Se há um gênero merecedor de uma página especial e à parte, devido a
polêmica que causa, este é o ramo do erótico-pornô, visto atualmente
como um Cinema bandido, periférico e ordinário. Tentaremos nesta página
desmascarar este falso mito e mostrar que fazer Cinema é fazer arte,
independente do gênero e conteúdo. Criticarei aqui os filmes que simplesmente
exploram a sensualidade e recordarei os que a mostravam de forma inteligente
e com suas próprias razões de exibi-la. Não apenas os filmes devem ser
inteligentes, as pessoas que assistem também devem
Ter olhos educados e exigentes, além de saber como apreciar este tipo
de arte. O modo mais fácil de chegar neste nível é se desfazer de preconceitos
bobos, e este sentimento de culpa que a sociedade tem em relação a questão
sexual. Estes valores arcaicos de que a sensualidade é impura já deviam
estar superados neste início de milênio. O erotismo sempre esteve ligado
ao Cinema de forma desigual. A exibição deste tipo de filme em vaudevilles
foi importantíssima para tornar o cinema uma diversão de massa e popularizado,
já que era um entretenimento barato.
Esta parceria Cinema & Erotismo com o passar do tempo foi atingindo
uma maior expressão, ainda que assumindo um falso caráter pecaminoso,
buscando soluções inteligentes de criticar a imposição severa da censura.
Agradeceremos ao diretor Russ Meyer da década de 60 que soube aproveitar
e criticar este "sexo culposo" , em seus filmes as mulheres se faziam
de puras para excitar o objeto de desejo, o que ocasionava um singelo
estupro. Nos seus filmes, surgiu uma das mulheres que se tornaria um
ícone da época, a ruivíssima (meu ponto fraco assumido) Uschi Digart,
que estaria presente em várias capas de revistas famosas depois.
Uma forma inteligente que o diretor impunha para mostrar que a mulher
assim satisfazia seus desejos e ainda não era culpada pelo fato ocorrido.
A mulher pura querendo acabar com a repressão de seus impulsos, preciso
citar ainda clássicos como "A bela da tarde" para ficar ainda mais claro?
Eram filmes ainda tímidos mas importantes para chocar de maneira sutil
e sensual.
Veio a década de 70, na qual sem dúvida os filmes eróticos atingiram
seu auge de inteligência e bom gosto. O mundo pedia uma maior liberação
sexual e revisão destes valores. Os cinemas com censuras menos rígidas
foram cedendo espaço a estes filmes. As produções assumiam um caráter
provocativo, visando sensibilizar e chocar a sociedade. Um exemplo clássico
é o filme "Atrás da porta verde", considerado o primeiro filme erótico
para mulher que existiu. A personagem principal do filme é vivida pela
loira Marilyn Chambers, que é seqüestrada e levada à um estranho clube
de porta verde no qual ocorrem muitas depravações.
Violentada, o filme dá um show de direção e a história começa a ser
conduzida de forma brilhante pela visão da mulher, na qual a antológica
cena da orgia seria copiada de forma muito clara no filme " De olhos
bem fechados", do diretor Stanley Kubrick. Uma referência muito bem
escolhida e acertada pelo sempre perfeccionista Kubrick. Um outro exemplo
é "Tabu", filme italiano com a bela Kay Parker, que interpreta a mãe
desquitada que não consegue conter seus impulsos e comete relações incestuosas
com o filho. Mas, o roteiro constrói a estória de maneira tão leve,
excitando a sua atenção e antecipando que tal fato vai ocorrer, porém
a cena é sempre adiada e você se encontra torcendo para a polêmica cena
ocorrer, quem assiste é obrigado a admitir. O incesto é visto de uma
forma romântica, o filme afasta o pecado e apenas testemunha a cena
de amor entre ambos. Este tão polêmico filme, nos mostra até hoje como
que , mesmo na época em que Freud divulgou a existência do Complexo
de Édipo e foi recriminado na época, continuam os mesmos valores e discriminações
na sociedade.
Não vejo o incesto como alguma coisa sadia, mas destaco a importância
que este filme em especial teve para "incomodar" a sociedade. Não é
tarefa fácil para alguns entenderem que a paixão que o filho tem pela
mãe ( e no sentido contrário acontece com o sexo feminino) é algo natural
do inconsciente de todos, quando começa a ver o pai como um rival e
este lhe afasta do coito matrimonial. A idéia de "castração" e "fetiche"
tão bem exposta por Freud, continua no entando, marginalizada pela sociedade
quando esta assim o quer. Outro filme desta preciosa década é "O diabo
na carne de miss Jones", no qual uma mulher de meia idade vivida por
Georgina Spelvin (outro símbolo sexual e ícone da década) ainda virgem
suicida-se e quando julgada no inferno, implora para poder realizar
nele seus desejos coibidos na Terra. O personagem antes de tomar a decisão
do suicídio tem uma forte densidade dramática, repleta de carga emocional
e conflitos pessoais. A crítica e intenção destes 2 últimos filmes citados
são claras, sendo desnecessário explicar o que já está explícito, literalmente.
E no Brasil, o que acontecia?
Percebemos uma acentuada mudanças nas ingênuas chanchadas para filmes
mais elaborados e com pretensões de chamar a atenção para a sensualidade
, como no caso de "Toda nudez será castigada", no qual Darlene Glória
interpreta uma mulher de atitude e com ímpetos à flor da pele. Aliás,
todos os textos do genial Nélson Rodrigues são de importância primordial
para aprofundar-se neste universo do erotismo sem culpa e sim natural
e biológico de todo ser humano. Chegou então a década de 80, que nos
seus primeiros anos os filmes começaram a perder esta postura.
O fato da censura ruir e muito fez os filmes começarem a mudar seu jeito.
Surgia então o video-cassete , esta produção em série e barata que pedia
produções mais rápidas e dava lucro garantido. Tudo isso influenciou
no empobrecimento dos filmes e seus roteiros inteligentes. A década
de 90 continua triste e sendo apenas uma extensão da década de 80. Este
retrato do declínio da indústria pornô foi muito bem explorada pelo
filme brilhante Boogie Nights ( Prazer sem limites) de 1998, do talentoso
diretor Paul Thomas Anderson. As produtoras atuais sabem que esta produção
em série é suficiente para o lucro garantido. A era Buttman reina e
não dá espaço para um filme com algum roteiro chamativo ser produzido.
Um ou outro tenta inovar, como fazendo o primeiro filme com sexo em
gravidade zero, mas isso não é uma forma de bom gosto necessariamente
e não desperta tanto interesse. Cabe à nós, os "deslocados" e saudosistas
que querem esta volta do cinema pornô exigir cenas inteligentes, roteiros
elaborados que justifiquem o erotismo em tela.
Selecionar ainda as atrizes e ver estes filmes com olhos apropriados,
pedindo que nos filmes atuais as pessoas não façam apenas sexo, mas
sim copie se precisar, a forma dos clássicos antigos nos quais as pessoas
faziam Amor.
Aliás, quero chamar primordialmente a atenção sobre este aspecto: o
porquê de tal filme conter uma cena erótica ou pornô. A maior produtora
nacional hoje é a que veicula a série sobre as carioquinhas, filmes
nos quais é melhor considerar que não há roteiro, pois o que ali é feito
é injustificável. É uma série enorme na qual individualmente cada filme
tem praticamente cenas jogadas apenas para ser mais um filme deste gênero
e atrair a massa que atualmente não exige mais que isso.
Há ainda o fato de a mesma atriz estar em quase todos os filmes, o que
é por deveras enjoativo. Mais um fator que os filmes antigos tinham
seus privilégios, de não repetir tanto as atrizes, alguém é capaz de
citar mais um filme de Linda Lovelace, protagonista do famoso e inovador
Garganta Profunda? O filme traz a absurda situação de uma mulher que
não consegue prazer de forma convencional, até então o médico descobrir
que o clitóris dela se encontra na garganta. Um professor de Teoria
da Comunicação que fosse mais ousado poderia se desvencilhar de preconceitos
e ao menos citar esta estupenda cena , em cuja a atriz atinge o clímax
na cadeira do médico para explicar como se dá a analogia e o sintagma
do cinema. Na famosa cena vemos uma seleção de imagens rápidas e sons
variados muito bem escolhidos para fazer uma analogia direta à erupção
do êxtase. Até mesmo a imagem da bomba atômica e sons de sinos aparecem
na seqüência.
Outra diferença que noto e é crucial hoje é a beleza das atrizes. Além
da exaustiva repetição, o que faz a atriz pornô-erótica hoje é um corpo
extremamente acadêmico e malhado, uma espécie de beleza enlatada e pronta,
um tipo já estereotipado pela sociedade e seu padrão definido. O ponto
chave é que estas atrizes parecem mulheres intocáveis, computadorizadas
e siliconizadas parecendo inexistentes. As antigas eram de beleza natural
mais humanas e pareciam mulheres comuns que podiam ser encontradas no
nosso dia a dia, como uma vizinha e etc. O espectador então perde o
desejo e junto com os filmes buscam o ideal de perfeição injustificado.
Viva então a beleza natural que havia atrizes como Annette Haven, que
hoje a sociedade consideraria ultrapassada, mas é uma mulher natural
que sabia seduzir e mostrar-se sensual com a meiguice azul de seus olhos
e expressão terna, envoltos em uma face alva e torneada por longos e
cacheados cabelos negros, que fazia contraste fora de comum com seu
tom de pele.
Fica aqui uma homenagem pessoal à uma das maiores atrizes de todos os
tempos. Bom lembrar que esta página defende antes de tudo a intelectualidade
do Cinema e o bom uso de tutano para tais cenas. Lembraremos os bons
momentos nos quais isso era feito de forma dinâmica, espontânea e alegre,
diferente da automatização atual. Quero ainda que você que está nesta
página questione-se porquê ainda não viu estes filmes citados e que
podem ser facilmente achados em locadoras próximas e se você mesmo não
se sente envergonhado, culpado e tímido em alugar.
Um exame de consciência que esta página consiga despertar em uma ou
outra pessoa já será suficiente para que ela tenha sentido. Se quiser
começar de forma light, indico o filme Take Off (A nudez de Hollywodd)
que faz uma meta linguagem maravilhosa mostrando como era a liberação
em cada década e visivelmente como que, com o passar do tempo, foi tornando
aborrecedor no cinema. Compõe ainda o clima romântico do filme belos
cenários e reconstruções de época que merecem destaques. Que seja este,
navegante desta página, o primeiro de muito bons filmes que você irá
ver com bons olhos e aprenderá a apreciar esta Arte que não pode ser
tratada com estranhamento.
Fotos:
http://www.pornqueens.net
http://www.paganpleasures.com
http://www.pornlegends.com
* Fernando Tiezzi é estudante de cinema na FAAP