Na década de 30 deste século, Walter Benjamim, partindo
de um referencial marxista para pensar as transformações
que o desenvolvimento tecnológico impunha à vida cotidiana,
ressaltava que a forma de percepção das coletividades humanas
se transformava ao mesmo tempo que seu modo de existência, sendo
ela própria e os meios pelos quais se manifestava condicionados
natural e historicamente (1).
Benjamim referia-se,
então, às obras engendradas a partir da reprodutibilidade
técnica, que começavam a ganhar status de obras de arte,
tais como a fotografia, as gravações sonoras e, especialmente,
o cinema. Assim conseguiu identificar, pontualmente, como o fascismo
e o nazismo valeriam-se das vantagens das novas tecnologias para realizarem-se
politicamente, gerando guerra e destruição da própria
humanidade e de seus princípios mais consagrados desde a Revolução
Francesa. O filósofo morreu, vítima das atrocidades que
criticava, deixando um legado muito mais poderoso e mobilizador do que
poderiam supor seus carrascos: pensamentos revolucionários que
inspiraram e inspiram tantos profissionais que preocupam-se com a plena
utilização dessas técnicas, cada vez extraordinariamente
mais avançadas, em benefício da própria humanidade
e do uso de sua razão crítica.
No pós-guerra,
a reprodutibilidade técnica já chegava às universidades
como uma forma inovadora e extremamente "fidedigna" de se
estudar a realidade social. Nos Estados Unidos dos anos 40, o gravador
tornava-se instrumento de trabalho imprescindível para registrar
as vozes de ex-combatentes e de outras personalidades tidas como de
relevância histórica para futuras gerações.
O produto obtido através da gravação - seja sonoro
ou audiovisual - era tomado como "lugar de revelação"
e de acesso à verdade, anteriormente impossível de atingir
por outros meios. Isto, que Ismail Xavier, escrevendo sobre cinema,
apontou como tendo um "poder revelatório como uma simulação
de acesso à verdade, engano que não resulta de acidente
mas de uma estratégia"(2). Nesse sentido, o que o estudioso
obtinha como documento era fabricado dentro dos parâmetros do
desenvolvimento de uma nova percepção exigida pela burguesia
para incrementar suas estrátegias de dominação
social.
Obviamente, o audiovisual
ainda não era entendido como "mais que um instrumento sofisticado
intervindo no simples domínio da comunicação" (3).
Sem dúvida, já caracterizava um sistema diferente de apreensão,
de elaboração e de comunicação, abrindo
perspectivas observacionais da realidade nunca antes vislumbradas, o
que a apresentava como múltipla e não mais única.
Porém, as interpretações que proporcionava adequavam-se
apenas a alguns parâmetros da sociedade que iniciava sua experimentação.
Algum tempo depois, Marc Ferro, um dos historiadores pioneiros no emprego
do filme como fonte documental, conseguiria enxergá-lo como documento,
não no sentido de imagem objetiva da realidade, mas sim no status
de revelador ideológico, político, social e cultural de
uma determinada cultura e de seus interesses, nem sempre retratados
de modo explícito, entretanto, passíveis de serem observados
nas sutilezas e entrelinhas das imagens expostas num filme: "Resta estudar
o filme, associá-lo ao mundo que o produz. A hipótese?
Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção,
intriga autêntica ou pura invenção, é História;
o postulado? Que aquilo que não se realizou, as crenças,
as intenções, o imaginário do homem, é tanto
a História quanto a História." (4)
Ferro referiu-se
aqui ao estudo dos filmes de ficção. O resultado do encontro
entre o olhar produzido pela objetiva da camêra e o acontecimento
fabricado para ser captado por este olhar, é uma imagem que tornou-se
um documento. No estudo desse documento não é posto de
lado a existência do recorte. Não existe a confiança
no poder explicativo da imagem isolada, pois o historiador neste caso,
ao contrário do espectador desavisado, não participa do
processo de simulação: sua função é
desvendá-lo. Expondo suas entranhas, o historiador procura entender
que tipo de percepção a coletividade absorve/revela sobre
seu modo de existência, seguindo a pista dada pelas reflexões
benjamimianas.
Diferente de Benjamim,
entretanto, Ferro acreditava que o filme deveria ser abordado não
como uma obra de arte, mas sim como um produto, uma imagem-objeto, cujas
significações não são somente cinematográficas,
pois ele valeria por aquilo que testemunhou (5). Acreditamos, todavia,
que não é possível excluir o caráter de
obra de arte que o filme ou qualquer outro tipo de produção
audiovisual possui para realizar um estudo histórico: "... com a
reprodutibilidade técnica, a obra de arte se emancipa, pela primeira
vez na história, de sua existência parasitária,
destacando-se do ritual. A obra de arte reproduzida é cada vez
mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser
reproduzida (...) Mas, no momento em que o critério da autenticidade
deixa de aplicar-se à produção artística,
toda a função social da arte se transforma. Em vez de
fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra prática:
a política."(6)
Mais que isso, a
técnica de produção de imagens como obra de arte
é que permite sua difusão massiva. O filme, por exemplo,
pelo seu próprio custo produtivo é uma criação
artística que pertence à coletividade e é especialmente
feita para ela. E, será que um estudo histórico do filme
ou de outras produções audiovisuais não faria sentido
exatamente porque estes também são fatos estéticos,
que servem ao desfrute? A eficácia deles não viria precisamente
disto?
Ferro pareceu estar
ciente de que é indispensável analisar no filme principalmente
a narrativa, o cenário, o texto, e as relações
do filme com o que não é filme: o autor, a produção,
o público, a crítica, o regime. Procurou, dessa forma,
compreender não somente a obra como também a realidade
histórica que ela representa (7). Para este autor, desde que
o cinema se tornou uma arte, seus pioneiros passaram a intervir na história
com filmes, documentários ou de ficção, que, desde
sua origem, sob a aparência de representação, doutrinam
ou glorificam (8). Contudo, Ferro não se deteve mais cuidadosamente
no fato de que é precisamente essa aparência de representação
que, quando apropriada pelos espectadores identificados com o olhar
da câmera, inclusive, à revelia dos que a produziram, torna-se
um elemento concreto do processo histórico (9).
E por que os historiadores,
seguindo o caminho aberto por outros profissionais da área de
humanidades, não conseguiriam tornar-se também realizadores,
fazendo com que o audiovisual fosse ainda mais ativo como agente de
uma tomada de consciência social? Parodiando o antropólogo-cineasta
David MacDougall (10), que dirige suas indagações aos
colegas de seu métier, está na hora de nós, historiadores,
nos questionarmos quanto ao que esperamos aprender com o audiovisual
e o que ele pode nos transmitir. O que é que as imagens podem
exprimir tanto ou mais que as palavras e em que podem enriquecer o saber
histórico? MacDougall cita o exemplo de um dos mais famosos e
conceituados antropólogos-cineastas, Jean Rouch (11) - exemplo
que serve muito bem aos historiadores - para atestar a existência
de bastante material de pesquisa em nossa própria sociedade,
em geral negligenciado por ser considerado matéria-prima típica
de outras áreas de estudos humanos, como a sociologia, a antropologia
e a ciência política. Nesse contexto, onde fica o estudo
e até mesmo a "fabricação" de imagens
de uma história contemporânea por parte dos historiadores?
Será que o inexplorado e o desconhecido presentes no interior
da nossa realidade social não deveriam fazer parte do campo de
trabalho do profissional de História através de imagens,
além de escritos? E não podemos pensar em tratar seriamente
daqueles temas que supomos conhecer tão bem através do
discurso das imagens, sem tratá-las como mera ilustração?
A sociedade, então,
não seria apenas um objeto de análise provindo das mãos
dos diretores e fotógrafos militantes (12). Os historiadores
e os espectadores poderiam participar ativamente do espetáculo
intervindo na realidade com a experiência acumulada e proporcionada
pelas imagens. Talvez atingíssemos plenamente o que Ferro preconizou
como sendo a passagem dos filmes de militantes para os filmes militantes,
englobando também outras formas de produção e difusão
de imagens.
Isso implicaria,
contudo, novos posicionamentos teóricos e metodológicos
para os historiadores, como se sucedeu com os antropólogos. O
objeto de pesquisa tornou-se sujeito e passou a exprimir-se enquanto
sujeito, formulando questões ao investigador, tornando-o também
um elemento do campo de observação (13). Nesse sentido,
parece que os historiadores orais foram os primeiros a dialogar com
a antropologia, compartilhando o entendimento do cinema e do audiovisual
em geral, como instrumentos de observação, de transcrição
e de interpretação de realidades sociais, além
das funções já empregadas em termos de ilustração
e difusão de pesquisas.
Mesmo assim, para
o historiador - assim como para outros especialistas - é difícil
medir ou avaliar a ação exercida pelo audiovisual. Ferro
afirma que essa intervenção se exerce por meio de um certo
número de modos de ação que tornam as imagens eficazes,
operatórias. Sem dúvida, essa capacidade está ligada
à sociedade que produz as imagens e àquela que as recepciona.
Além do ajustamento de dificuldades não propriamente audiovisuais
- tais como condições de produção, formas
de comercialização, seleção de gêneros,
referências a significados culturais, etc. - o audiovisual dispõe
de certo número de modos de expressão que não são
uma simples transcrição da escrita literária, mas
que têm sua especificidade. Dessa forma, seria ilusório
imaginar que a prática dessa linguagem é, ainda que inconscientemente,
inocente (14). Os historiadores procurariam estar perfeitamente cônscios
das possibilidades e dos limites da linguagem audiovisual para conseguir
tirar o máximo de proveito das ferramentas que esta lhe oferece.
Acima de tudo, tirar proveito da emoção com que o meio
audiovisual consegue envolver o espectador. Neste caso, também
vale para os historiadores a constatação de um antropólogo: "Ficção
e realidade se misturam e a liberdade inocente dos antropólogos-cineastas
lhes permite atravessar os espelhos diante dos quais os cineastas profissionais
param, observando petrificados (15)."
Ferro afirma que
o historiador também deve se ater aos procedimentos aparentemente
utilizados para exprimir duração, ou ainda a figuras de
estilo que, por exemplo, transcrevem deslocamentos no espaço,
pois estes podem, sem intenção do cineasta, revelar zonas
ideológicas e sociais das quais ele não tinha necessariamente
consciência, ou que ele acreditava ter rejeitado (16). Ismail
Xavier explicita melhor este tema: "No cinema,
as relações entre visível e invisível, a
interação entre o dado imediato e sua significação
tornam-se mais intrincadas. A sucessão de imagens criadas pela
montagem produz relações novas a todo instante e somos
sempre levados a estabelecer ligações propriamente não
existentes na tela. A montagem sugere, nós deduzimos. As significações
se engendram menos por força de isolamentos (...), mas por força
de contextualizações para as quais o cinema possui uma
liberdade invejável. É sabido que a combinação
de imagens cria significados não presentes em cada uma isoladamente
(17)."
Outra questão
importante para o historiador é situar o audiovisual no contexto
histórico em que foi produzido e nos diferentes contextos históricos
em que é recebido, pois as imagens podem ser lidas de maneira
diferente e mesmo inversa, em dois momentos de sua história (18).
Outra vez, Xavier detalha pressupostos fundamentais ao falar de cinema:"... ganha
toda ênfase a importância da pergunta que o observador dirige
à imagem em função da sua própria circunstância
e interesse. Afinal, na condição de espectador de um filme
de ficção, estou no papel de quem aceita o jogo do faz-de-conta,
de quem sabe estar diante de representações e, portanto,
não vê cabimento em discutir questões de legitimidade
ou autenticidade no nível da testemunha de tribunal. Aceito e
até acho benvindo o artifício do diretor que muda o significado
de um gesto - o essencial é a imagem ser convincente dentro dos
propósitos do filme que procura instaurar um mundo imaginário
(19)."
Ferro afirma que,
para o olhar do historiador, o imaginário é tanto história,
quanto História (20). O filme e outros tipos de produção
de imagens são alimentados e alimentam esse mesmo imaginário
que queremos captar, traduzir. É sabido que a leitura da imagem
não é imediata, pois provém de todo um universo
mediado pelo olhar produtor e receptor das imagens.Segundo Lynn Hunt,
os historiadores da quarta geração da Escola dos Annales,
como Roger Chartier e Jacques Revel, rejeitaram a caracterização
de mentalités como parte do chamado terceiro nível de
experiência histórica. Para eles, este não é
de modo algum um nível, mas um determinante básico da
realidade histórica. Como afirmou Chartier, "a relação
assim estabelecida não é de dependência das estruturas
mentais quanto a suas determinações materiais. As próprias
representações do mundo social são os componentes
da realidade social." Logo, as relações econômicas
e sociais não são anteriores às culturais, nem
as determinam; elas próprias são campos de prática
cultural e produção cultural - o que não pode ser
dedutivamente explicado por referência a uma dimensão extracultural
da experiência (21).
Nesse sentido, Chartier
enfatizou que os historiadores não deveriam substituir uma teoria
redutiva da cultura enquanto reflexo da realidade social por um pressuposto
igualmente redutivo de que os rituais e outras formas de ação
simbólica simplesmente expressam um significado central, coerente
e comunal (22). Cabe, então, aos historiadores perceberem que
o filme pensa a realidade, muitas vezes sem ser um reflexo exato dela,
mesmo sendo um documentário.
Ao nos determos
sobre a especificidade do filme documentário, Bill Nichols é
referência significativa para o estudioso do audiovisual e, particularmente,
para o historiador. Nichols apresenta o documentário como o mais
bem elaborado discurso da sobriedade: "Documentary
film has a kinship with those other nonfictional systems that together
make up what we may call the discourses of sobriety. Science, economics,
politics, foreign policy, education, religion, welfare - these systems
assume they have instrumental power; they can and should alter the world
itself, they can effect action and entail consequences. Their discourse
has an air of sobriety since it is seldom receptive to "make-believe"
characters, events, or entire worlds (unless they serve as pragmatically
useful simulations of the 'real' one). Discourses of sobriety are sobering
because they regard their relation to the real as direct, immediate,
transparent. Through the power exerts itself. Through them, things are
made to happen. They are the vehicles of domination and conscience,
power and knowledge, desire and will. Documentary, despite is kinship,
has never been accepted as a full equal (23)."
Nichols afirma que,
essencialmente, o documentário aparece como um pálido
reflexo do discurso instrumental dominante na nossa sociedade. Os filmes
de ficção "refletem" nossa cultura, e essa imagem
"espelhada" é fundamental, determinando a própria
definição do que é o cinema. O documentário
também pode vir a fazer isso, mas freqüentemente "distorce"
o reflexo.
No documentário,
a narrativa assume importância extrema: mais do que um mecanismo
para contar uma história, como ocorre nos filmes de ficção,
trata-se de um meio que convence em torno do não-imaginário,
do que emana da vida real. E, muitas vezes, a estrutura narrativa é
a organização básica do documentário(24).
A ideologia está presente na narrativa oferecendo representações
em forma de imagens, conceitos, mapas cognitivos, visões de mundo
como propostas de estruturas principais e pontuações da
nossa experiência. Tanto as ideologias quanto as imagens são
inescapáveis (25).
O documentário,
como outros discursos sobre o real, guarda um resquício de responsabilidade
para descrever e interpretar o mundo da experiência coletiva,
uma responsabilidade que não é um pequeno problema dentro
da totalidade. Estes discursos sobre leis, família, educação,
economia, política, estado e nação são construções
atuais da realidade social (26). Para fazer esta formulação,
Nichols cita Dziga Vertov, que escreveu ser o filme um processo ativo
de construção social, incluindo a construção
de pontos-de-vistas de uma conciência materialista-histórica.
Também evoca Benjamim, para concordar que a imagem está
a serviço da ideologia dominante como espetáculo e distração
guardando no tempo e no espaço o potencial explosivo das massas
dentro da ordem e do desejado. John Berger, com Modos de Ver, também
nutre tais reflexões: não estamos diante de uma mera documentação,
mas sim de um processo ativo de fabricação, não
de objetos físicos, mas sim de valores e significados, conceitos
e orientações para o ambiente que nos cerca (27).
A História
entra aqui como o assunto básico do documentário, sendo
o controle seu elemento-chave. Mas como a história não
está sob controle total do documentarista, este solicita a companhia
de outros profissionais para auxiliá-lo: cientistas sociais,
físicos, políticos, empresários, engenheiros e,
até mesmo, revolucionários (28).
