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Os Amores da Leoa

Por Julia Gimenes

Um breve e saudoso balanço da caleidoscópica carreira de Agnés Varda

Arte e política em suas muitas formas: esses eram os dois grandes amores de Varda, além de seu grande parceiro Jacques Demy e de seus filhos Rosalie e Mathieu.

Varda sempre enxergou amores e revoluções em todas as suas complexidades e conseguiu registrar mudanças políticas e culturais brutais quase imediatamente. Seu Lions Love… (And Lies) ou Amor de Leões (1969), por exemplo, capta a vida de 3 artistas hippies de Los Angeles (Viva, Gerome Ragni e James Rado) em suas experimentações amorosas, ao mesmo tempo em que acompanha as primárias de 1968 nos EUA, as mesmas que culminaram no assassinato de John F. Kennedy.

De um lado, as revoluções comportamentais, sexuais, relacionais…. do outro, as revoltas populares, as batalhas eleitorais e políticas. No filme, as notícias sobre o assassinato de Kennedy chegam apenas pela televisão, já que os 3 protagonistas nunca saem de casa. A pergunta que fica no ar então é: será essa micropolítica dos costumes individualista? Burguesa?

Cena de Amor de Leões, lançado em 1969 - no filme, os 3 artistas na foto acima formam um casal que passa os seus dias discutindo sobre arte, Hollywood, realidade e ficção

A obra de Varda é inspiração clara para Os Sonhadores (2003) de Bertolucci, realizado mais de três décadas depois, e referente justamente ao ano de produção de Amor de Leões: 1968. Em ambas as criações, essa mesma angústia, trazida pela falência das grandes utopias do século XX, paira no ar. A dúvida de todo artista: estamos fazendo o suficiente? A arte e o amor são insuficientes ou são a única revolução possível?

Considerada a grande figura feminina e feminista da Nouvelle Vague francesa, a diretora é também uma impecável artesã de imagens e, seguindo os questionamentos de sua vanguarda, sempre procurou maneiras de inovar esteticamente. Mas em Amor de Leões, seu posicionamento é colocado de novas formas.

Muito influenciada pelas vanguardas de outros países, inclusive possivelmente pela tcheca Vera Chytilová, já que seu filme em alguns momentos se aproxima muito de Pequenas Margaridas (1966), mas também pelo ambiente que vivenciava na época na Los Angeles da Nova Hollywood, Varda ousa mais nesse filme na ideia de quebra da quarta parede.

Em determinado momento do filme, a cineasta Shirley Clarke, que faz uma ponta no filme como ela mesma, se recusa a fazer uma cena de suicídio e Agnes, visivelmente brava, sai de trás da câmera e toma o papel de Shirley no quadro. A discussão continua com Agnes em cena dizendo para a amiga e cineasta que ela era quem deveria estar ali, até que ela se convence e volta para seu posto. Apesar dos olhares diretos para a câmera, que acompanham sua carreira desde Cléo das 5 às 7 (1962), Agnes nunca antes tinha quebrado sua estrutura narrativa de forma tão brutal.

Amor de Leões de Varda se assemelha muito em alguns momentos ao Pequenas Margaridas, de Vera Chytilová, e a estética da Nova Onda Tcheca.

A morte de Varda no dia 29 de março veio na avalanche de notícias escabrosas com que temos que lidar desde o dia primeiro de janeiro de 2019. Mais uma perda. Mais uma artista, uma pensadora, representante dos dias felizes de idealismo, que se vai. É claro que sua morte não teve nada de trágico e que ela já era uma senhora na casa dos seus 90 anos, mas, ainda assim, sua morte pareceu mais uma metáfora para nossos tempos sombrios. Como foi talvez a morte de Demy, seu grande companheiro de vida, que aos 59 anos recebeu, por uma ironia do destino, uma sentença tão incontornável quanto a que Cléo espera em um dos primeiros filmes de Varda. Demy morreu pela AIDS que atravessou toda emancipação sexual das décadas anteriores feito uma poderosa arma química, e que cruzou a vida de Varda como todos os grandes eventos mundiais das últimas 6 décadas de sua existência.

A diretora acompanhou o entusiasmo da revolução cubana, os apelos dos Black Panthers pela libertação de Huey, a emancipação feminista francesa, as reconstruções comunitárias hippies dos EUA, os exageros da Nova Hollywood, as vanguardas artísticas de 60 em diante e tudo era material para seus filmes, sempre críticos e alegres.

Cena do curta-metragem Black Panthers (1968) em que os membros do partido clamam pela libertação de seu líder Huey Newton.

Em um de seus últimos filmes, As Praias de Ágnes (2008), a artista deixa clara sua relação com a vida e a política. Apontando para uma casinha branca cheia de bolinhas roxas, ela diz: “Essa era nossa [sua e de Demy] casa; aqui foram feitos vários abortos clandestinos”. Seu modo leve e divertido de ver a vida não é em nada inconsciente, sua luta por direitos e igualdade está sempre presente nos detalhes aparentemente banais de sua vida e de sua arte.

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então.