"NICOLE KIDMAN NA ESCURIDÃO"
Filme funciona através da sugestão e imaginação


"Eu vejo gente morta"- disse Cole Sears, personagem de Haley Joel Osment, no filme dirigido pelo indiano M. Night Shyamalan. O gênero terror psicológico, que havia desaparecido desde os filmes de Roman Polansky na década de 60 e 70 e com o filme "O Exorcista", ressurge com a onda gerada pelo filme "O Sexto Sentido" e pelo sucesso inesperado "A Bruxa de Blair" em 1999.

Como todo bom filme revolucionário, "O Sexto Sentido" gerou uma série de tentativas de imitação como "O Dom da Premonição" e agora, os chamados "teen movies" estão trocando os assassinos viciados pelo sobrenatural inexplicável. "Os Outros" (The Others, EUA/ Espanha, 2001) está para "O Sexto Sentido" assim como "Vestida Para Matar" para "Psicose": uma bela homenagem que funciona independentemente.

Ao ler a sinopse, pode-se concluir que se trata de mais um filme sobre casas mal-assombradas. Ledo engano. O roteiro se torna envolvente a partir do momento em que apresenta as personagens principais e seus temores, das quais Grace, interpretada brilhantemente por Nicole Kidman, é a mais complexa devido à sua espera interminável do marido que foi lutar no front e a defesa de seus valores religiosos. "Os Outros" não ataca a religião diretamente como "Carrie- A Estranha" de Brian De Palma ou "Stigmata" de Rupert Wainwright, mas passa a mensagem da sinceridade das crianças diante das lições bíblicas da mãe, confrontando a verdade absoluta segundo a religião e a fé.

Apesar da comparação com "O Sexto Sentido" ser inevitável, o filme de Amenábar se preocupa muito mais na estética visual. Obviamente, a doença alérgica das crianças foi um ótimo pretexto para a fotografia sombria de Javier Aguirresarobe, que ouviu do diretor: "A luz é nossa inimiga" como explanação ao seu trabalho. Outro aspecto que se destaca neste filme é a trilha sonora. Esta, composta pelo próprio diretor, é muito bem aplicada nos momentos certos e no tom adequado, causando arrepios e conseqüentes impactos quando necessários.

Como a luz do sol pode até matar as crianças, há regras que jamais poderão ser quebradas. Grace (Kidman), a mãe delas, deixa tais regras bem claras para os novos e misteriosos empregados. As portas deverão ser trancadas antes que outra se abra e as janelas permanecerão fechadas. Rádios, televisão e telefone são descartados a fim de resguardar algum silêncio e paz. Com todo o ambiente cercado pelas sombras das luzes das velas e quieto como um cemitério, a atmosfera é lançada para o desenrolar da trama.

Com "Os Outros", o público pôde conferir que existem filmes assustadores 'pós-O Sexto Sentido'. O cinema nos ensinou que o nosso maior medo está em nossa própria imaginação; aquilo que não conseguimos ver. "A Bruxa de Blair" coloca o medo na escuridão da floresta e faz o espectador criar sua própria bruxa. Seguindo essa premissa, Amenábar escondeu o medo da visão, exprimindo-se em sussurros, correntes de ar quando todas as janelas estão fechadas, móveis se arrastando e o piano tocando sozinho.

São esses simples elementos combinados com a sutileza nos efeitos visuais que contribuem para que o filme não se torne um mero terror. Entretanto, o ponto chave é a atriz Nicole Kidman, em alta desde sua separação com o ator Tom Cruise. Seu último filme antes desse foi nada menos que "Moulin Rouge- Amor em Vermelho", dirigido por Baz Luhrmann, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 2001. Com uma vida conturbada nas manchetes e com dois filmes neste ano, sendo que há ainda o terceiro denominado "The Hours", em que é dirigida por Stephen Daldry ("Billy Elliot"), é bem provável que Kidman seja indicada por seu papel em "Os Outros", e, por que não ganhar o Oscar de melhor atriz? Afinal, a Academia premia os atores do momento como Julia Roberts, Russell Crowe e Benicio Del Toro.



*Winston Young Kim
é estudante de cinema da FAAP