Se
"Shrek" pudesse ser resumido numa palavra, esta poderia
ser "sucesso". Após décadas de monopólio
do estúdio de Walt Disney, a animação está
sofrendo um processo de melhoria devido à ausência de
competição acirrada nesse gênero, praticamente
inexistente até 1997, devido ao longa-metragem de animação
da Warner, "Anastásia". No ano seguinte, foi a vez
do estúdio recém-nascido da Dreamworks, cujos proprietários
são Spielberg e cia, através de "Os Dez Mandamentos"
em desenho, "O Príncipe do Egito". Por mais que ambas
as produções concorrentes não tivessem conquistado
a excelência das obras da Disney como "O Rei Leão",
o estúdio simplesmente as ignorou, abrindo assim, espaço
para o estouro chamado "Shrek".
O
filme já causou um grande impacto antes mesmo de estrear na
terra do Tio Sam, pois foi indicado à Palma de Ouro em Cannes,
dividindo a honra com a até então única animação
que teve esse privilégio, "Peter Pan" de 1953. Além
disso, foi um dos motivos da criação do Oscar especial
para longas-metragens a ser entregue a partir da cerimônia de
2002. Apesar da presença de fortes concorrentes nessa categoria
como "Final Fantasy" da Columbia e o próprio "Atlantis"
da Disney, o sucesso da Dreamworks já está com uma mão
na estatueta.
"Shrek"
estreou nos EUA na primeira posição nas bilheterias,
mas logo na semana seguinte, "Pearl Harbor" bombardeou o
público nos cinemas, deixando a animação na vice-liderança.
Entretanto, "Shrek" permaneceu no "top10" norte-americano
por 7 longas semanas; 49 dias; uma vitória indiscutível.
Há várias razões para tal sucesso.
Primeiramente,
a animação apresenta uma qualidade de cair o queixo,
confirmando o domínio da computação gráfica
em tais produções. "Formiguinhaz" e "Vida
de Inseto" são bons exemplos isso, pois o crédito
da qualidade gráfica se deve ao computador. Uma forte arma
de "Shrek", sem
dúvida, são os dubladores. Os atores escolhidos foram
pré-selecionados, exceto a voz de "Shrek" que, originalmente,
pertencia a Chris Farley, comediante do Saturday Night Live, mas como
ele morreu em 1997, a voz foi a de Mike Myers, também comediante
do Saturday Night Live. Porém, "Shrek" não
perdeu a qualidade almejada, pois Myers dublou muito bem e acrescentando
um certo charme com o tom britânico dado ao ogro verde. Além
disso, Eddie Murphy está hilário como "Donkey",
personagem responsável por grande parte da comicidade.
Muito interessante e inovadora foi a idéia de sátira
a animações da Disney como "Pinóquio",
"Branca de Neve e os Sete Anões" e até "Chapeuzinho
Vermelho"; sem mencionar o momento "Matrix". Assim,
a animação dá o aviso de que está no comando,
e não a Disney. Como o filme é anti-animação,
o tratamento às personagens de fábulas e suas regras,
como o resgate com beijo na princesa, é de puro desprezo. O
final não deixa de ser feliz, mas de um outro modo, digamos
assim...
As
personagens são bem marcantes, pois são algo inédito:
um ogro verde, sujo, com atitudes "higienicamente incorretas"
e um humor nem um pouco agradável. Ele só resgata a
princesa para ter sua privacidade de volta em seu pântano imundo.
Seu companheiro indesejado é "Donkey", um burro falante
e inquieto que só se junta a "Shrek" para se proteger
dos guardas do príncipe. Ambos saem em busca da princesa Fiona
(voz de Cameron Diaz), aprisionada num castelo cercado de lava em
ebulição e guardado por um feroz dragão fêmea
(?!). O príncipe Farquaad (voz de John Lithgow) aspira a um
reino perfeito e para se tornar rei, pretende se casar com a princesa
Fiona.
O que completa o quadro de absurdos para um conto de fadas: um jogo
de interesses ao invés do bem da sociedade. "Shrek"
mostra que uma boa animação não atrai o público
só por ser bem feito, mas pelo humor no roteiro, na escolha
adequada para os dubladores e o momento certo para atacar os concorrentes.
É melhor a Disney causar uma revolução no gênero,
caso contrário, Walt Disney terá de ser ressuscitado
para trazer o monopólio de seu estúdio de volta.
*Winston Young Kim
é estudante
de cinema da FAAP