beauregard resolveu arriscar
e em 30 de Maio de 1965 (o caso vinha se arrastando desde 1962) rodou
a primeira cena do filme, mesmo correndo o risco de não ser exibido.
Jacques Rivette foi escolhido para ser o diretor do filme sobre as
palavras de Diderot de que a liberdade é sagrada, e a vocação imposta
pode levar à perversão. Um fato curioso veio ajudar a liberação do
filme. Uma madre chamada Marie-Yvonne publicou uma carta em Abril
de !968 no Le Monde dizendo que o filme deveria ser liberado pois
atualmente os conventos não funcionavam mais daquele jeito, as pessoas
iam por vontade e que o filme era muito bom. Nota-se que a censura
na Itália, que possuía um dos cinema mais eróticos do mundo em quantidade
de filmes sensuais realizados, tinha um caráter moralista baseado
em valores mais cristãos, por ser um país de cunho mais católico do
que os outros analisados até então.
Esta década de 60 foi o passo definitivo para a liberação sexual no
Cinema. Após Pawnbroker, veio em 1966 o filme Blow-up, dirigido por
Michelangelo Antonioni, que foi outro caso à parte. As picantes insinuações
do fotógrafo com as garotas, a sedução em cena e a libidinagem sofreram
fortes pressões da censura. Com uma fotografia aberrantemente colorida,
o filme exaltava outro tipo sexual que surgiu graças à cor no cinema:
as lollipops. O nome associado à estas garotas ( lollipop significa
pirulito ) acontece porque ambos tinham um caráter meio infantil,
colegial. As lollipops usavam roupas muito coloridas, característica
dos pirulitos, e roupas de colégio , como por exemplo meias enormes
e de cores berrantes. Ainda na década da liberação, um cinema que
virou sucesso nos Eua foi o Cinema Nórdico. Por serem países mais
liberais, os filmes tratavam de sexo naturalmente e possuíam uma ousadia
extravagante comparada com a comedida de Hollywood.
A comercialização
não era difícil e vários filmes suecos e dinamarqueses, em especial,
fizeram sucesso nos Eua. Um dos principais destes filmes foi Inga,
dirigido por Joseph Sarno e realizado na Suécia em 1967. Inga ( Marie
Liljedahl ) era uma virgem com impulsos sexuais e problemas de relacionamentos.
Um estereótipo de mulher que este cinema nórdico trazia era as chamadas
"vixens", uma espécie de "pin ups" revisadas com seios e bumbum maiores.
O corpo escultural, excessivamente curvilíneo viraram uma mania para
o público. As pin-ups, como a inesquecível Betty Paige, que era uma
mania nos Eua colecionar suas fotos e cartões ( por ser fácil de obter
e esconder ), popularizou o uso de bikínis e maiôs, pois a maioria
das fotos eram nestes trajes.
Mas as "pin-ups" agora cederam espaço às revigoradas vixens. Um dos
primeiros diretores dos Eua a perceber esta nova onda foi Russ Meyer.
O cineasta em 1968 fez o filme Vixen! no qual a atriz principal era
uma moça de medidas generosas chamada Erica Gavin. Todos seus outros
filmes trouxeram garotas voluptuosas e foram um sucesso de público,
na época. Outros filmes dele como Lorna e Mudhoney, imortalizaram
atrizes como Lorna Mitland e Kitten Natividad ( que faria filmes explícitos
posteriormente). Mas, a consagração total das vixens foi com o filme
"Faster, Pussycat! Kill ! Kill !" uma espécie de Charlie`s Angel antiga,
no qual uma gang de mulheres lutavam feito policiais. Neste filme,
vemos em tela um desfile de beldades e sexualidade.
Uma característica interessante dos filmes de Russ Meyer era que as
mulheres eram sempre abusadas sexualmente, mas sempre pareciam haverem
excitado seus estupradores o suficiente para que isso ocorresse. Com
a forte pressão popular que viria a seguir ( Woodstock, por exemplo),
com a quantidade enorme de filmes sensuais que estavam sendo produzidos
e contando ainda com filmes clássicos de diretores respeitados que
falavam de sexo, faltava pouco para a barreira de ilegalidade cair.
Nos anos 70, graças aos fatores citados e vários outros, o Sexo foi
liberado no Cinema. O público e as pessoas exigiam uma maior liberação
sexual na sociedade, e aos poucos foram mudando hábitos e alcançando
seus objetivos. Até mesmo alguns filmes explícitos estavam chamando
a atenção das pessoas por serem bons filmes. O cinema explicito adquiriu
um status grande e atingiu glamour, virando uma indústria poderosa.
O Cinema Erótico e os filmes comuns acompanharam esta revolução através
das décadas que aqui estudamos e adquiriram então liberdade ( claro
que não total, pois isso dura até hoje em alguns aspectos ) de abordar
seus temas como quisessem, ficando à cargo do público, e não mais
dos censores, se o filme era bom ou imoral.
Conclusão
O panorama rápido que este trabalho fez sobre o assunto sexo no Cinema
e as musas que ele trazia, deixa claro a importância que o Cinema
adquirira e a necessidade que os filmes tinham em tratar sobre o tema
e movimentar o público para uma atitude saudável iconoclasta de pedir
a quebra de tabus já ultrapassados. Como o Cinema é uma arte capaz
de emocionar o espectador, a excitação que o sexo e as musas trouxeram
tiveram um forte impacto e encontrou um público altamente receptivo
para este tipo de filme, pois ele se identificava com as propostas
que estes filmes debatiam.
Vale lembrar que os símbolos nunca param e o Cinema tem a possibilidade
de explorar vários arquétipos que surgem, como por exemplo, a cibernética
fatal que parece ser a nova tendência do Cinema moderno. Agora que
a liberdade foi adquirida, os filmes devem fazer jus à luta que foi
conseguida através de décadas e usar de forma sadia, e artística,
o tema para que tenha valido a pena tanto esforço.
Bibliografia
Walker, Alexander : "Sex in the movies" - Pelican books 1968 Losey,
Joseph + Martin, Marcel + Aristarco, Guido + Hunnings, Neville : "Censura
e Cinema" - Publicações Dom Quixote (Portugal) Blake, Roger: "The
porno movies" - Century books 1970.
* Fernando Augusto Tiezzi é estudante de cinema da FAAP; este texto
foi apresentado como trabalho de avaliação da disciplina de História
do Cinema ministrada pelo prof. Flavio Brito