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O Tubérculo | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)

O Tubérculo | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes 

Por Davi Krasilchik

 

É sempre magnético se deparar com uma obra que esbanja paixão por si mesma, comprometida com a elaboração de uma linguagem própria que condiz do início ao fim. Isso reforça o pacto entre autor e espectador em seu sentido mais clássico, permitindo a adulteração da realidade pela entrada em um universo completamente único. Nesse sentido, é interessante observar como O Tubérculo (2024) proporciona esse magnetismo, mesmo evitando ambientar seus espectadores dentro de uma narrativa convencional.

 

Dirigido por Lucas Camargo de Barros e Nicolas Thomé Zetune, o filme acompanha o retorno de G. à sua cidade natal, após a morte de sua avó. Nessa viagem, ele é forçado a conviver com difíceis memórias do passado, questionando a própria existência. A obra prioriza a exploração da psique do protagonista pelo uso de um estilo onírico e, até certo ponto, transcendental, ainda que em muitos momentos este fique à mercê do próprio visual.

 

Filmado em Super 8, chama atenção como o filme segue por um caminho dual em suas potências criativas. Se, por um lado, a obra parece ter se beneficiado da espontaneidade — seja na forma como alguns planos pensam objetos aparentemente aleatórios, ou na liberdade que a leveza da câmera encontra ao passear pelas paisagens — por outro, existe um controle muito evidente quanto ao seu aspecto visual.

 

Dos créditos feitos à mão ao granulado típico da película amadora, tudo aponta para um universo sustentado pelas próprias imagens, e que confia o seu fluxo de sentimentos e personagens quase inteiramente a esses esforços. As poucas falas do filme são intermediadas por vozes eletrônicas, angústias se traduzem em uma cantoria hipnotizante, e a dissociação entre voz e plano ampara o estado do protagonista.

 

Com relação ao título, a obra trabalha na relação hereditária entre o protagonista e a sua avó. Ela teria perdido a vida para uma espécie de insônia fatal: inquieta por pendências do passado, é incapaz de adormecer — o que mais tarde se revela estar ligado à relação deficiente com o neto. G. percebe sintomas deste mal fictício, perturbado por amores do passado que foram interrompidos pelo conservadorismo da falecida.

 

Nesse sentido, merece destaque a maneira como a doença se espalha pelo ar, mesmo que metaforicamente. A relação que o filme constrói com as suas imagens remete a esse diálogo com o imaginário, ao próprio mecanismo de criação pelos artistas. Existe uma mitologia interna que representa menos a criação desse universo factual e mais a emulação da carga emocional desse protagonista. A montagem surge como expansão da sua própria consciência e, na continuidade de um romance proibido, dificulta sua compreensão das raízes que o moldam, a sua verdadeira forma de ser. Ele sonha, embora acordado, através dessa iconografia, infectado pelos aspectos mais subjetivos desses significados e incapaz de entender a si mesmo.

 

A forma como o filme trabalha com uma luz simplificada, munido, em especial, dos estímulos que se apresentam pela própria matriz da película, reinvindica também um lugar primitivo, que faz jus a uma relação primordial com a imagem: buscamos nela o desconhecido, a compreensão de ecos em nossas cabeças. 

 

É no reconhecimento da importância de se realizar esse mergulho, a admissão desse magnetismo pela imagem, que nos tornamos capazes de adulterar nossas próprias raízes. O sonho acordado surge como a única possibilidade de escape, a alternativa para uma existência mais plena. São sensações como essas, somadas à enorme convicção que possui em si mesmo, que fazem de O Tubérculo uma obra memorável. 

 

Biografia:

Davi Galantier Krasilchik é estudante de Cinema e Jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde já roteirizou e dirigiu dois curtas-metragens. Ele também já fotografou dois projetos curriculares, além de produções por fora, e escreve críticas e reportagens para meios como a revista universitária Vertovina e o site Nosso Cinema. A sua paixão pela Sétima Arte se manifesta desde a infância, e atualmente ele trabalha na Filmoteca da TV Cultura, onde ajuda a preservar esse material pelo qual tem tanta paixão.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima