Individualismo
à italiana *
Insubmissão e
ilegalidade na formação da
cultura libertária italiana.
por
Carlo Romani **
O
texto abaixo é uma breve apresentação da
biografia do anarquista italiano Oreste Ristori que viveu durante
36 anos no Brasil. Esta biografia foi realizada como dissertação
de mestrado, intitulada "Oreste Ristori. Uma aventura anarquista",
para o Depto. de História do IFCH/UNICAMP.
A pesquisa histórica que fundamentou o trabalho utilizou-se
de uma série intercruzada de fontes: documentos escritos,
orais e visuais, reproduzidos no trabalho final. Para reconstruir
a trajetória de vida do protagonista e trazer ao leitor
uma aproximacão maior com o universo cultural vivido
pelos personagens desta história, as imagens pesquisadas
contribuíram, não somente para complementar como,
em alguns casos, até substituíram a própria
narrativa histórica. |

Feira do mercado na praça
San Domenico em San Miniato
(circa 1890)
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Feira
do mercado na praça San Domenico
em San Miniato (circa 1890) |
Numa
das sessões do Congresso Socialista realizado em 1901,
G. Berti começou os trabalhos relatando as condições
de vida dos trabalhadores rurais da província de Arezzo:
"Os pigionali são famílias dispensadas
nem sempre justamente pelos feitores e patrões; formam
cerca de 35% da população rural e representam
a parte mais pobre, mais sofredora e mais embrutecida...Trabalham
em média 150 dias ao ano e recebem um salário
que varia segundo os lugares, a benevolência e a ganância
de quem os chama...
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| ...O
mesquinho balanço destes pobres parias da terra explica
muito bem qual possa ser sua qualidade de vida e o nível
de moralidade e honestidade, que podem alcançar, especialmente
se temos em conta que eles pagam 40 e até 50 liras ao
ano pela cessão da casa quase sempre precária
ou insuficiente para defendê-los dos rigores do inverno
e que são obrigados a encontrar nos furtos campestres
o complemento daquilo que é estritamente necessário
à sua sobrevivência." |

Imagem
atual de uma das casas de trabalhadores agrícolas remanescentes
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| A
opinião socialista sobre a moralidade daqueles "párias"
não diferia muito daquela feita pelos anárquicos
italianos mais conceituados. O furto era, dentro de uma vasta
parcela do pensamento anarquista, como no humanismo libertário
de Malatesta, uma distorção. Por demais éticos
para aceitar o roubo, Malatesta e seguidores o viam como uma
contradição inerente ao próprio sistema
capitalista. Para eles, há roubos porque há distorções
no capitalismo e estes atos são uma das evidências
da necessidade de superação do sistema. Já
para boa parte dos anarquistas comuns, dos militantes das vilas,
das cidades, daqueles que "praticavam" quotidianamente
o anarquismo, o furto era uma forma legítima de expropriação
do capital burguês obtido através da mais valia.
Para estes, que mesmo sem o serem aproximavam-se das idéias
dos anárquicos individualistas, a expropriação
era praticada num sentido coletivo de auxílio e fortalecimento
da causa operária, visando a organização
de reuniões, de viagens de propaganda e intercâmbio
e, principalmente, financiando uma vasta parcela de opúsculos
e impressos anarquistas clandestinos. |
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Na
Itália da Segunda metade do século XIX, mesmo
nos períodos de maior liberdade de expressão,
as idéias socialistas revolucionárias e as anárquicas,
contrárias à monarquia e à ordem burguesa
constituída, sempre circularam clandestinamente não
tendo um espaço oficialmente permitido de veiculação,
junto aos trabalhadores. Nesse ambiente repressivo os desempregados,
os trabalhadores braçais sem emprego fixo, passaram
a se reunir nos bares e na osteria como extensão da
praça, lá ocupando seu tempo ocioso e vislumbrando
possibilidades de trabalho e sobrevivência. Entre um
gole e outro de vinho circulavam as notícias sobre
os últimos acontecimentos e propagavam-se novas idéias.
Para o pesquisador Monteleone, a osteria serviu como "o
refúgio confidencial da solidão, uma reserva
confortável e quase inesgotável de falantes
e ouvintes entre os quais circulavam sentimentos e idéias,
em um fecundo intercâmbio" . |
Nos últimos decênios do século passado transformaram-se,
com a conivência de seus proprietários, no único
lugar seguro para as reuniões proletárias de cunho
político.
Fruto de uma das periódicas crises econômicas existentes,
o aumento do desemprego ocorrido no início da década
de 1880 acabou trazendo outros elementos aos bares, engrossando
assim o caldo humano integrante deste ambiente da "cultura
da praça". São o estudante, o jornalista e o
artesão empobrecido, que fechou seu negócio e perdeu
seus clientes, também empobrecidos, que desceram, por necessidade,
à categoria de trabalhadores diaristas, eventuais, à
cata de um esporádico trabalho que viesse a surgir.
Freqüentadores dos cafés, um bar um pouco mais sofisticado,
um espaço mais recente de convivência, onde liam os
jornais e travavam discussões sobre a política italiana,
esta pequena burguesia decadente passa a ser um outro pilar de propaganda
do anarquismo, fazendo circular os periódicos do movimento
e trocando informações com os ativistas proletários.
Estabeleceu-se desse modo uma ponte entre os cafés e os bares,
incrementando, entre o pensamento e a ação, uma nova
forma de organização política.
O extrato mais baixo do proletariado, os braccianti, em contato
com um discurso teórico do socialismo, apropriou-se gradativamente
das premissas teóricas anarquistas rejeitando, porém,
as práticas de luta da pequena burguesia. A reação
desse novo contingente anarquista reunido no bar contra a exploração
de quem os dominava passou a ser sistemática: a realização
de furtos campestres e o incremento dos bandos armados. Explicam-se
dessa maneira as cartas ameaçadoras aos patrões, os
incêndios e os atos de sabotagem como fazendo parte de uma
ação coletiva coordenada e não mais somente
de práticas individuais movidas pela fome e desespero. É
dessa união entre as práticas isoladas adotadas pelos
braccianti, com a teoria que sustenta o discurso libertário
de ação direta, que surge um embrião socialista
não legalitário entre estas camadas despossuídas
da população.
Nesse contexto italiano da década de 1880, as tendências
anarquistas dividiam-se, a grosso modo, em individualistas e associacionistas.
Os primeiros, genericamente, rejeitavam toda e qualquer forma de
organização política como instrumento de ação.
Já os segundos entendiam como necessária a existência
de uma estrutura organizativa mínima dentro da sociedade,
sem que esta implicasse em relações de autoridade
e hierarquia.
Na história italiana a corrente individualista de maior penetração
foi a antiorganizadora. O vácuo existente nos movimentos
sociais italianos no início dos anos oitenta, que somente
veio a ser superado no final da década, "favoreceu a
difusão de um anarquismo que primeiro instintivamente e depois
em modo mais programático racionalizava esta desorganização
de fato e rejeitava qualquer forma de associação geral
e permanente".
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Em
seu trabalho sobre as concepções de direito, crime
e justiça dos anarquistas italianos, Pio Marconi entende
haver uma aproximação, ainda que inconsciente, com
o individualismo de Max Stirner. A expropriação (furto
justificado na perspectiva de uma sociedade na qual será
abolido o privilégio da propriedade privada) parece representar
na prática a aplicação das hipóteses
stirnerianas sobre a transgressão. Stirner considerava a
transgressão como um instrumento de afirmação
do Eu nos confrontos contra o Estado e a cultura dominante . Provavelmente
sem terem lido Stirner, cujos textos somente vieram a circular com
maior intensidade na Itália após a tradução
de sua obra em 1902, os camponeses diaristas italianos já
agiam transgressivamente, praticando um anarquismo que, primeiro
por necessidade e depois por convicção, aproximava-se
muito de algumas práticas teorizadas pelo individualismo.
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No
Brasil, estas práticas individualistas à italiana
chegaram em 1904, na pele daquele que foi, segundo Everardo
Dias, "o maior agitador já surgido em terras brasileiras"
:
Oreste Ristori. De fato segundo os relatórios policiais,
este libertário não era dos mais comportados. |

Fotografia de Oresti Ristori na polícia
de Ventimiglia em 06/04/1902 |
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| "Das
práticas de investigação resulta que Ristori
é um anarquista exaltado, de alma má, avesso ao
trabalho, capaz de qualquer ação delituosa. Possuía
uma brochura anarquista com métodos de fabricação
de explosivos, porém não encontrada na perseguição
que lhe foi feita... |

Oresti
Ristori, São Paulo (1911)
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Oresti Ristori, Argentina (1919) |
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Reprodução
da capa do folheto Contra a Imigração no Brasil.
São Paulo, 1906 |
...Desde 1894 era considerado das autoridades
de P.S. como anarquista, exaltado, prepotente e temível..."
Alma má, vagabundo, exaltado, violento. Oreste, filho de
uma família de camponeses sem terra e sem emprego fixo
habitantes, nascido na Toscana em 1874, não era propriamente
o tipo de homem que a polícia, a burguesia e os padres
gostariam de ter em sua paróquia.
Ristori foi um desses adolescentes, que muito cedo aprendeu a
"se virar na vida", fazendo pequenos rolos para conseguir
sobreviver. Sem instrução, sem grandes perspectivas
de vida, foi aproximando-se desses anarquistas que se constituíram
nos mercados e bares ao redor das praças. A partir dos
dezessete anos de idade foi elaborando, de modo intuitivo, um
discurso teórico que ouviu nos bares que freqüentou,
pondo-o em prática naquelas ações transgressivas
que denominamos de individualismo à italiana.
Com o passar dos anos, Ristori foi modificando suas práticas
aproximando-se do comunismo anárquico. Já no Brasil,
Oreste Ristori tornou-se o diretor responsável pela publicação
do principal periódico anárquico do país,
que funcionou em São Paulo, entre 1904 e 1913, com o nome
de La Battaglia. Moveu intensa campanha contra a imigração
ao Brasil, combatendo a exploração de colonos nas
fazendas de café.
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Fez
também ativa propaganda dentro do meio operário
paulistano, nas portas de fábrica e incentivou a implantação
de escolas libertárias para os filhos desse proletariado
em todo o estado de São Paulo.
Enfim,
passou 32 anos entre nós dando muito trabalho àqueles
que praticam a opressão como regra de vida, até
ser expulso definitivamente do país, em maio de 1936, como
elemento indesejável do governo de Getúlio Vargas.
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Fachada da Escola Moderna em São
Paulo, com o Prof. João Penteado à esquerda, em
1913
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Oresti
Ristori em seu retorno a Itália(1936)
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*
Originalmente publicado na revista Libertárias, n. 4, nov/98.
** Carlo Romani
é doutorando em História
Social na UNICAMP, e integrante do Coletivo Cinestesia,
grupo criado para a produção de documentários
didáticos e que pesquisa a utilização do vídeo
no ensino médio e fundamental.
- Aritanã Dantas e Flávio Brito realizaram a digitalização
e tratamento das imagens para a dissertação e website.
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