DEPOIMENTO: A LUZ DE "ESTRELA"

Por Cid Machado Jr
graduando do curso de Imagem e Som da UFSCar

 

I - INTRODUÇÃO

Este texto foi elaborado com o objetivo de relatar, de forma simples e direta, os caminhos que tracei na busca da melhor preparação possível para executar a função de diretor de fotografia num vídeo relacionado a três disciplinas do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no primeiro semestre de 2000.

Intitulado "Estrela", o vídeo nos mostra um episódio da vida de Estela, uma mulher de aproximadamente trinta anos. Acompanhamos Estela andando pelas ruas de uma cidade até que a personagem se depara com uma igreja e não consegue evitar pensamentos que remontam o casamento de um jovem que ela amava.

A partir desta estória, iniciou-se a busca pelas informações e conceitos que serão expostos e discutidos a seguir.


II - PREPARAÇÃO

O trabalho do diretor de fotografia começa com uma minunciosa análise do roteiro. O diretor do vídeo, Guilherme Sikora, apresentou-me uma cópia para que pudéssemos discutir as idéias que seriam transformadas em imagens. Durante a reunião decidimos que seria interessante efetuar algumas alterações no roteiro para torná-lo visualmente mais instigante (sabíamos que era necessário muito cuidado ao tratar do tema "amoroso", pois as armadilhas dos clichês estavam à espreita). Alteramos várias cenas, intensificando o clima experimental do trabalho.

O ponto crucial dessas alterações talvez tenha sido a opção de diferenciar as cenas externas ("realidade", ou tempo presente ) das internas da igreja (pensamento / devaneio). Neste sentido, definimos então que nas externas teríamos mais luz (e essa luz seria natural, Sol), os enquadramentos seriam mais abertos e amplos, planos com duração longa e câmera fixa; enquanto nas internas da igreja seria noite escura com pontos de luz artificiais definidos para destacar as personagens principais, planos de duração mais curta, enquadramentos mais fechados e movimentos de câmera contínuos concretizando o fluxo dos pensamentos da protagonista.

Durante nossas reuniões, o diretor e eu realizamos a decupagem do vídeo, ou seja, a transposição das idéias contidas no roteiro para um roteiro de filmagem, no qual as intenções são mais explicitadas em imagens. Inicialmente, sugeri a utilização de focos dramáticos , semelhantes aos do teatro para as cenas internas. Discutimos várias possibilidades para atenuar e disfarçar o uso destes focos mas nenhuma delas nos agradou. Porém, um foco seria principal nesta seqüência: o altar. Ele deveria ser o ponto mais brilhante e destacado, amarelado e servindo de luz principal no interior da igreja.

Neste período, Sikora intuiu a utilização de velas no caminho da noiva, que era o percurso pelo qual Estela chegaria ao altar. Assumimos o conceito da luz de velas pois acrescentaria muito à dramaticidade da cena, pois é uma qualidade de luz instável e carregada de valores míticos e subliminares. Refletiria a tensão e a angústia que a protagonista carrega e alimenta dentro de si e expressa visualmente seus pensamentos. No entanto, a utilização das velas aumentou a responsabilidade da luz do altar, que deveria ser forte o suficiente para revelar sutilmente os convidados sentados nos bancos de toda a igreja.

Apesar de até este ponto eu não conhecer a locação, tinha certeza de que, por melhor que fosse a câmera, a luz do altar e das velas, seria necessário criar uma luz de preenchimento (que destaca as áreas importantes que estavam no escuro) que fosse móvel e leve. A certeza da necessidade desta luz surgiu durante o segundo e definitivo dia de decupagem, quando criamos a cena da entrada de Estela na igreja. Nela, há uma luz externa que cria uma silhueta para a entrada. Estela entra, fecha a porta atrás de si sumindo na escuridão e caminha em direção à câmera, perto da qual seria tocada pela luz de velas na face, emergindo da escuridão enquanto a câmera circunda sua cabeça e abre o plano, revelando o cenário todo que ela criou para si em sua mente: o altar brilhante e o caminho de velas que ela percorre, voltando à silhueta.
Para esta cena imaginei um candelabro que seria operado com a mesma precisão de um boom (vara comprida com um microfone direcional numa das extremidades). Mas sabia que seria improvável mover as velas sem afetar sua luminosidade, e o próprio fogo poderia oferecer algum tipo de risco. Deveria criar um mecanismo simples e eficiente.