Uma motivação primária é o realismo: o objeto
está presente no texto por causa de sua função
no mundo histórico(29). E, por fim, a noção de
"lição histórica" como um aspecto central
do documentário e como uma manifestação de sua
filiação ao discurso da sobriedade, muda nossas expectativas
quanto à subjetividade e à objetividade (30).
Nessa direção,
A. Grimshaw afirma que Vertov experimentou com uma câmera móvil
num mundo em movimento, explorando as mudanças de relacionamentos
entre subjetividade e objetividade, porque o olho da câmera via
a si mesmo enquanto, simultaneamente, observava o mundo, olhando tanto
de dentro quanto de fora (31).
Acreditamos ser
este o realizador cuja obra é a referência mais emblemática
do trabalho instigante que o historiador pode fazer com imagens, pois
nos mostra claramente que através da prática audiovisual
a percepção humana encontrou a própria intimidade
da elaboração como um espaço de aparência
que, por si só, também é análise: "Diante do
aparato construtor de imagens, minha interação é
de outra ordem: envolve um olho que não vejo e não me
vê, que é olho porque substitui o meu, porque me conduz
de bom grado ao seu lugar para eu enxergar mais... ou talvez menos.
Dado inalienável de minha experiência, o olhar fabricado
é constante oferta de pontos de vista. Enxergar efetivamente
mais, sem recusá-lo, implica discutir os termos deste olhar.
Observar com ele o mundo mas colocá-lo também em foco,
recusando a condição de total identificação
com o aparato. Enxergar mais é estar atento ao visível
e também ao que, fora do campo, torna visível (32)."
Talvez também
aí resida a perfectibilidade do cinema como documento histórico,
da qual Benjamim nos fala como sendo seu atributo decisivo como obra
de arte.
"O filme acabado não é produzido de um só
jato, e sim montado a partir de inúmeras imagens isoladas e de
seqüências de imagens entre as quais o montador exerce seu
direito de escolha - imagens, aliás, que poderiam, desde o início
da filmagem, ter sido corrigidas sem qualquer restrição.
(...) O filme é, pois, a mais perfectível das obras de
arte (33)."
Se nos filmes de
ficção, Benjamim já assinalava a importância
do intérprete cinematográfico, que tinha a especificidade
de não representar diante de um público, mas de um aparelho,
no caso do documentário o papel do "sujeito filmado"
é muito mais complexo. A perfectibilidade do filme dialoga com
a imperfectibilidade dos "intérpretes", personagens
reais do mundo existente. É certo que a população
aliena-se diariamente no trabalho, diante de máquinas. Mas com
a câmera nas mãos do historiador (ou do antropólogo,
do sociólogo etc...) as massas ganham rostos, histórias,
emoções, afirmam sua humanidade diante de uma máquina.
Uma humanidade ausente do dia-a-dia das relações mais
íntimas, tal qual os camponeses sicilianos retratados por Giuseppe
Tornatore, no filme O Homem das Estrelas... Será que mais do
que o rótulo por vezes pejorativo de "fábrica de
ilusões" o aparelho da reprodutibilidade técnica
por excelência pode estar à serviço da história
da própria humanidade por suas próprias palavras, de seus
sentimentos por suas próprias expressões? "Com a representação
do homem pelo aparelho, a auto-alienação humana encontrou
uma aplicação altamente criadora (34)".
Ao escrever sobre
a fotografia, Barthes privilegiou entender as imagens a partir do ponto
de vista de quem as observam, independente de serem estes os produtores
das imagens. As análises advindas daí estão impregnadas
de subjetividade. A valorização da subjetividade da interpretação
diante da "objetividade" dada pela materialidade do documento
é crucial para uma reflexão a ser exercida (35).
Pensando honestamente,
os historiadores contemporâneos, antropólogos, sociólogos,
enfim, humanistas que trabalhem com o recurso audiovisual, se vêem
mais que obrigados a sair dos muros da academia para dentro da sociedade:
o que conta não é apenas suas vontades de "estarem
lá"; hoje, os sujeitos (ex-"objetos") de pesquisa
fazem sua exigência de serem filmados. Muitos discutiram e tentaram
avaliar a indução operada pelo estudioso sobre seus "informantes".
Mas, atualmente, o pesquisador depara-se com "colaboradores",
que também exercem pressão, conscientemente, sobre os
fatos documentados sobre si próprios:
"Cada pessoa, hoje em dia, pode reivindicar o direito de ser filmada
(36)."
O que Benjamim dizia
na década de 30, a partir da apreciação dos filmes
russos
(37), chega no final do século como ordem-do-dia para
os que pretendem trabalhar em torno do conhecimento da realidade social,
dos caminhos e descaminhos da humanidade, da democratização
da arte, do saber e da comunicação. Por trás da
reivindicação do direito de ser filmado está a
aspiração por novas condições sociais, muitas
vezes assumindo o tom de denúncia como primeiro passo. Benjamim,
radicalizando em sintonia com seu tempo histórico e seu referencial
marxista, exigia a expropriação do capital cinematográfico
como ação prioritária do proletariado. O cinema
corresponderia à arte reveladora dos perigos existenciais mais
intensos aos quais o homem contemporâneo está sujeito,
porque promoveria a transformação da percepção,
que deve ser observada historicamente por todos que combatem a ordem
social vigente e, especialmente, pelos profissionais da História.
Sem dúvida,
os historiadores devem-se valer das possibilidades de abordagem audiovisual
trazidas pela prática antropológica:
"cinema de observação ou cinema de participação;
presença afirmada do realizador-antropólogo ou bem um
ensaio de objetivação da observação; intervenção
sobre o desenrolar dos eventos ou registro à distância;
descrição simultânea dos discursos ou desenvolvimento
pedagógico posterior com a ajuda de comentários, legendas
ou mesmo cartões explicativos; constituição de
equipes de filmagem compreendendo ou não profissionais da imagem
além dos profissionais da antropologia; constituição
ou reconstituição da realidade observada ou bem um e outro
(38)."
A busca é
pela visualização dos condicionamentos técnicos,
éticos e históricos que determinam uma produção
documental, entendendo seus limites, expondo suas intenções
e, ao mesmo tempo, explorando toda a liberdade que a percepção
audiovisual nos oferece. Neste campo, qualquer passo é significativo: "os usos diferenciados
de sons em relação à imagem; a natureza da intervenção
dos comentários; as interpretações induzidas pelo
ângulo escolhido, a duração dos planos, o rigor
dos movimentos dos operadores em relação ao movimento
observado; a escuta direta da expressão autóctone ou o
fato de lhe instigar através da entrevista; a mudança
do ponto de vista, simultâneo e diferenciado (interpretação
fora da situação na montagem), do realizador-antropólogo;
enfim, o debate eventual entre o cineasta e seu antropólogo,
quando a equipe é assim constituída (39)."
Acima de tudo, o
documentarista não deve esquecer que é através
da distração oferecida pela arte que a percepção
dos indivíduos mobiliza-se ou não, apropria-se ou não
das representações culturais inscritas nas questões
históricas propostas pelo documentário. Se transpusermos
as noções de apropriação das representações
culturais propostas por Chartier para a leitura das imagens em seu sentido
histórico, talvez seja possível entender a verdadeira
complexidade desse documento diferenciado, agente transformador da expressão
artística e comunicativa das representação sociais
e culturais. A noção de apropriação, compreendida
em termos mais sociológicos do que fenomenológicos, tornaria
viável avaliar as diferenças na partilha cultural, na
invenção criativa que se encontra no âmago do processo
de recepção (40). Para tanto, necessitamos de um exame
da relação muito estreita entre três pólos:
o próprio conteúdo (o audiovisual), o objeto que comunica
o conteúdo (sua forma) e o ato que o apreende (a ação
e a reação do espectador) (41).
Mais do que examinar estes pólos, tentar equacioná-los
numa produção documental de imagens que envolva historiadores
e realizadores de outras áreas, pode ser uma pista de como o
olhar da imagem - audiovisual, cinematográfica, fotográfica,
virtual... - é história e faz história...
(1) Benjamim, W.
"A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica"
(1935/1936), Walter Benjamim - Obras Escolhidas: Magia e Técnica,
Arte e Política. S. P., Brasiliense, 1985 (pp. 165-196), p 169.
P. Francastel também escreveu sobre como a representação
de um determinado espaço plástico está associada
às formas de percepção, de sensibilidade estética,
de determinados contextos históricos. Estudou como as técnicas
se desenvolvem dentro dessa idéia e de como isso ocorre demorada
e desordenadamente, num movimento mais abrangente do que os marcos biográficos
ou no máximo de movimentos culturais consagrados pela historiografia.
P. Francastel, Pintura e Sociedade. São Paulo, Martins Fontes,
1990.
(2) Xavier, I. "Cinema: Revelação e Engano".
O Olhar. (A. Novaes, org.) São Paulo, Cia. das Letras, 1988,
p. 367.
(3) Piault, Marc-Henri. "Antropologia e Cinema" (mimeo, pp.
62-69), p. 62.
(4) Marc Ferro. "O Filme. Uma contra-análise da sociedade?",
Le Goff, J & Nora, P. (orgs.) História: novos objetos, Rio
de Janeiro, Francisco Alves, 1988, p. 203.
(5) Ibid.
(6) Benjamim, W., op. cit., p. 171-72.
(7) Ferro, M., op. cit., p. 203.
(8) Ferro, M. Cinema e História. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1992, p. 13
(9) Chartier, R. A história cultural. p. 19
(10) MacDougall, D. "Mas, afinal, existe realmente uma antropologia
visual?" (mimeo, pp. 71-6), p. 73.
(11) A respeito da produção fílmica de J. Rouch,
Anna Grimshaw escreveu: "... he sought to integrate his own complex
subjectivity into his anthropological explorations of social life.";
Grimshaw, A. "The Eye in the Door. Anthropology, Film and the Exploration
of Interior Space", mimeo, p. 21.
(12) Ferro, M. Cinema e História, op. cit., p. 15.
(13) Piault, M.-H., loc. cit., pp. 62-3.
(14) Ferro, M., op. cit., p. 16
(15) Piault, M.-H., loc. cit., p. 64.
(16) Ferro, M., op. cit., p. 16.
(17) Xavier, I. loc. cit., p. 368.
(18) Ferro, M. op. cit., p. 18
(19) Xavier, I. loc. cit., p. 369.
(20) Ibid., p. 77
(21) Hunt, L. (org) A nova história cultural, p. 9
(22) Ibid., p. 18
(23) Nichols, Bill, Representing Reality. Bloomington/Indianapolis,
Indiana University Press, 1991, pp. 3-4.
(24) Ibid., p. 6.
(25) Ibid., p. 8.
(26) Ibid., p. 10.
(27) Ibid., p. 11.
(28) Ibid., p. 14.
(29) Ibid., p. 26.
(30) Ibid., p. 29.
(31) Grimshaw, A. loc. cit., p. 20.
(32) Xavier, I., loc. cit., p. 382.
(33) Benjamim, W., op. cit., p. 174.
(34) Ibid., p. 180.
(35) Barthes, R. A Câmara Clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1984.
(36) Ibid., p. 183.
(37) Ibid.: "Muitos dos atores que aparecem nos filmes russos não
são atores em nosso sentido, e sim pessoas que se auto-representam,
principalmente no processo de trabalho. Na Europa Ocidental, a exploração
capitalista do cinema impede a concretização da aspiração
legítima do homem moderno de ver-se reproduzido. De resto, ela
também é bloqueada pelo desemprego, que exclui grandes
massas do processo produtivo, no qual deveria materializar-se, em primeira
instância, essa aspiração. Nessas circunstâncias,
a indústria cinematográfica tem todo interesse em estimular
a participação das massas através de concepções
ilusórias e especulações ambivalentes. Seu êxito
maior é com as mulheres.", p. 184.
(38) Piault, M-H. loc. cit., p. 68-9.
(39) Ibid., p. 69.
(40) Chartier, R. "Textos, impressão, leituras", Hunt,
L. op. cit., pp. 232-33.
(41) Ibid., pp. 220-21.
* Andrea Paula dos Santos Produtora
e pesquisadora de documentários; é bacharel e licenciada em História,
mestre em História Social e doutoranda em História Econômica FFLCH/USP.
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