Cinema, Aspirinas® e Urubus
Dirigido por Marcelo
Gomes
Prêmio da
Educação Nacional
Festival de Cannes 2005 - Mostra “Um Certo Olhar”
Data de lançamento:
11 de novembro de 2005
Duração: 104 minutos
Ano de Produção: 2005
Censura: ainda em aberto.
Distribuição: Imovision
APRESENTAÇÃO
Cinema, Aspirinas
e Urubus é o primeiro longa-metragem de Marcelo Gomes. O diretor
conta que o argumento do filme surgiu de uma conversa com seu tio-avô
Ranulpho Gomes, um paraibano que, nos anos 40, depois de enfrentar secas
contínuas, decidiu migrar para o sudeste brasileiro, onde esperava
encontrar uma perspectiva de vida melhor.
Em sua jornada, Ranulpho (o personagem do filme) conhece o alemão
Johann, que também havia migrado, fugindo de seu país
antes mesmo que este fosse consumido pela Segunda Guerra. Johann viaja
pelo Brasil como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos
os males”, a Aspirina. Em uma de suas viagens pelo sertão
nordestino, seu caminho cruza com o de Ranulpho. É deste encontro,
desta viagem, compartilhada por estes dois personagens, que nasce Cinema,
Aspirinas e Urubus, um filme que retrata o cotidiano dessa experiência,
os encontros com outros viajantes, as conversas, os perigos, as ameaças
e, finalmente, a construção de uma amizade entre pessoas
de culturas tão diferentes.
Rodado em 2003, no sertão brasileiro, o filme é uma obra
em que todos os recursos empregados estão em função
dos personagens, da fotografia aos diálogos, passando pela direção
de arte e trilha sonora. "É um filme de personagens, em
que a câmera, sempre na mão, está o tempo todo à
disposição deles", explica Gomes.
Cinema, Aspirinas e Urubus possui várias nuances, que são,
aos poucos, descobertas ao longo da narrativa. Por isso, é um
filme que trata também do processo de modernização
do Brasil, de sua participação na guerra, de sua política
exclusivista, em que populações de áreas remotas
e pobres são preteridas nos processos de modernização
econômica. "Não é um filme sobre o sertão,
sobre a seca. Estes elementos estão sempre como coadjuvantes,
aparecem sempre da janela do caminhão que Johann dirige. A perspectiva
é sempre de dentro para fora e não do sertão para
o homem", afirma Gomes.
"Tudo em Urubus é contido, simples. A fotografia traduz
o estranhamento e a cegueira que a luz do sertão provoca no alemão
Johann. O mesmo tom de simplicidade é mantido na direção
de arte, na atuação dos atores, nos planos longos. Tudo
isso imprime uma verdade ao sentimento daqueles personagens”,
explica Gomes.
Marcelo Gomes trabalha há sete anos para realizar Cinema, Aspirinas
e Urubus. Em 1997, recebeu o prêmio Huberts Bals Fund, da Holanda,
para desenvolver o roteiro. Em seguida, dos R$ 2,5 milhões orçados
para a realização do filme, 60% foram arrecadados a partir
de prêmio e patrocínios do BNDES, Petrobrás e Brasil
Telecom, através das Leis de Incentivo à Cultura do MINC,
além da Companhia de Eletrificação de Pernambuco,
através do Funcultura. O projeto também foi selecionado
pela Global Fundation Iniciative dos Estados Unidos para finalização,
além de ter recebido o prêmio de finalização
da Agência Nacional do Cinema – ANCINE.
Sinopse
Cinema, Aspirina
e Urubus é um road movie que retrata dez dias na vida de dois
homens que estão fugindo de situações políticas
e sociais antagônicas e buscando novas perspectivas.
O ano é 1942, o mundo é uma grande batalha, a Segunda
Guerra Mundial se expande. Um alemão de nome Johann dirige um
caminhão carregado de frascos de Aspirina e filmes com propagandas
do produto. Ele atravessa o inóspito e pobre sertão brasileiro,
com a tarefa de vender a mercadoria na região. Nessa viagem,
Johann conhece um país, ao mesmo tempo que escapa das notícias
da guerra.
Ranulpho, morador de uma pequena vila, faz o percurso inverso, ou seja,
está indo buscar uma vida melhor no promissor e industrializado
sudeste do país e, para isso, deixa sua pequena cidade natal,
Bonança, rumo ao Rio de Janeiro.
Numa estrada árida e erma, acontece o encontro ocasional desses
dois personagens. Interesses em comum e a promessa de cada um chegar
ao seu destino, faz com que Johann e Ranulpho partam nessa aventura
juntos.
Eles enfrentam o calor, a seca, as estradas esburacadas para alcançar
as cidades onde o alemão exibe, em um cinema móvel, filmes
publicitários da Aspirina e vende o medicamento como a grande
novidade do século: “Aspirina para as dores e Cinema para
os sonhos”.
Durante o trajeto, os personagens desfilam pela paisagem lacônica,
simples e dramática do sertão do Brasil e são colocados
à prova. Suas vidas são conflitadas com acontecimentos
exteriores. Os personagens vão se transformando a cada confronto
que a estrada estabelece e assim vai se construindo uma amizade inusitada
entre pessoas de cargas culturais completamente diferentes. Mas, quando
chegam em uma das cidades: Triunfo, eles descobrem que um acontecimento
tão distante alterou o destino dos viajantes.
Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de dois personagens, pessoas
comuns, nem heróis nem bandidos, pessoas que vão de encontro
a condições sociais e políticas impostas a eles
e decidem ser agentes dos seus destinos. A partir das ruínas
promovidas pela seca e pela guerra se tenta refletir sobre a condição
humana dos personagens.
Sinopse
Reduzida
1942. No meio do sertão nordestino, dois homens se encontram:
Johann, um alemão que fugiu da guerra, e Ranulpho, um brasileiro
que quer escapar da seca que assola a região. Viajando de povoado
em povoado, eles exibem filmes para pessoas que jamais haviam conhecido
o cinema, para vender um remédio "milagroso". Continuando
a cruzar as estradas empoeiradas de um sertão arcaico, eles buscam
novos horizontes em suas vidas. Nesta jornada, os dois aprendem a respeitar
as diferenças e surge entre eles uma amizade incomum, mas que
marcará suas vidas para sempre.
Contexto
Histórico
Cinema, Aspirinas e Urubus se passa na década de 40 e tem como
pano de fundo um período único da história. O Brasil
de então era governado por Getúlio Vargas, sob o regime
ditatorial do Estado Novo, que durou de 1937 a 1945. No mundo, a Segunda
Guerra Mundial (1939 a 1945) assolava a Europa, a Ásia e já
fazia estragos em território norte-americano. Adolf Hitler havia,
em pouco tempo, tomado posse ou colocado sob seu controle grande parte
da Europa ocidental, impondo o terror do regime nazista aos países
e povos conquistados.
Em respeito à Segunda Guerra, o Brasil se manteve neutro até
1941. Embora Getúlio tivesse certa simpatia pelos governos fascistas,
neste mesmo ano, foi assinado o acordo entre Brasil e Estados Unidos,
pelo qual o governo norte-americano se comprometia a financiar a construção
da primeira siderúrgica brasileira, em troca da permissão
para a instalação de bases militares no Nordeste. E ainda
o Governo de Vargas enviou,entre 1942 e 1945, milhares de flagelados
da seca do nordeste do Brasil para trabalhar na Amazônia. Esses
trabalhadores se embrenhavam pelos seringais para produzir borracha
usada pelos americanos na guerra.
É este acordo que muda a vida de Ranulpho e Johann. Um ano depois,
quando navios brasileiros são torpedeados por submarinos alemães,
o país declara estado de guerra à Alemanha, Itália
e Japão - países do Eixo. A partir de então, cidadãos
alemães, italianos e japoneses perdem seu direito de ir e vir
em território nacional e são duramente controlados pela
polícia de Vargas.
Nota de
Intenção
Nesse filme eu queria relatar a experiência de personagens que
decidem se aventurar, de correr riscos. Riscos esses fundamentais para
a permanência da vida. Quando meu tio-avô me contou sua
história pensei que aquele momento histórico que o mundo
passava era perfeito para esse tipo de assunto. E o que move esse filme
é o desejo de vida que corre pelos olhos dos personagens. Apesar
de todas as condições sociais e políticas adversas
que eles vivem.
Esses personagens, independentemente da seca ou da guerra, tentam buscar
um caminho para suas próprias vidas. Caminho esse de realização
para seus sonhos mais imediatos.
Queríamos desvendar personagens de uma pretensa simplicidade,
mas de uma profundidade inquietante. Decidimos fazer, então,
um filme em que a decupagem, a câmera, a fotografia e a arte estivessem
à disposição deles. Nossa preocupação
era construir uma visualidade que tivesse ressonância com a alma
dos personagens, desenhar o homem e seus sentimentos, suas aflições
e seus desejos.
Todo o processo de construção do conceito da arte e da
fotografia do filme vem a partir dos personagens. Seja uma câmera
que parece ser o anjo da guarda deles, sempre ao lado deles, ou seja,
em uma arte em que todos os objetos têm uma relação
afetiva com a história.
Decidi fazer esse filme no sertão porque é um lugar, um
espaço geográfico do qual tenho uma memória afetiva
que me remete a momentos de emoção profunda, o filme assim
fica ainda mais próximo de minha alma.
Antes de tudo a natureza, o sertão, seus silêncios espaciais.
O sertão de areia branca, esturricada, fazendo barulho nos pés.
O sertão de uma dureza de doer os olhos, de uma luz de fechar
as pálpebras. O sertão, espaço geográfico
da experiência vivida pelos personagens.
Marcelo Gomes - Recife, abril de 2005.
O Diretor
Seu primeiro contato com o cinema foi através do cineclube que
ele criou em Recife. Em seguida, em 1991, recebeu uma bolsa para estudar
cinema na Universidade de Bristol, Inglaterra. Esta experiência,
além de profissionalmente decisiva para Gomes, contribuiu para
sua formação cinematográfica. “Foi uma época
em que tive contato com muitos filmes que não chegam ao Brasil.
Pude conhecer a filmografia de grandes cineastas, relembra.
Após dois anos de estudos, voltou ao Brasil e fundou a produtora
Parabólica Brasil, onde realizou curtas e vídeos em parceria
com Adelina Pontual e Cláudio Assis. Seu primeiro roteiro para
o cinema, o curta Maracatu, Maracatus, foi premiado em vários
festivais, entre eles, Melhor Curta no Festival de Brasília.
Em seguida, filmou Clandestina Felicidade, também premiado como
Melhor Curta segundo a crítica do Festival de Gramado. Além
disso, Gomes dirigiu diversos documentários para a TV.
Enquanto desenvolvia o longa-metragem, Gomes colaborou para o roteiro
de Madame Satã, de Karim Ainouz, e dirigiu, também em
parceria com Ainouz, a vídeo-instalação Ah, Se
tudo fosse sempre assim, para a 26a. Bienal de São Paulo, em
2004. Atualmente, Gomes desenvolve o roteiro de Deserto Feliz, de Paulo
Caldas.
Entrevista
com Marcelo Gomes
Por que você decidiu fazer esse filme?
O que existe em um pequeno caminhão são dois homens com
destinos e desejos completamente diferentes, mas vivendo o mesmo tipo
de deslocamento e contidos naquele pequeno microcosmo, um caminhão
que parece um casulo. Johann e Ranulpho representam nosso sonho de felicidade.
Nossa vontade de buscar um caminho pra nossas vidas. E o que move esse
filme é o desejo dos personagens. O desejo de vida que corre
pelos olhos.
Como surgiu a idéia de fazer esse filme?
A idéia do filme começou a partir da história contada
por meu tio Ranulpho Gomes que vendia Aspirinas no Brasil dos anos 40.
Mas não se faz um filme porque o seu tio avô lhe conta
uma história. Você faz um filme porque você quer
falar de várias coisas. A primeira delas de identidade cultural,
de tentar compreender a alteridade, isto é, a relação
com o outro. Mas a idéia de contar essa história vem também
por outras razões, como refletir sobre a condição
humana, sobre o
estado de solidão, da busca de destinos para a vida, do conhecimento
de si mesmo.
Por que filmar no sertão?
O sertão foi eleito o cenário por se prestar bem para
fazer o contraponto com o momento do filme, que marca a chegada da industrialização,
e também por minha ligação afetiva com a região,
quis retratá-lo com o impacto registrado na minha memória
de criança – um sertão onde a luminosidade do dia
“cega” a vista e as noites são escuras como breu,
sem vestígio de energia elétrica, fazendo com que a luz
do cinema, na película, tenha este mesmo poder de “cegar”.
Quem são esses personagens Johann e Ranulpho?
Cada um fez a sua leitura da realidade que o cercavam
e tiveram respostas à sua maneira. Esse é o ponto que
mais me interessa nos personagens. De um lado, temos nosso mundo e suas
questões sociais e políticas. Do outro, estou eu como
indivíduo querendo ser feliz. Acho que eles representam, cada
um à sua maneira, o desejo de liberdade. Eu não queria
construir uma comédia de um bom selvagem e um estrangeiro dominador
de tecnologia. Eu queria problematizar essa questão e ao mesmo
tempo reduzir a problemática desses dois personagens ao mesmo
plano. O plano é a fuga. Cada um com a sua. E o que os une é
isso.
Como chegou ao título
do filme?
O título não é nada mais do que os elementos presentes
no filme. O cinema que chega pela primeira vez naquele lugar tão
ermo. A Aspirina que utiliza o cinema como máquina de propaganda.
E os urubus, animal emblemático no sertão – uma
região árida, pobre, arcaica. A junção desses
elementos retrata exatamente esse contraste. A tecnologia e a modernidade
chegando em um local com tantos problemas de condições
de vida básica como água, luz, alimentação,
trabalho.
E quanto ao final do filme?
Queria
que a despedida dos personagens tivesse a mesma tonalidade de todo o
filme. Sóbrio, sem planos abertos de grandes despedidas. O final
deveria, novamente, estar centrado nos personagens. E ainda deveria
ter uma emoção contida que partisse de fora para dentro
dos personagens. Cada um com sua vontade, seu projeto de liberdade.
Queria um final onde os personagens fossem e nós ficássemos
com saudade deles. E ainda queria que aquele trem fosse uma grande metáfora
do que estava acontecendo com os prisioneiros de guerra nos campos de
concentração. Cada país com suas mazelas.
Qual foi a principal
dificuldade que você encontrou durante a produção
de Urubus? O que você mudaria se tivesse de fazer o filme novamente?
Primeiramente encontrar o elenco. É uma fase difícil.
Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de personagem e precisávamos
de atores talentosos, carismáticos, sensíveis e que entendessem
a alma do filme, ou seja, interpretações sutis, silenciosas
e intensas. Passamos quase seis meses fazendo testes até chegar
ao grupo de atores finais. Os figurantes são gente do povo de
Patos,
Cabaceiras e Pocinhos, nos Cariris Velhos, Paraíba, uma das regiões
mais secas e de menor índice pluviométrico do sertão
nordestino e que mantém preservada a vegetação
nativa – xique-xique, mandacaru, macambira. Em seguida, outro
momento difícil é a filmagem que exige uma carga de trabalho
criativo, intelectual e físico inimaginável. Nesse momento
contei muito com o suporte de uma equipe que sabia exatamente que filme
estava fazendo e em que condições. Quanto às mudanças,
não mudaria nada. Todas as decisões foram pensadas. Era
o filme que queria fazer naquele momento da minha vida.
Como você avalia seu trabalho de diretor? Como é sua
forma de trabalhar com sua equipe, de expressar exatamente o que você
deseja deles?
Uma vez um professor do meu curso de cinema me disse que “dirigir
é a arte de se comunicar” e eu levo essa premissa muito
a sério. Eu fazia reuniões longas com meus atores, diretores
de fotografia, arte, produção e assistentes explicando
exatamente que filme eu queria fazer e também os estimulando
a desenvolver idéias a partir do projeto fílmico proposto.
Se o conceito do filme é dito, pensado e refletido tudo começa
a ficar claro, tudo começa a ser impregnado disso. Eu sempre
dizia para minha equipe que não existe nesse filme nada que seja
bom ou ruim, feio ou bonito, tudo deve ser adequado. O que não
se adequava não nos interessava. E é impressionante a
contribuição criativa de todos os departamentos ao produto
final.
Qual a importância que você dá aos fatores técnicos
e financeiros durante a realização de um filme?
Os fatores técnicos, no meu filme, eram muito simples: câmera,
poucos recursos de luz, uma infra-estrutura básica que teve que
ser levada para o sertão. Era um filme de grandes problemas logísticos,
de deslocamento em locais precários. Mas, tecnicamente falando,
usamos poucos recursos na filmagem. Já para a questão
financeira vale aquela máxima que quanto menor o orçamento
maior deve ser o processo de pré-produção e maior
ainda o processo de criação para ultrapassar os limites
financeiros. Como não podia ir à Alemanha fazer os testes,
eu recebia via VHS os testes dos atores alemães. Eu e o fotógrafo
fazíamos testes da luz do filme em câmera still 35mm para
economizar revelação e ampliação, por exemplo.
Que fase da realização de um filme você prefere
e por quê?
Todos os estágios têm suas peculiaridades. É difícil
pensar no melhor e no pior. Acho que a elaboração do roteiro
é o momento mais solitário. O momento onde não
existe nada além de você, suas idéias e um computador.
Escrever é um momento muito sofrido. Com a chegada dos atores
tudo muda, tudo ganha corpo, vida. Mas os ensaios exigem uma carga física
e criativa à beira da exaustão. Os diálogos foram
esmiuçados, aprofundados, mastigados, mas nunca fui inflexível
ou rígido. Sempre fazia mudanças, aceitava a opinião
dos atores. Às vezes optava mais pela intuição
do que por decisões de natureza narrativa. Prefiro a incerteza
criativa. A filmagem é um inferno delicioso. Filmar é
muito bom, mas sempre saíamos do dia de trabalho achando que
poderíamos ter feito melhor. É muito estranho, por mais
perfeito que foi o trabalho, a idéia que nunca mais na vida iremos
repetir aquele momento é muito frustrante. A montagem é
serena e angustiante. É o momento em que temos de nos separar
de planos ou takes que são tão queridos em nome de uma
estrutura geral. É hora de re-arrumar tudo e dispensar cenas
em nome de um sentimento maior: o filme.
Que importância o Festival de Cannes tem para você e de
que forma essa experiência vai afetar a carreira do filme e a
sua como diretor?
Além da alegria de ser convidado com o primeiro filme por um
festival tão seleto, a importância está na visibilidade
que Cannes oferece para o filme. Uma mídia espontânea começa
a ser gerada provocando a curiosidade das pessoas. Isso é de
suma importância para longas de baixo orçamento como o
nosso: a visibilidade e a possibilidade de um público maior se
interessar pelo seu filme. Fazemos filmes para serem vistos e, quanto
mais pessoas assistem, mais nos sentimos realizados. Quanto ao meu futuro
como diretor, espero que as fontes de financiamento sejam mais sensíveis
aos meus próximos projetos.
Em que condições aconteceram as filmagens de Cinema,
Aspirinas e Urubus?
Após quatro anos de trabalho conseguimos levantar dinheiro suficiente
para a filmagem através de prêmios concedidos ao roteiro
e ainda através de captação nas leis. Em seguida
começamos o casting e a preparação para as filmagens.
Fiz teste com quase 600 atores nordestinos para os diferentes papéis
e fiz ainda vários testes com atores alemães que falavam
português. A premissa que eu queria era: um ator alemão
para fazer o personagem alemão e atores nordestinos para os personagens
nordestinos. Eu queria dar uma cor local ao elenco. Foram sete semanas
de filmagens em condições muito duras. Fazia 40 graus
na sombra e as estradas em que viajávamos eram precárias.
Tínhamos que re-trabalhar cada detalhe da paisagem para construir
o sertão dos anos 40 com muita sutileza. Após as filmagens
fomos à procura de financiamento para a finalização.
Essa só foi possível graças a Fundação
Hubert Bals que novamente nos premiou com dinheiro para finalizar o
filme, além disso, ganhamos outros dois prêmios, dados
pela Global Film Iniciative dos EUA e pela Ancine, Agência Nacional
de Cinema. Os valores de pré-produção e produção
foram da ordem de R$ 1,7 milhão e 800 mil para a finalização
e comercialização. Como o longa foi rodado em 16mm tivemos
que ampliar todo o filme para 35mm. Optamos para fazer esse trabalho
em um processo de ampliação óptica. Queríamos
que o filme tivesse uma atmosfera dos anos 40 e por isso decidimos não
trabalhar com nenhum processo eletrônico na imagem.
O Elenco
A escolha do elenco é um capítulo importante de Cinema,
Aspirinas e Urubus. A história é protagonizada por João
Miguel, ator baiano que enfrentou 300 concorrentes para o papel de Ranulpho.
Johann é vivido pelo ator alemão Peter Ketnath, que se
divide entre Berlim e Salvador, cidade natal de sua mulher. O filme
conta ainda com a participação de Hermila Guedes, José
Leite, Zezita Matos, Osvaldo Mil e Fabiana Pirro.
Sobre os protagonistas, Gomes comenta: "Eram necessários
atores que transmitissem autenticidade, porque o que existe é
um pequeno caminhão e dois homens com destinos e desejos completamente
diferentes. Esses homens não são nem heróis nem
bandidos, vamos dizer que são fracassados. A partir das ruínas
promovidas pela seca e pela guerra, tenta-se refletir sobre sua condição
humana”. E completa: “Para realizar este cinema de vínculos
afetivos com os personagens, e não vínculos narrativos,
decidi trabalhar com atores que trouxessem uma cor local para o personagem
e para o filme, imprimindo uma verdade factual e documental necessária.”
Peter Ketnath (Johann)
Peter Ketnath nasceu em Munique, Alemanha, e estudou teatro no Zinner
Studio, em sua cidade natal, em 1996. Em 1997, freqüentou o HB-Studio,
em Nova York. Mesmo sendo casado com uma brasileira, antes de ser selecionado
para Cinema, Aspirinas e Urubus, Peter nunca havia trabalhado no Brasil.
Sobre a nova experiência, afirma: “Fazer este filme foi
para mim um grande passo na carreira de ator, quebrando barreiras culturais
e de idioma. Fiz novos amigos, conheci pessoas. Fico muito feliz em
ter participado de Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme de baixo orçamento,
um filme honesto. Um filme de autor, com diretor, equipe e elenco muito
talentosos. Uma pequena história com um histórico enorme.
Foi uma grande satisfação. Fiquei realmente triste quando
o trabalho acabou”.
Entre seus principais trabalhos na Alemanha, destacam-se, montagens
de Tchecov, Schiller e Goldoni. No cinema, participou de filmes como
And Nobody Wheeps For Me, de Joseph Vilsmaier e produções
para a TV France e TV Germany como Minona, de Fabrice Cazeneuve.
Entrevista com Peter Ketnath
Como o projeto
Cinema, Aspirinas e Urubus chegou até você?
A equipe do filme procurava um ator alemão que falasse português.
E me descobriram em Berlim, na Alemanha. A Sara (Silveira, produtora)
marcou uma reunião comigo e me contou a história do filme.
Eu sabia que era isso eu queria fazer. Depois entrei em contato com
Marcelo (Gomes) e a gente começou trocar idéias, em um
esquema 'sem fronteiras'. Eu fiquei feliz com o convite. Era um sonho
meu trabalhar no Brasil. E também gostei muito do argumento,
dois homens tão diferentes viajando juntos. Preparei-me logo
para viver a vida do Johann no sertão.
Como você reagiu ao papel?
Johann é um personagem complexo e fora do normal. Eu estudei
o caráter dele e quis fazê-lo. Senti a solidão dele,
a pena. Senti a liberdade dele: o deserto, um palco. E também
entendi seu lado alemão: perfeccionista, sempre querendo otimizar
as coisas, procurando a solução simples e efetiva em sua
aventura. E também seu existencialismo. A "Angst".
Johann é um personagem que
pede a imaginação do ator. Muita introspecção
e pouca ação. Um trabalho bem interessante.
Como foi a construção de Johann?
Foi dinâmica. Um processo do exterior da personagem para seu interior,
o oculto. E, depois, o inverso. Começou assim: Como era a época
dele? A vida dura? O Brasil na época? O clima do sertão?
Como era o português desse alemão? Seu andar? Ele era cansado?
Alegre? Um mau caráter? Feliz? E daí partir para perguntas
mais profundas. E encontrando as respostas, criei e encontrei sua figura.
Johann era sonhador. Isso eu sabia. Mas ele trabalhou num país
de clima seco e duro. Ele tentou se sustentar. Qual era a vida dele?
Os sonhos? Que ele procurou? Grandes aventuras? Amor? A liberdade? Ou
simplesmente o próximo dia, deixando o passado para trás,
dirigindo para o futuro. E por que tudo isso no fim do mundo? Esses
mistérios eram as chaves para todos os gestos do personagem.
Quem é Johann?
Johann tinha um olho no futuro e outro no dinheiro. Viajando, ele não
via as coisas com surpresa, com inocência. Ele era um homem de
carne e osso, certamente com um passado e com um futuro a ser descoberto.
O quanto ele se conhece e o verdadeiro propósito de sua viagem
não importam para ele. Ele está procurando algo diferente
na vida. Ele quer novas experiências, com a natureza, com as outras
pessoas, com ele mesmo. O que ele consegue no final não importa
realmente para ele.
Como foram as filmagens?
Marcelo Gomes quis ensaiar todo o filme antes de rodar o primeiro take.
Isso levou quase um mês. Era um processo dinâmico e orgânico,
que me lembrou o teatro. Todos os atores envolvidos estavam juntos para
criar este mundo. Todos quiseram fazer este filme. Quando as filmagens
começaram, o palco virou o deserto e a peça começou
a virar um filme. A partir daí, tudo deu certo e foi um prazer
fazer. A não ser o calor. Porque o sertão é uma
beleza, mas nada agradável.
Como você vê a relação de Johann e Ranulpho?
A relação deles é difícil. Eles são
difíceis. Mas um precisa do outro. Pelo menos por um certo tempo.
Depois, eles não podem mais ficar juntos. Eles são tão
diferentes. Mas se aproximam durante a viagem. E eles aprendem um com
o outro. Eles deixam de lado aquelas diferenças óbvias
sobre suas origens, educações e situação
social e passam a entender o verdadeiro significado de amizade e de
relacionamento humano. Eles se tornam iguais.
João
Miguel (Ranulpho)
Cinema, Aspirinas e Urubus marca a estréia do ator baiano João
Miguel como protagonista no cinema. Para ganhar o papel de Ranulpho,
ele passou por testes com mais de 300 outros atores. Nesta época,
João Miguel estava em cartaz com a peça O Bispo, sobre
a vida e obra do artista Arthur Bispo do Rosário, e foi observado
pelo diretor Marcelo Gomes.
Antes disso, o ator havia trabalhado por um ano e meio com o Grupo Piolim.
E durante as filmagens pôde voltar a contracenar com atores do
grupo, como os paraibanos Zezita e Nanego de Lira.
Atualmente, João Miguel continua em cartaz com O Bispo, que já
foi visto por mais de 90 mil pessoas em todo o Brasil, e desenvolve
o projeto de Pássaro, Flor e Qualquer Coisa que a Senhora Quiser,
que irá dirigir.
Entrevista com João Miguel
Quem é Ranulpho?
Ranulpho é um sobrevivente. É alguém que não
é submisso, não é vitimista e nem conformado. Ele
quer ganhar o mundo. Ele aprende a se virar, apesar de não ter
tido muitas oportunidades. Ele quer ser um cidadão. Tem de ultrapassar
os limites, a condenação do lugar a que pertence. Ao mesmo
tempo em que ele sente repulsa pelo que lhe é espelho, que rejeita
parte de seu mundo, no qual ele não quer viver, ao longo de sua
viagem, revê tudo isso e passa a enxergar o sertão e o
sertanejo de outra forma. Ele é extremamente carismático,
mas é humano. Tem seus defeitos, sua rabugice.
Como foi o processo de criação de Ranulpho? O fato
de você ser um ator nordestino contribuiu para este trabalho?
Foi um processo intenso. Ranulpho pode ser definido como uma soma
de vários sertanejos. Ele, assim como o filme, pode ser de qualquer
lugar no sertão brasileiro. Não é um estereótipo,
não é caricato. Como eu vivi na Paraíba por um
ano e meio, trabalhando com atores paraibanos do grupo Piolim, e também
viajei muito pelo nordeste, pude ter uma visão múltipla
do povo do sertão. Está tudo em Ranulpho. Compô-lo
foi dar veracidade à sua figura. E foi difícil porque
eu estava há quatro anos fazendo O Bispo, um personagem totalmente
diferente, envelhecido, que havia passado 60 anos em um hospício.
Ranulpho é diferente, é jovem, quer ganhar o mundo. Tive
um mês para incorporar sua personalidade. Neste mês ensaiei
com o elenco, repassamos o filme todo. Mas este sertanejo, o Ranulpho,
ganha força quando começamos a filmar.
Assim como você carrega a autenticidade de ser um ator nordestino
interpretando um personagem nordestino, Peter Ketnath (Johann) é
um ator alemão na pele de um alemão que se aventura pelo
Brasil. Esta diferença natural entre vocês contribuiu para
o trabalho?
Com certeza. Apesar de nossas diferenças não serem tão
imensas quanto são no filme, nós tínhamos nossas
particularidades e isso poder sentido. Mas soubemos tirar partido disso,
principalmente o Marcelo, com seu olhar particular. Pudemos todos aprender
mesmo um com o outro. Foi um processo muito gratificante. O desenho
dos dois personagens é um registro de interpretações
muito bem delineadas. A própria solidão de cada um faz
com que nada neles seja caricatural.
O que mais o marcou em Cinema, Aspirinas e Urubus?
Para mim, o filme, sem perder a trajetória humana de cada personagem,
constrói o viver de cada situação cotidiana e descobre
a urgência que cada situação destas representa.
É, em sua despretensão, um longa que tem muitas pretensões,
como a de dar muitos recados. Recados sobre a questão das diferenças,
das imposições históricas, o determinismo geográfico,
como cada homem vê sua realidade. É um filme intimista,
mas que trata de grandes questões. E é contemporâneo.
Estas questões persistem até hoje.
A equipe
Cinema, Aspirinas e Urubus tem direção
de fotografia de Mauro Pinheiro Júnior, que também faz
sua estréia em longa-metragem de ficção; direção
de arte de Marcos Pedroso (de Bicho de Sete Cabeças e Madame
Satã), montagem de Karen Harley e produção de Sara
Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr. O longa é uma
produção da REC Produtores, de Recife, e Dezenove Som
e Imagens, de São Paulo. O figurino ficou a cargo de Beto Normal
e o roteiro é assinado por Marcelo Gomes, Karim Ainuz e Paulo
Caldas.
Direção
de Arte
A direção
de arte de Cinema, Aspirinas e Urubus exalta as cores opacas, cobertas
de poeira, contendo objetos essenciais e nenhum elemento supérfluo.
Todos os objetos possuem sua função, sua história,
utilidade, dureza, secura. Contrastando com esta escassez do sertão,
os objetos industrializados trazidos pelo caminhão de Johann
têm forma, cor e brilho fortes. Para compor este universo, o diretor
de arte Marcos Pedroso realizou extensa pesquisa e se inspirou, principalmente,
em fotografias da década de 40. "Acabei deixando imagens
do cinema, às quais estamos muito mais acostumados, de fora porque
elas passam uma idéia nem sempre verdadeira. Muitas vezes, mostram
o que gostaríamos que o passado tivesse sido e não o que
realmente foi", explica. Por isso, detalhes como os tão
típicos chapéus de couro usados pelo sertanejo, ficaram
praticamente de fora da composição do longa. "Há
pouquíssimos chapéus no filme. Isso porque, durante a
pesquisa, encontrei quase nenhum nas fotos estudadas. O mesmo se aplica
às folclóricas rendas, correntinhas de ouro, procissões,
enterros com carpideiras, que poderiam dar um tom meramente alegórico
e caricato ao filme", completa.
Marcos Pedroso também destaca que constatou, surpreso, que “em
1940 tudo já havia sido inventado.” A mudança foi
mais dos materiais, o know-how estava todo ali”, observou, frisando
que o plástico ainda era desconhecido na época. Este fato
exigiu atenção redobrada para que nada fosse usado com
esse material. A produção do filme teve muito trabalho
para limpar as estradas e cidades por onde passavam os dois protagonistas.
“Tomamos vários cuidados, como a retirada de postes de
energia elétrica – em área urbana e rural –
das locações, a cobertura de calçamentos de ruas
com areia, pintamos várias casas com cores mais suaves, retiramos
todos os objetos de plástico destas casas. Até mesmo cercas
de madeira foram construídas no caminho que os personagens percorreram",
completa o produtor João Melo Vieira Júnior, da REC produtora.
Este minucioso trabalho vem somar ao cuidado que a direção
de fotografia teve com as cores de Urubus. "Eu, Marcelo e Mauro
(Pinheiro, diretor de fotografia) definimos a palheta cromática
do filme e a seguimos à risca. Tudo é delicado. Os tons,
as cores se perdem com o forte sol do sertão. Para criar esta
saturação visual, optamos por texturas naturais, nada
de tecidos sintéticos, nada de luz e cores douradas. Esta pré-concepção,
que fomos descobrindo juntos, a cada avanço do roteiro, conferiu
ao filme uma unidade cromática e, ao mesmo tempo, um tratamento
poético. Estou muito satisfeito com o trabalho", conclui
Pedroso.
Figurino
O figurinista pernambucano Beto Normal vestiu 150 figurantes
e os atores principais com tecidos totalmente naturais, como algodão,
gabardine, linho, fustão, todos tecidos naturais. A escolha não
foi mero capricho. Na década de 40 não havia tecido sintético.
Além disso, todas as cores utilizadas são sóbrias,
em consonância com o conceito de que o longa não comporta
exuberância e segue os padrões de comportamento da população
da época em questão. O rigor foi tamanho que até
mesmo as roupas feitas para uma cena em um bordel não abusam
de cores fortes nem de acessórios.
Fotografia
A fotografia de Cinema, Aspirinas e Urubus, assinada
por Mauro Pinheiro Júnior, percorre o sertão junto com
o olhar do estrangeiro e seu olhar peculiar.
Para Gomes, assim como tudo no longa-metragem, o que importava era impregnar
na fotografia o sentimento dos personagens. “A fotografia tem
que servir a dramaturgia. A luz seca e dura do sertão deveria
impregnar o personagem estrangeiro. Ele se encontra com outro que foge
do sertão por conta da seca. Então, concluímos
que as cenas diurnas deveriam ser compostas por uma luz estourada, que
parecesse sólida de tão intensa.”
Uma grande influência para Gomes foi a pintura do venezuelano
Armando Reverón, que passou um período na Europa. Quando
voltou aos trópicos, ficou influenciado pela luz brilhante da
região equatorial e pintou paisagens quase monocromáticas
entre 1925 e 1936, fase conhecida como Período Branco.“Penso
nesse alemão chegando pelo sertão e sendo impregnado por
uma luz branca, que promove um efeito monocromático na paisagem.
Uma luz que deixa tudo sem contornos, que cega, e essa cegueira ser
condição de conversão ao visível”,
explica o diretor
Já para as cenas noturnas, Gomes e Pinheiro Junior pretendiam
transmitir o conceito de uma região isolada, arcaica e quente.
“Decidimos usar os recursos de luz existentes no próprio
lugar. A luz viria de lampiões e faróis do carro. O resto
seria quase breu, escuro”, relembra o diretor. A equipe decidiu,
então, buscar uma luz inspirada no trabalho do pintor francês
Georges de La Tour (1593-1652). "A luz, de uma vela, por exemplo,
presente num quadro é o que determina o que será visto
ou não. Onde ela batesse, ficaria iluminado. Onde não
batesse, escuro. Uma luz íntima, simples e solitária.”
Gomes deixa claro que estas decisões foram tomadas por questões
dramatúrgicas. “Admiro a obra dos pintores citados acima.
Mas a decisão de buscar a luz semelhante a dos seus quadros foi
porque os personagens pediam aquela luz. Discutimos isso exaustivamente.
Queríamos fazer uma luz nem bonita nem feia, mas sim adequada
ao filme.”
Montagem
Assim como todo o processo de elaboração
de Cinema, Aspirinas e Urubus, a montagem de Karen Harley seguiu uma
linha não convencional. "Em novembro de 2003, última
semana de filmagem do longa, chego em Cabaceiras, sertão da Paraíba,
para assistir ao material filmado. 'Vê se monta', ironizou, brincando,
o diretor. Então, concentrada num quarto de hotel, a 40º
C, vi que o material tinha personalidade. Não se rendia a decupagens
fáceis, não existia ali a noção de master,
plano, contraplano. Não havia câmera virtuosa", relembra
Karen. Para ela, montar Urubus foi um desafio. "Dois meses depois,
eu começava a cortar. O material precisava ser demolido para
depois se reconstruir. A paisagem seca, estourada e forte não
poderia engolir ou sobrepor ao que mais interessava: os personagens",
comenta. Pensando nisso, Karen e Marcelo Gomes começaram a reeestruturar
a narrativa e enxugá-la a quase nada, ao simples, ao cinema do
cotidiano. "Os planos, que se impunham de tal forma como se não
prescindissem de mais nenhum, tinham que se articular com outros. E
fomos cortando, tirando seqüências, aumentando silêncios
até que percebemos que aquela matéria bruta estava lapidada
para continuar bruta", conclui.
A Produção
Cinema, Aspirinas e Urubus é uma produção
de Sara Silveira e Maria Ionescu, da Dezenove Som e Imagens, de São
Paulo, e de João Viera Jr, da Rec Produtores Associados, do Recife.
“Foram quatro anos para conseguirmos integralizar
o financiamento” – explica Maria Ionescu. “Tivemos
dificuldades de conseguir os aportes para o filme, dada a sua peculiaridade
mas, felizmente, tivemos empresas como BR Distribuidora - Petrobras,
BNDES, Brasil Telecom e o Governo de Pernambuco, que acreditaram no
projeto”.
“Em junho de 2003”, conta João Vieira
Jr, “a exatos três meses do início da filmagem, nós,
os produtores, o diretor e os diretores de departamentos, nos embrenhamos
nas estradas do sertão da Paraíba e de Pernambuco. Visitamos
todas as opções de locações e chegamos a
descobrir, de forma quase acidental, a vila de Picote, onde os personagens
criados por Marcelo Gomes, munidos de duas varas e um lençol
branco, fazem a primeira exibição dos filmes, uma inesquecível
sessão de cinema a céu aberto. Para o nosso deslumbramento,
tal qual no roteiro, era a primeira vez que os moradores de Picote iam
ao cinema”, finaliza Vieira.
Filme na lata, deu-se o início da finalização
e pós-produção da película, realizada em
São Paulo.
Com a finalização ainda em andamento,
foi iniciado o processo decisivo da distribuição. O filme
participou do Cine Construcción, onde deu seu primeiro passo
internacional, ao ser apreciado, ainda em um corte não definitivo,
por produtores, distribuidores e diretores de festivais internacionais.
O passo seguinte foi a inscrição no Festival de Cannes,
que resultou na Seleção Oficial da seção
Un Certain Regard. “A parte internacional, para mim, é
um processo decisivo”, explica Sara Silveira. “Uma vez dentro
de um grande festival, mais fácil a sua distribuição.
Já fazendo parte do trabalho da Dezenove Som e Imagens, o internacional
foi lutado e desta vez conseguido com sucesso”. Nesse caminho,
a produção fechou seu acordo com o International Sales,
que é a Funny Balloons, sediada na França.
“Nos últimos dezoito meses, filmamos, finalizamos
e nos preparamos agora para o lançamento do filme que teve sua
estréia na seleção Un Certain Regard, do Festival
de Cannes 2005. Ações e desejos da direção
e produção desse filme são fruto do companheirismo
e amizade que estabelecemos e nos nortearam desde o início dos
nossos trabalhos”, conclui João Vieira Jr.
Festival de Cannes 2005 – Mostra “Um Certo Olhar”
Nota de Informação - Prêmio da Educação
Nacional, 3ª edição.
