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Programa 1: Competição Brasileira de Curtas-metragens | É Tudo Verdade 2024

Programa 1: Competição Brasileira de Curtas-metragens | É Tudo Verdade 2024

Por Felipe Palmieri

 

Demonstrando a pluralidade da curadoria — de formatos, locais e propostas —, o programa 1 da competição brasileira de curtas-metragens do É Tudo Verdade 2024 teve sua primeira exibição na sexta-feira dia 5 de abril. Em uma sessão lotada, que contava com a presença dos realizadores, foram exibidos cinco curtas-metragens documentais de grande relevância estilística e social. 

 

O primeiro destes é Aguyjevete Avaxa’i (2023), da diretora Kerexu Martim. O documentário se passa na Aldeia Kalipety, no sul da cidade de São Paulo. O assunto principal é o milho, como a própria diretora descreveu antes da exibição. Mais especificamente o milho “verdadeiro”, tradicional, de coloração e origem diferente, que foi recuperado pela aldeia ao ser trazido de outros povoados ao sul. O curta é permeado por imagens do processo de plantio e colheita do milho, colocadas como uma espécie de elemento matricial da cultura, apresentando toda uma didática ao redor dos diferentes modos de consumo e preparo do milho.  

 

A perspectiva do filme é inicialmente enraizada na narração em monólogo interno de uma mulher residente da Aldeia, que exprime suas frustrações, aspirações e pensamentos. No entanto, o filme vai se abrindo aos poucos para abarcar perspectivas de outras pessoas, coletivizando seu discurso. A Câmera é ora intimista e instintiva, ora distante e observadora - uma dicotomia entre imagens de tom cotidiano e imagens de tom poético. A linguagem traz ao filme um pouco da ritualística atrelada à comida como um todo, como fonte de confraternização, de felicidade e do sagrado.

 

O segundo curta do programa foi A Noite das Garrafadas (2023), de Elder Barbosa, que entrelaça imagens atuais do centro histórico do Rio de Janeiro com os fatos da Noite das Garrafadas. Relatos de comerciantes que trabalham no centro são intercaladas com uma narração em off, que embasa a abordagem historiográfica do documentário. Há um grande foco na Rua das Quitandas, que concentra o episódio histórico e as vidas de muitas pessoas que sequer sabem o que aconteceu ali. O filme constrói, através destes contrastes, uma ideia de abandono do centro do Rio, e sutilmente pergunta: Algo mudou desde Dom Pedro?

 

Um centro fantasma, habitado por memórias desconhecidas e cada vez menos por pessoas, ideia embasada no filme pelo uso de projeção holográfica nas propriedades da Rua das Quitandas. A linguagem pesa no indireto, no sensorial periférico, como nas próprias projeções que não formam uma imagem opaca, mas principalmente no senso de urgência das sobreposições sonoras — que sempre remete aos ruídos prováveis da revolta. 

 

Depois foi apresentado o curta Sertão, América (2023) da diretora Marcela Ilha Bordin, um filme de cunho mais experimental, que parte de imagens do sertão brasileiro para remeter a um imaginário de faroeste. A  releitura do gênero através do documental é mais sugestiva que concreta, pois está emaranhada nos detalhes estéticos que compõem o cerne do projeto: a memória. Mais especificamente, como ela se insere na relação das pessoas com a região do Parque Nacional da Serra da Capivara.

 

A abordagem é bastante única, principalmente pela forte granulação e o enfoque em texturas sensoriais, que quando combinados com uma metodologia quase warburguiana, na representação dessa memória - associações livres entre fósseis, cristais, arte rupestre, celulares, etc) -, resultam em um filme de “fantasmas”, de lacunas a serem preenchidas. Ocasionalmente, tal abordagem associativa pode parecer vaga, mas o curta reencontra seus pés ao prezar pelo sentimento, de se lembrar, de querer lembrar, de querer registrar. Parece análogo ao ato de pedir por  uma foto com alguém, transitando nesse limiar entre  encenação e realidade.

 

O quarto filme exibido foi Utopia Muda (2023), de Julio Matos, um curta bastante pessoal e, de certa forma, autobiográfico. O documentário possui uma linguagem mais tradicional, e foi realizado a partir do acervo pessoal do diretor, de imagens captadas no período da virada do século XX para o XXI. São filmagens muito diretas, que não parecem carregadas de intenção, e todas giram em volta do mesmo espaço:  a Rádio  Muda, existente no campus da Unicamp durante o período.

 

O curta parte de uma proposta de tentar incorporar o espírito dessa rádio a partir das pessoas registradas, e se sucede  pela natureza espontânea de toda a captação. O diretor narra também em 1ª pessoa, de forma mais explicativa. É sobre a liberdade de expressão, sobre a tomada da palavra para si. E mesmo no trecho de maior enfoque ao passado, com previsões quase messiânicas sobre o futuro, é a  problematizado  essa própria  ideia da liberdade de expressão. Em uma conclusão um pouco acadêmica, mas necessária, o filme se contextualiza para o tempo de seu lançamento, apontando o lugar que essas ideias ocupam na modernidade digital. 

 

O último curta do programa 1 foi A Edição do Nordeste (2023), dirigido por Pedro Fiuza. Feito apenas com imagens de arquivo, o documentário se inicia  com o mote: “Nordeste é criado, é oficializado, é inventado e é editado”. Consiste de um compilado de representações do Nordeste no cinema brasileiro do período entre 1938 e 1980. Esse aspecto de coletânea funciona para a construção da tese principal do filme, que, parafraseando o diretor, reside no entendimento de que a atribuição de uma identidade única à toda uma região e um povo serve como ferramenta de controle. 

 

O filme surge para expor padrões, quebrando qualquer resquício de veracidade dessas imagens e deixando espaço para que a pluralidade verdadeira do Nordeste ganhe os holofotes. Inicia-se tratando dos conceitos de violência, das imagens de Lampião, do Cangaço, dessa ideia do apreço pela masculinidade. “Seja homem”, diz um dos clipes. Parte para a posição da mulher, partindo da figura de Maria Bonita. Segue com a  figura do coronel, do dono de terras, do povo em si - retratado como miserável, como feio. 

 

O filme assume  essa dinâmica de praticamente ir listando, sutilmente, como cada um dos arquétipos  demonstrados é  raso, conforme a  montagem brilhante do projeto. Ao fim, o ritmo acelerado destrói qualquer percepção, qualquer representação direta: atinge-se a pluralidade não por sua imagem totalizante, mas pela compreensão da impossibilidade desta.

 

Biografia

Felipe Palmieri é formado em Cinema pela FAAP. É fascinado por todas as pluralidades e sutilezas que a linguagem cinematográfica é capaz de abrigar, e pelas infinitas perspectivas que foram e serão materializadas através disso.

 

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A cobertura do 29º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima