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Tesouro Natterer (2024, Renato Barbieri) | É Tudo Verdade 2024

Tesouro Natterer (2024, Renato Barbieri) |  É Tudo Verdade 2024

Por Francesco Felix

 

Vencedor na categoria de “Melhor Documentário da Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens” do Festival É Tudo Verdade 2024, o filme brasileiro Tesouro Natterer (2024) é resultado de uma evolução natural de seu diretor Renato Barbieri. O cineasta se especializou em trazer trabalhos com relevância socioambiental, realizando longas documentais e de ficção que apontam para as incoerências do Brasil contemporâneo. Após uma produção que durou mais de vinte anos, com logística internacional complicada e trabalhosa, Barbieri afirmou em breve discurso, antes da exibição de encerramento do Festival, que o reconhecimento do filme é muito gratificante para ele e para a equipe. O diretor ressaltou a importância do compromisso que o país tem com a memória, com seu patrimônio cultural e natural e que, enquanto este escoa pelos dedos, o filme aponta para a urgência de encontrar soluções que conciliem todas as partes nesse compromisso.

 

O "tesouro" do título não é à toa – o documentário conta a história de Johann Natterer, naturalista e zoólogo austríaco que veio ao Brasil na Expedição Austríaca de 1817 e, nos dezoito anos que passou em nossas terras, organizou e catalogou um acervo etnográfico de mais de cinquenta mil objetos. Barbieri assume a tarefa de realizar um filme de estrada, retraçando a jornada que Natterer fez nas terras brasileiras, acompanhado do biografista de Natterer e dos registros em diários que o austríaco havia feito no século XIX para guiar o caminho.

 

Além desse intenso percurso, o filme também viaja até Viena, onde está hoje conservado o valioso tesouro coletado e enviado pelo naturalista em museus como o Museu de História Natural de Viena e o Museu do Mundo de Viena. Junto da equipe vai Hans Kaba Munduruku, representante de uma das tribos das quais Natterer coletou objetos, como peças de roupas ritualísticas, instrumentos musicais e máscaras decorativas. Em Viena, surgem temáticas poderosas e inevitáveis – fica clara, por exemplo, a péssima reputação internacional do Brasil no âmbito de conservação e conscientização de artefatos históricos como os dos Munduruku. Hoje, diz Hans, grande parte desses artefatos não está mais presente no dia-a-dia dos indígenas, e só existe nos museus. 

 

A discussão sobre a repatriação das obras é trazida à tona: Natterer, diferente de muitos europeus nas Américas durante o processo de colonização, não saqueou a população, e sim obteve seu acervo cultural por meio de escambo e trocas. Fica claro, no filme, o receio dos especialistas e museólogos em ceder a preservação das peças para o Brasil, mas também uma boa vontade em democratizar esse acesso e realizar algumas doações.

 

As cenas com Hans, no início e no fim do documentário, são impactantes pelo inabitual encontro de um indígena brasileiro com sua história preservada, com sua cultura posta de forma contextualizada.  Tesouro Natterer, no entanto, passa a maior parte de sua duração na esforçada e impressionante reconstituição do itinerário de Natterer no Brasil, passando pelas regiões Sudeste, Sul, até finalmente chegar na Amazônia na região Norte. 

 

Há impressionantes relatos da expedição, onde cada membro tinha interesses científicos e comerciais próprios, e dos desafios enfrentados por Natterer, que continuou no Brasil mesmo após o fim do tempo estabelecido. As motivações e a vida interna de Natterer nunca ficam completamente claras para os historiadores que o estudam – seu casamento com uma mulher indígena, por exemplo, tem poucos precedentes registrados em cartas ou documentos, assim como suas opiniões em relação à escravatura no Brasil permanecem duvidosas – mas sua dedicação à 'missão' como naturalista, contra todas adversidades, é o fato histórico mais marcado e irrefutável de sua biografia.

 

 Não apenas focado em aves, insetos e mamíferos, ou em objetos culturais como ferramentas e instrumentos, Natterer coleta também uma lista de palavras de mais de setenta etnias, fazendo com que seu tesouro seja um de muitas ciências, também da linguística além da sociologia e da biologia. São impressionantes as distâncias percorridas em nome da preservação – é dito que até a própria lombriga que expeliu de seu corpo foi catalogada e envasada pelo austríaco.

 

É nos momentos em que a viagem pelo Brasil se relaciona à visita de Hans em Viena que o filme ganha seus principais méritos temáticos e se eleva a um nível mais sofisticado. A chegada da equipe na tribo dos Munduruku, em 2019, é inevitavelmente contextualizada pela situação desumana e insustentável vivida pela população dessa região, que se intensificou após o descaso governamental vivido neste ano. A relação passado-presente é constantemente traçada com recursos visuais pelo documentário, por meio de ilustrações, sobreposições e depoimentos atuais comparados com os registros deixados em diários por Natterer ou encontrados em documentos oficiais. Assim, o filme mostra a maneira como a memória dos povos originários é vista como menos importante e passível de aculturação e esquecimento, justamente pelas instituições que deveriam defendê-la. Uma câmera em drone captura imagens aterrorizantes das queimadas no "Dia do Fogo", coincidentemente no mesmo período das gravações, e que Barbieri registra de maneira guerrilheira e independente.

 

A chave para o entendimento das duas partes do filme, a de Natterer e a dos Munduruku, está na fragilidade constante dos acervos naturais e culturais, lá e hoje. Se o austríaco encontrava dificuldades mil, com diversas vandalizações, perdas de material, dificuldades financeiras e logísticas, hoje a situação não é tão mais fácil, com a ascensão de governos anti-ciência e ideologias de negligência e apagamento histórico. A civilização, pelo menos a que devemos almejar como sociedade, está na preservação da memória, na documentação, no trabalho diligente de profissionais encarregados de responder ao compromisso com o patrimônio passado. Quando Hans grava, com seu próprio celular, o acervo vienense de seu povo, a milhares de quilômetros de sua terra, o coração não fica partido apenas pela emoção que ele carrega em sua narração em munduruku, mas também pela ciência de que essa é uma experiência rara e única. A premiação de Tesouro Natterer no festival é reforço para os que lutam por essa causa, e um reconhecimento da urgência da missão.


Biografia

Francesco Felix concluiu o curso de Cinema pela FAAP e atualmente estuda Letras na FFLCH. Interessado em tudo que envolve a cinefilia, da preservação e restauração de clássicos até a invenção de futuros experimentais. Quando vê um filme, torce sempre para um encantamento, que divida o tempo entre o antes e o depois dos créditos rolarem. Felizmente, acontece muito.

 

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A cobertura do 29º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima