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Lista de Desejos Para Superagüi | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

(Divulgação)

Lista de Desejos Para Superagüi | 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Davi Krasilchik

 

Uma atmosfera enevoada toma conta de Superagüi. A opacidade que se instaura no horizonte nos faz questionar a própria existência de um ecossistema tão complexo. Tombada em função da sua importância ecológica, as leis da ilha paraense proíbem seus moradores de desenvolver qualquer atividade além da pesca. E, mesmo em épocas de procriação dos peixes, essa é impedida. Lista de Desejos Para Superagüi (2024) pontua a luta diária dos habitantes da ilha, imbuindo às suas imagens o papel de colocá-los em um status quase mitológico. 

 

Partindo da lista de decretos que domina o espaço, o diretor Pedro Giongo propõe uma subversão por meio dos sonhos e expectativas de um grupo de moradores. Ele se atenta, especialmente, à história de Martelo (apelido de Olivares Gomes), um senhor que conquistou a aposentadoria pouco tempo após o lançamento do filme. Ao lado do neto Cajá (apelido de Valdemir Gomes), ele enfrenta uma série de mazelas sociais, sujeito a uma condição insustentável. 

 

Pela captura de granulados panoramas noturnos, o filme esboça um estado de fantasmagoria, calcando em suas imagens a transitoriedade relativa aos personagens, suspensos entre a vida e a morte. Uma voz off sussurrante condena Superagüi por tentar acordá-la antes da hora. Seria delírio ou presença? É por essa metamorfose entre o realismo de um ambiente e a fabulação com base em seus estados que a direção estabelece o seu fio condutor.

 

Munido também de um conjunto mais tradicional de entrevistas que endurecem o clima lúdico do projeto, o filme tenta navegar por essa realidade ancorada pela presença daquelas personagens. As constantes barreiras atravessadas por Martelo, por exemplo, na busca por sua aposentadoria, se transmutam nas noites frias e azuladas da ilha. A solidão promovida pelo uso do espaço negativo dimensiona a dificuldade por detrás daquelas lutas, afastadas por quilômetros e quilômetros de ondas oscilantes pelo mar.

 

Por mais coerente que seja a articulação da trajetória do senhor e seu neto, munidos de alguma esperança durante o verão e amedrontados durante um inverno que proíbe até a caça dos peixes, o filme se deixa naufragar, em algum sentido, pelo contorno pouco profundo das personagens. Por mais que essa abordagem fantasiosa — sonhando com sujeitos de uma existência tão difícil que poderia até se supor suspensa — agregue a esses retratos, essa manifestação acaba prejudicada.

 

O drama realista nunca se encaixa totalmente nessa teia de perambulações imaginárias, por mais que seja o próprio motor do projeto, como um todo. Ainda que ilustrem situações que vão muito além de si mesmas, uma caracterização mais individualizada desses rostos auxiliaria na condução narrativa, facilitando o trafegar pelas noites de ventania que se repetem, excessivas, através da brisa gelada.

 

Mesmo com esses desvios, o filme se manifesta como um interessante documentário sobre figuras mitológicas, excluídas em um mundo próprio. Fabulando sobre os mistérios escondidos por detrás do mar de grãos azuis, Lista de Desejo para Superagüi diminui importantes protagonistas pela filiação excessiva ao onírico, mas nem por isso se acovarda ao tentar tatear os interstícios entre a realidade e a fuga pela fantasia.

 

Biografia:

Davi Galantier Krasilchik é estudante de Cinema e Jornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde já roteirizou e dirigiu dois curtas-metragens. Ele também já fotografou dois projetos curriculares, além de produções por fora, e escreve críticas e reportagens para meios como a revista universitária Vertovina e o site Nosso Cinema. A sua paixão pela Sétima Arte se manifesta desde a infância, e atualmente ele trabalha na Filmoteca da TV Cultura, onde ajuda a preservar esse material pelo qual tem tanta paixão.

 

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A cobertura do 27º Mostra de Cinema de Tiradentes faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Agradecemos a toda a equipe Universo produção e a ATTI Comunicação e Ideias por todo o apoio na cobertura do evento.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima