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Cinema, Aspirinas® e Urubus

Dirigido por Marcelo Gomes

Prêmio da Educação Nacional
Festival de Cannes 2005 - Mostra “Um Certo Olhar”

Data de lançamento: 11 de novembro de 2005

Duração: 104 minutos

Ano de Produção: 2005

Censura: ainda em aberto.

Distribuição: Imovision

APRESENTAÇÃO

Cinema, Aspirinas e Urubus é o primeiro longa-metragem de Marcelo Gomes. O diretor conta que o argumento do filme surgiu de uma conversa com seu tio-avô Ranulpho Gomes, um paraibano que, nos anos 40, depois de enfrentar secas contínuas, decidiu migrar para o sudeste brasileiro, onde esperava encontrar uma perspectiva de vida melhor.

Em sua jornada, Ranulpho (o personagem do filme) conhece o alemão Johann, que também havia migrado, fugindo de seu país antes mesmo que este fosse consumido pela Segunda Guerra. Johann viaja pelo Brasil como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos os males”, a Aspirina. Em uma de suas viagens pelo sertão nordestino, seu caminho cruza com o de Ranulpho. É deste encontro, desta viagem, compartilhada por estes dois personagens, que nasce Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme que retrata o cotidiano dessa experiência, os encontros com outros viajantes, as conversas, os perigos, as ameaças e, finalmente, a construção de uma amizade entre pessoas de culturas tão diferentes.

Rodado em 2003, no sertão brasileiro, o filme é uma obra em que todos os recursos empregados estão em função dos personagens, da fotografia aos diálogos, passando pela direção de arte e trilha sonora. "É um filme de personagens, em que a câmera, sempre na mão, está o tempo todo à disposição deles", explica Gomes.

Cinema, Aspirinas e Urubus possui várias nuances, que são, aos poucos, descobertas ao longo da narrativa. Por isso, é um filme que trata também do processo de modernização do Brasil, de sua participação na guerra, de sua política exclusivista, em que populações de áreas remotas e pobres são preteridas nos processos de modernização econômica. "Não é um filme sobre o sertão, sobre a seca. Estes elementos estão sempre como coadjuvantes, aparecem sempre da janela do caminhão que Johann dirige. A perspectiva é sempre de dentro para fora e não do sertão para o homem", afirma Gomes.

"Tudo em Urubus é contido, simples. A fotografia traduz o estranhamento e a cegueira que a luz do sertão provoca no alemão Johann. O mesmo tom de simplicidade é mantido na direção de arte, na atuação dos atores, nos planos longos. Tudo isso imprime uma verdade ao sentimento daqueles personagens”, explica Gomes.
Marcelo Gomes trabalha há sete anos para realizar Cinema, Aspirinas e Urubus. Em 1997, recebeu o prêmio Huberts Bals Fund, da Holanda, para desenvolver o roteiro. Em seguida, dos R$ 2,5 milhões orçados para a realização do filme, 60% foram arrecadados a partir de prêmio e patrocínios do BNDES, Petrobrás e Brasil Telecom, através das Leis de Incentivo à Cultura do MINC, além da Companhia de Eletrificação de Pernambuco, através do Funcultura. O projeto também foi selecionado pela Global Fundation Iniciative dos Estados Unidos para finalização, além de ter recebido o prêmio de finalização da Agência Nacional do Cinema – ANCINE.

Sinopse

Cinema, Aspirina e Urubus é um road movie que retrata dez dias na vida de dois homens que estão fugindo de situações políticas e sociais antagônicas e buscando novas perspectivas.
O ano é 1942, o mundo é uma grande batalha, a Segunda Guerra Mundial se expande. Um alemão de nome Johann dirige um caminhão carregado de frascos de Aspirina e filmes com propagandas do produto. Ele atravessa o inóspito e pobre sertão brasileiro, com a tarefa de vender a mercadoria na região. Nessa viagem, Johann conhece um país, ao mesmo tempo que escapa das notícias da guerra.

Ranulpho, morador de uma pequena vila, faz o percurso inverso, ou seja, está indo buscar uma vida melhor no promissor e industrializado sudeste do país e, para isso, deixa sua pequena cidade natal, Bonança, rumo ao Rio de Janeiro.

Numa estrada árida e erma, acontece o encontro ocasional desses dois personagens. Interesses em comum e a promessa de cada um chegar ao seu destino, faz com que Johann e Ranulpho partam nessa aventura juntos.

Eles enfrentam o calor, a seca, as estradas esburacadas para alcançar as cidades onde o alemão exibe, em um cinema móvel, filmes publicitários da Aspirina e vende o medicamento como a grande novidade do século: “Aspirina para as dores e Cinema para os sonhos”.

Durante o trajeto, os personagens desfilam pela paisagem lacônica, simples e dramática do sertão do Brasil e são colocados à prova. Suas vidas são conflitadas com acontecimentos exteriores. Os personagens vão se transformando a cada confronto que a estrada estabelece e assim vai se construindo uma amizade inusitada entre pessoas de cargas culturais completamente diferentes. Mas, quando chegam em uma das cidades: Triunfo, eles descobrem que um acontecimento tão distante alterou o destino dos viajantes.

Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de dois personagens, pessoas comuns, nem heróis nem bandidos, pessoas que vão de encontro a condições sociais e políticas impostas a eles e decidem ser agentes dos seus destinos. A partir das ruínas promovidas pela seca e pela guerra se tenta refletir sobre a condição humana dos personagens.

Sinopse Reduzida
1942. No meio do sertão nordestino, dois homens se encontram: Johann, um alemão que fugiu da guerra, e Ranulpho, um brasileiro que quer escapar da seca que assola a região. Viajando de povoado em povoado, eles exibem filmes para pessoas que jamais haviam conhecido o cinema, para vender um remédio "milagroso". Continuando a cruzar as estradas empoeiradas de um sertão arcaico, eles buscam novos horizontes em suas vidas. Nesta jornada, os dois aprendem a respeitar as diferenças e surge entre eles uma amizade incomum, mas que marcará suas vidas para sempre.

Contexto Histórico

Cinema, Aspirinas e Urubus se passa na década de 40 e tem como pano de fundo um período único da história. O Brasil de então era governado por Getúlio Vargas, sob o regime ditatorial do Estado Novo, que durou de 1937 a 1945. No mundo, a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) assolava a Europa, a Ásia e já fazia estragos em território norte-americano. Adolf Hitler havia, em pouco tempo, tomado posse ou colocado sob seu controle grande parte da Europa ocidental, impondo o terror do regime nazista aos países e povos conquistados.

Em respeito à Segunda Guerra, o Brasil se manteve neutro até 1941. Embora Getúlio tivesse certa simpatia pelos governos fascistas, neste mesmo ano, foi assinado o acordo entre Brasil e Estados Unidos, pelo qual o governo norte-americano se comprometia a financiar a construção da primeira siderúrgica brasileira, em troca da permissão para a instalação de bases militares no Nordeste. E ainda o Governo de Vargas enviou,entre 1942 e 1945, milhares de flagelados da seca do nordeste do Brasil para trabalhar na Amazônia. Esses trabalhadores se embrenhavam pelos seringais para produzir borracha usada pelos americanos na guerra.

É este acordo que muda a vida de Ranulpho e Johann. Um ano depois, quando navios brasileiros são torpedeados por submarinos alemães, o país declara estado de guerra à Alemanha, Itália e Japão - países do Eixo. A partir de então, cidadãos alemães, italianos e japoneses perdem seu direito de ir e vir em território nacional e são duramente controlados pela polícia de Vargas.

Nota de Intenção

Nesse filme eu queria relatar a experiência de personagens que decidem se aventurar, de correr riscos. Riscos esses fundamentais para a permanência da vida. Quando meu tio-avô me contou sua história pensei que aquele momento histórico que o mundo passava era perfeito para esse tipo de assunto. E o que move esse filme é o desejo de vida que corre pelos olhos dos personagens. Apesar de todas as condições sociais e políticas adversas que eles vivem.

Esses personagens, independentemente da seca ou da guerra, tentam buscar um caminho para suas próprias vidas. Caminho esse de realização para seus sonhos mais imediatos.
Queríamos desvendar personagens de uma pretensa simplicidade, mas de uma profundidade inquietante. Decidimos fazer, então, um filme em que a decupagem, a câmera, a fotografia e a arte estivessem à disposição deles. Nossa preocupação era construir uma visualidade que tivesse ressonância com a alma dos personagens, desenhar o homem e seus sentimentos, suas aflições e seus desejos.
Todo o processo de construção do conceito da arte e da fotografia do filme vem a partir dos personagens. Seja uma câmera que parece ser o anjo da guarda deles, sempre ao lado deles, ou seja, em uma arte em que todos os objetos têm uma relação afetiva com a história.
Decidi fazer esse filme no sertão porque é um lugar, um espaço geográfico do qual tenho uma memória afetiva que me remete a momentos de emoção profunda, o filme assim fica ainda mais próximo de minha alma.
Antes de tudo a natureza, o sertão, seus silêncios espaciais. O sertão de areia branca, esturricada, fazendo barulho nos pés. O sertão de uma dureza de doer os olhos, de uma luz de fechar as pálpebras. O sertão, espaço geográfico da experiência vivida pelos personagens.

Marcelo Gomes - Recife, abril de 2005.

O Diretor

Seu primeiro contato com o cinema foi através do cineclube que ele criou em Recife. Em seguida, em 1991, recebeu uma bolsa para estudar cinema na Universidade de Bristol, Inglaterra. Esta experiência, além de profissionalmente decisiva para Gomes, contribuiu para sua formação cinematográfica. “Foi uma época em que tive contato com muitos filmes que não chegam ao Brasil. Pude conhecer a filmografia de grandes cineastas, relembra.
Após dois anos de estudos, voltou ao Brasil e fundou a produtora Parabólica Brasil, onde realizou curtas e vídeos em parceria com Adelina Pontual e Cláudio Assis. Seu primeiro roteiro para o cinema, o curta Maracatu, Maracatus, foi premiado em vários festivais, entre eles, Melhor Curta no Festival de Brasília. Em seguida, filmou Clandestina Felicidade, também premiado como Melhor Curta segundo a crítica do Festival de Gramado. Além disso, Gomes dirigiu diversos documentários para a TV.

Enquanto desenvolvia o longa-metragem, Gomes colaborou para o roteiro de Madame Satã, de Karim Ainouz, e dirigiu, também em parceria com Ainouz, a vídeo-instalação Ah, Se tudo fosse sempre assim, para a 26a. Bienal de São Paulo, em 2004. Atualmente, Gomes desenvolve o roteiro de Deserto Feliz, de Paulo Caldas.

Entrevista com Marcelo Gomes

Por que você decidiu fazer esse filme?
O que existe em um pequeno caminhão são dois homens com destinos e desejos completamente diferentes, mas vivendo o mesmo tipo de deslocamento e contidos naquele pequeno microcosmo, um caminhão que parece um casulo. Johann e Ranulpho representam nosso sonho de felicidade. Nossa vontade de buscar um caminho pra nossas vidas. E o que move esse filme é o desejo dos personagens. O desejo de vida que corre pelos olhos.

Como surgiu a idéia de fazer esse filme?
A idéia do filme começou a partir da história contada por meu tio Ranulpho Gomes que vendia Aspirinas no Brasil dos anos 40. Mas não se faz um filme porque o seu tio avô lhe conta uma história. Você faz um filme porque você quer falar de várias coisas. A primeira delas de identidade cultural, de tentar compreender a alteridade, isto é, a relação com o outro. Mas a idéia de contar essa história vem também por outras razões, como refletir sobre a condição humana, sobre o
estado de solidão, da busca de destinos para a vida, do conhecimento de si mesmo.

Por que filmar no sertão?

O sertão foi eleito o cenário por se prestar bem para fazer o contraponto com o momento do filme, que marca a chegada da industrialização, e também por minha ligação afetiva com a região, quis retratá-lo com o impacto registrado na minha memória de criança – um sertão onde a luminosidade do dia “cega” a vista e as noites são escuras como breu, sem vestígio de energia elétrica, fazendo com que a luz do cinema, na película, tenha este mesmo poder de “cegar”.
Quem são esses personagens Johann e Ranulpho?

Cada um fez a sua leitura da realidade que o cercavam e tiveram respostas à sua maneira. Esse é o ponto que mais me interessa nos personagens. De um lado, temos nosso mundo e suas questões sociais e políticas. Do outro, estou eu como indivíduo querendo ser feliz. Acho que eles representam, cada um à sua maneira, o desejo de liberdade. Eu não queria construir uma comédia de um bom selvagem e um estrangeiro dominador de tecnologia. Eu queria problematizar essa questão e ao mesmo tempo reduzir a problemática desses dois personagens ao mesmo plano. O plano é a fuga. Cada um com a sua. E o que os une é isso.

Como chegou ao título do filme?
O título não é nada mais do que os elementos presentes no filme. O cinema que chega pela primeira vez naquele lugar tão ermo. A Aspirina que utiliza o cinema como máquina de propaganda. E os urubus, animal emblemático no sertão – uma região árida, pobre, arcaica. A junção desses elementos retrata exatamente esse contraste. A tecnologia e a modernidade chegando em um local com tantos problemas de condições de vida básica como água, luz, alimentação, trabalho.

E quanto ao final do filme?
Queria que a despedida dos personagens tivesse a mesma tonalidade de todo o filme. Sóbrio, sem planos abertos de grandes despedidas. O final deveria, novamente, estar centrado nos personagens. E ainda deveria ter uma emoção contida que partisse de fora para dentro dos personagens. Cada um com sua vontade, seu projeto de liberdade. Queria um final onde os personagens fossem e nós ficássemos com saudade deles. E ainda queria que aquele trem fosse uma grande metáfora do que estava acontecendo com os prisioneiros de guerra nos campos de concentração. Cada país com suas mazelas.

Qual foi a principal dificuldade que você encontrou durante a produção de Urubus? O que você mudaria se tivesse de fazer o filme novamente?
Primeiramente encontrar o elenco. É uma fase difícil. Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de personagem e precisávamos de atores talentosos, carismáticos, sensíveis e que entendessem a alma do filme, ou seja, interpretações sutis, silenciosas e intensas. Passamos quase seis meses fazendo testes até chegar ao grupo de atores finais. Os figurantes são gente do povo de Patos,
Cabaceiras e Pocinhos, nos Cariris Velhos, Paraíba, uma das regiões mais secas e de menor índice pluviométrico do sertão nordestino e que mantém preservada a vegetação nativa – xique-xique, mandacaru, macambira. Em seguida, outro momento difícil é a filmagem que exige uma carga de trabalho criativo, intelectual e físico inimaginável. Nesse momento contei muito com o suporte de uma equipe que sabia exatamente que filme estava fazendo e em que condições. Quanto às mudanças, não mudaria nada. Todas as decisões foram pensadas. Era o filme que queria fazer naquele momento da minha vida.

Como você avalia seu trabalho de diretor? Como é sua forma de trabalhar com sua equipe, de expressar exatamente o que você deseja deles?
Uma vez um professor do meu curso de cinema me disse que “dirigir é a arte de se comunicar” e eu levo essa premissa muito a sério. Eu fazia reuniões longas com meus atores, diretores de fotografia, arte, produção e assistentes explicando exatamente que filme eu queria fazer e também os estimulando a desenvolver idéias a partir do projeto fílmico proposto. Se o conceito do filme é dito, pensado e refletido tudo começa a ficar claro, tudo começa a ser impregnado disso. Eu sempre dizia para minha equipe que não existe nesse filme nada que seja bom ou ruim, feio ou bonito, tudo deve ser adequado. O que não se adequava não nos interessava. E é impressionante a contribuição criativa de todos os departamentos ao produto final.

Qual a importância que você dá aos fatores técnicos e financeiros durante a realização de um filme?
Os fatores técnicos, no meu filme, eram muito simples: câmera, poucos recursos de luz, uma infra-estrutura básica que teve que ser levada para o sertão. Era um filme de grandes problemas logísticos, de deslocamento em locais precários. Mas, tecnicamente falando, usamos poucos recursos na filmagem. Já para a questão financeira vale aquela máxima que quanto menor o orçamento maior deve ser o processo de pré-produção e maior ainda o processo de criação para ultrapassar os limites financeiros. Como não podia ir à Alemanha fazer os testes, eu recebia via VHS os testes dos atores alemães. Eu e o fotógrafo fazíamos testes da luz do filme em câmera still 35mm para economizar revelação e ampliação, por exemplo.

Que fase da realização de um filme você prefere e por quê?
Todos os estágios têm suas peculiaridades. É difícil pensar no melhor e no pior. Acho que a elaboração do roteiro é o momento mais solitário. O momento onde não existe nada além de você, suas idéias e um computador. Escrever é um momento muito sofrido. Com a chegada dos atores tudo muda, tudo ganha corpo, vida. Mas os ensaios exigem uma carga física e criativa à beira da exaustão. Os diálogos foram esmiuçados, aprofundados, mastigados, mas nunca fui inflexível ou rígido. Sempre fazia mudanças, aceitava a opinião dos atores. Às vezes optava mais pela intuição do que por decisões de natureza narrativa. Prefiro a incerteza criativa. A filmagem é um inferno delicioso. Filmar é muito bom, mas sempre saíamos do dia de trabalho achando que poderíamos ter feito melhor. É muito estranho, por mais perfeito que foi o trabalho, a idéia que nunca mais na vida iremos repetir aquele momento é muito frustrante. A montagem é serena e angustiante. É o momento em que temos de nos separar de planos ou takes que são tão queridos em nome de uma estrutura geral. É hora de re-arrumar tudo e dispensar cenas em nome de um sentimento maior: o filme.

Que importância o Festival de Cannes tem para você e de que forma essa experiência vai afetar a carreira do filme e a sua como diretor?

Além da alegria de ser convidado com o primeiro filme por um festival tão seleto, a importância está na visibilidade que Cannes oferece para o filme. Uma mídia espontânea começa a ser gerada provocando a curiosidade das pessoas. Isso é de suma importância para longas de baixo orçamento como o nosso: a visibilidade e a possibilidade de um público maior se interessar pelo seu filme. Fazemos filmes para serem vistos e, quanto mais pessoas assistem, mais nos sentimos realizados. Quanto ao meu futuro como diretor, espero que as fontes de financiamento sejam mais sensíveis aos meus próximos projetos.

Em que condições aconteceram as filmagens de Cinema, Aspirinas e Urubus?
Após quatro anos de trabalho conseguimos levantar dinheiro suficiente para a filmagem através de prêmios concedidos ao roteiro e ainda através de captação nas leis. Em seguida começamos o casting e a preparação para as filmagens. Fiz teste com quase 600 atores nordestinos para os diferentes papéis e fiz ainda vários testes com atores alemães que falavam português. A premissa que eu queria era: um ator alemão para fazer o personagem alemão e atores nordestinos para os personagens nordestinos. Eu queria dar uma cor local ao elenco. Foram sete semanas de filmagens em condições muito duras. Fazia 40 graus na sombra e as estradas em que viajávamos eram precárias. Tínhamos que re-trabalhar cada detalhe da paisagem para construir o sertão dos anos 40 com muita sutileza. Após as filmagens fomos à procura de financiamento para a finalização. Essa só foi possível graças a Fundação Hubert Bals que novamente nos premiou com dinheiro para finalizar o filme, além disso, ganhamos outros dois prêmios, dados pela Global Film Iniciative dos EUA e pela Ancine, Agência Nacional de Cinema. Os valores de pré-produção e produção foram da ordem de R$ 1,7 milhão e 800 mil para a finalização e comercialização. Como o longa foi rodado em 16mm tivemos que ampliar todo o filme para 35mm. Optamos para fazer esse trabalho em um processo de ampliação óptica. Queríamos que o filme tivesse uma atmosfera dos anos 40 e por isso decidimos não trabalhar com nenhum processo eletrônico na imagem.

O Elenco
A escolha do elenco é um capítulo importante de Cinema, Aspirinas e Urubus. A história é protagonizada por João Miguel, ator baiano que enfrentou 300 concorrentes para o papel de Ranulpho. Johann é vivido pelo ator alemão Peter Ketnath, que se divide entre Berlim e Salvador, cidade natal de sua mulher. O filme conta ainda com a participação de Hermila Guedes, José Leite, Zezita Matos, Osvaldo Mil e Fabiana Pirro.
Sobre os protagonistas, Gomes comenta: "Eram necessários atores que transmitissem autenticidade, porque o que existe é um pequeno caminhão e dois homens com destinos e desejos completamente diferentes. Esses homens não são nem heróis nem bandidos, vamos dizer que são fracassados. A partir das ruínas promovidas pela seca e pela guerra, tenta-se refletir sobre sua condição humana”. E completa: “Para realizar este cinema de vínculos afetivos com os personagens, e não vínculos narrativos, decidi trabalhar com atores que trouxessem uma cor local para o personagem e para o filme, imprimindo uma verdade factual e documental necessária.”


Peter Ketnath (Johann)
Peter Ketnath nasceu em Munique, Alemanha, e estudou teatro no Zinner Studio, em sua cidade natal, em 1996. Em 1997, freqüentou o HB-Studio, em Nova York. Mesmo sendo casado com uma brasileira, antes de ser selecionado para Cinema, Aspirinas e Urubus, Peter nunca havia trabalhado no Brasil. Sobre a nova experiência, afirma: “Fazer este filme foi para mim um grande passo na carreira de ator, quebrando barreiras culturais e de idioma. Fiz novos amigos, conheci pessoas. Fico muito feliz em ter participado de Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme de baixo orçamento, um filme honesto. Um filme de autor, com diretor, equipe e elenco muito talentosos. Uma pequena história com um histórico enorme. Foi uma grande satisfação. Fiquei realmente triste quando o trabalho acabou”.
Entre seus principais trabalhos na Alemanha, destacam-se, montagens de Tchecov, Schiller e Goldoni. No cinema, participou de filmes como And Nobody Wheeps For Me, de Joseph Vilsmaier e produções para a TV France e TV Germany como Minona, de Fabrice Cazeneuve.

Entrevista com Peter Ketnath

Como o projeto Cinema, Aspirinas e Urubus chegou até você?
A equipe do filme procurava um ator alemão que falasse português. E me descobriram em Berlim, na Alemanha. A Sara (Silveira, produtora) marcou uma reunião comigo e me contou a história do filme. Eu sabia que era isso eu queria fazer. Depois entrei em contato com Marcelo (Gomes) e a gente começou trocar idéias, em um esquema 'sem fronteiras'. Eu fiquei feliz com o convite. Era um sonho meu trabalhar no Brasil. E também gostei muito do argumento, dois homens tão diferentes viajando juntos. Preparei-me logo para viver a vida do Johann no sertão.

Como você reagiu ao papel?
Johann é um personagem complexo e fora do normal. Eu estudei o caráter dele e quis fazê-lo. Senti a solidão dele, a pena. Senti a liberdade dele: o deserto, um palco. E também entendi seu lado alemão: perfeccionista, sempre querendo otimizar as coisas, procurando a solução simples e efetiva em sua aventura. E também seu existencialismo. A "Angst". Johann é um personagem que
pede a imaginação do ator. Muita introspecção e pouca ação. Um trabalho bem interessante.

Como foi a construção de Johann?

Foi dinâmica. Um processo do exterior da personagem para seu interior, o oculto. E, depois, o inverso. Começou assim: Como era a época dele? A vida dura? O Brasil na época? O clima do sertão? Como era o português desse alemão? Seu andar? Ele era cansado? Alegre? Um mau caráter? Feliz? E daí partir para perguntas mais profundas. E encontrando as respostas, criei e encontrei sua figura. Johann era sonhador. Isso eu sabia. Mas ele trabalhou num país de clima seco e duro. Ele tentou se sustentar. Qual era a vida dele? Os sonhos? Que ele procurou? Grandes aventuras? Amor? A liberdade? Ou simplesmente o próximo dia, deixando o passado para trás, dirigindo para o futuro. E por que tudo isso no fim do mundo? Esses mistérios eram as chaves para todos os gestos do personagem.

Quem é Johann?
Johann tinha um olho no futuro e outro no dinheiro. Viajando, ele não via as coisas com surpresa, com inocência. Ele era um homem de carne e osso, certamente com um passado e com um futuro a ser descoberto. O quanto ele se conhece e o verdadeiro propósito de sua viagem não importam para ele. Ele está procurando algo diferente na vida. Ele quer novas experiências, com a natureza, com as outras pessoas, com ele mesmo. O que ele consegue no final não importa realmente para ele.
Como foram as filmagens?
Marcelo Gomes quis ensaiar todo o filme antes de rodar o primeiro take. Isso levou quase um mês. Era um processo dinâmico e orgânico, que me lembrou o teatro. Todos os atores envolvidos estavam juntos para criar este mundo. Todos quiseram fazer este filme. Quando as filmagens começaram, o palco virou o deserto e a peça começou a virar um filme. A partir daí, tudo deu certo e foi um prazer fazer. A não ser o calor. Porque o sertão é uma beleza, mas nada agradável.
Como você vê a relação de Johann e Ranulpho?
A relação deles é difícil. Eles são difíceis. Mas um precisa do outro. Pelo menos por um certo tempo. Depois, eles não podem mais ficar juntos. Eles são tão diferentes. Mas se aproximam durante a viagem. E eles aprendem um com o outro. Eles deixam de lado aquelas diferenças óbvias sobre suas origens, educações e situação social e passam a entender o verdadeiro significado de amizade e de relacionamento humano. Eles se tornam iguais.

João Miguel (Ranulpho)
Cinema, Aspirinas e Urubus marca a estréia do ator baiano João Miguel como protagonista no cinema. Para ganhar o papel de Ranulpho, ele passou por testes com mais de 300 outros atores. Nesta época, João Miguel estava em cartaz com a peça O Bispo, sobre a vida e obra do artista Arthur Bispo do Rosário, e foi observado pelo diretor Marcelo Gomes.
Antes disso, o ator havia trabalhado por um ano e meio com o Grupo Piolim. E durante as filmagens pôde voltar a contracenar com atores do grupo, como os paraibanos Zezita e Nanego de Lira.
Atualmente, João Miguel continua em cartaz com O Bispo, que já foi visto por mais de 90 mil pessoas em todo o Brasil, e desenvolve o projeto de Pássaro, Flor e Qualquer Coisa que a Senhora Quiser, que irá dirigir.

Entrevista com João Miguel

Quem é Ranulpho?
Ranulpho é um sobrevivente. É alguém que não é submisso, não é vitimista e nem conformado. Ele quer ganhar o mundo. Ele aprende a se virar, apesar de não ter tido muitas oportunidades. Ele quer ser um cidadão. Tem de ultrapassar os limites, a condenação do lugar a que pertence. Ao mesmo tempo em que ele sente repulsa pelo que lhe é espelho, que rejeita parte de seu mundo, no qual ele não quer viver, ao longo de sua viagem, revê tudo isso e passa a enxergar o sertão e o sertanejo de outra forma. Ele é extremamente carismático, mas é humano. Tem seus defeitos, sua rabugice.

Como foi o processo de criação de Ranulpho? O fato de você ser um ator nordestino contribuiu para este trabalho?
Foi um processo intenso. Ranulpho pode ser definido como uma soma de vários sertanejos. Ele, assim como o filme, pode ser de qualquer lugar no sertão brasileiro. Não é um estereótipo, não é caricato. Como eu vivi na Paraíba por um ano e meio, trabalhando com atores paraibanos do grupo Piolim, e também viajei muito pelo nordeste, pude ter uma visão múltipla do povo do sertão. Está tudo em Ranulpho. Compô-lo foi dar veracidade à sua figura. E foi difícil porque eu estava há quatro anos fazendo O Bispo, um personagem totalmente diferente, envelhecido, que havia passado 60 anos em um hospício. Ranulpho é diferente, é jovem, quer ganhar o mundo. Tive um mês para incorporar sua personalidade. Neste mês ensaiei com o elenco, repassamos o filme todo. Mas este sertanejo, o Ranulpho, ganha força quando começamos a filmar.
Assim como você carrega a autenticidade de ser um ator nordestino interpretando um personagem nordestino, Peter Ketnath (Johann) é um ator alemão na pele de um alemão que se aventura pelo Brasil. Esta diferença natural entre vocês contribuiu para o trabalho?
Com certeza. Apesar de nossas diferenças não serem tão imensas quanto são no filme, nós tínhamos nossas particularidades e isso poder sentido. Mas soubemos tirar partido disso, principalmente o Marcelo, com seu olhar particular. Pudemos todos aprender mesmo um com o outro. Foi um processo muito gratificante. O desenho dos dois personagens é um registro de interpretações muito bem delineadas. A própria solidão de cada um faz com que nada neles seja caricatural.

O que mais o marcou em Cinema, Aspirinas e Urubus?
Para mim, o filme, sem perder a trajetória humana de cada personagem, constrói o viver de cada situação cotidiana e descobre a urgência que cada situação destas representa. É, em sua despretensão, um longa que tem muitas pretensões, como a de dar muitos recados. Recados sobre a questão das diferenças, das imposições históricas, o determinismo geográfico, como cada homem vê sua realidade. É um filme intimista, mas que trata de grandes questões. E é contemporâneo. Estas questões persistem até hoje.

A equipe

Cinema, Aspirinas e Urubus tem direção de fotografia de Mauro Pinheiro Júnior, que também faz sua estréia em longa-metragem de ficção; direção de arte de Marcos Pedroso (de Bicho de Sete Cabeças e Madame Satã), montagem de Karen Harley e produção de Sara Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr. O longa é uma produção da REC Produtores, de Recife, e Dezenove Som e Imagens, de São Paulo. O figurino ficou a cargo de Beto Normal e o roteiro é assinado por Marcelo Gomes, Karim Ainuz e Paulo Caldas.

Direção de Arte

A direção de arte de Cinema, Aspirinas e Urubus exalta as cores opacas, cobertas de poeira, contendo objetos essenciais e nenhum elemento supérfluo. Todos os objetos possuem sua função, sua história, utilidade, dureza, secura. Contrastando com esta escassez do sertão, os objetos industrializados trazidos pelo caminhão de Johann têm forma, cor e brilho fortes. Para compor este universo, o diretor de arte Marcos Pedroso realizou extensa pesquisa e se inspirou, principalmente, em fotografias da década de 40. "Acabei deixando imagens do cinema, às quais estamos muito mais acostumados, de fora porque elas passam uma idéia nem sempre verdadeira. Muitas vezes, mostram o que gostaríamos que o passado tivesse sido e não o que realmente foi", explica. Por isso, detalhes como os tão típicos chapéus de couro usados pelo sertanejo, ficaram praticamente de fora da composição do longa. "Há pouquíssimos chapéus no filme. Isso porque, durante a pesquisa, encontrei quase nenhum nas fotos estudadas. O mesmo se aplica às folclóricas rendas, correntinhas de ouro, procissões, enterros com carpideiras, que poderiam dar um tom meramente alegórico e caricato ao filme", completa.

Marcos Pedroso também destaca que constatou, surpreso, que “em 1940 tudo já havia sido inventado.” A mudança foi mais dos materiais, o know-how estava todo ali”, observou, frisando que o plástico ainda era desconhecido na época. Este fato exigiu atenção redobrada para que nada fosse usado com esse material. A produção do filme teve muito trabalho para limpar as estradas e cidades por onde passavam os dois protagonistas. “Tomamos vários cuidados, como a retirada de postes de energia elétrica – em área urbana e rural – das locações, a cobertura de calçamentos de ruas com areia, pintamos várias casas com cores mais suaves, retiramos todos os objetos de plástico destas casas. Até mesmo cercas de madeira foram construídas no caminho que os personagens percorreram", completa o produtor João Melo Vieira Júnior, da REC produtora.
Este minucioso trabalho vem somar ao cuidado que a direção de fotografia teve com as cores de Urubus. "Eu, Marcelo e Mauro (Pinheiro, diretor de fotografia) definimos a palheta cromática do filme e a seguimos à risca. Tudo é delicado. Os tons, as cores se perdem com o forte sol do sertão. Para criar esta saturação visual, optamos por texturas naturais, nada de tecidos sintéticos, nada de luz e cores douradas. Esta pré-concepção, que fomos descobrindo juntos, a cada avanço do roteiro, conferiu ao filme uma unidade cromática e, ao mesmo tempo, um tratamento poético. Estou muito satisfeito com o trabalho", conclui Pedroso.

Figurino

O figurinista pernambucano Beto Normal vestiu 150 figurantes e os atores principais com tecidos totalmente naturais, como algodão, gabardine, linho, fustão, todos tecidos naturais. A escolha não foi mero capricho. Na década de 40 não havia tecido sintético. Além disso, todas as cores utilizadas são sóbrias, em consonância com o conceito de que o longa não comporta exuberância e segue os padrões de comportamento da população da época em questão. O rigor foi tamanho que até mesmo as roupas feitas para uma cena em um bordel não abusam de cores fortes nem de acessórios.

Fotografia

A fotografia de Cinema, Aspirinas e Urubus, assinada por Mauro Pinheiro Júnior, percorre o sertão junto com o olhar do estrangeiro e seu olhar peculiar.
Para Gomes, assim como tudo no longa-metragem, o que importava era impregnar na fotografia o sentimento dos personagens. “A fotografia tem que servir a dramaturgia. A luz seca e dura do sertão deveria impregnar o personagem estrangeiro. Ele se encontra com outro que foge do sertão por conta da seca. Então, concluímos que as cenas diurnas deveriam ser compostas por uma luz estourada, que parecesse sólida de tão intensa.”
Uma grande influência para Gomes foi a pintura do venezuelano Armando Reverón, que passou um período na Europa. Quando voltou aos trópicos, ficou influenciado pela luz brilhante da região equatorial e pintou paisagens quase monocromáticas entre 1925 e 1936, fase conhecida como Período Branco.“Penso nesse alemão chegando pelo sertão e sendo impregnado por uma luz branca, que promove um efeito monocromático na paisagem. Uma luz que deixa tudo sem contornos, que cega, e essa cegueira ser condição de conversão ao visível”, explica o diretor
Já para as cenas noturnas, Gomes e Pinheiro Junior pretendiam transmitir o conceito de uma região isolada, arcaica e quente. “Decidimos usar os recursos de luz existentes no próprio lugar. A luz viria de lampiões e faróis do carro. O resto seria quase breu, escuro”, relembra o diretor. A equipe decidiu, então, buscar uma luz inspirada no trabalho do pintor francês Georges de La Tour (1593-1652). "A luz, de uma vela, por exemplo, presente num quadro é o que determina o que será visto ou não. Onde ela batesse, ficaria iluminado. Onde não batesse, escuro. Uma luz íntima, simples e solitária.”
Gomes deixa claro que estas decisões foram tomadas por questões dramatúrgicas. “Admiro a obra dos pintores citados acima. Mas a decisão de buscar a luz semelhante a dos seus quadros foi porque os personagens pediam aquela luz. Discutimos isso exaustivamente. Queríamos fazer uma luz nem bonita nem feia, mas sim adequada ao filme.”

Montagem

Assim como todo o processo de elaboração de Cinema, Aspirinas e Urubus, a montagem de Karen Harley seguiu uma linha não convencional. "Em novembro de 2003, última semana de filmagem do longa, chego em Cabaceiras, sertão da Paraíba, para assistir ao material filmado. 'Vê se monta', ironizou, brincando, o diretor. Então, concentrada num quarto de hotel, a 40º C, vi que o material tinha personalidade. Não se rendia a decupagens fáceis, não existia ali a noção de master, plano, contraplano. Não havia câmera virtuosa", relembra Karen. Para ela, montar Urubus foi um desafio. "Dois meses depois, eu começava a cortar. O material precisava ser demolido para depois se reconstruir. A paisagem seca, estourada e forte não poderia engolir ou sobrepor ao que mais interessava: os personagens", comenta. Pensando nisso, Karen e Marcelo Gomes começaram a reeestruturar a narrativa e enxugá-la a quase nada, ao simples, ao cinema do cotidiano. "Os planos, que se impunham de tal forma como se não prescindissem de mais nenhum, tinham que se articular com outros. E fomos cortando, tirando seqüências, aumentando silêncios até que percebemos que aquela matéria bruta estava lapidada para continuar bruta", conclui.

A Produção

Cinema, Aspirinas e Urubus é uma produção de Sara Silveira e Maria Ionescu, da Dezenove Som e Imagens, de São Paulo, e de João Viera Jr, da Rec Produtores Associados, do Recife.

“Foram quatro anos para conseguirmos integralizar o financiamento” – explica Maria Ionescu. “Tivemos dificuldades de conseguir os aportes para o filme, dada a sua peculiaridade mas, felizmente, tivemos empresas como BR Distribuidora - Petrobras, BNDES, Brasil Telecom e o Governo de Pernambuco, que acreditaram no projeto”.

“Em junho de 2003”, conta João Vieira Jr, “a exatos três meses do início da filmagem, nós, os produtores, o diretor e os diretores de departamentos, nos embrenhamos nas estradas do sertão da Paraíba e de Pernambuco. Visitamos todas as opções de locações e chegamos a descobrir, de forma quase acidental, a vila de Picote, onde os personagens criados por Marcelo Gomes, munidos de duas varas e um lençol branco, fazem a primeira exibição dos filmes, uma inesquecível sessão de cinema a céu aberto. Para o nosso deslumbramento, tal qual no roteiro, era a primeira vez que os moradores de Picote iam ao cinema”, finaliza Vieira.

Filme na lata, deu-se o início da finalização e pós-produção da película, realizada em São Paulo.

Com a finalização ainda em andamento, foi iniciado o processo decisivo da distribuição. O filme participou do Cine Construcción, onde deu seu primeiro passo internacional, ao ser apreciado, ainda em um corte não definitivo, por produtores, distribuidores e diretores de festivais internacionais. O passo seguinte foi a inscrição no Festival de Cannes, que resultou na Seleção Oficial da seção Un Certain Regard. “A parte internacional, para mim, é um processo decisivo”, explica Sara Silveira. “Uma vez dentro de um grande festival, mais fácil a sua distribuição. Já fazendo parte do trabalho da Dezenove Som e Imagens, o internacional foi lutado e desta vez conseguido com sucesso”. Nesse caminho, a produção fechou seu acordo com o International Sales, que é a Funny Balloons, sediada na França.

“Nos últimos dezoito meses, filmamos, finalizamos e nos preparamos agora para o lançamento do filme que teve sua estréia na seleção Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2005. Ações e desejos da direção e produção desse filme são fruto do companheirismo e amizade que estabelecemos e nos nortearam desde o início dos nossos trabalhos”, conclui João Vieira Jr.

Festival de Cannes 2005 – Mostra “Um Certo Olhar”

Nota de Informação - Prêmio da Educação Nacional, 3ª edição.

O prêmio 2005 acaba de ser concedido a “Cinema, Aspirinas e Urubus”, primeiro longa-metragem de ficção do jovem realizador brasileiro Marcelo Gomes, premiado numerosas vezes por seus curtas-metragens e seus documentários. O júri dessa forma distinguiu um cinema raro, incisivo e vigoroso, a meio caminho entre documentário e ficção, uma obra de arte incontestável, um filme possuidor de numerosas trilhas pedagógicas e artísticas.

O Ministério da Educação Nacional, do Ensino Superior e da Pesquisa, em parceria com o Festival de Cannes, organiza todo ano o Prêmio da Educação Nacional.

É um momento importante da política de educação pela imagem, que permite sensibilizar os alunos sobre uma obra cinematográfica no momento exato de seu lançamento nos cinemas.

Em 2003, o Prêmio da Educação Nacional contemplou “Elefante” de Gus Van Sant. No dia seguinte, o filme recebeu a Palma de Ouro.

Em 2004, o Prêmio foi atribuído a “A Vida é um Milagre”, de Emir Kusturica. Neste ano, o diretor foi presidente do júri do Festival.

Concedido por um júri de 9 membros da comunidade profissional e educativa, o Prêmio da Educação Nacional foi presidido este ano pelo produtor Pierre Chevalier.

Ele premia um filme selecionado para a Competição Oficial na seleção “Um Certo Olhar”.

O filme premiado se distingue por suas qualidades artísticas e cinematográficas, sua dimensão cultural e social. Ele se torna uma das referências pedagógicas em matéria de educação no cinema e pode ser selecionado para os mecanismos “Escola e Cinema”, “Colégio no Cinema, “Estudantes no Cinema”, em parceria com o Centro Nacional de Cinematografia; esses mecanismos permitem que sejam levados ao cinema um milhão de estudantes por ano.

Será objeto de um DVD pedagógico, integrante da coleção “A propósito de”, produzida pelo CRPD de Nice, que acompanha os professores em seu trabalho em classe sobre o filme.

Discurso de entrega do Prêmio da Educação Nacional – Cannes 2005.

“O filme que nós escolhemos, CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, de Marcelo Gomes, é, sobretudo uma ótima recomendação para um road movie no Brasil de 1942. Nós seguimos o percurso de um alemão fugindo da guerra e de um brasileiro, através do sertão. Eles vão de vilarejo a vilarejo vendendo aspirinas e projetando pequenos filmes publicitários que divulgam seus benefícios.

O que nos tocou e particularmente nos interessou é o tratamento cinematográfico dessa experiência humana carregada de esperança, um tratamento que oscila entre uma abordagem quase documental e um olhar muito poético.

A amizade entre esses dois personagens se constrói no espaço imenso e branco pelo sol do sertão, bem como no espaço bem reduzido da cabine do caminhão. Os universos sonoros criados reforçam a emoção sentida. Nós fomos seduzidos pelos dois personagens, tanto pela interpretação dos dois atores, como pela composição e a evolução dos personagens que eles interpretam, a ambigüidade da relação com os outros e a recusa dos clichês.

No que diz respeito à dimensão pedagógica do filme, que evidentemente é indissociável de suas qualidades artísticas é justamente a trajetória de iniciação realizada pelos dois personagens que nos levou a pensar que esse filme poderia ajudar os alunos a amadurecer, ao levá-los a se questionar sobre seus próprios caminhos. O distanciamento temporal (a ação se passa em 1942) e espacial (o sertão brasileiro) deverão favorecer uma reflexão sobre a História, individual ou coletiva, e sobre as condições de vida e a relação entre os países ricos do Norte e os países do Sul.

Nos pareceu que esse filme, mesmo se estiver diretamente acessível aos alunos, poderá, principalmente graças às ferramentas pedagógicas que serão elaboradas na coleção “À propósito de...”, ser objeto de numerosos trabalhos disciplinares ou interdisciplinares, sobre Cinema é claro, mas também Literatura, História, Geografia, em Ciências Econômicas, Filosofia e certamente tudo o que concerne à aprendizagem da Cidadania e, de uma forma geral, tudo o que diz respeito à construção do sentido, o qual todos sabemos que constitui um elemento essencial na educação de nossos alunos.

É um primeiro filme, que pertence a uma cinematografia pouco difundida, e nós tivemos também a idéia de propor aos alunos um filme que talvez eles não vissem por conta própria.

É também um filme sobre a magia do cinema que se insere na tradição cinematográfica do road movie e se inspira no neo-realismo.

Enfim, esse filme possui uma característica essencial do cinema, que é a capacidade de mudar nosso olhar sobre o mundo.

Obrigado.”


FICHA TÉCNICA

Produção
Sara Silveira
Maria Ionescu
João Vieira Jr.

Produção Executiva
João Vieira Jr.

Roteiro
Marcelo Gomes
Paulo Caldas
Karim Aïnouz

Inspirado em Relato de Viagem de
Ranulpho Gomes

Direção
Marcelo Gomes

Fotografia
Mauro Pinheiro JR, ABC

Arte
Marcos Pedroso

Montagem
Karen Harley

Som Direto
Márcio Câmara

Figurino
Beto Normal

Edição de Som
Beto Ferraz

Mixagem
Armando Torres Jr.

Música Original
Tomás Alves de Souza


Co-Produção
Quanta

Produtor Associado
Karim Aïnouz

Direção de Produção
Dedete Parente Costa


Contato:

BRAZUCAH PRODUCOES
Cynthia Alario - Diretora Executiva
brazucahproducoes@yahoo.com.br
R. Felipe de Gusmão, 74 – Vila Madalena
São Paulo - SP
(55 11) 3875- 6345

www.urubus.com.br