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Programa 2: Competição Brasileira de Curtas-Metragens | É Tudo Verdade 2024

Programa 2: Competição Brasileira de Curtas-Metragens | É Tudo Verdade 2024

Por Pedro A. Vidal

 

À ocasião da 29ª edição do É Tudo Verdade, principal Festival Internacional de Documentários da América Latina, foram exibidos, em seu segundo programa de curtas-metragens, os seguintes filmes: Até onde o mundo alcança (2023), de Daniel Frota de Abreu; Serão (2023), de Caio Bernardo; As placas são invisíveis (2024), de Gabrielle Ferreira; Sem Título #9: Nem Todas as Flores da Falta (2024), de Carlos Adriano.

 

Em conjunto, os curtas apresentam temáticas sociais, hoje frequentes em todas as esferas dos principais festivais de cinema do país, de Tiradentes à Brasília, e até ao Kinoforum. Até onde o mundo alcança investiga as consequências coloniais na historiografia brasileira; Serão retrata o cotidiano exaustivo de alguns trabalhadores da Paraíba (uma releitura em cores do Aruanda de Linduarte Noronha); As placas são invisíveis estuda a inviabilização de vozes negras no campus da USP; Sem Título #9: Nem Todas as Flores da Falta é mais um dos pequenos filmes de montagem de Carlos Adriano, tratando da sensibilidade imagética entre a inocência e a destruição.

 

Essa herança advinda do Cinema Novo coloca uma questão incontornável quando se reflete a respeito da curadoria desses festivais: para se tratar de uma linguagem cinematográfica brasileira, ainda mais na esfera documental, é sempre preciso retratar as mazelas sociais em que o país está inserido? Ou acabamos por reforçar, através das mesmas metáforas formais de um estranho e polido surrealismo tropical, o quão colonizado fomos, somos e seremos? A impressão que se tem a partir dessa perspectiva curatorial é que a temática apresentada por um filme hoje se sobressai à procura por filmes que apresentem alguma invenção formal.

 

Alguns filmes corroboram para a lógica  de que os festivais passam reportagens temáticas que dialogam com propostas sociais. É o caso de As placas são invisíveis, filme de conclusão de curso da ECA-USP e vencedor da programação. Um curta  que apresenta os clássicos artifícios de uma reportagem de televisão: uma dramaticidade maniqueísta identitária, que por reflexo de recursos comuns (trilha sonora melancólica, inserts de alívio de estrutura) induzem a certos pensamentos do que por meio de uma dialética própria. Sem dúvida, sua tese é clara e fundamental para o convite à reflexão sobre a invisibilidade das barreiras que impedem a plena participação de todos os indivíduos na sociedade. No entanto, conforme a estrutura didático-televisiva, seria mesmo a sala de cinema o local apropriado para veicular essas mensagens?

 

São filmes que constituem exercícios distantes de atingir a plena possessão de suas formas. O que as imagens do trabalho árduo de lavradores da Paraíba em Serão propõem? O que elas desafiam? Qual é a diferença do que foi retratado no Aruanda de 1959? Por que trazer as mesmas metáforas óbvias de colonialismo e antropoceno, com a “roupagem sci-fi” excêntrica de uma “América quente, sem gente e gigante” em Até onde o mundo alcança? É isso que o cinema brasileiro vai representar nos próximos dez anos? As consequências do antropoceno e colonialismo em todas as teses internas dos filmes vindouros? Numa aparente tradução de uma visão trágico-exótica do país, exportada para o mercado internacional?

 

É evidente que o que este texto sugere não é a exclusão dessas temáticas desses festivais. Sem Título #9: Nem Todas as Flores da Falta, de Carlos Adriano, estabelece diálogos próximos dos outros filmes da programação, mas com uma sensibilidade e precisão de linguagem, já característicos da carreira do cineasta, que os outros filmes não possuem. Na sequência de dois fotogramas de arquivo, Adriano é capaz de induzir à reflexão que qualquer um dos outros filmes levam a sua duração total para atingir.

 

O Cinema Novo possui uma proposta de renovação estilística inesgotável. A questão é que na pluralidade de outros movimentos cinematográficos históricos no país, a constante centralização dos festivais em filmes que dialogam com um único movimento exclui outras abordagens de linguagem. O que falta é uma linha curatorial que abrace filmes pela sua exploração formal, e não necessariamente temática.

 

Biografia:

Pedro A. Vidal é estudante de Cinema e Audiovisual, também atua como escritor, pesquisador, fotógrafo e cineasta estreante. Pedro é redator na Vertovina, revista de cinema independente, e está trabalhando na pós-produção do curta-metragem experimental Náusea. Ele tem experiência como diretor de fotografia, assistente de câmera e foto still em curtas-metragens, além de ser fotógrafo autoral.

 

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A cobertura do 29º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.

Equipe Jovens Críticos Mnemocine: 

Coordenação e Idealização: Flávio Brito

Produção e Edição: Bruno Dias

Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa

Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima