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Cinema Cultura e História - O cinema chinês no Festival de Nova York

Da mesma forma que os filmes procuram retratar a época em que são feitos, eles também são influenciados pelo tempo e pela cultura, com seus costumes e dinâmica histórica.

 

A própria trajetória do cinema é um exemplo disso com momentos marcantes como o expressionismo alemão, o cinema noir americano, o neo-realismo italiano e o quase desconhecido cinema chinês das décadas de 30, 40 e 50.

Nesses anos, a milenar cultura chinesa viu-se mergulhada em crises profundas: a invasão japonesa da Manchúria em 31 e a posterior ocupação de Xangai, Nankin e do sul da China pelo Japão, de 37 até 45; e a luta revolucionária que levou ao poder o Partido Comunista liderado por Mao Tse-tung, em 49.

Filmes que refletem o clima dessa década serão alguns dos destaques de uma grande de retrospectiva do cinema chinês que o Festival Nova York apresentará em sua 47ª edição.

A retrospectiva enfoca a característica marcante da época quando cineastas ligados a grupos de esquerda, congregados sobretudo nos estúdios Mingxing, Lian hua e Kunlun, realizaram uma série de obras politicamente engajadas dentro de uma visão socialista de mundo, usando as brechas que existiam na censura do governo Chiang Kai-shek .

Aproveitando o sentimento generalizado de rebeldia, diversos filmes mostravam a exploração de classes, os males sociais e a decadência e corrupção da elite dominante, com histórias que realçavam a consciência nacional e o patriotismo.

A busca de uma vida melhor e sem opressão dominava explícita ou implicitamente os roteiros. Bem antes do neo-realismo, as produções buscavam locações externas, pessoas do cotidiano e temas sociais.

Como é o caso de três clássicos realizados na China em 49. Corvos e Pardais (Wuya Yu Maque) de Zheng Junli; Esta é Minha Vida (Wo Zhe Yi Beizi), de Shi Hui; e Um Órfão nas Ruas (San Mão Liulang Ji), de Yan Gong Zhao Ming.

Corvos e Pardais narra fatos ocorridos num edifício de apartamentos em Xangai, quando Hou, um oficial corrupto do Kuomintang – o partido no poder na China em meio ao caos do fim da Segunda Guerra Mundial – ocupa o prédio, avisa que irá vendê-lo e manda todos os inquilinos saírem.

Esta é Minha Vida (Wo Zhe Yi Beizi), por sua vez, segue “Eu”, um homem que vive em Pequim, num tempo próximo ao fim do regime imperial e atravessa, como uma pacata testemunha, todos os principais acontecimentos da China Moderna. Baseado no romance de Lao She, os incidentes históricos estão intimamente ligados às tragédias pessoais.

Por último, Um Órfão nas Ruas retrata a vida do órfão San Mao, popular personagem de história em quadrinhos, criado por Zhang Leping e Zhang Yueping, que tem apenas três fios de cabelo espetados para o alto. Nas ruas da Xangai de 48, ele procura trabalho por todos os lados: junto ao lixo, engraxando sapatos ou vendendo jornais. Ao se colocar ele mesmo “à venda”, é levado para casa de uma senhora da alta sociedade, onde ganha roupas novas e um novo nome.

Em 99, no entanto, uma comissão com críticos e professores de cinema da China, Hong Kong e Taiwan encarregada de escolher os melhores filmes chineses de todos os tempos, concluiu que entre os muitos realizados em 49, Spring in a Small Town de Fei Mu, foi o melhor entre todos.

O filme de Mu é um verdadeiro poema visual e intimista que fala de um passado perdido e melancólico, de paixão reprimida e lamentações nostálgicas.

A volta desses clássicos na retrospectiva em Nova York, além de marcar um momento importante do cinema chinês, é uma forma de trazer para mais perto do mundo ocidental, uma cinematografia que influenciou não apenas cineastas do país, mas também contribuiu para imprimir um viés muito peculiar na filmografia oriental.