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A inversão entre tradição e moderno no cinema
mundial
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por Hugo
Harris* |
Acaba de ser
lançado, no circuito comercial, o filme Arca Russa, de
Aleksandr Sokúrov, obra que impressionou a comunidade
cinematográfica por se tratar de uma história contada através de
um plano-seqüência de 97 minutos. Conta 300 anos da história da
Rússia, caminhando pelo Museu Hermitage, em São Petersburgo,
utilizando 2000 figurantes, três orquestras sinfônicas e o corpo
de baile do Ballet Kirov, mesclando variados movimentos de câmera,
incluindo panorâmicas complicadas sobre gruas instaladas no meio
dos salões. Isso tudo sem efetuar um único corte. Além da
primorosa capacidade técnica na realização de tal feito, as
discussões extravasaram os limites da película e invadiram as
esferas teóricas e dogmáticas do cinema mundial.
Há aqueles
(e não são poucos) que acreditam que o cinema é feito
primordialmente da montagem. Apesar de não ter sido o primeiro a
utilizar o recurso técnico da edição fílmica, o russo Sergei M.
Eiseinstein é considerado o maior representante do cinema voltado
à montagem. Foi quem ergueu as teorias mais significativas da área
e que realizou um dos maiores filmes de todos os tempos -
Encouraçado Potemkin.
O que vemos agora à nossa
frente é o embate de duas teorias que se contradizem. A grosso
modo, consideram que o cinema antes pregado por Eiseinstein -
montagem intelectual, onde diferentes planos eram postos
sucessivamente, a fim de transmitir um sentimento próprio, de
intenção autoral, ao espectador envolvido pela dança lúdica das
imagens - estaria sendo negado por Sokúrov, que abriu mão de
utilizar estes recursos, mantendo o fôlego do público preso do
início ao fim da projeção, imerso somente na complexa
mise-en-scène e nos diálogos declamados pelos
atores. Sokúrov é considerado um sucessor de outro grande
cineasta russo - Andrei Tarkovski -, o qual pregava um tratamento
mais aprofundado do tempo fílmico dentro do próprio fotograma,
dilatando este tempo através de uma composição de quadro
aprimorada, muito mais complexa, que permitisse uma interação
maior do espectador com a real contundência da peça apresentada,
transmitindo pesar quando fosse necessário, euforia ou a sensação
de monotonia, entre outros. Nestes dois cineastas é possível
perceber uma grande tentativa na aproximação e semelhança à
textura plástica da pintura. Eiseinstein também tinha uma grande
preocupação na composição de quadro - vide seus textos e esboços
sobre a concepção de Alexander Nevsky, em O sentido do
filme -, mas não descartava, e sim fazia-os para esta função,
a possibilidade de alternar e suceder os planos para alcançar o
resultado que mais esperava em determinados pontos dos
filmes.
Tudo isso dito até agora, abordando de maneira
sucinta e extremamente resumida alguns conceitos, serve para
mostrar um pouco do questionamento que está sendo imposto por
críticos, estudiosos e profissionais, sobre qual seria a tendência
da arte cinematográfica mundial. Como lembrou Luis Carlos Merten,
em reportagem ao Estado de S. Paulo, há três anos atrás todos se
voltaram para Lars von Trier, que utilizara cerca de 100 câmeras
digitais para filmar uma seqüência musical do filme Dançando no
escuro, achando que este seria o retrato do futuro no cinema,
havendo uma agilidade maior, proveniente das inúmeras
possibilidades criadas pelo advento da tecnologia digital. O que
vemos, em Arca Russa, é uma outra faceta que essa
tecnologia permite.
Vivemos num mundo repleto de imagens em
alta velocidade, videoclipes rodando o dia inteiro na MTV,
comerciais e Internet nos possibilitando uma interação maior com a
informação. Cada vez mais estamos acostumados com os planos de
curta duração, e nos sentindo mais entediados com aqueles que
possuem maior tempo. É natural que haja certo estranhamento ao nos
depararmos com um filme como este. Coloca em cheque a nossa rotina
e temos que reprogramar nossa sensibilidade para conseguir digerir
tal novidade.
O que nunca deve ser esquecido é o fato de
que, de maneira alguma, a existência de um filme que não utiliza a
montagem irá retirar a necessidade e valor da edição
cinematográfica. Assim como a constante ocorrência de filmes
clipados também não deve excluir a produção e exibição de obras
revolucionárias que demonstrem uma quebra do paradigma existente
ou, pelo menos, uma alternativa de caminho dentro dele. Pois
aquilo que é considerado moderno - o cinema ágil, de montagem
acelerada -, com a aparição de Arca Russa, se mostrou um
elemento tradicional, já deveras desgastado pela repetição nos
últimos anos. Já este filme de Aleksander Sokúrov, que aparentaria
ser mais tradicionalista, demonstra a latência de uma modernidade
que pode estar chegando para, ao menos, contestar esta que nos é
imposta pelos desmandos comerciais. O que pedimos é somente que
haja sensibilidade dos realizadores, sabendo qual seria o estilo
adequado a cada filme, nunca transformando essa ferramenta - a
montagem - no propósito da produção e, sim, mantendo-a somente
mais uma ferramenta que é utilizada para melhor contar uma
história que deva ser contada.
Hugo Harris é cineasta,
formado em Cinema pela FAAP.
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