Na busca de instrução na área de direção de fotografia, comprei o livro "50 Anos Luz, Câmera e Ação" do fotógrafo Edgar Moura, por indicação do professor Adriano Barbuto, que leciona nesta área. No livro obtive muitas informações importantes de como pensar a luz. Certamente expandiu meus horizontes de conhecimento e consolidou os referenciais dos trabalhos de vários outros fotógrafos.

Dentre os equipamentos de iluminação citados na obra, um me chamou atenção especial: os "China Balls", artifícios que imitam as lanternas chinesas, fontes de luz difusa mas pouco direcional, muito utilizadas para preenchimentos suaves. A idéia de fazer uma luz que unisse um preenchimento delicado à mobilidade germinava em minha cabeça.

Ainda em busca de informação procurei, por estímulo de um texto sobre "De Olhos Bem Fechados" de Stanley Kubrick, a revista "American Cinematographer" (revista da associação dos diretores de fotografia norte-americanos - A.S.C.) que miraculosamente passou a ser distribuída nas livrarias de minha cidade. Nesta publicação encontrei uma matéria do diretor de fotografia Darius Khondji sobre seu trabalho em "O Último Portal" de Roman Polanski. Eu já admirava o estilo de Khondji, principalmente no filme "Seven - Os Sete Crimes Capitais" de David Fincher. O texto descrevia o uso das China Balls como preenchimento de cenas que imitavam a luz do fogo, análogo ao meu uso com as velas. A matéria trazia ainda fotos do set de filmagem com o aparato em ação: eles penduravam esta bola luminosa num guindaste. A este ponto sabia que seria preciso preencher a atriz durante os travellings, ou seja, teria que prender a luz no carrinho. Daí a necessidade de ser leve.

Durante uma aula de direção de fotografia o professor Adriano estimulou os alunos a construir nossa versão da lanterna chinesa. Utilizamos o que havia à mão e acabamos com um cabo de vassoura com um bocal na ponta e uma caixa de isopor derretendo e com uma difusão numa das faces da caixa. A lâmpada era do tipo photoflood de 250W, que resultou muito forte. Mas o princípio estava definido: teríamos um boom de luz! Com esta experimentação, que não teria sido completada sem a ajuda do maquinista do vídeo Fábio Corniani, percebi que precisaríamos de um dímer para controlar a intensidade da luz. Descobrimos também que a lâmpada comum de tungstênio (no nosso caso uma 100W de 220V) seria melhor pois tenderia mais ao amarelo, ainda mais com o auxílio do dímer que permitiria deixar a lâmpada em resistência , o ponto em que ela mais se aproxima da luz de velas.

Fábio adaptou um globo difusor desses de ventilador de teto, conferindo um acabamento agradável ao equipamento. Mas no pré-light (teste prévio da iluminação que será usada no dia da filmagem) observamos que a luz da vela é dura e dramática (pelo menos quando em pouca quantidade), por isso, a difusão tornou-se desnecessária. O resultado surpreendeu a todos e o efeito desejado foi alcançado.

É necessário destacar a importância de se realizar o pré-light. Nele, pudemos tirar nossas dúvidas e testar as possibilidades do que imaginávamos que funcionaria. O conceito de luz que desenvolvemos durante a decupagem concretizou-se maravilhosamente! O clima gerado por este ambiente traduziu toda a densidade que estava latente no roteiro. É possível compartilhar do tormento de Estela graças à visualidade.

Curiosamente, encontramos um altar com focos de luz nos motivos principais (santos, pintura central da Santa Ceia), um de nossos conceitos principais estava pronto de antemão.

Digna de nota é a vantagem de se utilizar uma câmera sensível (mini-DV CAM Sony), que permitiu consolidar o conceito de iluminação com o mínimo de equipamento possível. Nesse sentido a luz existente na locação (luz do altar) trabalhou a nosso favor. Além da luz do altar, que foi a principal, utilizamos um spot Fresnell de 1000W para o contraluz da entrada de Estela, uma unidade mini-brut de seis lâmpadas com apenas um par delas acesas e com difusão para iluminar um vitral de fora para dentro e o "China Boom"(como foi apelidado o aparato que desenvolvemos) para iluminar Estela e os personagens sentados nos bancos; a partir da experiência do China Boom, acrescentamos quatro lâmpadas de tungstênio (100W cada) escondidas entre as colunas da mureta que dá acesso ao altar para destacar os noivos.

O conceito de luz desenvolvido é fixo para todas as cenas do interior da igreja. Não tivemos que ficar transportando refletores de um lado para o outro. Buscamos as soluções mais simples para obter os efeitos desejados. Com certeza ganhamos um tempo precioso pois o cronograma era apertadíssimo, tínhamos apenas sete horas durante uma noite para realizar toda a filmagem no interior da igreja.