O prêmio 2005 acaba de ser concedido a “Cinema,
Aspirinas e Urubus”, primeiro longa-metragem de ficção
do jovem realizador brasileiro Marcelo Gomes, premiado numerosas vezes
por seus curtas-metragens e seus documentários. O júri
dessa forma distinguiu um cinema raro, incisivo e vigoroso, a meio caminho
entre documentário e ficção, uma obra de arte incontestável,
um filme possuidor de numerosas trilhas pedagógicas e artísticas.
O Ministério da Educação Nacional,
do Ensino Superior e da Pesquisa, em parceria com o Festival de Cannes,
organiza todo ano o Prêmio da Educação Nacional.
É um momento importante da política de
educação pela imagem, que permite sensibilizar os alunos
sobre uma obra cinematográfica no momento exato de seu lançamento
nos cinemas.
Em 2003, o Prêmio da Educação Nacional
contemplou “Elefante” de Gus Van Sant. No dia seguinte,
o filme recebeu a Palma de Ouro.
Em 2004, o Prêmio foi atribuído a “A
Vida é um Milagre”, de Emir Kusturica. Neste ano, o diretor
foi presidente do júri do Festival.
Concedido por um júri de 9 membros da comunidade
profissional e educativa, o Prêmio da Educação Nacional
foi presidido este ano pelo produtor Pierre Chevalier.
Ele premia um filme selecionado para a Competição
Oficial na seleção “Um Certo Olhar”.
O filme premiado se distingue por suas qualidades artísticas
e cinematográficas, sua dimensão cultural e social. Ele
se torna uma das referências pedagógicas em matéria
de educação no cinema e pode ser selecionado para os mecanismos
“Escola e Cinema”, “Colégio no Cinema, “Estudantes
no Cinema”, em parceria com o Centro Nacional de Cinematografia;
esses mecanismos permitem que sejam levados ao cinema um milhão
de estudantes por ano.
Será objeto de um DVD pedagógico, integrante
da coleção “A propósito de”, produzida
pelo CRPD de Nice, que acompanha os professores em seu trabalho em classe
sobre o filme.
Discurso de entrega do Prêmio da Educação
Nacional – Cannes 2005.
“O filme que nós escolhemos, CINEMA, ASPIRINAS
E URUBUS, de Marcelo Gomes, é, sobretudo uma ótima recomendação
para um road movie no Brasil de 1942. Nós seguimos o percurso
de um alemão fugindo da guerra e de um brasileiro, através
do sertão. Eles vão de vilarejo a vilarejo vendendo aspirinas
e projetando pequenos filmes publicitários que divulgam seus
benefícios.
O que nos tocou e particularmente nos interessou é
o tratamento cinematográfico dessa experiência humana carregada
de esperança, um tratamento que oscila entre uma abordagem quase
documental e um olhar muito poético.
A amizade entre esses dois personagens se constrói
no espaço imenso e branco pelo sol do sertão, bem como
no espaço bem reduzido da cabine do caminhão. Os universos
sonoros criados reforçam a emoção sentida. Nós
fomos seduzidos pelos dois personagens, tanto pela interpretação
dos dois atores, como pela composição e a evolução
dos personagens que eles interpretam, a ambigüidade da relação
com os outros e a recusa dos clichês.
No que diz respeito à dimensão pedagógica
do filme, que evidentemente é indissociável de suas qualidades
artísticas é justamente a trajetória de iniciação
realizada pelos dois personagens que nos levou a pensar que esse filme
poderia ajudar os alunos a amadurecer, ao levá-los a se questionar
sobre seus próprios caminhos. O distanciamento temporal (a ação
se passa em 1942) e espacial (o sertão brasileiro) deverão
favorecer uma reflexão sobre a História, individual ou
coletiva, e sobre as condições de vida e a relação
entre os países ricos do Norte e os países do Sul.
Nos pareceu que esse filme, mesmo se estiver diretamente
acessível aos alunos, poderá, principalmente graças
às ferramentas pedagógicas que serão elaboradas
na coleção “À propósito de...”,
ser objeto de numerosos trabalhos disciplinares ou interdisciplinares,
sobre Cinema é claro, mas também Literatura, História,
Geografia, em Ciências Econômicas, Filosofia e certamente
tudo o que concerne à aprendizagem da Cidadania e, de uma forma
geral, tudo o que diz respeito à construção do
sentido, o qual todos sabemos que constitui um elemento essencial na
educação de nossos alunos.
É um primeiro filme, que pertence a uma cinematografia
pouco difundida, e nós tivemos também a idéia de
propor aos alunos um filme que talvez eles não vissem por conta
própria.
É também um filme sobre a magia do cinema
que se insere na tradição cinematográfica do road
movie e se inspira no neo-realismo.
Enfim, esse filme possui uma característica essencial
do cinema, que é a capacidade de mudar nosso olhar sobre o mundo.
Obrigado.”
FICHA TÉCNICA
Produção
Sara Silveira
Maria Ionescu
João Vieira Jr.
Produção Executiva
João Vieira Jr.
Roteiro
Marcelo Gomes
Paulo Caldas
Karim Aïnouz
Inspirado em Relato de Viagem de
Ranulpho Gomes
Direção
Marcelo Gomes
Fotografia
Mauro Pinheiro JR, ABC
Arte
Marcos Pedroso
Montagem
Karen Harley
Som Direto
Márcio Câmara
Figurino
Beto Normal
Edição de Som
Beto Ferraz
Mixagem
Armando Torres Jr.
Música Original
Tomás Alves de Souza
Co-Produção
Quanta
Produtor Associado
Karim Aïnouz
Direção de Produção
Dedete Parente Costa
Contato:
BRAZUCAH PRODUCOES
Cynthia Alario - Diretora Executiva
brazucahproducoes@yahoo.com.br
R. Felipe de Gusmão, 74 – Vila Madalena
São Paulo - SP
(55 11) 3875- 6345
www.urubus.com.br