Momento Histórico
O período
é do pós-primeira Guerra Mundial. Vislumbra-se aí
a renovação do cinema francês. O cinema tem uma
história recente e ainda está procurando legitimar a
sua linguagem e explorar as suas possibilidades visuais. Esse momento
coincide com as vanguardas na arte marcada pela multiplicidade de
tendências e manifestos que propõem um novo rumo estético
para a arte - desestetização e uma redefinição
do conceito e do valor supremo da arte como naturalismo. Os movimentos
vanguardistas - o surrealismo, o dadaísmo - apresentam em seus
manifestos novas formas de expressão artística, uma
nova linguagem, novos meios de composição e de configuração
e, assim, uma nova forma de lidar com a realidade. Esse momento de
efervescência artística vai influenciar diretamente os
cineastas franceses preocupados com uma nova estética e linguagem
cinematográfica, permitindo um diálogo constante entre
a arte e o cinema. A experimentação foi fundamental
no exercício de repensar o cinema enquanto arte e suas potencialidades
e recursos expressivos na criação de uma linguagem própria.
"Entende-se,
com este termo - vanguarda -, um movimento que investe um interesse
ideológico na arte, preparando e anunciando deliberadamente
uma subversão radical da cultura e até dos costumes
sociais, negando em bloco todo o passado e substituindo a pesquisa
metódica por uma ousada experimentação na ordem
estilística e técnica" (Giulio Carlo Argan)
Jean Vigo -
Entre a Vanguarda Francesa e o Realismo Poético
A Vanguarda Francesa,
na década de 20, propõe uma experimentação
acerca das possibilidades estéticas e visuais do cinema. São,
portanto, filmes experimentais inspirados nos movimentos vanguardistas
como o cubismo, o dadaísmo e o surrealismo. O escritor e o
cineasta Louis Delluc lidera esse movimento numa crítica ao
cinema industrial e no sentido de reservar para o cinema um discurso
intelectual e de protesto configurado por uma linguagem artística.
Os principais nomes da Vanguarda Francesa são: Luis Buñuel
- L'Âge d'or e Un Chien Andalou -, René Clair - A Nous
la Liberté -, Jean Cocteau - Sang d'un poète, entre
outros.
A obra de Jean
Vigo é compreendida numa transição entre a Vanguarda
Francesa e o Realismo Poético, entre o cinema mudo e o cinema
sonoro. Vigo vive em Paris nos anos 20, na época de ouro do
surrealismo, mas não se vê diretamente influenciado pelo
manifesto de André Breton. Identifica-se com a proposta de
Un Chien Andalou e de uma maneira indireta e mais pessoal do que artística
é inspirado pelos ideais, tomados pelos surrealistas, de liberdade,
de antiautoritarismo e de repúdio ao academicismo. O seu primeiro
filme, um curta-metragem mudo de 27 minutos, A Propôs de Nice,
é considerado na esfera da experimentação vanguardista,
assumindo a discussão estética do movimento. Vigo estrutura
seu discurso sob o signo do grotesco, do carnal e da morte.
Zéro de
Conduite, um média-metragem de 1933, também se dá
no contexto da Vanguarda Francesa por ser uma evidente crítica
à ordem social vigente e aos bons costumes no ideário
do surrealismo. Zéro de Conduite é um grito contra o
autoritarismo, envolto numa simbologia lírica e satírica.
Grito esse que foi calado até 1945, quando finalmente foi permitida
a sua exibição. No entanto, toda a rebeldia que Zéro
de Conduite manifestava já estava descontextualizada historicamente
e tinha o seu autor morto e sem memória, assim o filme foi
perdendo o seu furor e o seu sentido primeiro, uma denúncia
corajosa à época da diligência militar.
A maior parte dos críticos da época se manifestou num
tom de melancolia e decepção em relação
à tardia exibição de Zéro de Conduite:
"Enfim autorizaram
a exibição pública de Zéro de Conduite.
Já não era sem tempo. Talvez até já seja
tarde demais. Os anos passaram. O filme envelheceu e a dinamite que
ele continha não explode mais. Não, a esperada revanche
não acontecerá. Não sei mesmo se, para a memória
do querido e saudoso Jean Vigo, morto antes de poder realizar uma
obra que se prenunciava notável, não teria sido melhor
guardar apenas na lembrança este filme que, na época,
fez estremecer a boa educação da Senhora Censura (...)"
Depois de Zéro
de Conduite (1933), Jean Vigo dedica-se ao que viria a ser o seu último
filme L'Atalante. O roteiro, escrito por Jean Guinée, conta
uma história de amor de forma muito banal e com elementos muito
clichês, inclusive para a época e principalmente para
o gênio singular e inquieto de Vigo. Mas o cineasta francês
consegue transformar uma história tradicional de amor, misturando
sonho e realidade, crítica social e lirismo evitando instintivamente
todo e qualquer sentimentalismo. L'Atalante aproxima Vigo do Realismo
Poético de René Clair por quem tinha uma grande admiração.
O Realismo Poético
inicia-se justamente na transição do cinema mudo para
o cinema sonoro, o que levou os vanguardistas a se libertarem do experimentalismo
e criar uma estética naturalista de crítica à
realidade social. A melancolia, a poesia, o lirismo são instrumentos
para tratar a imagem naturalista. Jean Renoir, um dos grandes nomes
do Realismo Poético, utiliza simultaneamente a ironia e a compaixão
ao versar imageticamente sobre a condição humana, ressaltando
a fraqueza dos homens. Les Bas-fonds, La Grande Illusion (A Grande
Ilusão) e La Règle du Jeu (A Regra do Jogo) são
alguns dos filmes que revelam a sensibilidade e o humanismo propositado
na mensagem que Renoir quer transmitir a seu público através
de seu cinema engajado. Ele discursa na denúncia do fracasso,
da decepção, da tristeza, da fúria que pertencem
indistintamente aos homens bons ou maus, todos moralmente instáveis.
O Realismo Poético
reaviva o naturalismo apresentando personagens comuns, inspirados
nos tipos humanos das classes populares, os ambientando em seus lugares
de proveniência - feios e sujos. A temática realista
exige um tratamento poético, um certo lirismo para chamar à
simplicidade da vida os espectadores que esperam algum tipo de entretenimento
ou espetáculo. Mas não o têm.
Jean Vigo entende
o sentido verdadeiro do Realismo Poético e o exerce em L'Atalante
como ninguém. Ele leva à tela uma crítica social
sob a visão mais pura da poesia e revela sua qualidade estética
na consciência translúcida de sua exposição.
O movimento francês
ainda revela ao cinema nomes e obras como Marcel Carné com
Le Quai des Brumes (Cais das Sombras) entre outros, Julien Duvivier
com Um Carnet de Bal (Um Carnet de Baile).
Jean Vigo - Um Cinema Social
"Desejaria conversar convosco sobre um cinema social mais definido,
e do qual estou mais próximo: o documentário social
ou, mais exatamente, o ponto de vista documentado. Neste domínio
a explorar, afirmo que a câmara de filmar é o rei, ou
pelo menos o presidente da república. Não sei se o resultado
será uma obra de arte, mas do que tenho a certeza, é
que será cinema. Cinema, no sentido em que nenhuma arte ou
ciência pode substituir a sua função. (...) Este
documentário social distingue-se do documentário tout
court e das atualidade da semana, pelo ponto de vista que nele, o
autor claramente defende. Este documentário exige que se tome
posição, porque põe os pontos nos is. Se este
cinema não compromete um artista, pelo menos compromete um
homem. Isto vale bem aquilo. "
Jean Vigo nasceu em 26 de abril de 1905. Filho dos ativistas anarquistas
Emily Cléro e Miguel Almareyda (pseudônimo de Eugène
Vigo). Passou a infância em comícios e assembléias,
entre as freqüentes prisões do pai, que escrevia em jornais
revolucionários constantes ataques à política
de guerra, ao militarismo e ao autoritarismo. Vigo cresceu vendo seu
pai lutar pela liberdade e pela justiça social e esse princípio
virou sentimento de revolta quando o pai morreu em circunstâncias
misteriosas, enforcado com os cadarços de suas botas na prisão
de Fresnes em 1917, quando Jean tinha apenas 12 anos. O efeito da
morte seu pai em Vigo é imediato e ele ainda iria carregar
esse peso até o fim de seus dias. No ano seguinte Vigo é
levado para o sul. Volta à Paris em 1924 para estudar na Sorbonne.
Logo, Jean Vigo começa a apresentar os primeiros sinais da
doença contra a qual lutaria pelo resto de sua vida, a tuberculose.
Em 1929, o seu padrasto lhe dá uma câmera com a qual
faz seu primeiro filme, A Propôs de Nice. Restariam a Vigo apenas
quatro anos de vida, nos quais realizaria seus dois mais brilhantes
filmes: Zéro de Conduite e L'Atalante.
Zéro
de Conduite
Zéro de Conduite conta a história de quatro meninos
que estudam num internato e se revoltam contra os professores. Vigo
faz um retrato real e uma crítica impiedosa à repressão,
entremeada de sátiras e deboches. Vigo revela um genuíno
espírito de rebeldia e inconformismo. Foi exatamente por seu
conteúdo revolucionário que Zéro de Conduite
foi censurado até 1946. É, na verdade, um filme com
um teor muito pessoal, pois retrata a vida num internato, sendo que
seu pai que morreu de forma misteriosa anos antes tinha passado, na
adolescência, por um reformatório, marcando profundamente
a posição política que viria a adotar - anarquista
e antimilitarista, temas freqüentes na obra de Vigo. O próprio
Vigo passara a adolescência nesses colégios. Os nomes
dos personagens principais de Zéro de Conduite são baseados
em seus amigos que o protegeram no liceu Millau, Bruel e Caussat.
O filme é autobiográfico, um relato de sua experiência
durante quatro longos anos que passou no internato fazendo molecagens,
recebendo zeros de comportamento, mas também é uma homenagem
ao pai, Almereyda e uma manifestação crítica
e simbólica da sociedade francesa.
Zéro de Conduite é um manifesto com a repressão
e a autoridade. Vigo faz uma sátira da escola como responsabilidade
moral na educação e formação das crianças.
Os professores são caricaturas: um jovem professor imita o
Carlitos sem muito sucesso entre os alunos, o diretor é um
anão perverso e os alunos revelam uma brutalidade e uma violência
surpreendentes, que é para Vigo uma legitimação
imaterial do passado, numa espécie de experiência que
poderia vir a ser catártica para o próprio Vigo numa
purgação de desordens emocionais e traumas a partir
da estetização de sua história num suporte fílmico.
Zéro de Conduite é uma efervescente crítica aos
padrões e normas estabelecidos rigidamente pela sociedade francesa
que se legitima numa espécie de poesia visual anarquista.
A cena mais marcante e poética é a do dormitório
em que os meninos guerreiam com travesseiros que se rompem transformando-se
numa chuva de plumas. Toda a cena é registrada em câmera
lenta numa elevação do ato de bravura dos meninos. A
música de Maurice Jaubert foi registrada ao inverso numa tendência
autenticamente surrealista.
L'Atalante
Uma história de amor repleta de lugares-comuns. Este foi o
roteiro escrito por Jean Guinée entregue a Jean Vigo. O resultado
é a mais autêntica expressão do lirismo no cinema
francês. Vigo repudia ao máximo qualquer tipo de sentimentalismo
que uma história como essa poderia despertar. Ao invés
disso, cria um ambiente de mistério, de intriga e de ingenuidade
por parte de seus personagens mergulhados num conflito amoroso. A
música como elemento dramático narra a vertiginosa queda
dos espíritos puros de Juliette e Jean num desencontro doloroso.
L'Atalante narra a história de Jean e Juliette, recém-casados
que vivem numa barcaça. Juliette logo se desilude com a vida
matrimonial e vai para Paris. Jean ao descobrir a fuga da mulher veleja,
sem esperar o seu retorno numa frieza e indiferença dissimulada
que num instante transforma-se no mais profundo desespero e solidão.
Vendo a tristeza do patrão, le père Jules sai à
procura de Juliette. Encontra a moça num estado mais deprimente
que o do patrão e a carrega a força para a barcaça,
onde Juliette cai nos barcos de Jean. Final feliz. Imageticamente,
Vigo utiliza com primor e dignidade uma simbologia lírica e
sensual que desvincula a história da banalidade, numa revisão
criativa e original do roteiro de Guinée. O cineasta cria em
L'Atalante uma ligação íntima e peculiar entre
fantasia e naturalismo numa tendência inconsciente ao surrealismo.
"Ele [Vigo]
narra-a num estilo que lhe é peculiar. É um estilo excitante.
