O filme "São
Paulo, Sinfonia e Cacofonia" de Jean Claude Bernardet faz
uma homenagem ao cinema paulista, de seus pioneiros aos diretores
mais recentes. O poeta e ensaísta Haroldo de Campos em
seu texto "Por uma poética sincrônica"
defende a leitura sincrônica do objeto artístico
ao invés da diacrônica usualmente utilizada. O critério
principal é o da invenção independente da
época em que foi escrito.
Jean Claude
Bernardet privilegia trechos inventivos de diversos filmes, não
importando se são consagrados pela crítica como
São Paulo S/A de Luís Sérgio Person ou filmes
irregulares como "Asa Branca, um sonho brasileiro" de
Djalma Batista. O trecho escolhido de Asa Branca é muito
bom, um homem vindo do interior pergunta para uma comerciante
onde é que fica o Centro, ela responde que São Paulo
têm diversos centros, ele fica impressionado com o tamanho
da cidade. Jean Claude seleciona cenas que possuam similaridade
em filmes de épocas distintas ; pessoas andando, o trânsito
da cidade, cenas policiais etc. Um personagem faz uma ligação
telefônica num filme policial antigo e quem atende é
o personagem de um filme recente criando um resultado interessante.
Cenas de demolição e reconstrução
da cidade enfatizam a voragem transformadora.
A desmemória
urbana, segundo enfatizou Haroldo de Campos, que definiu São
Paulo no interessante documentário "Expresso Brasil"
como sendo um "signo do futuro". A vocação
da metrópole é representada num trecho do filme
em que um migrante nordestino fica impressionado ao ver uma engrenagem
funcionando num painel eletrônico, a cidade nunca para.
A cena de "Simão, O caolho" de Alberto Cavalcanti
impressiona, um homem que tornou-se gigante se atira do alto de
um edifício. Nota-se uma certa semelhança com o
cinema expressionista alemão. Uma colagem de imagens de
edifícios cria um grande painel urbano.
Um homem grita
em cima de um viaduto,dizendo que quer ficar completamente sozinho,
reclama que as pessoas reproduziram demais. A angústia
de perder a identidade em meio às multidões citadinas.
O saudoso ator Chiquinho Brandão emociona com sua interpretação
visceral no criativo "Anjos da Noite", filme da década
de 1980, único longa -metragem de Wilson Barros também
falecido prematuramente.
Jean Claude
Bernardet inspirou-se e utilizou cenas do documentário
de 1929, São Paulo, Sinfonia de uma metrópole de
Adalberto Kemeny e Rodolfo Lustig que por sua vez inspirou-se
no clássico alemão "Berlin, Sinfonia de uma
metrópole" de Walther Ruttman criando inovadores diálogos
intertextuais entre épocas distintas.
A Trilha de
Lívio Tratenberg é inquietante, composta de ruídos
e fragmentos de sons, consegue adequar-se perfeitamente às
construções imagéticas do diretor. É
um documentário e um filme de ficção, através
do quebra -cabeça proposto podemos tatear a cidade de São
Paulo em seus múltiplos aspectos e leituras. Ao mesmo tempo
podemos perceber que ao classificarmos filmes com sentenças
absolutas podemos ignorar trechos interessantes, lampejos de invenção
que podem estar onde menos se espera.
São
Paulo, Sinfonia e Cacofonia (São Paulo, 1995 40 min.) Filme-montagem
composto de fragmentos de filmes paulistas de diversas épocas.