III - GRAVAÇÃO

No primeiro dia de gravação concluímos a seqüência das externas, que foi gravada das nove horas da manhã às treze horas da tarde sem grandes problemas. O segundo dia de filmagem foi num Sábado, véspera do dia das mães (13/05/2000). Após os preparativos, começamos a gravar por volta das onze horas da noite. O plano de entrada de Estela concretizou-se, apesar do espaço limitadíssimo conferido pelos madeirites (duas folhas de aproximadamente 1 X 2 m) que usamos para forrar o chão da igreja para evitar as trepidações causadas pelos frisos do piso. Neste momento, percebi que a granulação da imagem estava mais intensa que no dia do pré-light. Tentei todos os ajustes possíveis e mesmo assim o nível de granulação me preocupava. Porém, tive que seguir em frente e filmar, esperando que no vídeo a imagem ficasse melhor (já havia notado em testes anteriores que a imagem do monitor da câmera é um pouco inferior à imagem real).

Em seguida, ocorreu o problema que eu mais temia: o episódio do ligeirinho (carrinho improvisado que anda sobre trilhos também improvisados para executar movimentos de acompanhamento chamados "travellings"). Ao vê-lo, gostei da construção do carrinho, que parecia sólida e segura. Mas o trilho de canos soltos de PVC não inspirou confiança. Logo que montamos o equipamento, começamos a ensaiar. Ao tentar ajustar um movimento de câmera, luz e carrinho, ficamos em três pessoas sobre ele. Devido ao peso o estreito cano amassou, causando trepidação no movimento.

Tal descuido se deu devido à falta de tempo para testar o equipamento, que não ficou pronto a tempo para o pré-light. Estrear um instrumento essencial para o trabalho durante a correria do set de filmagem é pouco prudente. Num último esforço, tentamos utilizar o carrinho sobre a madeira, mas em vão. A única solução era fazer todos os planos com o tripé móvel ("estrela") sobre as duas placas de madeira. E assim foi feito, com exceção do travelling frontal de Estela, que merece um parágrafo aparte.

Sikora já havia decidido previamente: o travelling da caminhada de Estela, cena principal da estrutura do vídeo, seria feito com o tripé móvel. E ponto. Mas o caminho da noiva tinha o mesmo piso do resto da igreja: era antiderrapante e media aproximadamente 40 X 40 cm, ou seja, do ponto de vista da rodinha do tripé havia uma pequena trincheira a cada 40 cm. E um tranco correspondente na imagem. Para atenuar esses pulos utilizamos o tapete vermelho da igreja. Entretanto, ele não poderia aparecer na cena pois havia sido descartado em prol dos reflexos no chão causados pela luz das velas. Tivemos que coordenar toda uma equipe para alcançar o resultado esperado. A câmera recuava puxada por mim, mas como o tapete era estreito para o tripé da câmera se movimentar (sobravam pouquíssimos centímetros dos dois lados), a rodinha escapava do tapete causando pulos e o desnível do enquadramento. Tive que contar com o auxílio de meu colega Fernando Mello para manter o tripé em movimento no estreitíssimo tapete. Paralelamente ao movimento da câmera, que estava ligada à energia por um cabo, tínhamos o operador do China Boom (Mateus Fonseca) caminhando à esquerda e bem próximo (trombamos com o pé dele durante um take), o operador de cabo e de um filtro de linha logo atrás de nós (Maurício Toyama), outro operador de cabo perto do final do trajeto na entrada do altar (Aldair Neto) e a função mais inusitada que a necessidade da cena criou: o operador de tapete (Fábio Corniani)!? O coitado ia enrolando o tapete vermelho, andando agachado para não sair em quadro e tentando controlar aquele rolo que não parava de crescer e de ficar pesado. Creio que foi uma dura penitência para Corniani. E logo atrás do penitente vinha a atriz caminhando , e todos nós tentando nos mover no mesmo ritmo. Como as cenas não tinham som direto, aproveitei para dar coordenadas à equipe durante os takes. Umas vez que estávamos gravando esta cena em plano seqüência, um erro significava desenrolar o tapete e voltarmos todos os sete para a estaca zero. Nunca imaginei que um caminho de noiva pudesse ser tão longo e difícil como uma via crúcis. E mesmo com o tapete, o tripé teimava em dar uns soquinhos, que eu suavizava levantando um pouco o tripé, praticamente me abraçava a ele e o trazia junto a mim, como numa dança. Ah, e tinha que ficar de olho no monitor da câmera também.

As outras cenas não foram difíceis de realizar apesar do madeirite competir com o tapete em estreiteza. O China Boom cumpriu seu papel com eficiência, ampliando nosso conhecimento das possibilidades da luz (luzes em movimento são tabu para vários fotógrafos); e juntamente ao ligeirinho foi doado ao curso de Imagem e Som, tornando acessível aos outros alunos uma tecnologia desenvolvida por seus próprios colegas.

IV - AS IMAGENS: FINALIZAÇÃO

Ao contrário dos comentários tecidos por algumas pessoas do curso, as imagens ficaram ótimas. Claro que nem tudo saiu como eu queria no início do projeto. As externas , por exemplo, eu as queria em hora mágica, idéia negada pelas limitações da produção (tínhamos só três dias de filmagem -um deles usamos para o pré-light, horários restritos de atores e locações). Teríamos, então, as manhãs para gravar. Tudo bem, das sete até as nove e meia da manhã temos um Sol bonito. Mas quando vi que o dia de gravação começava por volta das nove horas percebi que as externas não teriam a menor chance de serem esteticamente bonitas (pelo menos não no padrão clássico). O Sol chapado iria estourar grandes áreas da imagem num branco "cinema novo". O filtro de densidade neutra (espécie de "óculos escuros" da lente) da câmera, que era eletrônico, mostrou seus limites encarando o impiedoso Sol à pino do meio-dia. Mas a "aridez" dessas imagens evocava um clima coerente com a proposta do vídeo. E tinha que usar isso a meu favor, era a única saída.

Desde a decupagem sabia que queria as externas com um clima monocromático e depressivo. Mas antes de iniciar o processo de alterar as imagens certifiquei-me com o diretor até onde ia minha liberdade para experimentar e expus basicamente o que pretendia fazer. Ele me liberou para fazer o que quisesse. Com isso em mente, comecei a refletir nas possibilidades. Um dia estava assistindo a um comercial na TV que me lembrou uma seqüência do filme "Assassinos por Natureza" de Oliver Stone. O clima era depressivo, com luz difusa mas superexposta, assim como minhas externas, e a cor predominante era um verde neutro ( muito usado pela publicidade, por hospitais, escolas, telas de fundo de computador, produtos de limpeza...)

Coincidentemente, o filme "O Resgate do Soldado Ryan" de Steven Spielberg e fotografado pelo talentoso Januz Kaminsky, evocava o mesmo clima só que através da desaturação de cores. A partir dessas observações decidi desaturar as cores e adicionar o verde neutro de modo sutil nas externas, intensificando o contraste com as cenas internas que permaneceriam mais escuras e de saturação de cor mais forte. O resultado é uma imagem árida, impessoal (mais tarde descobri que Victor J. Kemper, o presidente da A.S.C., já havia utilizado o verde para dar uma conotação de simplicidade e impessoalidade a uma personagem). O verde é sutil, pude comprovar que as pessoas que assistiram ao vídeo não sabiam explicar o que havia sido feito com a imagem, mas sentiram o clima das cenas externas, que expressavam algo mais do que as imagens ditas "realistas". Claro que a onipresença dos planos gerais ajudaram na impessoalização das cenas, assim como a fixidade deles. Exatamente como foram planejados.

Surpreendentemente, o tratamento dado às imagens surtiu uma reação de estranheza por parte da equipe do trabalho. Mas creio que a polêmica se assentou após a reação positiva de alguns espectadores. As internas da igreja ficaram menos granuladas do que eu imaginava e tão escuras quanto eu e o diretor queríamos, mas várias pessoas criticaram essa opção estética, achando "escuras demais". A presença dos grãos, que nãos são poucos, irritou a muitos outros. Concordo que há bastante grão, mas foi o preço de gravarmos com pouca luz, e no fim das contas acrescentou muito às cenas dramaticamente. A angústia e o desejo de Estela estão representados pela luz oscilante das velas numa imagem incerta como as lembranças ( Stanley Kubrick foi muito criticado pela sua ousadia de "puxar" a emulsão do filme Kodak à níveis extremos, granulando bastante a imagem durante o filme inteiro). Assim como críticas, também recebemos elogios, que junto às reações positivas de algumas pessoas ao vídeo me deram a certeza de que fizemos as escolhas certas através de um processo criativo e experimental que resultou num visual incomum e interessante. Uma maneira inédita e extremamente sensorial de abordar um poema na forma audiovisual.