Na sua base há um senso de realismo documental que faz da barcaça
uma barcaça verdadeira...Mas por cima desse realismo existe
um mundo enlouquecido de símbolos e magia, característico
de Vigo. O imediato, também, de um modo mais monstruoso, representa
o romanesco. É uma nova e fascinante maneira de contar estória,
e Vigo é claramente um dos jovens diretores mais imaginativos
da Europa"
Jean Vigo narra
uma história de amor recorrendo a uma sutil sensualidade despertada
pelo amor ingênuo e difícil de Jean e Juliette. Desejo,
paixão e amor sublime confundem-se corrompendo o dever matrimonial.
Juliette quer o mundo além da barcaça, onde Jean a prende
e a perde. Ele perde Juliette em sua rudeza e incompreensão.
Juliette foge em busca de tentações e novidades, que
não encontra em Paris. Segundo Marina Warner, romancista e
historiadora, L'Atalante "acompanha ambos os protagonistas numa
viagem do coração", que os expõe a um sofrimento
erótico para uma descoberta maior e sincera do amor que sentem
um pelo outro.
O lirismo poético de Vigo chega ao clímax visual quando
Jean mergulha no mar para procurar a imagem de Juliette, que surge
à sua frente, mas ele permanece cego diante da câmera.
A simbologia presente nessa imagem nos leva a entender o sofrimento
de Jean.
L'Atalante não é só um delírio poético
surrealista. O filme não poderia ser limitado a isso. L'Atalante
é também uma crítica social que evidencia de
maneira sutil a luta de classes na cidade Francesa e o trabalho nos
canais.
"Na parte
sobre Paris, em L'Atalante, Vigo mostra sua preocupação
social com a pobreza e desemprego dos anos 30, ao passo que Boris
Kauffman produz uma iluminação sombria e profundas sombras
angulares para o cenário da ação quase inteiramente
silenciosa"
L'Atalante é
uma tensão entre um surrealismo delicado - representado, principalmente,
na fotografia da cidade - e uma crítica da organização
social francesa.
Considerações
Finais
Jean Vigo é
o primeiro mártir do cinema. E como mártir foi devidamente
negligenciado pelos críticos e pelos cineastas de sua época.
Vigo conduziu em seus filmes um estilo intensamente pessoal e original.
O cinema breve de Vigo não nos satisfaz por completo, mas nos
faz pensar toda a magnitude de um cineasta social, lírico e
verdadeiro numa passagem tão efêmera pela vida e pelo
cinema.
A sua atuação
na produção cinematográfica francesa é
curta e conturbada, mas deu um novo sentido à linguagem e a
técnica do cinema. Vigo se lança num tipo de cinema
muito autoral e utiliza a linguagem cinematográfica para produzir
a sua crítica social.
Jean Vigo tratava
a realidade diretamente em seus meios, sem artifícios ou ornamentos.
Ele propõe como manifesto um cinema social. E para isso é
preciso ver com outros olhos, formar uma nova percepção
da realidade concreta. A realidade crua, sem efeitos, sem artifícios
oníricos. Talvez a sociedade francesa dos anos 30 não
estivesse preparada para ganhar novos olhos. A cegueira parcial e
o onírico parecem mais atraentes diante do concretismo inexorável
do mundo.
Hoje, o espírito
vivo, pessoal e rebelde de Vigo parece nos abalar de alguma forma.
Vigo nos encanta com seu olhar subjetivo de uma incansável
tradução de si mesmo para o cinema. A temática
por ele valorizada ainda hoje nos atinge, assim como o sentimento
poético com que ele trata os temas da realidade social ainda
hoje nos seduz e estimula buscar algo tão verdadeiro para o
cinema contemporâneo.
Bibliografia
GOMES, Paulo Emilio
Salles. Jean Vigo (1905-1934). Trad. Elisabeth Almeida - Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1984
GOMES, Paulo Emilio Salles. Vigo, vulgo Almareyda. Org. Carlos Augusto
Calil, trad. Lúcia Nagib - São Paulo: Companhia das
Letras : Edusp : Cinemateca Brasileira, 1991.
WARNER, Marina. L'Atalante. Trad. Lucia Olinto - Rio de Janeiro: Rocco,
1996
Site
http://www.cinemaenlumiere.com/histoire/sitport/pages/an30.htm
data de publicação: 09/03/2003