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Fogaréu (2022) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Fogaréu (2022) | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Mia Menezes

 

Fogaréu, filme dirigido por Flávia Neves e protagonizado por Bárbara Colen — atriz homenageada desta edição da Mostra de Cinema de Tiradentes —, inicia um dos primeiros dias do festival com uma produção poderosa que incendeia o pequeno Cine-Teatro Aymoré. Com a apresentação da diretora e das atrizes principais, pelos próximos 100 minutos foi possível entrar no universo que o filme nos proporciona.

 

 

Neste que foi o primeiro longa-metragem exibido na Mostra Homenagem, Barbara Colen entrega uma performance magistral em sua personagem Fernanda, uma jovem que retorna à sua cidade natal, Goiás, em busca de respostas sobre sua origem e identidade: uma mulher lésbica que saiu de Goiás após a morte de sua mãe adotiva, afastada pelo preconceito. Nesse processo, Fernanda descobre relações perturbadoras  entre seus familiares e segredos que a farão ir cada vez mais fundo na disfuncionalidade dessa pequena família goiana.

 

O longa inicia com tochas de fogo, apresentando uma pequena comunidade em uma festa tradicional onde usam máscaras pontudas, o que inicialmente acreditamos ser um encontro da KKK (Ku Klux Klan). Essas cenas se intercalam com a de um parto, estabelecendo uma tensão desde o início da obra. Nos primeiros minutos, o filme faz uso constante da técnica de sobreposição de imagens, criando um clima lúdico, até que mostra a chegada da protagonista, quando algumas dúvidas são esclarecidas. 

 

A suposta roupa da KKK é, na realidade, uma máscara do varra coco, uma tradição goiana. Essa informação é dada a Fernanda por seu primo, primeiro familiar que ela encontra. Em uma série de encontros desconfortáveis, é possível perceber um padrão comum à familia adotiva da personagem, uma  “família tradicional goiana”: branca e de direita, cujo tio se candidata à reeleição de prefeito, a tia é “dona de casa” e os primos são mimados e sem opinião própria. 

 

Um dos pontos centrais do filme se estabelece quando Fernanda conhece Mocinha, a “filha de criação” da família, como é apresentada por sua tia — que, logo em seguida, lhe dá uma série de funções a cumprir, como uma serviçal. Com um sorriso de satisfação, a tia esclarece ser uma tradição comum a adoção de crianças com deficiência, que são abandonadas nos asilos de Goiânia, para servir às “famílias tradicionais”. Fernanda observa com cuidado essa relação escravista enquanto conhece melhor Mocinha e Joana (outra “filha de criação” que será dada como presente de casamento ao primo de Fernanda) e entra em embates ideológicos com seus tios, ao passo em que continua buscando a verdade acerca de sua identidade.

 

A trama explora essa sociedade altamente preconceituosa e escravista de Goiás, expondo através do microcosmo da família de Fernanda uma verdade de muitos outros lares dessa comunidade. Em uma cena específica, que mostra uma placa de reserva indígena baleada, somos introduzidos à narrativa da disputa pela água nas terras indígenas. Embates constantes com o prefeito, dono de uma fazenda de gado da qual Fernanda é herdeira, estabelecem o caráter não amistoso e agressivo dos homens desta região.

 

Dessa forma, os segredos da família se revelam e as máscaras aos poucos caem. O primo “perfeito”, que se candidata a vereador, também trafica cocaína nas ruas escuras de Goiás; e, em uma cena extremamente sensível, conhecemos a verdade sobre a origem de Mocinha. O filme tem a habilidade de falar sobre abuso sem fazer uso de cenas explícitas, na verdade, traz o assunto com delicadeza ao fazer uso de um bordado — presenteado a Fernanda — que costura as personagens e revela segredos sobre a origem e a identidade da protagonista.

 

Quando Fernanda confronta todas essas personagens, em cenas que conferem um toque de realismo mágico à narrativa, o fogaréu se espalha pela família, segredos se revelam, embates se travam e a protagonista luta pela verdade e pela sua liberdade.

 

Em muitos momentos, é difícil acreditar que as cenas de Fogaréu, tão perturbadoras, possam ser inspiradas em relações e comunidades reais brasileiras; por isso, o filme não somente entretém, mas também informa, promove a reflexão e choca quem desconhecia acontecimentos tão atuais e difíceis do país. Fogaréu tece uma realidade dolorosa de forma delicada e vulnerável.

 

Biografia:

Mia Menezes é estudante de cinema na FAAP e apaixonada pelas artes. Atualmente persegue a arte da culinária e é dona de uma cafeteria em Campinas-SP, onde também explora o cinema, realizando a curadoria de um pequeno cineclube em seu café.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima