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Terror Mandelão (2023) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)

Terror Mandelão (2023) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Bruno Dias

Por meio de diversas linguagens e dispositivos, no filme Terror Mandelão os diretores Felipe Larozza e GG Albuquerque discutem o funk mandelão de São Paulo, acompanhando o processo de trabalho, os corres e a vida de DJ K, o DJ da Bruxaria.

 

Terror Mandelão parte do mundo comum de seus diretores. GG Albuquerque é jornalista e pesquisador musical e Felipe Larozza é fotógrafo e cineasta da cena do funk paulista. Mais inserido que eles está DJ K, que já fazia sucesso nos bailes das quebradas da grande São Paulo, em especial o Baile do Helipa.

 

Nas palavras do próprio GG, o filme trata, em primeiro plano, sobre trabalho. O ofício de DJ K e seus companheiros da cena é explorado de frente, partindo de um ponto de dúvida na carreira do DJ: sua quase desistência da cena musical. O filme traz a realidade do trabalho com o funk, que, embora para alguns pareça um sonho, na realidade é um trabalho duro e incerto, que poucos conseguem de fato transformar em uma carreira frutífera para si e para os seus.

 

Nesse movimento do filme, as distorções sonoras do funk se transfiguram em distorções imagéticas. Outra tradução som-imagem do filme são seus beats, que, assim como nos funks mandelões ― e tipos correlatos ― estão sempre virando a narrativa e estética do filme, quebrando a expectativa do espectador e introduzindo novos elementos à trama. O filme parte de um clássico documentário sobre a cena dos bailes paulistanos, fixa no DJ K e seus companheiros o seu enfoque; depois, repentinamente, introduz tutoriais de passinhos, esquetes informativas que beiram a MTV dos anos 2000 e encenações, como o processo de criação de uma música. 

 

Todas as informações desse movimento do filme são entremeadas em ruído, criando para si uma estética própria, vinda da fusão de linguagens populares como a TV, internet e os signos criados nos bailes da periferia paulistana. Ou seja, o filme não é apenas sobre o funk, não só utiliza elementos da cultura dos funkeiros, mas também se utiliza da própria metodologia de criação do funk em sua concepção: uma colagem de sons, imagens e sentidos, gerando novas informações visuais e narrativas. Na fricção desses elementos surge a potência de Terror Mandelão.

 

Em um segundo movimento, o filme mostra uma mudança de trajetória na vida de DJ K. Após quase uma década tentando emplacar um hit que fure a bolha dos bailes, ele é convidado a gravar um disco com um selo europeu e a embarcar em uma turnê no continente. Em um primeiro momento K recebe essa notícia com desconfiança e medo, já que estava decidido a arrumar um emprego formal e largar suas ambições artísticas. Neste ponto ficam mais claras outras discussões presentes no filme, tal como a masculinidade periférica, conforme apontado pelos próprios diretores do longa.

 

O filme, então, se transforma em um diário de viagem. GG acompanha K por sua turnê. Se antes estávamos em seu mundo comum, agora estamos vendo-o sair ao extremo de sua zona de conforto. Essa quebra coloca K mais próximo do espectador que não circula no meio: tanto personagem quanto espectador não estão mais em seu mundo, afundando mais na sensibilidade pessoal do DJ para além do seu trabalho. 

 

O filme não se encerra na Europa, tampouco com uma pura celebração do sucesso de Pânico no Submundo, disco que estabeleceu o nome de K como um dos melhores artistas do ano segundo o site Pitchfork. O mundo retorna, nas palavras de K, ao submundo. O DJ reconhece o seu sucesso como algo momentâneo: é preciso trabalhar ― agora, pelo menos, com a cabeça mais em paz, tendo melhorado sua vida e a vida dos seus.

 

 

Biografia:

Bruno Dias é produtor, cineasta, pesquisador e educador graduado em cinema na FAAP. Trabalha na área de produção executiva da Cinematográfica Superfilmes. É sócio-fundador da produtora Bitola Cultural. Realiza também curadoria, visionamento e produção de mostras e festivais de cinema. É editor e produtor do site de formação e pesquisa Mnemocine. Participa esporadicamente de debates, workshops e aulas.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima