"São Paulo, Sinfonia e Cacofonia" de Jean Claude Bernardet

por Diniz Antonio Gonçalves Junior


O filme "São Paulo, Sinfonia e Cacofonia" de Jean Claude Bernardet faz uma homenagem ao cinema paulista, de seus pioneiros aos diretores mais recentes. O poeta e ensaísta Haroldo de Campos em seu texto "Por uma poética sincrônica" defende a leitura sincrônica do objeto artístico ao invés da diacrônica usualmente utilizada. O critério principal é o da invenção independente da época em que foi escrito.

Jean Claude Bernardet privilegia trechos inventivos de diversos filmes, não importando se são consagrados pela crítica como São Paulo S/A de Luís Sérgio Person ou filmes irregulares como "Asa Branca, um sonho brasileiro" de Djalma Batista. O trecho escolhido de Asa Branca é muito bom, um homem vindo do interior pergunta para uma comerciante onde é que fica o Centro, ela responde que São Paulo têm diversos centros, ele fica impressionado com o tamanho da cidade. Jean Claude seleciona cenas que possuam similaridade em filmes de épocas distintas ; pessoas andando, o trânsito da cidade, cenas policiais etc. Um personagem faz uma ligação telefônica num filme policial antigo e quem atende é o personagem de um filme recente criando um resultado interessante. Cenas de demolição e reconstrução da cidade enfatizam a voragem transformadora.

A desmemória urbana, segundo enfatizou Haroldo de Campos, que definiu São Paulo no interessante documentário "Expresso Brasil" como sendo um "signo do futuro". A vocação da metrópole é representada num trecho do filme em que um migrante nordestino fica impressionado ao ver uma engrenagem funcionando num painel eletrônico, a cidade nunca para. A cena de "Simão, O caolho" de Alberto Cavalcanti impressiona, um homem que tornou-se gigante se atira do alto de um edifício. Nota-se uma certa semelhança com o cinema expressionista alemão. Uma colagem de imagens de edifícios cria um grande painel urbano.

Um homem grita em cima de um viaduto,dizendo que quer ficar completamente sozinho, reclama que as pessoas reproduziram demais. A angústia de perder a identidade em meio às multidões citadinas. O saudoso ator Chiquinho Brandão emociona com sua interpretação visceral no criativo "Anjos da Noite", filme da década de 1980, único longa -metragem de Wilson Barros também falecido prematuramente.

Jean Claude Bernardet inspirou-se e utilizou cenas do documentário de 1929, São Paulo, Sinfonia de uma metrópole de Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig que por sua vez inspirou-se no clássico alemão "Berlin, Sinfonia de uma metrópole" de Walther Ruttman criando inovadores diálogos intertextuais entre épocas distintas.

A Trilha de Lívio Tratenberg é inquietante, composta de ruídos e fragmentos de sons, consegue adequar-se perfeitamente às construções imagéticas do diretor. É um documentário e um filme de ficção, através do quebra -cabeça proposto podemos tatear a cidade de São Paulo em seus múltiplos aspectos e leituras. Ao mesmo tempo podemos perceber que ao classificarmos filmes com sentenças absolutas podemos ignorar trechos interessantes, lampejos de invenção que podem estar onde menos se espera.

São Paulo, Sinfonia e Cacofonia (São Paulo, 1995 40 min.) Filme-montagem composto de fragmentos de filmes paulistas de diversas épocas.